sexta-feira, 11 de setembro de 2009

No oblidarem mai!

No oblidarem mai aquell 11 de Septembre.



Não tenhamos ilusões: os instrumentos do poder são feitos à imagem de quem os detém.
Os média são um instrumento de poder.
O poder político é um instrumento de poder.
A capacidade de executar as leis (aquilo a que costumamos chamar Justiça, e que é justa ou injusta consoante são justos ou injustos os que a executam) é um instrumento de poder.

Não tenhamos ilusões: enquanto carrascos assim não forem julgados e condenados (viram como Pinochet morreu sem ir preso?), saibamos lê-lo: é um tipo de poder que continua vigente.

Por isso, não podemos esquecer o 11 de Setembro de 1973.
Pela mesma razão, não podemos esquecer o 11 de Setembro de 2001.

(acho deveras estranho o vídeo que se segue ainda não ter sido eliminado (hoje em vez de bombed or killed o sinónimo é mais soft: chama-se deleted) pelo Poder que nos governa. Vamos ver quanto tempo resiste...) E se o leitor que isto lê não aguenta suportar o peso da verdade, continue a ver a telenovela do dia-a-dia. Faça bom proveito e recuse comida do seguinte teor.)




quarta-feira, 9 de setembro de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XVIII)

A delicada Roig, romancista de grande sensibilidade, esvaziava todo o carregador da sua máquina de escrever. A imagem da vida da rua contra a morte da residência do ditador no palácio de El Pardo é chocante. Mas a lucidez da escritora deixa passar alguns dos itens que formalizam Raimon comprometido civicamente.

Não puderam liquidá-lo.
A ditadura agoniza e Raimon está em plenitude de faculdades. Começam a arranjar formas mais subtis - sem falar da actuação policial -: acusam-no de tudo o que podem, com o tópico sempre enfatizado de ter o coração à esquerda e a carteira à direita, movem campanhas nos jornais e um chega mesmo a inventar um "De Raymond", que se espalha ao comprido como cantor, não sem posar antes com roupa interior nas revistas do destape que proliferam naqueles anos de onanismo. Jesús Amilibia estreava a sua coluna na Hola, enquanto sinal de identidade da imprensa da badalhoquice e da boa sociedade, com uma entrevista em que De Raymond diz: "Não são só as mulheres que se destapam nos filmes. Os homens também têm direito. Neste filme faço duas cenas com dois completamente nus... é muito forte." O que era forte era que a ilustração de um tema tão substancial fosse uma foto de Raimon, neste teor: "O cantor valenciano De Raymond, durante a sua recente e brilhante actuação no Palácio Municipal de Desportos de Barcelona".

Raimon é porta-voz de todo um povo. Com os seus versos, produto de muita reflexão, de pensar em voz alta, retira da clandestinidade as ideias de emancipação social e nacional, de luta contra todo o tipo de injustiça e em especial contra a repressão, que trava o que faz e atemoriza o que quer fazer. Ir aos recitais de Raimon é inquietante, pode acontecer tudo, pode haver intervenção da polícia; dá medo, até, passar a fronteira com os seus discos registados em França. Maurici Serrahima tem-no escrito nas suas memórias, já antes citadas; refere-se a Agosto de 1966:

Os trâmites da aduana francesa eram elementares. (...) Tampouco a alfândega espanhola nos chateou muito - tínhamos a preocupação dos discos de Raimon - e entrámos em Camprodon com tempo para dar e vender.

Nos recitais, as frases-síntese são amplificadas pela rubrica coral dos aplausos e, ao acabar, é Raimon que aplaude o público na sua prévia dimensão de povo. É o que Manuel Sacristán dá a entender, no seu prólogo ao livro de Raimon Poemas i Cançons: "Com todos os bons que o acompanham." Este verso de Jordi de Sant Jordi, da canção "Desert d'amics", descreve um colectivo, o da gente comprometida que estava ao lado do autor na luta que o levou à prisão. Um preso do século XV que lembra os companheiros. "Mas não me retracto, porque fiz o meu dever / com todos os bons que me acompanham." Todos os bons, metáfora das vanguardas lutadoras.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XVII)

Naquela noite, Raimon estreava "Jo vinc d'un silenci", tão mencionado no relatório policial. Podemos escutá-la no CD n. 10, intitulado "Directes i alguns indirectes", da Nova Intergral. Edição 2000. Para contrapor a versão policial daquele concerto histórico, reproduz-se o artigo que Montserrat Roig escreveu no semanário Treball, órgão clandestino do PSUC, o que obrigava a assinar com pseudónimo. Montserrat Roig, como George Sand, assinava com nome de homem: "Capitão Nemo", a personagem de Jules Verne em 20 Mil Léguas Submarinas. Montserrat Roig, amante de Brahms e admiradora de Raimon, prescindia da arte e lançava uma proclamação (10 de Novembro de 1975):

Enquanto o ditador que provocou uma guerra agoniza, mais de oito mil pessoas - e muitas ficaram à porta - concentraram-se para manifestar o desejo de paz e de mudança democrática. Isso foi o que representou o recital que Raimon deu no Palau dels Esports de Montjuïc, no passado dia 30 de Outubro. A pouco e pouco, com calma, com serenidade, que nada tem a ver com a que proclamam os franquistas, gente de todas as idades foi chegando ao Palau dels Esports. Que os unia? Unia-os a necessidade de se afirmarem colectivamente como povo, de expressar o desejo de liberdade. E não só afirmaram tudo isso, como também qual é hoje o estado de espírito de dezenas, de centenas de milhares de pessoas: a disposição para o combate político, a disposição a não deixar que os nossos destinos - os destinos de todo o povo - continuem manipulados à distância por uma pequena oligarquia corrompida, agora que o ditador se acaba.

A imprensa legal já menosprezou o magnífico espectáculo no Palau dels Esports. Os aplausos repetiam-se, os gritos de "Llibertat", "Amnistia!", "Visca l'Assemblea de Catalunya!" serviam de contraponto das canções de Raimon. De quando em vez surgiam milhares de pequenas luzes de diversos lugares do Palácio, luzes que se multiplicavam até iluminar todo o recinto. Uma só luz não se sente, mas tantas e tantas luzes demonstram-nos, uma vez mais, que somos, como diz um dos versos de Espriu cantados por Raimon, um povo que não se resigna a morrer.

Não foi um acto de consagração de um artista. Enquanto o público aplaudia Raimon, este, por diversas vezes, aplaudia o público - como dantes faziam os oradores nos encontros políticos - simbolizando o carácter comunitário do que se passava naquela noite no Palau dels Esports; simbolizando tudo o que era um episódio da grande marcha colectiva para a liberdade, na qual o artista, o líder, a personagem, não é senão o porta-voz da massa, de todo um povo.

Era um povo cheio de vida o que gritava, perante a morte que arruma El Pardo e seus fantoches apegados a um poder que se rompe. Um povo que tinha sabido dizer, uma vez mais, que só a união nos pode levar à vitória definitiva.

sábado, 5 de setembro de 2009

Jo vinc d'un silenci



Penso que esta interpretação é a do recital de Montjuïc.
Extraída de um filme sobre a Nova Cançó e que, ou muito me engano, não está acessível ao grande público. Esta é das poucas cenas disponíveis.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XVI)

Este é o atestado que fez engrossar a ficha de Ramon Pelegero Sanchis, alias "Raimon", nos arquivos metálicos das dependências da Prefectura Superior de Policia, na Via Laietana:

Às 22:45 horas de ontem teve lugar no Palácio Municipal de Desportos de Montjuïc, autorizado por este Governo Civil, o recital de canções interpretado pelo cantor "Raimon" [sic, entre aspas, como alias]. Ao acto assistiram umas 10 mil pessoas, entre homens e mulheres, na sua maioria jovens de uns 20 a 22 anos de idade, eles de cabelo comprido.
Durante as canções, tanto ao princípio como ao final das mesmas, quando as letras aludiam à luta silenciosa, como era a chamada "Jo vinc d'un silenci", que teve de repetir ante a insistência do público, que irrompia em aplausos e gritos de "liberdade, liberdade" e "fora o actual Regime!", os espectadores actuavam como uma massa enfurecida.

