Manuel del Arco conduz uma entrevista ousada. Raimon também aposta forte:
- Porque é tão caro ouvir-te aqui, ainda que agora o faças gratuitamente?
- Para mim é uma questão de burocracia.
- Papéis, carimbos e autorizações?
- Sim; assinaturas e permissões que nunca chegam a tempo, ou que simplesmente não chegam.
- É assim tão perigoso o teu idioma?
- Pode ser uma questão de opiniões; eu acho que não. Se Espanha é Europa, não vejo porque possa cantar em Catalão em França, Itália, Alemanha, tanto em actuações públicas como em televisão, e, aqui pareça estranho o meu idioma; muito mais se ouvido em salas de teatro.
- Será pelo que dizes?
- Na canção há uma censura prévia; quer dizer, que o que eu vou cantar em público é examinado antes pela autoridade competente. Não fujo às normas estabelecidas no país; não ajo fora da lei.
- Esta tua postura não prejudica a tua actividade artística?
- Se te referes ao facto de não cantar em Castelhano, não creio que isso seja limitar-me. Cantar numa língua minoritária não significa automaticamente um público reduzido. Dou um exemplo, sem sair da canção: Theodorakis canta na sua língua e é conhecido em todo o mundo. Aparentemente podia dar a impressão de que para sermos conhecidos deveríamos cantar todos em Inglês; mas eu acredito que em toda a criação artística, em geral, a qualidade impõe-se sobre as facilidades que a quantidade possa oferecer. (...)
- Mas tu cantas para exibir as tuas faculdades artísticas ou para expressar-te como jovem do teu tempo?
- Penso que as minhas possíveis faculdades artísticas são-no enquanto possam contribuir, como jovem deste tempo, para a radical transformação de uma sociedade que não queremos. A arte pode ser também maneira de interpretar o momento histórico que se vive.
- Procuras que te rotulem de cantor de intervenção?
- Quem conhece as minhas canções pode ver que fujo às etiquetas. Penso que o homem é muito mais coisas que uma canção de amor ou de denúncia por sistema. Mais, tento que nada do que nos preocupa como homens fique de fora das minhas canções. É tão importante para mim o homem só em sua casa como o homem da rua com os outros; o que, traduzido em canções, quer dizer que uma canção lírica ou uma canção civil ou colectiva têm o mesmo valor. Se alguém me rotula assim é de má fé.
- Não te sentes profissional da canção, ainda que vivas dela?
- Sim, em relação à responsabilidade e ao que supõe lutar por uma maior perfeição e rigor no meu ofício concreto, que é a canção. Ao mesmo tempo que me preocupo em conhecer toda uma cultura própria que, em certa medida, se me foi ocultada na escola; por exemplo, a mim ninguém me disse, quando estudava literatura espanhola, que Quevedo tinha traduzido poemas de Ausiàs March; fiquei a sabê-lo ao ler um livro de Martín Riquer. O que nos demonstra que noutros tempos o contacto cultural entre as diferentes culturas peninsulares era muito mais aberto e fecundo que nos nossos dias.
- Outros, que começaram como tu, vão cedendo. Não temes ficar sozinho?
- Em princípio, a solidão não me afecta. Logo, o que estou a fazer é o que estou a ser e a sentir. E depois, as dificuldades que isso possa comportar não são argumento suficiente para que eu mude a minha forma de estar no mundo.


















