sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

While I'm here - Esboço para uma biografia de Phil Ochs

Tem havido muitos filmes sobre os anos 60 e sobre o que se passava, filmes sobre o envolvimento político dos artistas e por aí fora e o Phil tem sido posto de parte desta história. Mas tenho a dizer que não há ninguém mais importante para o movimento político nos anos 60 como "entertainer" que o Phil Ochs. Ele é mais importante do que Bob Dylan, ele é mais importante que qualquer um com quem estava a lutar; escreveu mais, esteve em mais encontros, cantou aquelas canções, ele mobilizava as pessoas, e foi apagado da história e temos de nos perguntar porquê.
Ken Browse, realizador de Phil Ochs: There but for Fortune



Hoje decidi dedicar o meu dia a Phil Ochs.
Hoje apetece-me chorar como nunca, mas não como nos dias em que já chorei.
Lembrar a vida, a voz, as canções e a emoção, a sensibilidade e a lucidez, a ironia e a humildade, a alegria e a solidão. Lembrar aquele sorriso...
Sentir tudo aquilo que ele representa e a injustiça que estamos a cometer ao esquecê-lo, ao não o ouvirmos, ao não o conhecermos...
Todo esse turbilhão de ideias e sentimentos se soma e se revolve na pessoa que escreve estas palavras.
É um sentimento que se junta, paralelo, ao que renasce quando lembro artistas como Víctor Jara, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes, José Afonso, Raimon...

Sim, Raimon está vivo.
Mas o que é estar vivo?


Há poucos dias tomei conhecimento que foi feito, finalmente - passados tantos anos após a sua morte - um filme sobre a vida de Phil Ochs. Chama-se "Phil Ochs: There but for Fortune".
Vai estrear no próximo dia 5 de Janeiro e podemos ler mais sobre ele aqui.
Por isso hoje vim aqui escrever, em Português e para todos os que queiram ler, sobre Phil Ochs. "A man too gentle to live among wolves", como já alguém disse.


O grande fascínio de infância de Phil eram os filmes de John Wayne. É uma referência que fará por diversas vezes. Uma delas está registada na introdução a "The Ringing of Revolution" do Lp "Phil Ochs in Concert" (Elektra EKS 7310, Maio de 1966, gravado no Inverno de 1965 e 1966 em concertos de Boston e Nova Iorque.)
Diz ele, antes de começar a cantar, entre os risos e aplausos da plateia (peço desculpa por não entender tudo o que ele diz):

"Vou cantar uma canção sobre a Revolução. Uma canção sobre o que tem sido verdade em todas as revoluções desde o começo, a francesa, a americana...
Esta é uma canção ficcionada, uma canção cinematográfica. Para terem uma ideia, só como exemplo, no topo da colina, na casa dos ricos, está o último dos burgueses, o último dos cantores folk, enquanto lhe vão fazendo um cerco, cada vez mais apertado pelo som da Revolução. Todos os que estão dentro se parecem espiritualmente com Charles Laughton, todos os que estão fora se parecem fisicamentecom Lee Marvin.

Na verdade, a canção é tão cinematográfica que foi feito um filme, realizado por Otto Priminger, em que entram o senador Carl Hayden, que faz de Ho Chi Min,
E Lyndon Johnson faz de Deus!

Eu faço de Bobby Dylan.
O Dylan do início."

Podemos ouvir esta gravação, com tudo isto, aqui.



No livreto da reedição deste álbum (CD Elektra R1 73501, 1995), Danny Goldberg escreve assim ("enquanto aqui estamos"):

