domingo, 28 de junho de 2009

VII - Crec que també és ma casa (V)

Ao longo da sua vida, a capacidade de Raimon abrir caminhos não se esgotou. Foi o primeiro a atravessar as fronteiras a cantar em Catalão. Passou dos pequenos espaços para o grande reconhecimento. Sem mais ninguém. Levou as suas canções ao papel pautado e ao livro, que foi prologado pelo que foi, sem dúvida, o maior pensador marxista espanhol, Manuel Sacristán. Foi ele mesmo objecto de um livro de um escritor tão reconhecido como o próprio Fuster. Foi o primeiro a registar a sua obra completa numa caixa, etc. O Raimon pioneiro é uma característica da sua trajectória que começa logo nos começos. Podíamos também falar do Raimon engenheiro de caminhos na temática da sua obra, mas tal levar-nos-ia imediatamente aos seus imitadores, que voluntária e felizmente, não são objecto deste livro. Outra coisa são os que honestamente lhe atribuem a paternidade, como o grupo galego de Bibiano - uma cor de voz belíssima -, Benedicto, Miro Casabella..., e os occitanos que Claude Martí liderava.


Raimon, quando as proibições o não impedem, dá recitais praticamente todas as semanas durante a década que vai de 1965 a 1975. Os circuitos catalanistas e de esquerdas, com o apoio da Igreja, no que concerna a infra-estruturas - paróquias, centros católicos -, organizam uma rede de espectáculos paralela que chega a ser tão forte que os jornais se vêem obrigados a publicar todas as sextas-feiras um programa de actuações estritamente de Canção Catalã. O boom desvirtuará o género e conferir-lhe-á uma conjuntura e um sentido politicamente utilitário que depois, com a chegada da democracia, passará factura aos que eram puros produtos do momento. Raimon sempre se pautou pela chaves estética e comunicação, porque, como então disse o professor Valverde, "não há estética sem ética". Tudo isto fez dele um artista não efémero nem com data de caducidade, que chegou aos nossos dias em plenitude criativa.


Mas se havia hiatos de recitais, as condições não eram boas. Havia braços-de-ferro políticos: era preciso obter permissão ao governador civil, que era, aliás, o "jefe local del Movimiento", o partido único do franquismo, os textos das canções tinham que passar pela censura e a polícia assistia aos concertos e fazia relatórios, que passavam a engrossar as fichas dos organizadores, dos cantores e até, em certos casos, de alguns assistentes. As condições extra-políticas tampouco eram excelentes. Os lugares costumavam estar em más, quando não péssimas, condições, desde frio à ausência de camarins, acústica impossível, e os cantores tinham de trazer ou montar, como no caso de Raimon, um equipamento de som que dava para o que dava. Raimon usava um Shure Vocal Master, que, sendo do melhor que o mercado de equipamentos prêt-à-porter oferecia, não deixava de ser um aparelho de estar por casa. Annalisa era a engenheira de som ad hoc, uma maneira de fazer guerrilha artística contra a ditadura.

Da posição de quem usa uma linguagem artística e quer comunicar artisticamente, Raimon sempre se comprometeu politicamente. Raimon é das esquerdas e de esquerda é o seu meio. São anos convulsos. A ditadura exerce com toda a força o seu poder absoluto, mas encontra cada vez mais abertura no movimento dos trabalhadores, nos estudantes, nos bairros, da Igreja, nos intelectuais e nos trânsfugas que querem reinar depois de morrer.


Muitos representantes destes sectores vão aos recitais de Raimon; Raimon canta e diz em poucas palavras e em público o que muitos deles pensam. Por isso, alguns dos seus recitais terão na altura uma funcionalidade que substitui a dos comícios proibidos. Determinadas frases, nas quais Raimon exprime a sua capacidade de síntese, marcam posições e funcionam como palavras de ordem: "Mãos dos que matam, duras; / mãos limpas dos que mandam matar"; "Não creiamos nas pistolas"; "a minha língua maltratada"; "quem perde as origens, perde identidade"... E a "Digamos não", praticamente à cabeça, como "Quando pensas que acabou".

