Mostrar mensagens com a etiqueta Pi de la Serra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pi de la Serra. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

El Recital de Madrid

Originalmente propriedade da Movieplay espanhola, depois Fonomusic, hoje incluída no grande grupo da Warner Music (Spain, no caso), o disco do mítico concerto de Madrid, em 1976, conheceu nova reedição. Não necessariamente no ano que está prestes a terminar, mas no ano passado, 2008.

À semelhança dos discos que Lluís Llach gravou para a editora, também reeditados nos mesmos moldes, esta reedição é em digipack e traz uma entrevista (em quatro páginas do livreto, em letra miudinha) feita em 2000 por Victoria Prego (a data não é indicada, mas infere-se):

"Raimon é o único artista que me recebe fora de sua casa, num hotel próximo das Ramblas. Tem o cabelo branco, mas tão espetado que parece um miúdo. Isso, e os olhos brilhantes, agudos e por vezes luzidios que sente que me chego demasiado ao seu interior, compõem a imagem de um moço de de 60 anos, com uma leve pose de amargura que ele veste de ironia e de desapego."

Traz também um resumido texto, da autoria de Maurílio de Miguel, sobre o seu percurso artístico, incidindo nas suas mais importantes actuações, seguido de um outro dedicado apenas ao presente concerto, que, como já tivemos oportunidade de dizer, foi gravado em 5 de Fevereiro de 1976 e ao qual se iriam seguir outros. Que foram cancelados devido ao "clima perigoso" ou "subversivo" que aí se criou.


Um pormenor da capa exterior da reedição, que podia talvez (ou muito bem) ter sido evitado é o descentramento das letras, tal como se pode ver ao lado.
De qualquer das formas, questão de preciosismos (a vivência do disco é mais importante que tê-lo, mas estamos dependentes do materialismo para renovar a memória registada), a capa do livreto interior está "correcta".

El Recital de Madrid.
Um disco fundamental.
Aliás, para nós, o melhor disco ao vivo do género.

A conhecer (outros discos "quentes" que se lhe podem juntar):

"Barcelona, Gener del 76" (1976, Movieplay; reed. Fonomusic, 2002) e "Camp Nou, 6 Juliol 1985" (1989, CBS; reed. 2003, Claus Records) - Lluís Llach.
"Palau d'Esports, Barcelona 27-2-1976" (1976, BASF; inexistente em cd) - Pi de la Serra
"FMI" - José Mário Branco (1982, Edisom, incluído na reed. de Ser Solidário (1996, EMI));


(Se alguém tiver mais propostas a juntar a esta curta lista, bem gostaríamos de conhecê-las.
Deixe aqui, portanto e por favor, o seu comentário.)

domingo, 23 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XIII)

Em tempos de cólera, em suma, em tempos em que era preciso muita imaginação para burlar as apertadas margens da censura de textos e das proibições de recitais, Raimon encontra na linguagem simbólica vocábulos suplementários, aditivos, que lhe permitem reforçar a sua mensagem essencial: nação livre, sociedade justa, política de esquerdas.

É neste panorama que cabe entender com significados acrescidos toda uma série de factos, independentemente do valor que possuem por si. A dedicatória de uma canção, "Sobre la pau", a Che Guevara. O livro Poemas i Cançons, pensado ao milímetro, com uma citação do vietnamita Fam Van Dong, o magnífico prólogo de Manuel Sacristán, então membro da direcção do PSUC, expulso da universidade, não obstante ser um dos intelectuais espanhóis de maior prestígio, e a capa de [Antoni] Tàpies, um "No" enorme inspirado em "Diguem no", que depois seria retomado nos cartazes contra a pena de morte. O disco intitulado "A Víctor Jara", cantor chileno cruelmente assassinado pouco depois do golpe de estado do general Pinochet, com a versão de "Te recuerdo Amanda", tema, por coincidência, na linha que une amor e luta.
Coragem, portanto, ao convocar o acto do Palau dels Esports, e a necessária dose de inconsciência que tantas vezes a torna possível, até mesmo nos mais impenitentes praticantes do racionalismo como Raimon.

