sábado, 12 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (III)

A universidade tinha-lhe ido engrandecendo a cultura, tanto pela sua avidez, quase voracidade, enquanto leitor, como por a biblioteca ser um lugar inevitável para se proteger do frio. Começa a ler Ausiàs March na colecção "Els Nostres Clàssics". No ano de 1959 comemorou-se o quarto centenário do autor de "Veles e Vents...", autor no qual se iniciaria Miquel Dolç, catedrático de Latim, que chegaria a decano quando Raimon já tinha abandonado as aulas. Dolç era um grande experto en Virgílio - diria que neste nosso modesto lugar, era "o experto" -, estudando-o e traduzindo-o, resgatando-o para a colecção "Bernat Metge", um dos tesouros mais importantes da cultura catalã, que, graças a Dolç, Raimon vai começar a folhear enquanto, em verdade, começava a ler numa língua que até então apenas era de uso privado. A Eneida inicia-se cantando - o verbo cantar conta!, é o primeiro que se conjuga nesta tão magna obra, terceira palavra do primeiro verso hexassilábico - "as armas e o herói"... mas Virgílio também faz soar o antecedente mais directo do flautim, a "caramella". Aprofundar a métrica latina, de versos que eram verdadeiros compassos, vai dar a Raimon os precisos trinta por cento que lhe faltavam para fazer tão bem o que começava a tentar por aqueles dias: cantar. Raimon vai descobrir na métrica clássica, recuperada por Ausiàs, a música que nascia das palavras.

Falávamos de percentagens: a melodia do flautim; o tempo de Xátiva; a música da fonética, uma fonética que não era senão a de Ausiàs, como anos depois lhe faria notar Martí de Riquer, quando lhe aconselhava que simplesmente o pronunciasse com a sua pronúncia. Vai começar a fazê-lo em público naquela comemoração universitária da morte de March. No salão nobre, Raimon vai recitar "Elogi a Teresa".

Os quatrocentos anos da morte de Ausiàs vão ser vir a Raimon para conhecer uma outra personagem importante na sua vida, Joan Fuster, que vai ser quem o vai induzir a ler Espriu, ao oferecer-lhe "La Pell de Brau". Aqui está um acaso interessante. Fuster é o elo entre os dois poetas mais musicados por Raimon, Ausiàs March e Salvador Espriu. Graças à comemoração de Ausiàs, conhece Fuster, graças a Fuster, conhece Espriu; e fica em jeito de anedota que Espriu, ao ouvir "Veles e Vents" pela primeira vez, com a solenidade de quem se sente herdeiro da tradição poética na língua catalã, vai dizer a Raimon: "Em nome do senhor March, muito agradecido".


A amizade de Raimon com Fuster cresceria. Pouco depois de se conhecerem já compartilhavam uma tertúlia de universitários, que se reunia cada segunda-feira e à qual também assistia o compositor Vicent Garcés, que inculcava em raimon noções de harmonia teórica. Porque a prática já a sabia toda de tocar na banda.

A primeira coisa que li de Fuster - explica Raimon - foi o seu esplêndido livro El Descrèdit de la Realitat. Li-o numa edição castelhana e, depois, quis saber coisas sobre o autor, que me pareceu apropriado. Conheci-o e abriu-se-me um mundo de uma grande força racional, de uma grande ironia, de uma inteligência muito apurar e de uma grande sensibilidade como crítico literário e homem de cultura, como um grande intelectual. Assim começou a grande amizade que para mim foi importante de todos os pontos de vista e que é uma daquelas coisas que levamos sempre connosco para toda a vida.

2 comentários:

bissaide disse...

Eduardo, que tarefa hercúlea esta! Por acaso (ou não), ainda há pouco tempo tinha arranjado um dos EP's dele na Edigsa, o de 1966 com "Inici de Cantic / Si Em Mor / En el Record Encara / Cançó del Remordiment". Que bela música temos aqui tão perto e tão mal a conhecemos...

Eduardo F. disse...

Sim. Já o disse a algumas pessoas, mas digo-o novamente: a grande força de Raimon está nas palavras. Sim, tem músicas muito bonitas, sem quaisquer dúvidas.

Mas não poderemos comparar as harmonias na obra do Raimon com as do Lluís Llach.

Sendo Raimon importantíssimo, não percebo porquê este silêncio nos nossos meios. Aliás, é raro ler algo que venha a propósito e onde se fale de cantores daqui do lado.

Nem do Serrat... talvez do Paco Ibañez... mas onde estão as bocas que falariam de Llach, Bonet (a Maria, porque o irmão, Joan Ramon, já não digo, por ser muito mais desconhecido...), o GRANDE Pi de la Serra... só para citar alguns dos incontornáveis...

Abraço a todos os que com a sua visita alimentam a esperança.