Finalizada a primeira parte e visto o cariz que o espectáculo estava a tomar, solicitou-se reforço da Polícia Armada, que se situou com os seus carros à frente do Pavilhão Municipal dos Desportos, junto ao Parque de Bomberos, desalojando todos os veículos estacionados em frente ao Pavilhão, a maioria propriedade dos empregados do Palácio Municipal, para que desta forma se pudesse facilitar a actuação da Força Pública se fosse preciso.

Dados os ânimos exaltados de todo o público, foi impossível suspender o recital, para evitar que se produzisse um confrontamento entre a Força Pública e os assistentes, pelo que se deixou continuar a celebração do espectáculo, advertindo o cantor que o terminasse quanto antes. Assim, ordenou-se aos empregados do pavilhão que, mal acabasse a actuação, abrissem todas as portas para facilitar a evacuação do local com a maior rapidez possível.

Uma vez finalizada a actuação do cantor, que ante a insistência do público teve de repetir a canção "Jo vinc d'un silenci", aplaudida com os sabidos gritos subversivos, o público começou a desfilar uns cinco minutos depois de acabar tal actuação, mas antes de abandonar o local, alguns espectadores gritaram "Abaixo o regime" e "Queremos celebrar uma Assembleia de irmãos catalães, com liberdade". O espaço ficou completamente vazio de público após 15 minutos, sem que se tivesse produzido qualquer alteração, indo os assistentes em várias direcções, permanecendo a Força concentrada até que estivesse desepejada de público.

A actuação deste cantor acabou às 00:20 horas, significando que em todas as canções aplaudia ao final das mesmas ao uníssono do público e em particular, quando este irrompia em gritos subversivos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XV)

O ambiente está aceso. O recital tem lugar no mesmo dia em que Franco passa os seus poderes ao príncipe João Carlos. Raimon sentou nas primeiras filas do recinto, repleto de gente e pressão, os representantes da Assembleia da Catalunha, que reúne todas as forças políticas que luta pelas liberdades democráticas e nacionais: Pere Ardiaca, Joan Armet, Josep Benet, Jordi Carbonell, Joan Cornudella, Paco Frutos, Raimon Obiols, Jordi Pujol, Joan Reventós, Miquel Roca Junyent, Joan Colomines, Josep Solé Barberà, Jordi Solé Tura, Lluís M. Xirinacs... Também estão os advogados do fuzilado "Txiki", Marc Palmés e Magda Oranich. Agitam-se bandeiras, gritam-se frases e os aplausos corroboram os versos tornados funcionalmente consigna. Quando canta "Jo vinc d'un silenci / antic i molt llarg, / de gent sense místics / ni grans capitans", uma voz do público grita com força: "Que morra!".
Dez mil pessoas aplaudem.


No intervalo, apagam-se as luzes, acendem-se isqueiros e lanternas enquanto se lê um comunicado da Assembleia da Catalunha e se distribuem panfletos. A polícia não o pode permitir, entra no camarim e pede a Raimon para que suspenda o recital. Raimon arrisca alto: "O governador responsabilizou-me e tenho a sua permissão e a sua palavra. Sei até onde posso ir. Se o interromper será pior, verão". Funciona. Êxito de massas, de convocatória e de concentração, que vai parar à Assembleia da Catalunha, através de Xavier Folch, contacto habitual do mundo intelectual com o órgão unitário. A Assembleia tinha usado "Diguem no" como slogan na sua campanha "contra a ilegalidade fascista", promulgada por acordo da sua Comissão Permanente, no dia 12 de Novembro de 1972.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XIV)

Para lá do seu espaço na Via Laietana, havia um dossiê "Raimon" no Governo Civil de Barcelona, um maço de capa dura, e um outro no Serviço de Informação Militar, que era como se chamava então o corpo de espionagem. Um capitão general da IV Região Militar chega a fazer de Raimon motivo de preocupação na Sala de Bandeiras da cúpula do Exército.

Joaquín Nogueras, capitão general em Barcelona, distingue Raimon com esta carta endereçada ao governador civil, com data de 10 de Maio de 1972:


Exmo. Sr. Adjunto, para conhecimento de V.E., duas notas que recebo dos meus Serviços de Informação.
Não remeto outras referentes aos acontecimentos em torno do dia 1º de Maio, pese a abundância de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo; profusão de gritos subversivos nos quais se atenta directamente contra o Chefe do Estado, etc., por considerar, não devo imiscuir-me nas funções próprias de V.E., nem muito menos julgar, que o endurecimento das acções subversivas registadas se deve à impotência das Forças de Ordem Pública, ou a uma actuação consciente e calculada, em função de directrizes recebidas.
No entanto, o conteúdo, e o claro significado, das duas Notas que se juntam não pode ser ocultado, nem deixado sem aclaração, aos Quadros Profissionais do Exército.
Os gritos "Viva Catalunha Indenpendente", e a atitude perfeitamente definida de 400 pessoas que atentam contra a unidade da Pátria, aproveitando um acto autorizado por este Governo Civil; a alusão concreta a organismos militares da Região, são factos que afectam directamente as Forças Armadas e, portanto, não posso, nem quero, manter-me passivamente à margem.
Por conseguinte peço a V.E., se achar por bem, que me informe, discretamente, das razões que levam a permitir a actuação do cantor Raymon (sic), mesmo sabendo que, sistematicamente, estas actuações são aproveitadas por elementos contrários à Unidade da Pátria. E então, se se adoptou alguma medida em relação ao dito cantor e se se efectuou alguma detenção de elementos organizados.
Por outro lado, considero de elevado interesse que me comunique se, com os meios policiais disponíveis de V.E., julga possível averiguar a origem e a organização distribuidora da propaganda subversiva intitulada Terrorismo e Direitos. Alerta! apreendida inicialmente no Hospital Clínico e na Faculdade de Medicina.
Tudo isto, com vista a eventuais acções que me veja obrigado a tomar em função e desde o ponto de vista da jurisdição da Justiça Militar.

Deus Guarde V.E. por muitos anos.
Barcelona, 10 de Maio de 1972.
O Capitão General, Joaquín Nogueras.


Perante uma pressão tão forte e evidente da máxima autoridade militar, o governador, Tomás Pelayo Ros, responde por carta que Raimon está proibido. Num novo ofício que chega à Brigada Social, onde Raimon está classificado, disse-se, como "Catalano-separatista" e as designações nominais dizem extactamente: Ramón Pelegero Sanchis, ou "Raimon".

O Governo Civil aguenta um par de anos a proibição absoluta, apenas furada por organizadores com imunidade, como a Igreja e a Universidade, e, havendo sorte, abre mão impondo três restrições importantes. Para poder cantar, Raimon tem de ser contratado por um empresário registado, disponibilizar os valores e certificados de ingressos bancários e consultar a Direcção Geral de Segurança, em Madrid.