Raimon figurava numa "lista negra" de cantores, incrivelmente assim chamada, divulgada pela Direcção Geral de Segurança a 14 de Julho de 1975. Havia nela vinte e um nomes, quinze dos quais, catalães. Raimon acumulou, desde a sua irrupção na Universidade de Valência até àquele último ano de vida de Franco, uma ficha policial que precisa de duas gavetas metálicas daquelas que serviam para guardar papéis antes de o ordenador converter tanta matéria em energia. Raimon estava afastado dos considerados "catalano-separatistas", ao lado de, entre outros, Josep Benet, Oriol Bohigas, Josep-Lluís Carod-Rovira, Carles-Jordi Guardiola, Joan Manuel Serrat, Josep M. López Llaví, Albert Ràfols Casamada, Carme Serrallonga, Joan Armet, Alexandre Cirici, Pi de la Serra, Miquel Sellarès e Romà Gubern. As outras entradas do arquivo policial, com adjudicações verdadeiramente surreais, ao lado doutras mais que acertadas, eram, em suma, "PC-PSUC", "anarquismo", "grupúsculos de extrema esquerda", "catalanistas" e "catalanistas de pendor socialista".

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (IX)

No La Vanguardia a crónica do recital de Raimon no polivalente da Faculdade de Direito da Universidade de Barcelona, exemplo de uma notícia curta da época, dizia o seguinte:

Uns cinco mil estudantes, embora o número seja difícil de precisar, assistiram ontem ao meio-dia ao recital que Raimon deu na Faculdade de Direito da Universidade de Barcelona. No edifício e em diferentes lugares colocaram-se fotografias do cantor. Raimon, que actuava sem receber qualquer dinheiro, já há dois anos - mais concretamente desde Novembro de 1968 - que não dava um recital em Barcelona. Raimon dedicou algumas das 17 canções que interpretou ao comandante Ché Guevara, ao País Basco e a Joan Miró. Muitas das canções, e certas letras em especial, foram cantadas pelos estudantes que assim aplaudiam no final de cada intervenção. Alguns estudantes soltaram grandes cartazes. Os cartazes provocaram reacções de protesto por parte de alguns estudantes. Durante do decorrer do recital viu-se uma bandeira vermelha com a a foice e o martelo. Também se distribuíram exemplares do Mundo Obrero [diário do Partido Comunista, ilegal], entre outros panfletos. Apesar disso, o recital decorreu nos trâmites previstos e nos quais se baseava a autorização do director da Faculdade, que autorizou, como se sabe, o acto. No fim da canção número 17, Raimon saltou por uma janela que dava para a parte traseira da Faculdade, entrou num carro que estava estacionado e desapareceu com três pessoas que o acompanhavam. No recital estava o cantor Pi de la Serra. Sabe-se que o dinheiro das entradas era destinado a fazer face às necessidades económicas dos trabalhadores da empresa AEG Telefunken, de Tarrasa, que estão no desemprego devido a uns problemas com a empresa. À saída do recital os estudantes depararam-se com a presença de corpos da Polícia Armada. Um pequeno grupo deu gritos de "Liberdade!". Outros, posteriormente, tentaram manifestar-se nas proximidades da Faculdade. No entanto, a presença da força pública frustrou a acção.

domingo, 7 de setembro de 2008

V - Caminant, amics (X)

Pi de la Serra, com intencionalidade compartilhada com o autor, quando a cantava mudava uma rima:

"una cançó tan pura
que pugui passar censura" /
"uma canção tão pura
que possa passar a censura".

E o público rebentava em aplausos. "Bon temps per a fer cançons" pertence ao disco "Triat i Garbellat", de 1971, com comentário de Joan Oliver e um trio bluesístico brilhante formado pelo próprio Quico, Manolo Elías e Toti Soler.

Raimon fez de facto bons amigos entre os músicos que tocaram com ele ou que fizeram arranjos das suas canções. Michel Portal, Manel Camp, Joan Figueres, Josep Pons e Antoni Ros Marbà são os melhores exemplos.
Que fique para a história deste género da canção, que dois dos melhores directores de orquestra, os maestros Antoni Ros Marbà e [Josep] Pons, figuras maiores quando se fala nas orquestras sinfónicas Real Filharmonia de Galícia e Nacional de Espanha, que deixaram de tocar piano há muitos anos (quando o substituíram por um instrumento mais leve como a batuta, que, na verdade, traz mais sonoridade...) tocaram piano nos trinta anos de "Al Vent" para acompanhar Raimon e fizeram-no em disco. Naquele acontecimento que requer várias menções, Pons toca "Veles e vents" e Ros Marbà "Cançó del pas de la tarda", com poema de [Salvador] Espriu.

sábado, 6 de setembro de 2008

V - Caminant, amics (IX)

Pi de la Serra e Ovidi Montllor partilharam com Raimon muitos recitais e com o primeiro, sobretudo, travou uma grande amizade, que se materializou noutros aspectos para lá de partilhar muitos cartazes: Raimon escreveu o prólogo do livro de canções de Quico e a letra de um tema, "Bon temps per a fer cançons", assinada com o pseudónimo "Ramon Xiquet". É um facto invulgar que Raimon escreva para outro, o que acrescenta valor ao texto. Fê-la assim, sob a epígrafe "Letra escrita, à maneira de Pi de la Serra, no dia 25 de Janeiro de 1969".