Mas, para lá disso, Raimon assume compromissos directos. Canta para recolher fundos para partidos, presos políticos, sindicatos... Um daqueles primeiros recitais, que supunham um acto reivindicativo e solidário, seria o que fez no Instituto Químico de Sarrià, em 1966.

terça-feira, 31 de março de 2009

O mais esquecido dos mais importantes




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Algum dia teríamos que tropeçar no Luís Cília...

terça-feira, 10 de março de 2009

VII - Crec que també és ma casa (IV)

Um lugar muito especial para Raimon é o Palau de la Música Catalana. A sede do Orfão Catalão é o centro da vida concertística da capital e do país, até mesmo de Espanha, como o testemunham as estreias e primeiras audições que constam nos seus anais; nenhum outro teatro ou auditório do Estado pode igualá-las. No Palau se ouviram pela primeira vez entre nós monumentos capitais da história da arte do som, como a Paixão segundo São Mateus, ou a Missa em Si menor, de Bach; a Missa Solemnis, de Beethoven... Mas frente ao busto de Beethoven que preside à boca do cenário, há o de Josep Anselm Clavé, o símbolo da música popular. Todas as músicas, sem distinção adjectiva, conviveram na Palau, a "casa dos cantos", como o qualificou Joan Maragall.

Raimon e o Palau têm uma relação muito especial. Desde o seu primeiro recital, em 1967, que ficou registado em disco, até à série, também gravada, de 1997, passando para o outro lado do limiar do século. Nos meses de Novembro e Dezembro de 2000, Raimon edita a Nova Integral e faz sete actuações no Palau, num cômpto geral de 15 mil espectadores, depois de um primeiro no Teatre Principal de València. O último dia do Palau, 2 de Dezembro, celebra o seu sexagésimo aniversário; em companhia dos amigos mais especiais, com pastéis e champanhe.

Raimon inventa o "recital" à catalã, mas já fora pioneiro noutros âmbitos. Editou um disco de longa duração musicando um poeta, no caso Salvador Espriu e as Cançons de la Roda del Temps, encomendou a capa do mesmo a Joan Miró, o que também é novo. Tal como o é, no mesmo disco, incluir um texto de um intelectual da talha de Joan Fuster. O mesmo Espriu também comentará a sua obra [de Raimon], excepção que não abria. Tudo junto com a clara intencionalidade de resgatar a canção popular de um submundo e de um subgénero para a erguer em pleno no plano aberto da cultura. Nesta mesma direcção segue o trabalho com músicos dos considerados clássicos, para acabar de vez, no campo próprio, com equívocos conservadores que entendiam que tudo aquilo não era bem música.

quarta-feira, 4 de março de 2009

VII - Crec que també és ma casa (III)

A proximidade de Gispert e de Pi de la Serra facilita a mudança de registo. Annalisa, para quem é ainda mais complicado, aprende Catalão com uma rapidez insólita e cedo ambos farão parte da paisagem barcelonesa com toda a naturalidade. No que diz respeito ao trabalho, é só andar um bocadinho e labutar. Raimon começa a trabalhar e a projectar a sua obra criativa. São anos muito activos, e tê-lo-iam sido bem mais se a ditadura não fizesse tudo o possível para que fosse ao contrário.

Em 1965 tem uma actuação que será fundamental na trajectória do cantor e da música popular. Actua pela primeira vez sozinho na Aliança del Poble Nou e baptiza-a de "recital". A canção de autor tinha nascido contra a corrente que era a da música ligeira ou moderna - assim é como se qualificava o espaço fora da[música] clássica -; e isso passava-se na Europa, até em França, que era de alguma maneira a célula-mãe daquele embrião. As actuações dos artistas adscritos a esta corrente eram muito precárias, faziam parte de espectáculos de variedades e variados e, se eram específicos, era raro encontrar um programa com apenas um cantor.

