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domingo, 23 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XIII)

Em tempos de cólera, em suma, em tempos em que era preciso muita imaginação para burlar as apertadas margens da censura de textos e das proibições de recitais, Raimon encontra na linguagem simbólica vocábulos suplementários, aditivos, que lhe permitem reforçar a sua mensagem essencial: nação livre, sociedade justa, política de esquerdas.

É neste panorama que cabe entender com significados acrescidos toda uma série de factos, independentemente do valor que possuem por si. A dedicatória de uma canção, "Sobre la pau", a Che Guevara. O livro Poemas i Cançons, pensado ao milímetro, com uma citação do vietnamita Fam Van Dong, o magnífico prólogo de Manuel Sacristán, então membro da direcção do PSUC, expulso da universidade, não obstante ser um dos intelectuais espanhóis de maior prestígio, e a capa de [Antoni] Tàpies, um "No" enorme inspirado em "Diguem no", que depois seria retomado nos cartazes contra a pena de morte. O disco intitulado "A Víctor Jara", cantor chileno cruelmente assassinado pouco depois do golpe de estado do general Pinochet, com a versão de "Te recuerdo Amanda", tema, por coincidência, na linha que une amor e luta.
Coragem, portanto, ao convocar o acto do Palau dels Esports, e a necessária dose de inconsciência que tantas vezes a torna possível, até mesmo nos mais impenitentes praticantes do racionalismo como Raimon.

Raimon figurava numa "lista negra" de cantores, incrivelmente assim chamada, divulgada pela Direcção Geral de Segurança a 14 de Julho de 1975. Havia nela vinte e um nomes, quinze dos quais, catalães. Raimon acumulou, desde a sua irrupção na Universidade de Valência até àquele último ano de vida de Franco, uma ficha policial que precisa de duas gavetas metálicas daquelas que serviam para guardar papéis antes de o ordenador converter tanta matéria em energia. Raimon estava afastado dos considerados "catalano-separatistas", ao lado de, entre outros, Josep Benet, Oriol Bohigas, Josep-Lluís Carod-Rovira, Carles-Jordi Guardiola, Joan Manuel Serrat, Josep M. López Llaví, Albert Ràfols Casamada, Carme Serrallonga, Joan Armet, Alexandre Cirici, Pi de la Serra, Miquel Sellarès e Romà Gubern. As outras entradas do arquivo policial, com adjudicações verdadeiramente surreais, ao lado doutras mais que acertadas, eram, em suma, "PC-PSUC", "anarquismo", "grupúsculos de extrema esquerda", "catalanistas" e "catalanistas de pendor socialista".

sábado, 9 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XVI)

"Al vent" representa uma peça importante na cultura catalã, e por arrastamento noutras culturas peninsulares que se reclamavam da Nova Canção, em geral, e de Raimon, em particular, para dar seguimento a processos creativos neste âmbito. O trigésimo aniversário do lançamento do disco "Al vent" daria a medida certa do Raimon que começou a construir-se a partir daquele tema.

O dia de San Jordi de 1993, na Barcelona fashion pós-olímpica, Raimon continuava a ser muito mais que actualidade: à sua volta organizava-se um dos acontecimentos culturais de maior magnitude em torno da música. No Palau Sant Jordi, sede símbolo dos Jogos, criado por Arata Isozaki, Raimon juntava 18 mil pessoas na plateia e a mais brilhante pléiade de cantores e músicos de qualidade jamais vista num palco. Daniel Viglietti, Joan Manuel Serrat, Paco Ibañez, Luís Cília, Ovidi Montllor, Pete Seeger, Quico Pi de la Serra, Mikel Laboa, Warabiza, Michel Portal, Josep Pons, Antoni Ros Marbà, o Coro Sant Jordi, dirigido por Oriol Martorell, e a banda La Lira Ampostina, que recuperaria o Raimon flautista.

Como documentos vivos deste mega-recital ficaram um vídeo e duas canções do concerto, que estão incluídos no décimo Cd da caixa intitulada Nova Integral. Edició 2000. Os dois temas são "Oh, desig de cançons", que se estreava, e "Com un puny".

O grito da Vespa tinha conseguido o que nenhum outro cantor havia alcançado no mundo mediático. Transmissão em directo pela TV3 na Catalunha e em diferido pela TVE para toda a Espanha. Notícia em todos os diários de Barcelona e, o que é mais significativo, comentários editoriais; estes espaços estão reservados quase exclusivamente para a política, temas internacionais, economia e sociedade. Um cantor merecedor de editoriais no La Vanguardia e no El País foi, efectivamente, um facto jornalístico insólito.