Nestas situações tão precárias, Raimon atira-se de cabeça com o recital do Palau dels Esports. Pede a Oriol Regàs que seja o empresário de coarctada. Regàs, apesar de ter prestado diversas ajudas à oposição, é considerado pelas autoridades franquistas um frívolo proprietário de salas de jogo, o Bocaccio e o Maddox, e um restaurante de luxo, o Via Venero, que eles frequentam. Oriol Regàs tem apenas um antecedente por fechar tarde o Bocaccio e de nele ter pouca luz, facto que propicia comportamentos "lascivos". A autoridade deixa passar e o novo Governador Civil de Barcelona, Rodolfo Martín Villa, que é inteligente o suficiente para perceber que o certificado de óbito de Franco sê-lo-á também do seu regime político, quer ter um pé no futuro. Martín Villa é o dubitativo Hamlet. Não pode autorizá-lo para ficar bem com os que o nomearam, mas tem de fazê-lo porque ainda é jovem e ainda tem muita carreira política pela frente.

Autoriza-o, mas chama ao seu gabinete Raimon e Annalisa para intimidá-los e responsabilizá-los por tudo o que possa acontecer. A chamada é coerciva: "O governador diz que venham os dois". Annalisa pregunta: "Quando?". Respondem "Já". Raimon aguenta o sermão e diz-lhe que ele apenas pode ser responsabilizado pelas canções, e por nada mais. E sai.

domingo, 23 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XIII)

Em tempos de cólera, em suma, em tempos em que era preciso muita imaginação para burlar as apertadas margens da censura de textos e das proibições de recitais, Raimon encontra na linguagem simbólica vocábulos suplementários, aditivos, que lhe permitem reforçar a sua mensagem essencial: nação livre, sociedade justa, política de esquerdas.

É neste panorama que cabe entender com significados acrescidos toda uma série de factos, independentemente do valor que possuem por si. A dedicatória de uma canção, "Sobre la pau", a Che Guevara. O livro Poemas i Cançons, pensado ao milímetro, com uma citação do vietnamita Fam Van Dong, o magnífico prólogo de Manuel Sacristán, então membro da direcção do PSUC, expulso da universidade, não obstante ser um dos intelectuais espanhóis de maior prestígio, e a capa de [Antoni] Tàpies, um "No" enorme inspirado em "Diguem no", que depois seria retomado nos cartazes contra a pena de morte. O disco intitulado "A Víctor Jara", cantor chileno cruelmente assassinado pouco depois do golpe de estado do general Pinochet, com a versão de "Te recuerdo Amanda", tema, por coincidência, na linha que une amor e luta.
Coragem, portanto, ao convocar o acto do Palau dels Esports, e a necessária dose de inconsciência que tantas vezes a torna possível, até mesmo nos mais impenitentes praticantes do racionalismo como Raimon.

Raimon figurava numa "lista negra" de cantores, incrivelmente assim chamada, divulgada pela Direcção Geral de Segurança a 14 de Julho de 1975. Havia nela vinte e um nomes, quinze dos quais, catalães. Raimon acumulou, desde a sua irrupção na Universidade de Valência até àquele último ano de vida de Franco, uma ficha policial que precisa de duas gavetas metálicas daquelas que serviam para guardar papéis antes de o ordenador converter tanta matéria em energia. Raimon estava afastado dos considerados "catalano-separatistas", ao lado de, entre outros, Josep Benet, Oriol Bohigas, Josep-Lluís Carod-Rovira, Carles-Jordi Guardiola, Joan Manuel Serrat, Josep M. López Llaví, Albert Ràfols Casamada, Carme Serrallonga, Joan Armet, Alexandre Cirici, Pi de la Serra, Miquel Sellarès e Romà Gubern. As outras entradas do arquivo policial, com adjudicações verdadeiramente surreais, ao lado doutras mais que acertadas, eram, em suma, "PC-PSUC", "anarquismo", "grupúsculos de extrema esquerda", "catalanistas" e "catalanistas de pendor socialista".

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XII)

Raimon reflectiu muito sobre aquele momento de atonia e sobre que contribuição podia dar. Optou pela função de catalisador, o que provoca uma reacção química. Consciente da sua capacidade mobilizadora, aproveitou-a e aplicou-a. Um recital massivo, no maior ajuntamento tentado por um único cantor de língua catalã, 6 mil pessoas nas bancadas, muitas mais na pista. Parecia impossível.
Mas provou-o, com uma inusitada coragem. A coragem era um requisito imprescindível para enfrentar os energúmenos sem escrúpulos encarregados de carregar de sentido a patética palavra "ditadura". Raimon vive sob a permanente tensão dos que enfrentavam um sistema totalitário: detêm-no, fazem-no falar, tem de pedir autorização, enviam-lhe a polícia para o controlar a ele e ao público, tem de levar as canções à censura concerto a concerto, apreendem-lhe o passaporte, proíbem-no por temporadas... "Dels anys patits on tot ha estat perill" ["Dos anos sofridos onde tudo era perigo"], como resume num verso de "Que tothom". Raimon lembra assim aquela experiência de ansiedade permanente:

Proibiam-me o tempo que queriam, interrogavam-me... Havia autênticas bestialidades, como notificar-me a que fosse fazer declarações à esquadra da polícia, a terrível Via Laietana, que só de lá ir já causava... Para me acusarem de ter feito uma canção contra o Papa. Referiam-se ao poema de [Anselm] Turmeda "Elogi dels Diners", do século XVI! E momentos muito duros, momentos muito duros... Quando nos fechámos em Montserrat, pelo Processo de Burgos, eu estava proibido e a coisa foi de mal a pior. Chegaram a fazer-me fazer um requerimento para poderem dar-me permissão para actuar, autorização para pedir autorização. Era aviltante e kafkiano. E aquela impotência...

Manuel Vicent diz com a sua ironia que sempre distancia e liberta: "Raimon levava consigo uma aura de gás lacrimogéneo e à sua volta, dentro do fumo, dançavam guardas com vergasta, censores com carimbos, governadores de bigodinho imperial". Raimon, em idêntica postura de escapar ao ferro, de relaxar com humor, respondia assim a um membro do Clube de Joves de Ontinyent que o entrevistou depois de um recital, em Setembro daquele mesmo ano de 1975:

- Raimon, é muito difícil entrar em contacto contigo... Como podemos localizar-te ou ter informações do teu paradeiro?
- Pfui!!... Mas se é muito simples! Basta irem perguntar a qualquer esquadra da polícia...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (XI)

Mas ficarmo-nos pelos recitais que ficaram gravados na memória colectiva seria cortar muito a eito. Raimon faz mais de uma centena de recitais por ano, e percorre toda a geografia dos Países Catalães. Canta nos lugares mais inverosímeis e aproveita todas as datas, a festa maior, os encontros, a comemoração de algum acontecimento cultural. O programa de mão da actuação de Raimon na Festa Major de Terrassa, a 5 de Julho de 1971 dizia:

Depois dos seus últimos êxitos em Itália temos Raimon entre nós.
Faz quase três anos que não o víamos actuar aqui em Terrassa.
Hoje, em plena Festa Major, poderemos ouvi-lo.

Por isso mais que nunca nos sentimos acompanhados a seu lado, abrigados pelas suas canções e pela sua mensagem.
A sua autenticidade, o seu amor para com os oprimidos, assim mesmo o ouviremos, podemos repetir: é tão grande artista como lutador e o seu canto é a síntese destes dois ingredientes: Arte e Luta.