A canção ainda não tinha encontrado o termo mais adequado e já Raimon inventava o "recital". É uma palavra cheia de conotações poéticas, de quando a poesia se escrevia mais para ser recitada que lida, ou seja, com uma componente sonora baseada na vocalização e na inflexão de letras e sílabas, na rima, nas figuras de estilo com funções sonantes, como a aliteração ou o ritmo. A poesia tinha uma componente musica e Raimon e os seus colegas o que vinham trazer de diferente com o seu meio era que os seus textos diziam alguma coisa, eram uma forma de literatura.

Raimon é o primeiro a usar o termo "recital" para um espectáculo de canção. Se bem que tenha restringido o número dos participantes, conserva a pluralidade e fá-lo com dois ou três, Ovidi Montllor e Pi de la Serra, sobretudo. Depois actuará cada vez mais sozinho.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Foi há 22 anos que ficámos órfãos

Imagem, reduzida, retirada daqui.


Vejam bem como as rádios, os jornais e, por arrastamento, nós, te esquecemos...

Vinde hoje enlaçados e de mãos dadas, rádios e jornais, que o mal está feito.
A cada dia que passa.

Não sejais hipócritas.
Não procureis alibis.

Se ao menos se esquecessem de ti apenas neste dia que hoje passa...
Se ao menos cobrissem de silêncio o teu nome neste dia que passa...

A excepção e a regra, não é?

A AJA tem reunido os discos onde surgem canções que cantaste ou compuseste.
Imagina só? Contam-se pelos dedos de muitas mãos...
E, sim, ainda estamos a desenterrar do buraco negro este disco, aquele disco...

Como tu, que gravaste uns disquitos,
parece que não damos muito valor a isso.

Pois não.
174 discos não têm qualquer peso nas rádios que nos dão música.
A música do entretenimento, do esquecimento, do não-pensamento.

Mas alguém se lembra de ti.



[Sabemos que é difícil - devido a questões contratuais, logísticas e outras que tais que podem ser resumidas em jogos de interesses e propriedades - reunir todas as canções que José Afonso gravou em nome próprio em nossa casa.
E sabe-o melhor quem já tentou.

Isto pode relançar a sempre procastinada - a quem vamos pedir contas? Ao governo? Não? Mas devíamos... - necessidade de reunir - conjugando esforços, ou se elas - as editoras - preferirem, interesses - toda a obra numa edição actual, contextualizada, disponível, renovável, reeditável... caramba! como os livros de bolso dos clássicos!!!

Como aqui há uns anos fizeram com o Carlos Paredes e com o Luís Goes
(adeus Valentim de Carvalho, que com a tua morte nos levaste o que é nosso...
a propriedade é um roubo! Percebeis agora o que Proudhon quis dizer com isto?) e hoje já não é possível...

Como em 94 fizeram com a obra do Adriano.

Como em países desenvolvidos se faz,
países que têm a dignidade de restituir o valor e a verdade históricas ao que na cultura de um povo deve ser indelével, inabalável, respeitado...

Olhemos para a França.
Sim, Jacques Brel era belga. Está todo disponível.
Georges Brassens... está disponível.
Léo Ferré... Está disponível.

E nem quero falar de Jacques Dutronc... disponível.

Olhemos aqui ao lado.
Raimon está vivo, sim. E tem a obra integral, regravada, é certo. Disponível.
Paco Ibañez, vivo, sim. E tem os discos todos disponíveis.
Lluís Llach, vivo, sim. E tem a obra toda disponível.
Serrat, vivo. Disponível. (Mau era! Aqui ao lado eram capazes de derrubar um governo se lhes tirassem o Serrat...)

E já nem falo de cantores menos conhecidos como Labordeta, Xavier Ribalta...