"Para Phil Ochs, eu era apenas um dos fans anónimos que compravam os seus álbuns e o saudavam nos encontros para a paz. Como podia ele saber o que significava para nós?
"Ele sofreu de baixa auto-estima - ele não sabia quão bom ele era", lembra o jornalista Jack Newfield, que viu as lágrimas a cair pelas faces de Bob Kennedy quando Ochs lhe cantou uma canção para o seu irmão assassinado. Ao que tudo indica, Ochs era duro para consigo, como muitos artistas, não percebendo como comovia as aqueles que experienciavam a sua arte.
"Phil Ochs mudou a minha vida", lembra Jim Carroll, que dedicou as suas memórias de ter crescido nos anos 60, "The Basketball Diaries", a Ochs. Carroll "ouvia pop como os Four Seasons até um colega na escola me ter dado a conhecer Bob Dylan, Joan Baez e Phil Ochs. Ochs causou de longe o maior impacto em mim. A partir daí, as minhas concepções políticas e estéticas mudaram". Bonnie Ratt teve um sentimento parecido: "O facto de ele e o Dylan estarem a escrever canções políticas mudou a minha ideia do que é um artista."
Phil Ochs também mudou a minha vida. Enquanto este álbum, "In Concert", ia sendo gravado em concertos de Boston e Nova Iorque no Inverno de 65-66, eu ouvia obsessivamente os seus primeiros dois discos, "All The News That's Fit To Sing" e "I Ain't Marching Anymore". Estes primeiros álbuns criaram ideias sobre política e música que, 30 anos depois, continuam a dar-me força.
À medida que o movimento dos direitos civis crescia e os protestos contra a guerra no Vietname começavam, Phil Ochs representava para mim e para os meus colegas universitários o que Crosby, Stills & Nash, Jackson Browne, Bonnie Raitt, Bruce Springsteen, U2 e REM significariam para gerações seguintes. "Se fores um jovem, tentar perceber o idealismo, a convicção, e o burbulhar dos primeiros anos 60, as canções de Phil Ochs são dos melhores registos daquele tempo", diz Jon Landau, manager de sempre de Springsteen e um dos primeiros editores da Rolling Stone.
"Ochs tinha enorme aceitação pelo seu público porque ele não estava ao serviço de nenhuma facção", nota Carroll. "Eu não sentia que ele fosse dogmático ou didático". De facto, Ochs era atraído pela pureza da Esquerda radical (as notas originais deste álbum eram poemas de Mao Tsé-Tung - o comentário de Ochs era a linha "É este o inimigo?"). Por outro lado, ele escreveu duas canções a lamentar a morte do Presidente Kennedy. Segundo Jack Newfield, antes do assassinato de Robert Kennedy, Ochs estava dividido entre apoiar RFK e apoiar uma alternativa Yippie aos dois partidos [Democrata e Republicano].
(...)
Algumas das canções neste álbum - "Love Me, I'm a Liberal" e as algo mais prosaicas "Cops of the World" e "I'm Going To Say It Now" - são fotogramas históricos da época, veiculando, respectivamente, o sentimento anti-intervenção e o movimento de liberdade de expressão nos campi universitários. Outras canções continuam surpreendentemente actuais 30 anos depois de terem sido escritas. "Canons of Christianity", com muito poucas alterações, podia ser tida como uma crítica à Coligação Cristã.
"Bracero", sobre a humanidade dos estrangeiros ilegais, podia ter sido escrita em resposta à Proposta 187.


Mas Ochs foi mais que um lutador político. Foi um poeta e um artista. Nas suas melhores canções, nota Carroll, "ele apresentava a imagem política com uma imagem poética." Ouçam "Ringing of the Revolution", talvez a apoteose da fábula romântica da "revolução" que pairava na cabeça dos activistas dos anos 60 antes de terem de a confrontar com o que ela implicava. (...)
Por duas vezes, Ochs menciona Bob Dylan nas suas irónicas introduções deste álbum, referindo-se a ele como "Deus" e fantasiando sobre um filme em que o próprio Ochs faria o papel de Dylan. Embora activistas aplaudissem Ochs por continuar a escrever canções políticas muito depois de Dylan as transformar em letras mais pessoais e impressionistas, Ochs sentiu-se obviamente afectado e intimidado pelo impacto cultural e pelo sucesso de Dylan. "Ele sentiu-se ameaçado por estar na órbita de Dylan", lembra Newfield. "Magoavam-no", acrescenta Wickham, "quando pessoas ligadas a Dylan se referiam a ele (Ochs) não como poeta mas como jornalista". (Ochs parece ter tido sempre boas relações com Dylan. Quando Ochs organizou um concerto de beneficência para os refugiados chilenos depois do assassinato de Allende, Dylan esteve lá e cantou.)
Ele pode ter estado na "órbita" do Dylan, mas artisticamente Ochs nunca esteve na sua sombra, e nunca foi um imitador. (...)
Uma diferença essencial entre Ochs e Dylan, observa Carroll, é a sua vontade em expor o que sentia: "Ele não se preocupou em escrever frases sentimentais. Nos anos 60 dava-me a sensação que o maior medo do Dylan era que não parecesse fixe, que ele fosse interpretado como sentimental. Phil Ochs não teve medo de ir por aí."
Este "In Concert", quando saiu, tinha duas das mais canções sentimentais e eloquentes que Ochs escreveria. Quando andava na universidade dava-me a sensação que cada puto com uma guitarra acústica tocava "Changes" mal aprendia as notas. Nos anos de angústia e naquela década de angústia, foi a melhor forma que os putos acharam para dizerem que eram sensíveis. "There But for Fortune" fala de pessoas de qualquer época e foi certamente a canção de maior sucesso comercial de Phil Ochs."




