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sábado, 9 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XVI)

"Al vent" representa uma peça importante na cultura catalã, e por arrastamento noutras culturas peninsulares que se reclamavam da Nova Canção, em geral, e de Raimon, em particular, para dar seguimento a processos creativos neste âmbito. O trigésimo aniversário do lançamento do disco "Al vent" daria a medida certa do Raimon que começou a construir-se a partir daquele tema.

O dia de San Jordi de 1993, na Barcelona fashion pós-olímpica, Raimon continuava a ser muito mais que actualidade: à sua volta organizava-se um dos acontecimentos culturais de maior magnitude em torno da música. No Palau Sant Jordi, sede símbolo dos Jogos, criado por Arata Isozaki, Raimon juntava 18 mil pessoas na plateia e a mais brilhante pléiade de cantores e músicos de qualidade jamais vista num palco. Daniel Viglietti, Joan Manuel Serrat, Paco Ibañez, Luís Cília, Ovidi Montllor, Pete Seeger, Quico Pi de la Serra, Mikel Laboa, Warabiza, Michel Portal, Josep Pons, Antoni Ros Marbà, o Coro Sant Jordi, dirigido por Oriol Martorell, e a banda La Lira Ampostina, que recuperaria o Raimon flautista.

Como documentos vivos deste mega-recital ficaram um vídeo e duas canções do concerto, que estão incluídos no décimo Cd da caixa intitulada Nova Integral. Edició 2000. Os dois temas são "Oh, desig de cançons", que se estreava, e "Com un puny".

O grito da Vespa tinha conseguido o que nenhum outro cantor havia alcançado no mundo mediático. Transmissão em directo pela TV3 na Catalunha e em diferido pela TVE para toda a Espanha. Notícia em todos os diários de Barcelona e, o que é mais significativo, comentários editoriais; estes espaços estão reservados quase exclusivamente para a política, temas internacionais, economia e sociedade. Um cantor merecedor de editoriais no La Vanguardia e no El País foi, efectivamente, um facto jornalístico insólito.

Mas para sintetizar a trajectória de "Al vent" - e a sua circunstância - que se percorre neste capítulo, a peça idónea é o artigo que escreveu no El País (25 de Abril de 1993) Manuel Vázquez Montalbán, amigo íntimo de Raimon. Com ele encerramos este capítulo e começaremos o próximo:

Por um montento consegui sair de mim, da minha presença no Palau Sant Jordi, e vi-me com Salvador Clotas, Martín Capdevilla e Ferran Fullà, os quatro, na escula da prisão de Lérida em 1963, à volta de um pequeno disco em cuja capa aparecia um moço da nossa idade com uma guitarra debaixo do braço, o anúncio de canções como "Al vent" e uma apresentação a cargo de Joan Fuster. Nós, os valencianos, tínhamos por companhia na cela, ao pé de Sweezy, Baran, A estrutura da lírica moderna, Álgebra moderna; cada louco, cada estudante com o seu tema. A voz de Raimon soou presa naquela escola-prisão, mas começou a elevar-se e alcançou para além dos barrotes o voo das andorinhas e a línha imaginária das terras do Segre. Ao acabar "Al vent" percebemos que tínhamos ouvido algo profundamente novo e as vibrações da poderosa voz do valencianismo prometiam partir os vidros da estação e os caixilhos de uma cultura ameaçada pelos inimigos exteriores e pelos amigos que às vezes a asfixiavam por excesso de protecção.

Contracapa de Al vent (1963),
com texto de apresentação de Joan Fuster

Tantas coisas começaram com "Al vent", e anteontem [dia 23 de Abril, dia do concerto] a canção de Raimon mostrou a sua vocação para a eternidade e fez-se novamente a voz do cantor, mas também se mostrou apta a japonesismos e para ser versionada pela a banda [filarmónica] valenciana. O jacobeo de "Al vent" tinha convocado peregrinos de todas as terras da canção e de todas as terras de Espanha. Houve quem trouxesse os seus filhos para que compreendessem de que precárias fontes se alimentava a esperança naqueles tempos em que estar "ao vento" ou "dizer não" te garantia um carimbo, obviamente secreto, de subversivo; mas o surpreendente do recital de Raimon e dos alegres moços companheiros da sua noite liga-se a uma sensação colectiva de que as palavras haverão de se libertar da insustentável leveza do saber e apostar pela descrição da desordem. A nostalgia que se escondeu levemente nos gaseados tectos do palácio catalão-japonês e a comunicação que se estabeleceu na sala capturava por sua vez a consciência, constatação crítica por todas as tentações que tentaram falsificar tantas origens para esconder o obstáculo das identidades.
Ali estava Raimon, no palco, a oxigenar tudo com a sua voz de furacão e o seu silêncio educado por meio de Espriu e Mompou e Serrat a recuperar canções de madrugada fugitivo de ida e volta do Poble Sec [lugar onde nasceu Serrat], fugitivos de ida e volta como todos os que tivemos pátrias de infâncias pequenas e erosionadas. Ali estava Quico a demonstar que tampouco o tempo passou para o "homem da rua", que continua com o seu traje cinzento à espera da ressurreição das almas e das carnes. E Paco, Paco Ibañez a chamar à ordem os políticos e a deixar os "cavalos a galopar" para que enterrassem no mar insuficiências e cansaços democráticos. E Viglietti, que nos lembrou o seu terceiro mundo, o nosso quarto mundo; ou Seeger, que nos ajudou a recuperar a memória de "Ay Manuela!" ou "Ay Carmela!"..., que eram a mesma derrotada, confiante em que as canções contassem a verdade da Vida e da História. Montllor: porque não canta Montllor se canta tão bem como sempre e melhor que antes desse sempre? E Cília, tão necessária a sua voz? Laboa, o musicador essencial.