Sim, Pi de la Serra, cantor maldito... a esse nunca lhe farão justiça.
Não há justiça que lhe chegue...


E nós, tristinhos da silva, a carcomer a memória.
A rádio e os jornais, que, como canta o Zé Mário, um dos Pi de la Serra de cá (o outro é o Luís Cília...) "são pagos com bom dinheiro", ajudam-nos a devorar o nosso próprio corpo.
...]


Portugal:
Há quantos anos a vilipendiar a História?
Com que direito?
Quem?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

VII - Crec que també és ma casa (II)

Os ítens especiais da "Cançó de la mare" são, em primeiro lugar, a saída do lugar e do seu entorno afectivo. Raimon dá o passo de sair do ecossistema que o tinha configurado e que temos visto forma parte do seu imaginário; não podia ser doutra forma, se damos o justo valor que a infância tem na criação da personalidade. Se Vázquez Moltalbán, um dos grandes amigos de Raimon, costumava explicar o trauma que supôs para ele, nascido no bairro de Raval, cruzar a Gran Via sem sair da mesma Barcelona, pensemos no salto à vara que supõe passar de uma povoação rural e secular muito longínqua, à grande conurbação metropolitana, numa época em que as distâncias ainda não se tinham encurtado graças às comunicações aéreas, do asfalto, do ferro, ou do cabo.

Em segundo lugar, encontramos um corpo ideológico definido pela recusa da injustiça em manifestações já concretizadas em "Diguem no" como o medo, o sangue e a fome. E a definição inequívoca de dizê-lo na sua língua, com a expressão "maltractada llengua" que se tornará numa referência verbal de que a sociedade se apropriará e a fará popular. Tal como a célebre frase "qui perd els orígens, perd identitat". Uma apropriação sem dúvida indevida, mas que, ao contrário do plágio, encoraja as suas vítimas: que há de mais bonito que dar por popular uma frase própria?
Raimon faz uma declaração de princípios sobre o Catalão a pensar nas intenções de genocídio linguístico do franquismo, mas fá-lo quando o monolinguísmo como característica fundacional da Nova Cançó começa a ser questionado e transgredido. A partir de um ponto de vista alargado, a reflexão de Raimon sobre a língua vai mais além, tem uma profundidade mais ampla. "A língua é o meu possível patriotismo", escreve em Les hores guanyades. "É um activo que encontras sem ter procurado, como a família ou o lugar onde nasces, e isso informa-te o pensamento". Raimon fala da língua como algo quase pré-natural e, sem dúvida, pré-político, não meramente instrumental.

Finalmente, um terceiro elemento da "Cançó de la mare", que se liga ao primeiro, é a inscrição cívica em Barcelona. O significado de "irmãos" estende-se para lá do significado biológico, como se estende também o de "casa".

Quando Raimon e Annalisa chegam a Barcelona para aí se instalarem, ficam uma semana na Pensión Antibes, muito perto da Monumental, um lugar frequentado pelas quadrilhas de toureiros, e a seguir encontram um piso no passeio de Maragall, um último piso não muito grande mas que bem guarnecido que depois será duplex graças a uma pequena escada e que consome pouco espaço, e que contrapesa o ruído com muita luz e uma vista para a belíssima quinta renascentista Torre Llobeta e, ao fundo, para o parque do Turó de la Peira, quando ainda era uma monte com pinheiros, isso sim, no mais rançoso nacionalcatolicismo, coroada por uma cruz enorme. Viverão em Maragall até 1978.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

84 anos

Foto retirada daqui

[Ao lado podemos ouvir "Canto de Rua",
na gravação ao vivo em Frankfurt, em 1983,
acompanhado por Fernando Alvim]


Que são 84 anos?

Enquanto houver formas de reprodução do teu legado sonoro,
enquanto houver sensibilidade no coração das gentes,
enquanto os novos que trazemos ao mundo sentirem em ti algo distinto e tão nosso,
enquanto o tempo passar sem ficarmos indiferentes...

