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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (V)

Numas declarações dessa pré-história a Jesús García de Dueñas, Raimon dizia:

Em Espanha não existe uma tradição da canção popular. Podia ter havido com as canções da guerra civil, mas tudo isso, infelizmente, perdeu-se. Houve uma tentativa, a de García Lorca (canções populares espanholas que recolheu, harmonizou para piano e para acompanhar La Argentinita), mas não nos enganemos: isso era muito minoritário e partia de uma mistificação de base. Agora que temos? Canções que nos falam de como vais, como é bonito o campo, que bem que vamos de secas, dá-me a mão, não me dês a mão, que olhos tens e etcetera, etcetera. Aqui não há qualquer motivo de interesse sobre o qual notar uma evolução. A mim, particularmente, interessa-me a canção francesa.

Raimon tinha ouvido Brassens, mas à sua maneira, não mais nenhum Brassens que o da austeridade essencial de voz e guitarra, na altura sem contrabaixo, e na ideia de que as letras tivessem um conteúdo e se aproximassem a ser poemas cantados, se bem que nuns poemas especiais em função, que já eram escritos para uma funcionalidade que não a original de serem lidos ou recitados; Raimon começa, portanto, a cantar mais preocupado com os textos que com as músicas, ao dar saída à sua paixão pela literatura. Havia, portanto, uma poética - num primeiro sentido - maior em Brassens que em Raimon. Mas tampouco havia Brassens no primeiro Raimon, ou, em suma, no conteúdo das letras. Brassens explicava situações e Raimon pensava em voz alta.
Aquela preocupação com as letras, dizer alguma coisa e dizê-lo bem dito, vai ser uma força motriz da Nova Cançó. Josep Pla destaca, naqueles primeiros anos, o valor de Raimon como poeta; agrada-lhe tanto que pensa que os textos das suas canções são de Joan Fuster. Quando descobre que Raimon as faz sozinho, escreve: "Na actualidade [1966] Raimon é uma das chaves da sensibilidade popular do país, sobretudo no mundo que emerge. É o seu grande poeta, um grande poeta". Não será preciso dizer que Pla era - é - o grande escritor. Uma referência incontornável na história da literatura catalã.

É difícil falar de influências de Raimon nos seus começos, mas é inevitável tentar explicar de onde brota "aquilo". Quando Raimon faz "Al Vent", diria que nem sequer tinha em mente a melodia da flauta que tocara; isso viria mais tarde. Raimon canta tal como lhe sai a voz poderosa que tem, isso sim, com o fiato bem entranhado pela escola de "sopradores" das bandas; e se por acaso o seu canto se lembra, remotamente, alguma coisa é o seu canto gritado desde as profundezas do corpo e da alma, é ao blues e ao flamenco, que não obstante responde por cante jondo, por aspiração fonética de hondo, fundo. Retomaremos este assunto, mas quando nos detivermos na música. Por agora enunciamos apenas o mínimo para contextualizar o fundo cultural numa viagem de moto de um jovem estudante que tira partido estético do vento.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (IV)


Capa da Totes les Cançons (10 discos) (Belter)


Quando prepara a edição completa da sua obra até então (1981), intitulada Raimon. Totes les Cançons, deixa para o último disco as primeiras gravações, que quer despojadas de arranjos, apenas com os bordões de um contrabaixo a ritmar a melodia da voz e o acorde da corda da guitarra. É o Raimon fiel às origens e diria que recolhendo uma das suas primeiras influências sérias na maneira de entender a canção, a de George Brassens, que passaria toda a sua carreira apenas acompanhado pelo contrabaixo de Pierre Nicolas.

Brassens, com Jacques Brel e Léo Ferré, eram dos escassos cantores com pretensões literárias que Raimon tinha ouvido até então, e a sua maneira de entender o género da canção popular vai, sem dúvida, chamar-lhe a atenção, mas no singularíssimo caso de Raimon - "inimitável e irrepetível", segundo Espriu - não se pode falar tanto de influências como do background, o qual se tinha ido acumulando no lóbulo temporal do cérebro: as missas gregorianas dos clérigos; Machín e Nat King Cole, Jorge Negrete e Irma Vila, Belafonte e os boleros que tinha mamado da rádio; todo o repertório da banda, miscelânia heterogénea de cordas transposta aos metais do campo sinfónico e as múltiplas charangas próprias; a respeituosa audição dos primeiros clássicos; as work songs e o gospell norte-americanos; o jazz de Louis Armstrong, especialmente os seus premiados espirituais, um disco actualmente quase impossível de encontrar no lifting do CD, The Good Book, gravado em 1938...

Brassens fazia aquele tipo de canção popular que contrastava com o que então chegava até cá, era o que Umberto Eco qualificaria como a "canção distinta". Era uma canção diferente da que se enternizava nas listas de êxitos, que respondiam à terminologia inglesa de hit parade, e se era diferente em forma e conteúdo, era-o também na finalidade e sê-lo-ia nos circuitos. Nada a ver com a música pop convencional da época dos conjuntos importados da cultura anglo-saxónica, e muito menos com os subprodutos mal apelidados de modernos que por aqui grassavam, fossem o Dúo Dinámico, a Lita Torelló ou a daninha tonadilleta - segundo diminutivo de toada: tonadilla, tonadilleta - de Manolo Escobar ou Juanito Valderrama, cujos melismas metiam medo. Joselito já era letal.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

La Mauvaise Réputation

Grande tema, La Mauvaise Réputation, o qual já tive a oportunidade de ouvir em Catalão (foi na rádio, e já não me lembro quem cantava - se alguém souber...), em Castelhano (pelo grande Paco Ibañez), e em Português (pelo Luís Cília). Isto quer dizer que a mensagem se aplica em qualquer lado.

Aqui fica a letra original (pessoalmente, prefiro a versão cantada pelo Paco, porque me parece mais acutilante e agressiva. Um dia, cá estará para a ouvirmos e reflectirmos).



Au village, sans prétention,
J'ai mauvaise réputation.
Qu'je m'démène ou qu'je reste coi
Je pass' pour un je-ne-sais-quoi!
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant mon chemin de petit bonhomme.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,

Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde médit de moi,
Sauf les muets, ça va de soi.

Le jour du Quatorze Juillet
Je reste dans mon lit douillet.
La musique qui marche au pas,
Cela ne me regarde pas.
Je ne fais pourtant de tort à personne,
En n'écoutant pas le clairon qui sonne.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,

Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde me montre du doigt
Sauf les manchots, ça va de soi.

Quand j'croise un voleur malchanceux,
Poursuivi par un cul-terreux;
J'lance la patte et pourquoi le taire,
Le cul-terreux s'retrouv' par terre
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En laissant courir les voleurs de pommes.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux
,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde se rue sur moi,
Sauf les culs-de-jatte, ça va de soi.

Pas besoin d'être Jérémie,
Pour d'viner l'sort qui m'est promis,
S'ils trouv'nt une corde à leur goût,
Ils me la passeront au cou,
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En suivant les ch'mins qui n'mènent pas à Rome,
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout l'mond' viendra me voir pendu,
Sauf les aveugles, bien entendu.