Quem escutar estas palavras, assim cantadas, poderá facilmente perceber a grande perda que foi perdermos um homem assim.

Numa das raras aparições na televisão, no programa The Sound is Now (apesar da fraca qualidade de som e imagem, estão disponíveis dois vídeos: este e este), podemos sentir a integridade, o sorriso e a humildade que Phil Ochs significava e trazia como ser humano.

Os primeiros discos de Phil Ochs datam ainda da primeira metade da década de 6o são instrumentalmente do mais simples que se fazia na altura entre os cantores folk (não só estadunidenses):
"All The News That's Fit to Sing" (Elektra EKS 7269, editado em Novembro de 1964) era apenas cantado com a sua guitarra (e parece não haver mais ninguém, hoje, a tocar assim...) e com outra, tocada por Danny Calb.

O seguinte, "I Ain't Marching Anymore" (Elektra EKS 7287, editado em Agosto de 1965), era apenas interpretado por Ochs.
A canção que dá nome ao álbum é, a par da "Universal Soldier", de Buffy Sainte-Marie e mais popularizada por Donovan, a canção anti-guerra mais certeira que conheço.

Após o mencionado disco ao vivo de 1966, por razões sucintamente afloradas no texto acima, Phil Ochs adoptou outros meios para se exprimir, enveredando por abordagens e arranjos mais complexos. Esta complexidade que acompanhava e passou a caracterizar os textos que passou a escrever, mais densos e metafóricos, marca uma transição irreversível no seu percurso.

Na reedição de 2000 de "Pleasures of the Harbor" (A&M SP 4133, lançado em 1967), Richie Unterberger fala-nos desta nova fase do cantor:

"Se existe um disco de "transição" de um artista maior dos anos 60, "Pleasures of The Harbor" é esse disco. O álbum foi a primeira gravação a recorrer arranjos para uma banda; a sua quase definitiva "descolagem" das canções folk de protesto pelas quais se tornou conhecido; o seu primeiro para a então recente editora A&M; e o seu primeiro a ser gravado em Los Angeles, a cidade para a qual se mudou no final da década. [Vivia antes em Nova Iorque]. É sem dúvida o seu trabalho musicalmente mais ambicioso (...)
Quando Ochs começou a trabalhar em "Pleasures of The Harbor", em Agosto de 1967, ele era um dos últimos artistas folk que ainda não tinham feito a passagem para o folk-rock. Com a excepção de uma (muito boa) versão eléctrica de "I Ain't Marching Anymore" num 7" de 1966, todas as suas gravações anteriores - incluindo três álbuns para a Elektra - continham arranjos exclusivamente para voz e guitarra acústica. (...) Durante o ano de 1966, a música folk acústica tinha sido completamente tomada pelo folk-rock e pelo seu chefe rival Bob Dylan e seguidores Byrds, Simon & Garfunkel e Mamas & The Papas. Por volta do Verão de 1967, o próprio folk-rock passou pelo pico do psicadelismo de "Sgt. Pepper's" e de "Surrealistic Pillow", e o álbum homónimo dos Doors atingia o topo das tabelas.
"Pleasures of The Harbour" pode ter sido o primeiro disco de Phil a usar instrumentos eléctricos e arranjos elaborados, mas não era bem folk-rock. Influenciado por rock & roll, jazz, bandas sonoras, composições clássicas e até por electrónica avant-garde, Ochs procurou arranjos elaborados e por vezes orquestrais que complementariam a poesia progressivamente mais complexa dos seus textos. Queria que cada canção fosse diferente em ambiente e na produção e, ao mesmo tempo, que o álbum fluísse como um todo. Os responsáveis deste processo foram o produtor Larry Marks, o arranjador Ian Freebarin-Smith e o pianista Lincoln Mayorga, que forneceu ornamentações clássicas, de ragtime e de jazz lounge quando foi preciso.

