Fala do Homem Nascido - José Niza (direcção), 1972 - Orfeu?
Bem, o amigo Samuel apareceu por cá, nos comentários, e acho que é uma oportunidade excelente para lhe pedir umas coisitas, tais como a sua discografia completa e alguns dados biográficos (que depois servirão para pôr no RYM).
Em escuta temos o tema homónimo, poema de António Gedeão, (como todos os outros temas do disco), musicado pelo José Niza. Pessoalmente, prefiro a versão do Adriano. Mas... como é que se pode concorrer com uma voz cristalina, terna, poderosa e meiga como aquela?
Fala do Homem Nascido
Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci
Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr
Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham
Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu
Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar.