É de muito especial relevância para este capítulo o recital que Raimon protagoniza no Palau dels Esports de Barcelona, a 30 de Outubro de 1975. Franco estava na cama e a oposição não sabia nem o que fazer nem como se mexer, momentos de grave indecisão semelhantes aos que se repetiriam na noite de 23 de Fevereiro de 1981, durante a tentativa de Golpe de Estado. A ditadura queria perpetuar-se e tinha reactivado as piores impulsos da sobrevivência a qualquer preço. Passavam-se apenas trinta e três dias que tinham sido executados cinco militantes antifranquistas, um deles, Juan Paredes, "Txiki", em Cerdanyola, e todos as forças de segurança e do exército estavam em alerta máximo. [*]


[*] - Foi depois dessas execuções que, cá, em 27 de Setembro, houve o saqueamento da embaixada espanhola por uma população enfurecida.
Fonte: Centro de Documentação 25 de Abril

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma pausa com "Campus de Bellaterra"

Campus de Bellaterra, 30 de Outubro de 1974

Deste disco, e apesar de se perceber que não se apresenta como um registo contínuo (tem cortes no fim das músicas, e desconhecemos o que se passou entre elas), sobressai o espaço aberto, que se ouve no eco e na voz de Raimon. Sobressai também silêncio, não já tenso como noutros concertos, mas de empatia e companhia por parte do imenso e jovem público que ficou retratado na capa deste disco.

Por estes anos, Raimon optava por canções mais recentes e imediatas. Atente-se na ausência, pelo menos aqui, de, por exemplo, "Al Vent", "Cançó de les Mans", canções emblemáticas dos primeiros anos, talvez por isso preteridas, ou ainda, com a união contra o regime já num processo mais avançado, a ausência de "Diguem No". Seria mais que adequado cantá-la. Mais notória ainda é a falta de "D'un Temps, d'un País". Mas talvez fossem demasiado fortes para a paz que parece emanar desta tarde com algum vento (podemos ouvi-lo, por exemplo, na homenagem e na canção de Víctor Jara, "Amanda" - procurem-na, foi a 16º entrada na caixa de música).

Essa paz e o abraço imenso do espaço até nos permite ouvir as pontas das cordas da guitarra a abanar ao vento.

E quase que estamos lá.

Se o virem por aí, não percam a oportunidade. Se os objectos nos enriquecem com o que extraímos deles, e não propriamente com a mera posse deles, que é o que distingue a riqueza interior da exterior, avancemos nessa direcção.


Este disco conheceu, tanto quanto sabemos, as seguintes edições:

1 - Campus de Bellaterra
Lp, 1974, Movieplay S-32568

2 - Campus de Bellaterra
Cd, 1992, Fonomusic CD-1159

3 - Discografia Básica
3Cd, 2004, Dro East West 5046736822 (juntamente com outros dois álbuns originalmente editados pela Movieplay: A Víctor Jara (1974) e Lliurament del Cant (1977))

4 - Campus de Bellaterra
Cd Digipack, 2004, Dro East West 5046746512 (a edição que possuímos e apresentamos)

sábado, 15 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (X)

Era um recital massivo, 5 mil pessoas, que sob condições normais teria motivado um bom destacamento de jornalistas, crónicas, críticas e, naturalmente, uma linguagem que não precisasse de criptógrafos para ser decifrado: Raimon foge porque o espera a polícia, e o desemprego é uma greve, que também estava obviamente proibida. A crónica ao lado da de Raimon dá também uma dimensão do que era importante ou de como se valorizam as notícias:

Ontem, na cantina do Círculo del Liceu, onde se reúne, desde há muitos anos, a Peña de los Viernes (de que fazem parte muitas personalidades barcelonesas), esta entidade fez uma homenagem de simpatia e afecto a don Luís Martí y Olivares, marquês de Rebalso, sócio número um, famosa personalidade barcelonesa, octogenário, que ocupou altos cargos na cidade, entre os quais, o de chefe superior da polícia, depois da libertação de Barcelona em 1939.

Conhecidos nomes catalães assistem, de facto, à homenagem à ínclita personagem que dirigiu a feroz repressão quando as forças franquistas entraram na cidade: Aleix Buxeres, Lluís Trías de Bes, Tomás Martínez Fraile, Josep M. Mas-Sardà, Francesc Peris-Mencheta, Ignasi Macaya, Gonçal i Àlvar Fuster-Fabra, Miquel Lerín, Ernest Tell, Gabriel Brusolas, Joan Capo, Josep M. Lacalle... Presidia à sessão o capitão general, Alfonso Pérez-Viñeta, o falangista que comandava os pretorianos de Franco, a polícia moura que ocupou Barcelona em 26 de Janeiro de 1939.

Três anos depois do recital na Faculdade de Direito, outra grande convocatória universitária. Campus de Bellaterra. Do recital multitudinário de Bellaterra sairá um disco, graças ao engenho do técnico de som que, quando a polícia quis apreender a matriz do registo, fez passar gato por lebre dando-lhes uma gravação de palhaços do grupo de Aragón, Gaby, Fofó, Miliki e Fofito, artistas do selo Movieplay, como Raimon. O dinheiro obtido destinou-se à célula universitária do PSUC, à compra de uma fabulosa fotocopiadora de última geração, e uma soma foi para militantes libertados e para outras despesas relacionadas com as prisões. Miguel Nuñez, então dirigente do PCE e responsável do Comité de Barcelona do PSUC, um dos líderes carismáticos da história da resistência antifranquista, disso deixa testemunho no seu belíssimo livro de memórias, La Revolución y el Deseo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (IX)

No La Vanguardia a crónica do recital de Raimon no polivalente da Faculdade de Direito da Universidade de Barcelona, exemplo de uma notícia curta da época, dizia o seguinte:

Uns cinco mil estudantes, embora o número seja difícil de precisar, assistiram ontem ao meio-dia ao recital que Raimon deu na Faculdade de Direito da Universidade de Barcelona. No edifício e em diferentes lugares colocaram-se fotografias do cantor. Raimon, que actuava sem receber qualquer dinheiro, já há dois anos - mais concretamente desde Novembro de 1968 - que não dava um recital em Barcelona. Raimon dedicou algumas das 17 canções que interpretou ao comandante Ché Guevara, ao País Basco e a Joan Miró. Muitas das canções, e certas letras em especial, foram cantadas pelos estudantes que assim aplaudiam no final de cada intervenção. Alguns estudantes soltaram grandes cartazes. Os cartazes provocaram reacções de protesto por parte de alguns estudantes. Durante do decorrer do recital viu-se uma bandeira vermelha com a a foice e o martelo. Também se distribuíram exemplares do Mundo Obrero [diário do Partido Comunista, ilegal], entre outros panfletos. Apesar disso, o recital decorreu nos trâmites previstos e nos quais se baseava a autorização do director da Faculdade, que autorizou, como se sabe, o acto. No fim da canção número 17, Raimon saltou por uma janela que dava para a parte traseira da Faculdade, entrou num carro que estava estacionado e desapareceu com três pessoas que o acompanhavam. No recital estava o cantor Pi de la Serra. Sabe-se que o dinheiro das entradas era destinado a fazer face às necessidades económicas dos trabalhadores da empresa AEG Telefunken, de Tarrasa, que estão no desemprego devido a uns problemas com a empresa. À saída do recital os estudantes depararam-se com a presença de corpos da Polícia Armada. Um pequeno grupo deu gritos de "Liberdade!". Outros, posteriormente, tentaram manifestar-se nas proximidades da Faculdade. No entanto, a presença da força pública frustrou a acção.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (VIII)

O jornalista Manuel del Arco, tido como o melhor entrevistador de formato diário curto, um género hoje extinto, publica no dia do recital da Faculdade de Direito uma entrevista muito interessante. Del Arco gozava de alguma confiança por parte do regime, e podia permitir-se, de vez em quando, a forçar a situação. A sua entrevista a Raimon sai no La Vanguardia a 13 de Março de 1970. A secção de Del Arco chama-se "Mano a Mano" e, naquele dia, sai ao lado de uma notícia segundo a qual se notificava da obrigação de requerer autorização do chefe de Estado para poder adoptar filhos, e uma outra sobre a melhoria de uma cólica dos rins do general Perón, que dera entrada na Fundação Puigvert.