A produção - e até, talvez, sobreprodução - pop-rock barroca estava na sua máxima força na faixa de abertura, "Cross My Heart", com as percussões, o cravo, as flautas, as cordas, os sopros metálicos e as dobragens de voz. A canção anunciava que Ochs abandonara assuntos explicitamente sociais para optar por declarações mais abstractas e cujas letras careciam de várias audições para serem compreendidas nas suas matizes.
(...)
Nenhuma canção do novo cânone de Phil Ochs é mais controversa que "Crucifixion". Não tanto pelo lado lírico - embora tenha sido muito discutido -, mas sobretudo pelo arranjo de quase música concreta. Os seus dez versos sobre heróis martirizados não puderam senão ser interpretados como uma alusão ao então recentíssimo assassinato do presidente Kennedy. Ao manter o experimentalismo eclético de "Pleasures of the Harbor" [a canção], Ochs decidiu, no entanto, envolver a sua voz em "loops", cravo eléctrico e distorções electrónicas, arranjados por Joseph Byrd (líder da excelente banda de rock experimental United States of America). Isto fê-lo soar a todos como uma voz a perder-se numa tempestade avant-gard: e a extrema beleza da canção ficou encoberta aos olhos de muitos fans quando a ouviam tocada só com guitarra acústica.


"Pleasures of the Harbor", durando mais de 50 minutos, era excessivamente longo para 1967, com a maior parte das suas canções a exceder os 5 minutos e algumas a aproximarem-se dos 10. E tampouco teve muito sucesso, atingindo a posição 168 nas tabelas de vendas. Se no álbum seguinte ["Tape From California", editado em Outubro de 1968 pela A&M - SP 4148], Ochs não voltava ao formato acústico, e continuaria a escrever as canções de forma nada habitual até ao fim da década, não voltou mais a empregar texturas diversas como as que se ouvem em "Pleasure of The Harbor".


Em Agosto de 1968, dos dias 26 a 29, deu-se um episódio marcante para a vida do país de Phil Ochs. Foi a Convenção do Partido Democrata, e aconteceu em Chicago.
Evento sobre o qual o próprio Phil Ochs, num concerto em Vancouver, Canadá (registado no Cd "There and Now" - editado pela Rhino R2 70778 em 1990) nos fala:

"Depois de Chicago pensei escrever muitas canções de protesto. Mas não o fiz, apenas escrevi uma, pequena... Não, escrevi duas! Vou cantar-vos duas canções sobre Chicago. Sobre a experiência de Chicago...
... Para muitos dos que não foram a Chicago... houve um momento em que todos queriam ir a Chicago, e depois aquilo ficou muito assustador e ninguém queria ir a Chicago e apenas 5 mil dos 300 mil [esperados] apareceram. A canção que vou cantar é para lembrar aqueles que não apareceram.


[e continua, cantando a primeira, que diz assim:]

"Oh! where were you in Chicago?
You know, I didn't see you there.
I didn't see them crack your head
or breathe the tear gas air.

Oh! where were you in Chicago
when the fight was being fought?
Oh! Where were you in Chicago
'cause I was in Detroit"

[e prossegue]

"É sobre a psicologia do Movimento. Mas não interessa se estiveram em Chicago ou não, porque tivessem estado ou não, Chicago não vem a Vancouver. Apenas a Los Angeles, e ao hemisfério norte (...)
Uma das coisas que se passaram em Chicago foi provavelmente mais triste que tudo o resto. Foi muito excitante no começo mas muito triste depois, porque algo deveras extraordinário morreu lá. Que foi a América."