[A canção é de uma simplicidade de génio! Uma nota em relação ao idioma catalão, pautado por muitos monossílabos e - como já tiveram oportunidade de ouvir - uma sonoridade muito portuguesa. Menciono isto - em jeito de regresso às lides, para não entrar logo a quente - porque a tradução pode ser necessária aqui ou ali. Virá após a letra original, então, para tirar uma ou outra dúvida com que fiquem. Como não podia deixar de ser, o refrão (ou espécie de...) é a melhor demonstração das possibilidades da língua, dos monossílabos e - neste caso - da comunicação da mensagem escondida. ]


Francesc Pi de la Serra - Triat i Garbellat


[A 17ª canção de Raimon na caixa de música, cantada e interpretada portanto por Pi de la Serra, "Bon temps per a fer cançons", é a original, extraída do excelente álbum Triat i Garbellat, de 1971]


Sembla que és ara bon temps
per escriure una cançó
que parlarà dels dos,
que parlarà de molts.
Una cançó que ens diga
que avui la pluja és antiga,
una cançó d'amor
- és de mal gust el dolor.
Una cançó tan pura
que pugui passar per dura.

La cançó us la vaig a dir
sense disparar cap tir.
Avui el cel és molt gris,
bon dia per a fer-se el trist.

Plou poc, però pel poc que plou, plou prou.

La ràdio diu: demà sol,
i quan ella ho diu, fa sol.
La gent va al seu treball,
sols arribar els ve un badall.
Qui pot fa la viu-viu
com a mínim fins a l'estiu.

Bon temps per a fer cançons
que ens parlin de les passions,
de les passions que desvetlla
un lluent cul de botell.
I perquè no m'avorriu
callaré sens dir ni piu,
com a mínim fins a l'estiu.

Plou poc, però pel poc que plou, plou prou...


/


Parece que este é um tempo bom
para escrever uma canção

que falará dos dois,

que falará de muitos.

Uma canção que nos diga
que hoje a chuva é antiga,

uma canção de amor

- a dor
é de mau gosto.
Uma canção tão pura

que possa passar por dura.

A canção vou dizer
sem disparar qualquer tiro.

Hoje o céu está muito cinzento,

bom dia para ficar triste.

Chove pouco, mas para o pouco que chove, chove demais.


A rádio diz: amanhã sol,

e se ela o diz, há sol.
A gente vai para o seu trabalho,

só o chegar já enche.

O que pode vai vivendo

pelo menos até ao Verão.


Bom tempo para escrever canções
que nos falem de paixões,

das paixões que desperta

o cu brilhante da garrafa.

E para que não vos aborreça

vou me calar sem dar um pio,

pelo menos até ao Verão.

Chove pouco, mas para o pouco que chove, chove demais...

domingo, 13 de abril de 2008

V - Caminant, amics (VII)

Um outro artista amigo, além de Alfaro, para quem Raimon compôs uma canção, é o pintor Joan-Pere Viladecans. Joan-Pere Viladecans e Raimon conheceram-se no ano de 1969, com Salvador Espriu a ligá-los. Viladecans fez a sua primeira exposição, na antiga Sala Gaspar, como desenhos sobre textos das "Cançons de la roda del temps". Depois, Viladecans acabaria por fazer capas de livros de Espriu e unia-os uma muito forte amizade. Espriu considerava Raimon e Viladecans de alguma forma como os seus "filhos espirituais". Raimon cantou assim Viladecans:


[A 16ª canção de Raimon na caixa de música, "Com una mà",
é a versão que podemos encontrar no terceiro disco da Integral de 2000]


Com una mà,
la vida estesa
al teu davant.
A tu es lliurava
sense malícia. /
Como uma mão,
a vida estendida
à tua frente.
A ti se rendia
sem maldade.

Tot aquell temps
t'havia fet
com una mà
la vida estesa. /
Todo aquele tempo
te tinha feito
como uma mão
a vida estendida.

