Joaquín Nogueras, capitão general em Barcelona, distingue Raimon com esta carta endereçada ao governador civil, com data de 10 de Maio de 1972:
Não remeto outras referentes aos acontecimentos em torno do dia 1º de Maio, pese a abundância de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo; profusão de gritos subversivos nos quais se atenta directamente contra o Chefe do Estado, etc., por considerar, não devo imiscuir-me nas funções próprias de V.E., nem muito menos julgar, que o endurecimento das acções subversivas registadas se deve à impotência das Forças de Ordem Pública, ou a uma actuação consciente e calculada, em função de directrizes recebidas.
No entanto, o conteúdo, e o claro significado, das duas Notas que se juntam não pode ser ocultado, nem deixado sem aclaração, aos Quadros Profissionais do Exército.
Os gritos "Viva Catalunha Indenpendente", e a atitude perfeitamente definida de 400 pessoas que atentam contra a unidade da Pátria, aproveitando um acto autorizado por este Governo Civil; a alusão concreta a organismos militares da Região, são factos que afectam directamente as Forças Armadas e, portanto, não posso, nem quero, manter-me passivamente à margem.
Por conseguinte peço a V.E., se achar por bem, que me informe, discretamente, das razões que levam a permitir a actuação do cantor Raymon (sic), mesmo sabendo que, sistematicamente, estas actuações são aproveitadas por elementos contrários à Unidade da Pátria. E então, se se adoptou alguma medida em relação ao dito cantor e se se efectuou alguma detenção de elementos organizados.
Por outro lado, considero de elevado interesse que me comunique se, com os meios policiais disponíveis de V.E., julga possível averiguar a origem e a organização distribuidora da propaganda subversiva intitulada Terrorismo e Direitos. Alerta! apreendida inicialmente no Hospital Clínico e na Faculdade de Medicina.
Tudo isto, com vista a eventuais acções que me veja obrigado a tomar em função e desde o ponto de vista da jurisdição da Justiça Militar.
Deus Guarde V.E. por muitos anos.
Barcelona, 10 de Maio de 1972.
O Capitão General, Joaquín Nogueras.
Perante uma pressão tão forte e evidente da máxima autoridade militar, o governador, Tomás Pelayo Ros, responde por carta que Raimon está proibido. Num novo ofício que chega à Brigada Social, onde Raimon está classificado, disse-se, como "Catalano-separatista" e as designações nominais dizem extactamente: Ramón Pelegero Sanchis, ou "Raimon".
O Governo Civil aguenta um par de anos a proibição absoluta, apenas furada por organizadores com imunidade, como a Igreja e a Universidade, e, havendo sorte, abre mão impondo três restrições importantes. Para poder cantar, Raimon tem de ser contratado por um empresário registado, disponibilizar os valores e certificados de ingressos bancários e consultar a Direcção Geral de Segurança, em Madrid.
Nestas situações tão precárias, Raimon atira-se de cabeça com o recital do Palau dels Esports. Pede a Oriol Regàs que seja o empresário de coarctada. Regàs, apesar de ter prestado diversas ajudas à oposição, é considerado pelas autoridades franquistas um frívolo proprietário de salas de jogo, o Bocaccio e o Maddox, e um restaurante de luxo, o Via Venero, que eles frequentam. Oriol Regàs tem apenas um antecedente por fechar tarde o Bocaccio e de nele ter pouca luz, facto que propicia comportamentos "lascivos". A autoridade deixa passar e o novo Governador Civil de Barcelona, Rodolfo Martín Villa, que é inteligente o suficiente para perceber que o certificado de óbito de Franco sê-lo-á também do seu regime político, quer ter um pé no futuro. Martín Villa é o dubitativo Hamlet. Não pode autorizá-lo para ficar bem com os que o nomearam, mas tem de fazê-lo porque ainda é jovem e ainda tem muita carreira política pela frente.
Autoriza-o, mas chama ao seu gabinete Raimon e Annalisa para intimidá-los e responsabilizá-los por tudo o que possa acontecer. A chamada é coerciva: "O governador diz que venham os dois". Annalisa pregunta: "Quando?". Respondem "Já". Raimon aguenta o sermão e diz-lhe que ele apenas pode ser responsabilizado pelas canções, e por nada mais. E sai.