Quando voltei da prisão de Lérida ao Palau Sant Jordi, não levava em mim o consolo da nostalgia, senão a impressão de que o acto a que assistimos não tinha nada que ver com uma reunião de ex-combatentes ou de ex-presos. Em muitos momentos foi uma reunião intrinsecamente subversiva, ainda que talvez a palavra "subversão" fosse um caligrama da grande reprodução de Miró, que, na retaguarda [um mural fazia de fundo] e à sua sublimada forma, sempre pontou a favor das coisas necessárias. Exacto. Foi um acto necessário de balanço e de "hasta aquí hemos llegado!".


[Encerramos aqui o IV capítulo com o fim deste concerto. A canção é mais que obviamente "Al vent". E que pena não poder dar-vos também a ouvir a original, a de 1963...]


domingo, 4 de novembro de 2007

Palabras para Julia



Para hoje, da autoria de José Agustín Goytisolo, um belíssimo e triste poema, de esperança no futuro. E que nos diz que o amor e a luta vão juntos para mudar a sociedade. Canta o grande Paco Ibañez, de uma gravação do seu terceiro álbum, de 1969. Aqui vo-la deixo:


Tú no puedes volver atrás,
porque la vida ya te empuja,
como un aullido interminable, interminable.
Te sentirás acorralada,
te sentirás perdida y sola,
tal vez querrás no haber nacido, no haber nacido.

Pero tú siempre acuerdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti, pensando en ti
como ahora pienso.

La vida es bella ya verás
como a pesar de los pesares
tendrás amigos, tendrás amor, tendrás amigos.

Un hombre solo, una mujer,
así tomados, de uno en uno
son como polvo, no son nada, no son nada.


Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti
como ahora pienso.

Nunca te entregues ni te apartes,
junto al camino, nunca digas:
no puedo más y aquí me quedo, y aquí me quedo.

Otros esperan que resistas,
que les ayude tu alegría,
que les ayude tu canción, entre sus canciones.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti
como ahora pienso.

La vida es bella ya verás
como a pesar de los pesares
tendrás amigos, tendrás amor, tendrás amigos.

No sé decirte nada más
pero tú debes comprender
que yo aún estoy en el camino, en el camino.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

La Mauvaise Réputation

Grande tema, La Mauvaise Réputation, o qual já tive a oportunidade de ouvir em Catalão (foi na rádio, e já não me lembro quem cantava - se alguém souber...), em Castelhano (pelo grande Paco Ibañez), e em Português (pelo Luís Cília). Isto quer dizer que a mensagem se aplica em qualquer lado.

Aqui fica a letra original (pessoalmente, prefiro a versão cantada pelo Paco, porque me parece mais acutilante e agressiva. Um dia, cá estará para a ouvirmos e reflectirmos).



Au village, sans prétention,
J'ai mauvaise réputation.
Qu'je m'démène ou qu'je reste coi
Je pass' pour un je-ne-sais-quoi!
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant mon chemin de petit bonhomme.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,

Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde médit de moi,
Sauf les muets, ça va de soi.

Le jour du Quatorze Juillet
Je reste dans mon lit douillet.
La musique qui marche au pas,
Cela ne me regarde pas.
Je ne fais pourtant de tort à personne,
En n'écoutant pas le clairon qui sonne.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,

Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde me montre du doigt
Sauf les manchots, ça va de soi.

Quand j'croise un voleur malchanceux,
Poursuivi par un cul-terreux;
J'lance la patte et pourquoi le taire,
Le cul-terreux s'retrouv' par terre
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En laissant courir les voleurs de pommes.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux
,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde se rue sur moi,
Sauf les culs-de-jatte, ça va de soi.

Pas besoin d'être Jérémie,
Pour d'viner l'sort qui m'est promis,
S'ils trouv'nt une corde à leur goût,
Ils me la passeront au cou,
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En suivant les ch'mins qui n'mènent pas à Rome,
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout l'mond' viendra me voir pendu,
Sauf les aveugles, bien entendu.

sábado, 14 de julho de 2007

La poesía es un arma cargada de futuro

Paco 2 (1967)

Eis talvez o texto com que poderíamos ter começado este blogue.
Gabriel Celaya verteu-o assim, em 1955, num tempo de acordar. Paco Ibañez, talvez o maior trovador vivo, musicou o poema e gravou-o em 1967, logo a começar o seu segundo álbum.
Penso que não é preciso traduzir, pois a sua grande riqueza poética é visceral - não precisa de traduções.


Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
más se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmando,
como un pulso que golpea las tinieblas,
que golpea las tinieblas.

Cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades;
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades,
amorosas crueldades.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos, dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo, estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo,
cultural por los neutrales, que lavándose las manos
se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido,
partido hasta mancharse.


Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren.
Y canto respirando. Canto y canto y cantando
más allá de mis penas,
de mis penas personales, me ensancho,
me ensancho.

Quiero daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso, con técnica, que puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España,
a España en sus aceros.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo, estamos tocando el fondo.