Et capbussaves
de ple, turgent
enmig dels altres,
i xop de món
et veies viu. /
Mergulhavas
fundo, inchado
no meio dos outros
e empapado do mundo
te vias vivo.


Vint anys de temps,
que són no res
-diuen els savis-,
i aquella mà
anà tancant-se
molt lentament
però obstinada. /
Vinte anos de tempo,
que não são nada
-dizem os sábios-,
e aquela mão
irá fechando-se
muito lentamente
mas obstinada.

Retruny ben fort
allò que abans
en deien ànima,
creure no vol
el que el teu cos
avui constata,
exasperada
i aïrada
no es resigna;
espera encara
l'esclat potent
d'aquesta vida.
Segura està. /
Retumba forte
o que antes
chamavam alma,
crer não quer
o que o teu corpo
hoje constata,
exasperada
e desgarrada
não se resigna;
aguarda ainda
a luz potente
desta vida.
Firme está.



"No és Possible el Que Visc" (Lp 1974, BASF), de Pi de la Serra
Capa da autoria de Viladecans.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XVI)

"Al vent" representa uma peça importante na cultura catalã, e por arrastamento noutras culturas peninsulares que se reclamavam da Nova Canção, em geral, e de Raimon, em particular, para dar seguimento a processos creativos neste âmbito. O trigésimo aniversário do lançamento do disco "Al vent" daria a medida certa do Raimon que começou a construir-se a partir daquele tema.

O dia de San Jordi de 1993, na Barcelona fashion pós-olímpica, Raimon continuava a ser muito mais que actualidade: à sua volta organizava-se um dos acontecimentos culturais de maior magnitude em torno da música. No Palau Sant Jordi, sede símbolo dos Jogos, criado por Arata Isozaki, Raimon juntava 18 mil pessoas na plateia e a mais brilhante pléiade de cantores e músicos de qualidade jamais vista num palco. Daniel Viglietti, Joan Manuel Serrat, Paco Ibañez, Luís Cília, Ovidi Montllor, Pete Seeger, Quico Pi de la Serra, Mikel Laboa, Warabiza, Michel Portal, Josep Pons, Antoni Ros Marbà, o Coro Sant Jordi, dirigido por Oriol Martorell, e a banda La Lira Ampostina, que recuperaria o Raimon flautista.

Como documentos vivos deste mega-recital ficaram um vídeo e duas canções do concerto, que estão incluídos no décimo Cd da caixa intitulada Nova Integral. Edició 2000. Os dois temas são "Oh, desig de cançons", que se estreava, e "Com un puny".

O grito da Vespa tinha conseguido o que nenhum outro cantor havia alcançado no mundo mediático. Transmissão em directo pela TV3 na Catalunha e em diferido pela TVE para toda a Espanha. Notícia em todos os diários de Barcelona e, o que é mais significativo, comentários editoriais; estes espaços estão reservados quase exclusivamente para a política, temas internacionais, economia e sociedade. Um cantor merecedor de editoriais no La Vanguardia e no El País foi, efectivamente, um facto jornalístico insólito.

Mas para sintetizar a trajectória de "Al vent" - e a sua circunstância - que se percorre neste capítulo, a peça idónea é o artigo que escreveu no El País (25 de Abril de 1993) Manuel Vázquez Montalbán, amigo íntimo de Raimon. Com ele encerramos este capítulo e começaremos o próximo:

Por um montento consegui sair de mim, da minha presença no Palau Sant Jordi, e vi-me com Salvador Clotas, Martín Capdevilla e Ferran Fullà, os quatro, na escula da prisão de Lérida em 1963, à volta de um pequeno disco em cuja capa aparecia um moço da nossa idade com uma guitarra debaixo do braço, o anúncio de canções como "Al vent" e uma apresentação a cargo de Joan Fuster. Nós, os valencianos, tínhamos por companhia na cela, ao pé de Sweezy, Baran, A estrutura da lírica moderna, Álgebra moderna; cada louco, cada estudante com o seu tema. A voz de Raimon soou presa naquela escola-prisão, mas começou a elevar-se e alcançou para além dos barrotes o voo das andorinhas e a línha imaginária das terras do Segre. Ao acabar "Al vent" percebemos que tínhamos ouvido algo profundamente novo e as vibrações da poderosa voz do valencianismo prometiam partir os vidros da estação e os caixilhos de uma cultura ameaçada pelos inimigos exteriores e pelos amigos que às vezes a asfixiavam por excesso de protecção.