Manuel del Arco conduz uma entrevista ousada. Raimon também aposta forte:

- Porque é tão caro ouvir-te aqui, ainda que agora o faças gratuitamente?
- Para mim é uma questão de burocracia.
- Papéis, carimbos e autorizações?
- Sim; assinaturas e permissões que nunca chegam a tempo, ou que simplesmente não chegam.
- É assim tão perigoso o teu idioma?
- Pode ser uma questão de opiniões; eu acho que não. Se Espanha é Europa, não vejo porque possa cantar em Catalão em França, Itália, Alemanha, tanto em actuações públicas como em televisão, e, aqui pareça estranho o meu idioma; muito mais se ouvido em salas de teatro.
- Será pelo que dizes?
- Na canção há uma censura prévia; quer dizer, que o que eu vou cantar em público é examinado antes pela autoridade competente. Não fujo às normas estabelecidas no país; não ajo fora da lei.
- Esta tua postura não prejudica a tua actividade artística?
- Se te referes ao facto de não cantar em Castelhano, não creio que isso seja limitar-me. Cantar numa língua minoritária não significa automaticamente um público reduzido. Dou um exemplo, sem sair da canção: Theodorakis canta na sua língua e é conhecido em todo o mundo. Aparentemente podia dar a impressão de que para sermos conhecidos deveríamos cantar todos em Inglês; mas eu acredito que em toda a criação artística, em geral, a qualidade impõe-se sobre as facilidades que a quantidade possa oferecer. (...)
- Mas tu cantas para exibir as tuas faculdades artísticas ou para expressar-te como jovem do teu tempo?
- Penso que as minhas possíveis faculdades artísticas são-no enquanto possam contribuir, como jovem deste tempo, para a radical transformação de uma sociedade que não queremos. A arte pode ser também maneira de interpretar o momento histórico que se vive.
- Procuras que te rotulem de cantor de intervenção?
- Quem conhece as minhas canções pode ver que fujo às etiquetas. Penso que o homem é muito mais coisas que uma canção de amor ou de denúncia por sistema. Mais, tento que nada do que nos preocupa como homens fique de fora das minhas canções. É tão importante para mim o homem só em sua casa como o homem da rua com os outros; o que, traduzido em canções, quer dizer que uma canção lírica ou uma canção civil ou colectiva têm o mesmo valor. Se alguém me rotula assim é de má fé.
- Não te sentes profissional da canção, ainda que vivas dela?
- Sim, em relação à responsabilidade e ao que supõe lutar por uma maior perfeição e rigor no meu ofício concreto, que é a canção. Ao mesmo tempo que me preocupo em conhecer toda uma cultura própria que, em certa medida, se me foi ocultada na escola; por exemplo, a mim ninguém me disse, quando estudava literatura espanhola, que Quevedo tinha traduzido poemas de Ausiàs March; fiquei a sabê-lo ao ler um livro de Martín Riquer. O que nos demonstra que noutros tempos o contacto cultural entre as diferentes culturas peninsulares era muito mais aberto e fecundo que nos nossos dias.
- Outros, que começaram como tu, vão cedendo. Não temes ficar sozinho?
- Em princípio, a solidão não me afecta. Logo, o que estou a fazer é o que estou a ser e a sentir. E depois, as dificuldades que isso possa comportar não são argumento suficiente para que eu mude a minha forma de estar no mundo.

domingo, 9 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (VII)

Naquele ano, 1970, Raimon colabora no activismo com o seu recital na Faculdade de Direito, muito sensibilizada porque o Processo de Burgos é estudado e debatido graças ao facto de um advogado catalão, grande político do PSUC que com a democracia será deputado, Josep Solé Barberà, defender um dos arguidos, Josu Abrisketa; o seu filho, Josep Solé Fortuny, então estudante, põe todos ao corrente de como se desenrolam os acontecimentos, com o apoio de uma poderosa célula comunista. Raimon toma também partido na barricada que intelectuais e artistas fazem no mosteiro de Montserrat, que terá grande repercussão internacional, por nela se pedir a comutação das penas capitais. E arrisca-se individualmente ao esconder militantes bascos. Daí nascerá uma boa amizade com o hoje jornalista Patxo Unzueta.

Raimon estava proibido mas canta na Faculdade de Direito graças a uma corajosa autorização do seu director, que estava ciente de que em sede universitária não era necessária autorização governativa para actos culturais. Escolhe uma data simbólica, 13 de Março, e dá também entrada livre a trabalhadores em greve. Depois parte para os Estados Unidos, porque aqui se lhe tinham sido fechadas todas as portas. Lá conhece Rafael Ribó e Roser Argemí, Fernando Santos, Miquel Barceló, Nicolás Sánchez Albornoz, Emilio Rodríguez e a família Seeger, Pete, Toshi e a sua filha Misha.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (VI)

Nos anos de 1970 e 1973, volta a dar grandes recitais para universitários. Primeiro na Faculdade de Direito da Universidade de Barcelona; depois, no Campus de Bellaterra.

1970 é um outro annus horribilis para as forças democráticas que lutam contra a ditadura. O Processo de Burgos, conselho de guerra no qual se pede pena de morte para seis militantes da ETA, junta um grande movimento de solidariedade e também uma imensa onda repressiva, com a promulgação de um novo estado de excepção. A liberdade tem de se equilibrar a caminhar pelo gume de uma enorme faca: "Todos os que sofreram / o peso da imensa bota / e a afiada espada / sabem o que é o medo", diz em "Contra la por" [Contra o medo], de 1968. Catalunha demonstra a sua solidariedade para com Euskadi; a massiva, na rua; a pessoal, acolhendo e escondendo bascos que fogem do seu território. Raimon era sensível à problemática basca e tinha já dedicado duas canções ao tema, "El País Basc" e "A un amic d'Euskadi".

["El País Basc" é uma das canções mais profundas e pesadas que Raimon compôs. A sua metáfora imponente fala o alfabeto da solidariedade e do grito pela justiça. Muito do peso está talvez nas 5 notas (!) que acompanham o texto. Se se critica a menoridade / simplicidade musical do Raimon dos primeiros tempos, que neste caso é mais que notória, tal dificilmente pode dizer-se da sua capacidade comunicativa, do seu poder de síntese enquanto narrador e do seu valor enquanto poeta. A versão desta canção de 1967, a 28ª na caixa de música, é das mais despidas e cruas, acentuando esse sentimento. Está incluída num Lp homónimo que compila as gravações (feitas, penso, em 1968) que Raimon fez para a série Inici da etiqueta Discophon, editado em 1971. Em 1999, este disco teve uma edição em Cd, pela Discmedi Blau, sob o nome "Dotze Cançons"]




Tots els colors del verd
sota un cel de plom
que el sol vol trencar.

Tots els colors del verd

en aquell mes de maig.
/

Todas as cores do verde

sob um céu de chumbo

que o sol quer romper.

Todas as cores do verde

naquele mês de Maio.


Portava el vent la força

d'un poble que ha sofert tant.

Portava la força el vent

d'un poble que ens han amagat.
/

Portava o vento a força

de um povo que sofreu tanto.
Portava a força o vento

de um povo que nos esconderam.


Tots els colors del verd

sota un cel ben tancat.
/

Todas as cores do verde
sob um céu bem fechado.


I l'aigua és sempre vida

entre muntanyes i valls.

I l'aigua és sempre vida

sota la grisor del cel.
/

E a água é sempre vida

entre montanhas e vales.

E a água é sempre vida
sob a cinza do céu.


Tots els colors del verd

en aquell mes de maig.
/

Todas as cores do verde

naquele mês de Maio.


És tan vell i arrelat,

tan antic com el temps

el dolor d 'aquella gent.