E depois começa a cantar a segunda das canções, "William Butler Yeats Visits Lincoln Park and Escapes Unscathed", cuja letra transcrevemos na íntegra:

As I went out one evening to take the evening air
I was blessed by a blood-red moon
In Lincoln Park the dark was turning
I spied a fair young maiden and a flame was in her eyes
And on her face lay the steel blue skies
Of Lincoln Park, the dark was turning
Turning

They spread their sheets upon the ground just like a wandering tribe
And the wise men walked in their Robespierre robes
Through Lincoln Park the dark was turning
The towers trapped and trembling, and the boats were tossed about
When the fog rolled in and the gas rolled out
From Lincoln Park the dark was turning
Turning

Like wild horses freed at last we took the streets of wine
But I searched in vain for she stayed behind
In Lincoln Park the dark was turning
I'll go back to the city where I can be alone
And tell my friend she lies in stone
In Lincoln Park the dark was turning.



A canção, na versão de estúdio, incluída no ano seguinte no álbum "Rehearsals For Retirement" (A&M SP 4181, editado em Maio), é baseada ao piano, com um acordeão triste. O tom das canções mais longas era semelhante. A capa desse álbum demonstrou a todos, embora à maneira irónica do cantor, que algo tinha, de facto, morrido. Em Chicago e em Phil Ochs:



A canção homónima, a fechar o disco, ouvida hoje, com tudo o que está dito e lido até aqui, dá-me realmente uma vontade imensa de chorar. Para perceberem porque dizemos isto, ei-la:



The days grow longer for smaller prizes
I feel a stranger to all surprises
You can have them I don't want them
I wear a different kind of garment
In my rehearsals for retirement

The lights are cold again they dance below me
I turn to old friends they do not know me
All but the beggar he remembers
I put a penny down for payment
In my rehearsals for retirement

Had I known the end would end in laughter
I tell my daughter it doesn't matter

The stage is tainted with empty voices
The ladies painted they have no choices
I take my colors from the stable
They lie in tatters by the tournament
In my rehearsals for retirement

Where are the armies who killed a country
And turned a strong man into a baby
Now comes the rabble they are welcome
I wait in anger and amusement
In my rehearsals for retirement

Had I known the end would end in laughter
Still I tell my daughter that it doesn't matter

Farewell my own true love, farewell my fancy
Are you still owin' me love, though you failed me
But one last gesture for her pleasure
I'll paint your memory on the monument
In my rehearsals for retirement.


Aquela voz, aquele piano.
Estas palavras.

"Onde estão os exércitos que assassinaram um país
e transformaram um homem forte num bébé?"


Desencantado com rumo que o país tomou a partir de Chicago, que prometia esperanças completamente esboroadas na própria violência que o rodeou (bem gostávamos de poder ler o livro "Chicago 68", de David Farber, para sabermos mais sobre o que de muito lá se passou e se frustrou e se perdeu), Phil Ochs deixou de acreditar no seu papel enquanto cantor e mobilizador das causas. Li problemas associados a depressão e a álcool. Os textos andam por aí pela internet. Mas temos de compreender que essas foram apenas consequências.
Inevitáveis?

Phil Ochs, não se percebe muito bem porquê, ou talvez a direcção seguida seja mais que auto-explicativa, virou-se para o passado: homenageando as suas grandes influências musicais, Buddy Holly, sobretudo, e Elvis Presley e passando a apresentar-se ao vivo com a sua extravagante e chocante (para os que já sabem e leram a história do que se passou) fatiota dourada de estrela rock. Foi isso que ficou registado nas capas dos discos "Greatest Hits" e "Gunfight at Carnegie Hall". Este último, gravado ao vivo, não renegava o passado. Nem o público se mostrava desiludido com a nova fase do cantor. Como no-lo diz Richie Unterberger (na reedição conjunta de "Rehearsals for Retirement" e "Gunfight at Carnegie Hall" (CDx2 Collector's Choice Music CCM 150-2, editado em 2000):