Contracapa de Al vent (1963),
com texto de apresentação de Joan Fuster

Tantas coisas começaram com "Al vent", e anteontem [dia 23 de Abril, dia do concerto] a canção de Raimon mostrou a sua vocação para a eternidade e fez-se novamente a voz do cantor, mas também se mostrou apta a japonesismos e para ser versionada pela a banda [filarmónica] valenciana. O jacobeo de "Al vent" tinha convocado peregrinos de todas as terras da canção e de todas as terras de Espanha. Houve quem trouxesse os seus filhos para que compreendessem de que precárias fontes se alimentava a esperança naqueles tempos em que estar "ao vento" ou "dizer não" te garantia um carimbo, obviamente secreto, de subversivo; mas o surpreendente do recital de Raimon e dos alegres moços companheiros da sua noite liga-se a uma sensação colectiva de que as palavras haverão de se libertar da insustentável leveza do saber e apostar pela descrição da desordem. A nostalgia que se escondeu levemente nos gaseados tectos do palácio catalão-japonês e a comunicação que se estabeleceu na sala capturava por sua vez a consciência, constatação crítica por todas as tentações que tentaram falsificar tantas origens para esconder o obstáculo das identidades.
Ali estava Raimon, no palco, a oxigenar tudo com a sua voz de furacão e o seu silêncio educado por meio de Espriu e Mompou e Serrat a recuperar canções de madrugada fugitivo de ida e volta do Poble Sec [lugar onde nasceu Serrat], fugitivos de ida e volta como todos os que tivemos pátrias de infâncias pequenas e erosionadas. Ali estava Quico a demonstar que tampouco o tempo passou para o "homem da rua", que continua com o seu traje cinzento à espera da ressurreição das almas e das carnes. E Paco, Paco Ibañez a chamar à ordem os políticos e a deixar os "cavalos a galopar" para que enterrassem no mar insuficiências e cansaços democráticos. E Viglietti, que nos lembrou o seu terceiro mundo, o nosso quarto mundo; ou Seeger, que nos ajudou a recuperar a memória de "Ay Manuela!" ou "Ay Carmela!"..., que eram a mesma derrotada, confiante em que as canções contassem a verdade da Vida e da História. Montllor: porque não canta Montllor se canta tão bem como sempre e melhor que antes desse sempre? E Cília, tão necessária a sua voz? Laboa, o musicador essencial.

Quando voltei da prisão de Lérida ao Palau Sant Jordi, não levava em mim o consolo da nostalgia, senão a impressão de que o acto a que assistimos não tinha nada que ver com uma reunião de ex-combatentes ou de ex-presos. Em muitos momentos foi uma reunião intrinsecamente subversiva, ainda que talvez a palavra "subversão" fosse um caligrama da grande reprodução de Miró, que, na retaguarda [um mural fazia de fundo] e à sua sublimada forma, sempre pontou a favor das coisas necessárias. Exacto. Foi um acto necessário de balanço e de "hasta aquí hemos llegado!".


[Encerramos aqui o IV capítulo com o fim deste concerto. A canção é mais que obviamente "Al vent". E que pena não poder dar-vos também a ouvir a original, a de 1963...]


quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Uma pausa com... Pi de la Serra

Sabemos que de Pi de la Serra a última coisa que podemos esperar é alívios. A mordacidade e a ironia não não deixam fôlego para respirar.

No seguimento do último texto sobre Raimon (continuamos a traduzir o excelente livro "La Contrucció d'un Cant", de Antoni Batista), pareceu-nos adequada a canção de hoje. Está presente no fabuloso disco Triat i Garbellat, que é um álbum de 1971. Ou seja, muita água tinha já corrido e muita coisa tinha já mudado desde o começo da explosão da Nova Cançó, com Raimon, claro. Talvez a canção viesse um pouco tarde, mas, tendo vindo naquele ano, continuava a ser actual. Aqui está ela. Per tots vostés...

[Uma vez mais peço desculpa, mas não disponho dela em mp3, pelo que a ouvireis mais lenta... coisa que já expliquei para outras duas anteriores, de Raimon. A solução, redigo, é descarregarem-na (ir às ferramentas - opções de internet - definições - ver ficheiros e procurar a dita. Se os ordenarem por peso, encontá-la-ão com menos dificuldade.) e ouvirem-na nos vossos leitores.]