És tan vell i arrelat

com tots els colors del verd

en aquell mes de maig.
/

É tão velha e arraigada,
tão antiga como o tempo

a dor daquela gente.

É tão velha e arraigada
como todas as cores do verde
naquele mês de Maio.


Tots els colors del verd,

Gora Gora, diuen fort

la gent, la terra i el mar
allà al País Basc.
/

Todas as cores do verde,

Gora Gora, gritam forte
a gente, a terra e o mar
lá, no País Basco.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (V)


Folheto-guia do primeiro recital de Raimon na Galiza, em 9 de Maio de 1967, em Santiago de Compostela, com as letras traduzidas por Carlos Casares e Salvador Garcia-Bodaño e ilustrado por Andreu Alfaro. Importa referir que este recital foi importantíssimo para o despoletar do movimento da canção de intervenção na Galiza. À semelhança dos Setze Jutges, vários cantores surgiram sob o nome de Voces Ceibes, onde estavam Benedicto, Miro Casabella, entre outros. Leiam a entrada da Vikipédia para o conjunto.


A Unión de Departamentos de Actividades Culturales de la Universidad de Madrid edita em offset as letras das canções de Raimon, com traduções em Castelhano por Gabriel Celaya - que depois dedicaria um poema a Raimon -, José Hierro, Jesús López Pacheco, Jorge Ruiz Gusils e José Augustín Goytisolo. A capa é a do desenho de Andreu Alfaro que servirá para os recitais que então fazia que levavam como título "Raimon, a voz dum povo". Grande cartaz cultural para uma modestíssima e ilegal impressão.

Raimon canta, portanto, num curto espaço de tempo, para o movimento operário e para o movimento estudantil, vanguardas da luta antifranquista. Mas, um ano antes, tinha feito o Palau de la Música Catalana, espaço natural da arte dos sons. Os trabalhadores de Barcelona e os estudantes de Madrid, máximos expoentes do que cá podia ter sido o mítico 1968, tiveram grande impacto em Raimon. Expedientes policiais e quase dois anos de proibição, depois de um recital que fora, já ele, muito quente. Em 30 de Novembro daquele 1968, Ovidi Montllor, Pi de la Serra e Raimon enchiam pelas costuras o Palau de la Música. Figurava milagrosamente o pano que tapava as quatro barras que presidiam o cenário, e o canhão de luz descobria uma decoração insólita.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (IV)

Em 1968, cúpula do imaginário de todos os progressismos, em que o Maio francês fez tombar os padrões revolucionários e os tanques soviéticos os beliscaram na Checoslováquia, Raimon dá dois recitais que cosem ponto por ponto o padrão - que seria de nós sem as metáforas têxteis! - da mobilização de massas, da canalização de uma revolta carente de cenários e apenas dotada de saídas de emergência. As datas e os motivos ficaram imprimidos e gravados porque, Raimon, no seguimento destes recitais, compõe duas canções: "13 de març, cançó dels creients" e "18 de maig a la villa". É curioso, aliás, que dois títulos de um mesmo ano comecem por números e sejam datas.


Em 13 de Março de 1968, Raimon canta no Gran Price, um ringue boxístico, em benefício das Comissiones Obreras [CO]. As CO foram fundadas em 1964, e em 1966 era criada a Comissió Obrera Nacional de Catalunya. O seu protagonismo como vanguarda das lutas dos trabalhadores durante o franquismo praticamente não teve paralelo, feito que lhe custou altos preços por parte da repressão. Para lá disso, a ditadura cobrou dois mortos pela grave infracção de participar numa greve: em 29 de Outubro de 1971, Antonio Ruiz Villalba, trabalhador da SEAT, e em 3 de Abril de 1973, a central térmica de Sant Adrià del Besòs, Manuel Fernández Márquez. Ambos tombaram a disparos da polícia. A prisão Model estava repleta de líderes das CO, alguns dos quais esperavam julgamento por tribunais militares.


Em 18 de Maio de 1968, Raimon canta na Faculdade de Ciências Políticas e Económicas da Universidade Complutense de Madrid onde, depois, se dá lugar a uma grande manifestação que a polícia neutralizará com o seu aparelho anti-motins. Paris era uma grande barricada e Raimon regista tudo o que estava a acontecer:

["18 de maig a la 'Villa'" é a 27ª canção de Raimon na caixa de música ali ao lado. O primeiro registo data segundo disco ao vivo no Olympia (1969). O segundo surge em "Campus de Bellaterra" (1974) Optámos pela gravação do "Recital de Madrid" onde o ambiente e as palavras de Raimon mais bem a contextualizam. Razões suficientes para não julgarmos necessário traduzi-la.]




I la ciutat era jove,
aquell 18 de maig.
Sí, la ciutat era jove,
aquell 18 de maig
que no oblidaré mai.

Per unes quantes hores
ens vàrem sentir lliures,
i qui ha sentit la llibertat
té més forces per viure.

De ben lluny, de ben lluny,
arribaven totes les esperances,
i semblaven noves,
acabades d'estrenar:
de ben lluny les portàvem.

Per unes quantes hores
ens vàrem sentir lliures,
i qui ha sentit la llibertat
té més forces per viure.

Una vella esperança
trobava la veu
en el cos de milers de joves
que cantaven i que lluiten.

No l'oblidaré mai,
no l'oblidaré mai,
aquell 18 de maig,
no l'oblidaré mai,
aquell 18 de maig
a Madrid.


Canção claramente jonda, com um ostinato de guitarra amplificando o refrão; a propósito, uma das escassas canções de Raimon com refrão, ritornello ou estribilho, tão comum na tradição popular.


Imagens retiradas daqui, daqui e daqui.
Cliquem e leiam os textos, relatos e testemunhos.
Note-se que a imagem da revista Triunfo refere-se ao concerto do "Recital de Madrid", não ao de 18 de Maio de 1968.

sábado, 1 de agosto de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (III)

"T'he conegut sempre igual", tema inspirado na vida clandestina do então secretário-geral dos comunistas do PSUC, Gregorio López Raimundo, em nenhum momento menciona o seu nome e hoje não soa a datado, senão que é actual como explicação do que foi. Estávamos no ano de 1973, Raimon encontra López Raimundo no Quartier Latin de Paris. Falam amigavelmente. Apenas alguns dias depois, volta a encontrá-lo, mas a circunstância é completamente diferente: no passeio de Maragall. Em Paris, o dirigente do PSUC é um cidadão normal, em Barcelona, o homem mais procurado pela polícia, portanto não se saúdam. Ambos sabem que uma imprudência pode levá-lo à "comissaria" e à prisão. Gregorio López Raimundo leva consigo um honroso historial de luta e resistência às torturas mais selvagens, que também lhe valeram um poema de Rafael Alberti.


[A canção de Raimon, a n. 26 na caixa de música, é a versão original, incluída no álbum de 1974, "A Victor Jara".]


Alerta vius, jo sé que si caiguesses
tants anys, molts anys, massa anys et demanaven.
/

Alerta vives, eu sei que se caísses

tantos anos, muitos anos, demasiados anos te pediriam.

Entre els sorolls dels cotxes, del carrer

i de la gent que atrafegada passa,
he vist molt clar que són molts els que lluiten

i que com tu calladament treballen. /
Entre os ruídos dos carros, da rua
e da gente que vai passando atarefada,
vi claramente que são muitos os que lutam
e que como tu silenciosamente trabalham.


T'he conegut sempre igual com ara,

els cabells blancs, la bondat a la cara,

els llavis fins dibuixant un somriure

d'amic, company, conscient del perill.
/

Conheci-te sempre igual, como agora,

os cabelos brancos, a bondade no rosto,

os lábios macios a desenharem um sorriso
de amigo, companheiro, consciente do perigo.