Mas para sintetizar a trajectória de "Al vent" - e a sua circunstância - que se percorre neste capítulo, a peça idónea é o artigo que escreveu no El País (25 de Abril de 1993) Manuel Vázquez Montalbán, amigo íntimo de Raimon. Com ele encerramos este capítulo e começaremos o próximo:

Por um montento consegui sair de mim, da minha presença no Palau Sant Jordi, e vi-me com Salvador Clotas, Martín Capdevilla e Ferran Fullà, os quatro, na escula da prisão de Lérida em 1963, à volta de um pequeno disco em cuja capa aparecia um moço da nossa idade com uma guitarra debaixo do braço, o anúncio de canções como "Al vent" e uma apresentação a cargo de Joan Fuster. Nós, os valencianos, tínhamos por companhia na cela, ao pé de Sweezy, Baran, A estrutura da lírica moderna, Álgebra moderna; cada louco, cada estudante com o seu tema. A voz de Raimon soou presa naquela escola-prisão, mas começou a elevar-se e alcançou para além dos barrotes o voo das andorinhas e a línha imaginária das terras do Segre. Ao acabar "Al vent" percebemos que tínhamos ouvido algo profundamente novo e as vibrações da poderosa voz do valencianismo prometiam partir os vidros da estação e os caixilhos de uma cultura ameaçada pelos inimigos exteriores e pelos amigos que às vezes a asfixiavam por excesso de protecção.

Contracapa de Al vent (1963),
com texto de apresentação de Joan Fuster

Tantas coisas começaram com "Al vent", e anteontem [dia 23 de Abril, dia do concerto] a canção de Raimon mostrou a sua vocação para a eternidade e fez-se novamente a voz do cantor, mas também se mostrou apta a japonesismos e para ser versionada pela a banda [filarmónica] valenciana. O jacobeo de "Al vent" tinha convocado peregrinos de todas as terras da canção e de todas as terras de Espanha. Houve quem trouxesse os seus filhos para que compreendessem de que precárias fontes se alimentava a esperança naqueles tempos em que estar "ao vento" ou "dizer não" te garantia um carimbo, obviamente secreto, de subversivo; mas o surpreendente do recital de Raimon e dos alegres moços companheiros da sua noite liga-se a uma sensação colectiva de que as palavras haverão de se libertar da insustentável leveza do saber e apostar pela descrição da desordem. A nostalgia que se escondeu levemente nos gaseados tectos do palácio catalão-japonês e a comunicação que se estabeleceu na sala capturava por sua vez a consciência, constatação crítica por todas as tentações que tentaram falsificar tantas origens para esconder o obstáculo das identidades.
Ali estava Raimon, no palco, a oxigenar tudo com a sua voz de furacão e o seu silêncio educado por meio de Espriu e Mompou e Serrat a recuperar canções de madrugada fugitivo de ida e volta do Poble Sec [lugar onde nasceu Serrat], fugitivos de ida e volta como todos os que tivemos pátrias de infâncias pequenas e erosionadas. Ali estava Quico a demonstar que tampouco o tempo passou para o "homem da rua", que continua com o seu traje cinzento à espera da ressurreição das almas e das carnes. E Paco, Paco Ibañez a chamar à ordem os políticos e a deixar os "cavalos a galopar" para que enterrassem no mar insuficiências e cansaços democráticos. E Viglietti, que nos lembrou o seu terceiro mundo, o nosso quarto mundo; ou Seeger, que nos ajudou a recuperar a memória de "Ay Manuela!" ou "Ay Carmela!"..., que eram a mesma derrotada, confiante em que as canções contassem a verdade da Vida e da História. Montllor: porque não canta Montllor se canta tão bem como sempre e melhor que antes desse sempre? E Cília, tão necessária a sua voz? Laboa, o musicador essencial.

Quando voltei da prisão de Lérida ao Palau Sant Jordi, não levava em mim o consolo da nostalgia, senão a impressão de que o acto a que assistimos não tinha nada que ver com uma reunião de ex-combatentes ou de ex-presos. Em muitos momentos foi uma reunião intrinsecamente subversiva, ainda que talvez a palavra "subversão" fosse um caligrama da grande reprodução de Miró, que, na retaguarda [um mural fazia de fundo] e à sua sublimada forma, sempre pontou a favor das coisas necessárias. Exacto. Foi um acto necessário de balanço e de "hasta aquí hemos llegado!".


[Encerramos aqui o IV capítulo com o fim deste concerto. A canção é mais que obviamente "Al vent". E que pena não poder dar-vos também a ouvir a original, a de 1963...]


terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XIII)

Raimon, com um disco triunfante no bolso e o primeiro prémio do festival de música pop mais importante do Estado até então, está como se costuma dizer lançado na fama. A Televisão Espanhola confida-o a participar no seu programa de maior audiência, Gran Parada, que se emite aos sábados à noite. Nele, canta "Al vent" e "Diguem no"... E não volta ao pequeno ecrã - a maior, contudo, na difusão dos artistas -, até depois da morte de Franco. Seria num programa com guião de Fuster e realização de Mercè Vilaret, emitido em Abril de 77, precisamente dois meses antes das primeiras eleições democráticas.