Francesc Pi de la Serra - Triat i Garbellat

Triat i Garbellat (Discophon, 1971)


Sóc el Millor

La pluja rellisca per sobre els taulats,
la mullena xopa els desemparats.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
A chuva resvala sobre os telhados,
a humidade empapa os desamparados.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


La lluna es "reflecta" sobre el mar lluent,
la ciutat és plena, l'aigua va caient.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
A lua reflecte-se sobre o mar luzente,
a cidade está cheia, a água vai caindo.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Les gotes que cauen d'amunt cap a baix
esclaten a terra fent bassals i xaf!
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
As gotas que caem de cima para baixo
estalam na terra, fazem charcos e xaf!
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Jo canto, i la pluja cau desobedient,
i la gent rellisca efectivament.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
Eu canto, e a chuva cai desobediente,
e a gente resvala efectivamente.

Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.

El món és injust, qui ho va dir no ho sé.
Jo, ara que canto, m'ho passo molt bé.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
O mundo é injusto, quem o disse não sei.
Eu, agora que canto, estou a passar muito bem.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Domino la rima i toco molt bé.
Si és moda queixar-se jo sóc el primer.
Domino "dos" llengües amb naturalitat,
castellà, català, amb gran dignitat.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
Domino a rima e toco muito bem.
Se é moda queixar-se eu sou o primeiro.
Domino "dos" línguas com naturalidade,
Castelhano, Catalão, com grande dignidade.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.

sábado, 16 de junho de 2007

La Matança del Porc

Para hoje, uma canção duríssima. Dura mas engraçada. O que se descreve é uma prática muito nossa conhecida. Mas para o que se alude é para outra coisa. Escrita para o álbum "Triat i Garbellat", de 1971, por um dos meus cantores catalães preferidos. O seu nome é Pi de la Serra e as suas letras são do melhor que há em ironia e causticidade. Desde 62 a gravar, lançou há semanas o seu último disco, "Tot".




Avui és la diada de matar el porc / Hoje é dia de matar o porco
que em anat engreixant des de fa massa anys / Que temos vindo a engordar há já muitos anos
amb llet de la més bona, amb tomaquets de l'hort, / Com leite do melhor, com tomates da horta,
amb la millor farina, patates i ous. / Com a melhor farinha, batatas e ovos.

La porca està trista i nosaltres contents, / A porca está triste e nós contentes,
ja no passarem gana per un quant temps, / Já não passaremos fome por algum tempo,
ja no passarem gana per un quant temps. / Já não passaremos fome por algum tempo.

Poseu-hi unes graelles i un bon suport, / Ponde umas grelhas e um bom suporte
feu una gran foguera d'alzina i pi, / Fazei uma grande fogueira de azinheira e pinho,
rustiu-lo i xisclarà, senyal que no és ben mort, / Queimai-o e guinchará, sinal de que ainda não está bem morto,
afanyeu-se que bufa vent de garbí. / Assegurai-vos que sopre vento de sudoeste.

Quan no li quedi un pèl, feu-li un gran tall al coll, / Quando não lhe restar um pêlo, dai-lhe um grande golpe no pescoço,
i amb la sang que li ragi n'ompliu un doll, / e com o sangue que jorrar enchei (uma malga?),

i amb la sang que li ragi n'ompliu un doll. / e com o sangue que jorrar enchei (...)

Puix ja de panxa en l'aire el col·loqueu, / Então, colocai-o de pança prò ar,
amb la daga més fina obriu-lo en canal, / Com a faca mais afiada abri-lhe em rego,
netegeu-li els budells i tot el que hi trobeu, / Limpai-o dos miúdos e de tudo o que encontrardes
talleu la carn rosada i poseu-la en sal. / Cortai a carne rósea e ponde-lhe sal.

La porca està plorant, nosaltres rient, / A porca está a chorar, e nós a rir
ens menjarem la llengua del seu parent, / Vamos comer a língua do seu companheiro,
ens menjarem la llengua del seu parent. / Vamos comer a língua do seu companheiro.

Demà hi haurà bon tall, s'ha acabat la fam, / Amanhã haverá boa carne, acabou-se a fome,
demà passat fuet i després pernil, / Amanhã será chouriço depois presunto,
i quan s'acabi el porc hi passarà la porca / E quando se acabar o porco, será a vez da porca
i després els garrins i tots els porcs del món. / E depois os leitõezinhos e todos os porcos do mundo.

Avui és la diada de matar el porc. / Hoje é o dia de matar o porco.
És la diada de matar el porc. / É o dia de matar o porco.
Matar el porc. / Matar o porco.