"Gunfight foi gravado em 27 de Março de 1970, numa fase polémica da carreira de Phil Ochs. Exausto pelas suas lutas por enformar a consciência da asa esquerda americana durante os anos 60, começou a usar fatos dourados ao estilo de Elvis Presley ao vivo e a tocar versões de clássicos de rock, sobretudo os de Elvis e Buddy Holly. Isto foi parte do seu esforço por manter continuidade no estilo "não-político" por que tinha enveredado e uma homenagem ao estilo que tanto amava. No concerto, contudo, as reacções do público dividiram-se, tal como Bob Dylan tinha provocado em meados da década que terminara.

Mas na verdade, o alinhamento registado em disco é pouco representativo do espectáculo, que teve muito material original que não apareceu em Lp. (Uma dessas canções, uma versão acústica de "Crucifixion", acabou por ser incluída na compilação "Chords of Fame" e na caixa "Farewells & Fantasies"). Porque apostou demasiado nas canções rock (nas rapsódias), a gravação passou a ideia de que Ochs estava mais interessado em fazer versões que em cantar material próprio.

Ochs não era bem uma boa súmula de Holly ou Presley, nem as suas interpretações eram tão radicais ou imaginativas para figurarem entre os seus melhores registos. No entanto, "Gunfight" foi uma interessante e por vezes fascinante incursão pela viragem da sua carreira.
(...)
Eram 3 horas da manhã quando Ochs começou a cantar, em encore, a canção "A Fool Such as I", aqueles que ficaram para o ouvir ficaram às ecuras com ele após o Carnegie Hall ter cortado a energia por alguns minutos devido ao adiantado da hora."

Este disco, gravado ao vivo em 1970, foi apenas lançado em 1975.

Sem sucesso comercial e desiludido, mesmo assim não é chocante a sensibilidade que expunha numa das suas canções mais autobiográficas, "Tired" (incluída na compilação "A Toast to Those who Are Gone" - Rhino R2 70080, cujo livreto tem um texto de um grande admirador seu, Sean Penn.)




Não doía muito, porque apesar da solidão, Ochs mantinha a força e a humanidade por que sempre pautou a sua vida:

"So I start out again
With a smile on my face
To hide all the empty
and search for a friend"


Mas era já tarde.
Adiantada ia não só a hora daquele concerto, mas a própria vida de Phil Ochs.

Na sua última gravação de estúdio, o álbum "Greatest Hits" (mais uma brincadeira de Ochs, pois não se trata de uma compilação mas sim de um disco de originais - A&M SP 4253, editado em Março de 1970), na sua derradeira canção, "No More Songs", Ochs deixava o testemunho de tudo o que se passara e ia passar:


Hello, hello, hello
Is there anybody home?
I've only called to say
I'm sorry.

The drums are in the dawn,
and all the voices gone.
And it seems that there are no more songs.

Once I knew a girl
She was a flower in a flame
I loved her as the sea sinks sadly
Now the ashes of the dream
Can be found in the magazines.
And it seems that there are no more songs.

Once I knew a saint
who sang upon the stage
He told about the world,
His lover.
A ghost without a name,
Stands ragged in the rain.
And it seems that there are no more songs.

The rebels they were here
They came beside the door
They told me that the moon was bleeding
Then all to my suprise,
They took away my eyes.
And it seems that there are no more songs.

A star is in the sky,
It's time to say goodbye.
A whale is on the beach,
He's dying.
A white flag in my hand,
And a white bone in the sand.
And it seems that there are no more songs.

Hello, hello, hello
Is there anybody home?
I've only called to say
I'm sorry.
The drums are in the dawn,
and all the voices gone.
And it seems that there are no more songs.

It seems that there are no more songs.
It seems that there are no more songs.



E não houve mais canções.
Phil Ochs enforcou-se.
Estávamos em 9 de Abril de 1976.

O mundo acabava de perder um homem bom e justo e apetece-me chorar sempre que penso nisto.

2 comentários:

Daniel Pereira disse...

Encantado amigo... Uma história de uma pessoa incrível que nos provoca muita tristeza.

Daniel Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.