Porém, vetá-lo na televisão não viria imediatamente. Primeiro tentariam comprá-lo para o integrarem no sistema. Era o ano de 63 e um método que falhava poucas vezes, já que fama, dinheiro e polícias a protegê-lo e não a persegui-lo, implicavam um boa soma de exploração. O primeiro isco era cantar em Castelhano em nome de uma evidente ampliação do mercado. Raimon recusa. O monolinguísmo abraça uma parte ideológica importante de todo o grupo, que começa já a ser conhecido como a Nova Cançó. Cinco anos depois, o caso de Serrat e o Festival da Eurovisão assentava nesta linha. Serrat chega aos palco sem a formação intelectual e política de Raimon, e, além disso, é filho de mãe falante de Castelhano, de Belchite; tudo unto faz com que aceite ao princípio representar Espanha no Festival da Canção da Eurovisão do ano de 68 cantando um tema em Castelhano, um tema nem mais nem menos que do Dúo Dinámico, formado por dois consentidos pelo franquismo. O tema, literariamente, chama-se apenas "La, la, la". Não está nem à altura da canção comercial com algumas pretensões estéticas, como hoje a "Ponte de rodillas" que, inspirando-se no gospel, Teddy Bautista e Los Canarios tinham levado ao topo das listas de vendas daquele ano. Por fim, Serrat sente-se mal com a maquinação e diz que em Catalão ou nada.

Nesta espinhosa situação, da mesma forma, com a perspectiva histórica, deve dizer-se que o caso de Serrat tem um fundo que está para lá da questão de língua. Serrat apresenta-se, naqueles começos, mais como um cantor comercial de qualidade que como um cantor comprometido civicamente. O seu representante, Lasso de la Vega, é-o também do Dúo Dinámico - não por acaso autores de "La, la, la" - e a sua ideia principal é vender discos; a promoção que se faz de Serrat com "La, la, la" é impressionante. Enquanto Raimon, em 1968, está a cantar para trabalhadores e estudantes metidos em organizações clandestinas e é proibido, aceitar representar a Espanha franquista num festival internacional, transmitido pela televisão, supera o factor linguístico.

No começo do multicultural século XXI pode ser difícil entender que um compromisso cívico se baseasse na fidelidade a um idioma e que essa fidelidade implicasse ter de prescindir de outras. Mas a ucronia [desenvolvimento imaginário de um facto histórico como se ele tivesse sido real] ou o "pressentismo" estão rendidos à história. Quando a Canção Catalã irrompe, os sectores mais combativos interpretavam que compaginar Catalão e Castelhano era fazer uma concessão ao inimigo, quando não mesmo traição. A luta pela conservação de um idioma que queriam liquidar, a "maltractada llengua" segundo a adjectivação de Raimon, exigia para muitos um compromisso sem meias-tintas. Espriu tinha bem presente que a milenária língua catalã estava em perigo de extinção, que falava de "salvar as palavras" como valiosos tesouros, como seres de uma espécie em vias de extinção. Mas, felizmente, o Catalão sobreviveu e, anos depois, Núria feliu, a primeira cantora a dar um passo pelo bilingúismo, seria uma militante muito especial de um partido tão catalanista como Convergència Democràtica, sem que a história lhe passasse factura. Mas na altura, a Nova Cançó entra em crise e a unidade abre brechas.

Raimon interiorizou muito a questão da língua. Quando pensa em voz alta, gira em torno deste discurso:

A mim propuseram-me, obviamente, cantar em Castelhano, e até em Inglês! Mas eu sei que as possibilidades expressivas maiores tenho-as na minha língua. As minhas imagens penso-as na minha língua. O facto de que seja minoritária não quer dizer que não tenha de existir. Eu sou a favor da biodiversidade, mas também linguística, não só relativa à flora e à fauna, mas também no aspecto humano. No mundo da globalização, há o perigo que desapareça tudo o que é minoritário, tudo aquilo que não é padronizável. A diversidade ainda não está garantida.
Quando alguém canta em Castelhano, em Francês ou em Inglês, ninguém faz preguntas, é normal que cante na sua língua. Porque é que nós temos de dar tantas explicações? Pois bem, eu tenho assumido tudo isso e não só pelo compromisso cívico, mas também pelo estético, porque eu sei que é na minha língua que posso fazer melhor o meu trabalho.

[Já que está disponível, aqui vai a "La, la, la", cantada por Serrat. O vídeo, percebe-se, é da versão em Castelhano, mas o som é da versão em Catalão...]