Sense parlar m'has dit "tot va creixent",

lluita d'avui pel demà viu i lliure,

que es va forjant aquests dies terribles,

temps aquests temps de tantes ignoràncies. /
Sem falar disseste "tudo vai crescendo",

luta de hoje pelo amanhã vivo e livre,

que se vai forjando nestes dias terríveis,

tempo, este tempo de tantas ignorâncias.


No m'he girat mentre serè em creuaves,
he sentit fort un gran orgull molt d'home,

no em trobe sol, company, no et trobes sol
i en som molts més dels que ells volen i diuen. /
Não me voltei enquanto quando sereno te cruzaste comigo,

senti forte um grande orgulho de homem,
não estou sozinho, companheiro, não estás sozinho

e somos muitos mais que os que eles querem e dizem.

Aquest meu cant és teu, l'he volgut nostre;

aquest meu cant és teu, l'he volgut nostre.
Alerta vius, jo sé que si caiguesses

tants anys, molts anys, massa anys et demanaven.
/

Este meu canto é teu, qui-lo nosso,

este meu canto é teu, qui-lo nosso,

Alerta vives, eu sei que se caísses

tantos anos, muitos anos, demasiados anos te pediriam.


T'he conegut sempre igual com ara.

Conheci-te sempre igual, como agora.



É uma crónica histórica: passado é o feito, não a sua explicação. Tal como a belíssima factura qualitativa de decassílabos navegando sobre uma melodia que extrai de "Veles i Vents". Não podemos dizer o mesmo, por exemplo, de temas como os que Víctor Manuel fez inspirando-se noutros líderes comunistas contemporâneos e companheiros de López Raimundo como Dolores Ibárruri ou o dirigente mineiro asturiano Horacio Fernández Inguanzo, que já foram compostas utilitariamente e sem pretensões a resistir ao tempo.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (II)

O motor mobilizador de massas é claramente um elemento definidor do compromisso cívico de Raimon. E estes recitais têm por vezes um valor acrescido tratando-se de actos organizados por militantes de partidos políticos e de organizações sindicais, estudantis, culturais e de movimentos populares para recolher fundos. Raimon, contudo, recusa o partidismo directo e, ainda que desde uma simpatia não escondida pelo ideário comunista, mantém-se transversal a todas as sensibilidades da luta contra a ditadura. Como se dizia naqueles momentos, Raimon era "unitário".

A lista de recitais com esta funcionalidade de acrescento político é extensa. Mas antes de abordá-la convém deixar claro o pressuposto fundamental. Raimon canta a ética, mas sempre a partir da estética, pelo que se emprega bem a frase-mãe, " a estética é a ética do amanhã". Escreveu-a nem mais nem menos que Máximo Gorki, que explica a Revolução soviética a partir do costumismo e conta abundantes detalhes sobre como se lança a faúlha da agitação. O obreiro Raimon é artístico e, em caso nenhum, pretende degradar o produto ou hipotecar o valor qualitativo a favor da conjuntura; nunca produzirá obras para usar e lançar, panfletos musicais, como farão outros artistas. Todas as canções de Raimon aguentam o passar do tempo pelo que dizem e pelo como o dizem, pelo conteúdo e pela forma. Aliás, as que mais transpõem essa linha divisória sustentam-se porque se entrosam na crónica, sem nomes nem datas.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Uma pausa com "Les Hores Guanyades"

Raimon, "Les Hores Guanyades", 306 pp.
Colecção Cara i Creu, nº37, Edicions 62 S.A.
Barcelona, 1983
ISBN 84-297-2007-3


Em 1983, Raimon publica um diário que manteve de 15 de Dezembro de 1980 a 22 de Dezembro de 1981. Entre reflexões, leituras, crónicas do dia-a-dia, encontros com amigos e família, as viagens para apresentações, colóquios, para férias, o assunto central - e fio condutor da narrativa - é a regravação que o cantor estava a fazer de todas as suas canções. A obra resultante foi, como é sabido, o conjunto de 10 élepês que levou o nome "Raimon, totes les cançons", lançado pela editora barcelonesa Belter em 1981.

A maioria das canções de estúdio que podemos encontrar na Integral.2000 dizem respeito a essas gravações. Incluindo a última canção que vos trouxemos.
No artigo anterior aludimos - opinião pessoal - à "roupagem" pouco eficaz da primeira versão de "Inici de Càntic".
É sobre as canções, regravadas, de Salvador Espriu que nos fala Raimon:


"Já estão misturados os dois elepês de Espriu. Estou muito contente com o trabalho do Antoni [Ros Marbá, orquestrador]; ele contou-me que também está contente com a nossa colaboração, que foi muito intensa este mês. As Cançons de la Roda del Temps formam um corpo compacto, brilhante, sem fissuras, sem quebras de qualquer espécie. O outro élepê é um bocadinho mais irregular e dele se destacam muito "He Mirat Aquesta Terra" e "Inici de Càntic". Espriu ainda não as ouviu. Tenho muita vontade de lhas dar a ouvir. Espero "emocioná-lo", porque o resultado artístico, nestes dois discos sobre os seus poemas, é realmente brilhante. O facto de que o Antoni tenha seguido todo o processo de gravação da música instrumental, que o tenha conduzido ele, acabou por conseguir o melhor dos músicos, e isso nota-se no resultado final."
14 de Outubro de 1981

"Salvador Espriu ouviu os dois elepês feitos sobre os seus poemas. Ouvimo-los juntos no seu apartamento no sábado, 14 de Novembro. Desde as 11:30 da manhã até quase às 2 da tarde falámos e ouvimos as canções. A impressão é que lhe agradaram e o surpreenderam positivamente. Vivi uns momentos de emoção. Perante a sua sincera aprovação do que fiz com os seus poemas, senti-me contente, um bocadinho orgulhoso e bastante satisfeito. Por uns instantes senti a alegria de ter feito um bom trabalho."

15 de Novembro de 1981


No próximo artigo retomaremos o livro de Antoni Batista, La Construcció d'un Cant.

domingo, 26 de julho de 2009

Inici de Càntic en el Temple

Como o decorrer do texto deixava entrever, trazemos a canção Inici de Càntic, com letra de Salvador Espriu. É a 25ª canção de Raimon na caixa de música.


Epê onde figura a primeira gravação de estúdio de "Inici de Càntic" (Edigsa, CM 132, 1966), cujos arranjos, a cargo do grande orquestrador Francesc Burrull, soam aquém da urgência do texto, retirando-lhe a sua grandiosidade e reduzindo-o a uma pálida e até quase anedótica imagem da intencionada pelo poeta. Note-se, e isto é uma crítica, que as restantes canções padecem do mesmo. Tentativa de passar a censura? A verdade é que bem diferentes foram as intenções de Raimon ao regravá-las no futuro.


A segunda versão de estúdio, incluída no Lp "Cançons de la Roda del Temps", (Edigsa, CM 164, 1966). Disco integralmente interpretado apenas à guitarra, numa leitura mais condizente com o ritmo e o objectivo do texto de "Inici de Càntic".


CD 6 da Integral.2000

Na impossibilidade de ouvirmos qualquer das primeiras versões de estúdio, partilhamos convosco a versão incluída na Integral. 2000. Pois parecem-nos ser estes arranjos os que mais força conferem ao poema.


Sem servir de desculpa para a nossa incapacidade de traduzi-lo, pensamos que uma escuta atenta pelos desconhecedores do Catalão - essa língua que, dizem amigos, nos soa familiar mas que, ao mesmo tempo, não se deixa agarrar - conseguirá provocar grande impacto. Com certeza algumas palavras nos escaparão, mas a comunicação não depende só dos códigos linguísticos. Também por isso, a canção "há-de ser sustentável, por si".
Eis então o poema:


Ara digueu: "La ginesta floreix,
arreu als camps hi ha vermell de roselles.
Amb nova falç comencem a segar
el blat madur i amb ell, les males herbes."

Ah, joves llavis desclosos després
de la foscor, si sabíeu com l'alba
ens ha trigat, com és llarg d'esperar
un alçament de llum en la tenebra!

Però hem viscut per salvar-vos els mots,
per retornar-vos el nom de cada cosa,
perquè seguíssiu el recte camí
d'accés al ple domini de la terra.

Vàrem mirar ben al lluny del desert,
davallàvem al fons del nostre somni.
Cisternes seques esdevenen cims
pujats per esglaons de lentes hores.

Ara digueu: "Nosaltres escoltem
les veus del vent per l'alta mar d'espigues".
Ara digueu: "Ens mantindrem fidels
per sempre més al servei d'aquest poble".

domingo, 19 de julho de 2009

VIII - Tu que m'escoltes amb certa por (I)

Raimon al IQS
Raimon al IQSDuas fotos do recital de Raimon no IQS
(imagens retiradas, respectivamente, do livro "Raimon - l'Art de la Memòria", de David Escamilla
e do Lp "Cançons de la roda del temps")



O recital no IQS, siglas do Insituto Químico de Sarrià, é uma grande manifestação ao ar livre do movimento estudantil. A ele assistem uns 4 mil estudantes; nenhum acto antifranquista tinha registado uma assistência daquela envergadura. A dimensão política de Raimon ganha penso com o seu papel de líder de massas e de elemento mobilizador. Segundo Josep Benet, "Raimon mobilizava, só a sua presença convocava muita gente, e isso, nos anos sessenta, só ele podia fazê-lo." O IQS é o seu primeiro recital substitutivo dos encontros proibidos. Era o mês de Novembro do ano 1966, mas este novo papel já se tinha começado a desenhar nos seus recitais em Paris, especialmente o que teve lugar no Olympia em 7 de Junho daquele ano, cujo recital, graças à retransmissão pela Rádio Europa N.1, ficou registado nos sulcos discográficos. E com ele também o Grande Prémio da Academia Francesa do Disco.

Raimon canta as "canções de luta" que em Espanha lhe proíbem ou censuram, recria novamente um cenário de reunião tipicamente político, onde o orador transmite mensagens que o público cúmplice consensualiza com o aplauso que interrompe a canção - feito inverosímil na música, que só se explica pela vontade política -, e procura frases que situem na luta as canções, para fechar o ciclo do compromisso.

É o caso da dedicatória de "Inici de càntic" aos universitários, intelectuais e artistas que se encerraram no convento dos Caputxins de Sarrià, em 9 de Março do ano lectivo de 1966, para constituir o Sindicato Democrático dos Estudantes da Universidade de Barcelona (SDEUB), que provocou um mal-estar ao franquismo. Salvador Espriu, autor da letra da canção, era um dos barricados e, como todos, detido e represaliado.

Eu não sou um homem político - confessa Raimon -, apesar do que muita gente quis fazer de mim, mas sou, sim, cidadão de consciência política, sei que existem problemas colectivos. Então, desde o meu ponto de vista e com as minhas canções, tentei sempre pôr a minha actividade ao serviço, em primeiro, da luta contra a ditadura, e depois, a favor da solidariedade, do lado dos oprimidos. Com todas as minhas canções, até com os poemas de Ausiàs March.

domingo, 28 de junho de 2009

VII - Crec que també és ma casa (V)

Ao longo da sua vida, a capacidade de Raimon abrir caminhos não se esgotou. Foi o primeiro a atravessar as fronteiras a cantar em Catalão. Passou dos pequenos espaços para o grande reconhecimento. Sem mais ninguém. Levou as suas canções ao papel pautado e ao livro, que foi prologado pelo que foi, sem dúvida, o maior pensador marxista espanhol, Manuel Sacristán. Foi ele mesmo objecto de um livro de um escritor tão reconhecido como o próprio Fuster. Foi o primeiro a registar a sua obra completa numa caixa, etc. O Raimon pioneiro é uma característica da sua trajectória que começa logo nos começos. Podíamos também falar do Raimon engenheiro de caminhos na temática da sua obra, mas tal levar-nos-ia imediatamente aos seus imitadores, que voluntária e felizmente, não são objecto deste livro. Outra coisa são os que honestamente lhe atribuem a paternidade, como o grupo galego de Bibiano - uma cor de voz belíssima -, Benedicto, Miro Casabella..., e os occitanos que Claude Martí liderava.


Raimon, quando as proibições o não impedem, dá recitais praticamente todas as semanas durante a década que vai de 1965 a 1975. Os circuitos catalanistas e de esquerdas, com o apoio da Igreja, no que concerna a infra-estruturas - paróquias, centros católicos -, organizam uma rede de espectáculos paralela que chega a ser tão forte que os jornais se vêem obrigados a publicar todas as sextas-feiras um programa de actuações estritamente de Canção Catalã. O boom desvirtuará o género e conferir-lhe-á uma conjuntura e um sentido politicamente utilitário que depois, com a chegada da democracia, passará factura aos que eram puros produtos do momento. Raimon sempre se pautou pela chaves estética e comunicação, porque, como então disse o professor Valverde, "não há estética sem ética". Tudo isto fez dele um artista não efémero nem com data de caducidade, que chegou aos nossos dias em plenitude criativa.


Mas se havia hiatos de recitais, as condições não eram boas. Havia braços-de-ferro políticos: era preciso obter permissão ao governador civil, que era, aliás, o "jefe local del Movimiento", o partido único do franquismo, os textos das canções tinham que passar pela censura e a polícia assistia aos concertos e fazia relatórios, que passavam a engrossar as fichas dos organizadores, dos cantores e até, em certos casos, de alguns assistentes. As condições extra-políticas tampouco eram excelentes. Os lugares costumavam estar em más, quando não péssimas, condições, desde frio à ausência de camarins, acústica impossível, e os cantores tinham de trazer ou montar, como no caso de Raimon, um equipamento de som que dava para o que dava. Raimon usava um Shure Vocal Master, que, sendo do melhor que o mercado de equipamentos prêt-à-porter oferecia, não deixava de ser um aparelho de estar por casa. Annalisa era a engenheira de som ad hoc, uma maneira de fazer guerrilha artística contra a ditadura.

Da posição de quem usa uma linguagem artística e quer comunicar artisticamente, Raimon sempre se comprometeu politicamente. Raimon é das esquerdas e de esquerda é o seu meio. São anos convulsos. A ditadura exerce com toda a força o seu poder absoluto, mas encontra cada vez mais abertura no movimento dos trabalhadores, nos estudantes, nos bairros, da Igreja, nos intelectuais e nos trânsfugas que querem reinar depois de morrer.


Muitos representantes destes sectores vão aos recitais de Raimon; Raimon canta e diz em poucas palavras e em público o que muitos deles pensam. Por isso, alguns dos seus recitais terão na altura uma funcionalidade que substitui a dos comícios proibidos. Determinadas frases, nas quais Raimon exprime a sua capacidade de síntese, marcam posições e funcionam como palavras de ordem: "Mãos dos que matam, duras; / mãos limpas dos que mandam matar"; "Não creiamos nas pistolas"; "a minha língua maltratada"; "quem perde as origens, perde identidade"... E a "Digamos não", praticamente à cabeça, como "Quando pensas que acabou".

Mas, para lá disso, Raimon assume compromissos directos. Canta para recolher fundos para partidos, presos políticos, sindicatos... Um daqueles primeiros recitais, que supunham um acto reivindicativo e solidário, seria o que fez no Instituto Químico de Sarrià, em 1966.