Quando te ouvimos, amigo
(tu tratavas toda a gente por amigo...)
É algo que fica no fundo,
Como uma pedra atirada ao poço durante a nossa infância,
E nós, demasiado pequenos, não podemos ir lá tirá-la.

A água marítima e fluvial desta terra saberá sempre ao que espelhaste em nós,
Tu que extraíste delas, água e terra,
- com a tua "pequena música", dizias -,
a sua humidade e o seu respirar,
o sentir das pessoas que as atravessavam,
os dias de trabalho,
os queixumes da vida,
inquietações...

As ruas dessas cidades litorais, fluviais,
antigas como a memória indizível de um povo, de um lugar,
como os torvelinhos da história...


84 anos não são nada, Carlos.
Sabemos que ficarias contente por saber isso.
E eu e nós aqui to dizemos:
Vamos continuar a sentir a força da tua respiração,
nos mil dedos com que tocavas a tua inseparável companheira.

Parabéns, Carlos.
Ainda és uma criança.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

VII - Crec que també és ma casa (I)

A "Cançó de la mare" é das que têm valor acrescentado no repertório de Raimon. Há nela uma síntese de vivências pessoais e uma manifestação ideológica; formalmente, em plena primeira etapa, quando Raimon cultiva a força do grito e do acordo, esta peça, datada de 1965 - fase da qual estamos a falar - endereça os versos e, sobretudo, põe-nos numa melodia muito bem construída, que terá continuidade enriquecedora, especialmente a partir de "Veles e vents".


["Cançó de la mare" é uma canção capital na obra e sensibilidade raimoniana.
É a 24ª canção na caixa de música ali ao lado.
A versão que podemos ouvir foi editada em 1968, no disco abaixo representado.
Escusamo-nos de traduzir estas simples e profundas palavras. Porque não é necessário.
Se escutada com atenção, não é necessário.]

Cançó de la mare / Diguem no (SG, Discophon - 1968)


O texto desta canção, cujo título exacto é "He deixat ma mare", é o que se transcreve.

He deixat ma mare
sola
a Xàtiva al carrer Blanc.
Ma mare que sempre
espera
que torne com abans.

He deixat germans i amics
que em volen
i esperen, com ma mare,
que jo torne com abans.

He vingut ací
perquè crec que puc dir-vos,
en la meua estimada llengua,
paraules i fets
que encara ens agermanen.

Paraules i fets
que encara ens fan sentir
homes entre els homes.

Paraules i fets
que encara ens agermanen
en la lluita contra la por,
en la lluita contra la sang,
en la lluita contra el dolor,
en la lluita contra la fam.

En la sempre necessària lluita
contra el que ens separa
i ens fa sentir-nos
a tots nosaltres estranys.

He deixat ma mare
i els meus germans.

He deixat els amics i la casa
i tots els que esperen
que jo torne com abans.

I crec que he fet bé.
I crec que he fet bé.

Jo sé, jo sé, jo sé, jo sé, jo sé
que tornaré al carrer Blanc.

Però ara ací,
Però ara ací,
crec que també és ma casa,
i crec que puc dir-vos,
amb el cor obert,
a tots vosaltres: germans.

Germans.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

VI - En tu estime el món - (V)

Se em "Si un dia vols" há uma referência à fusão amor/combate, "ainda é forte a luta / e há tanto por fazer", há um título onde confluem num conjunto: "De nit a casa, junts". Esta canção, composta em 1969, sai pela primeira vez num disco de duas músicas, um simples, com "Veles e vents"; um disco importante datado de 1970 [cuja capa aqui reproduzimos].

Veles e vents / De nit a casa (SG, Discophon - 1970)


A 10 de Fevereiro de 1969, (faz hoje 40 anos), o regime do general Franco decreta um "estado de excepção", situação jurídica discutível que restringia ainda mais os escassos direitos limitados pela legislação. A arbitrariedade das detenções não tinha compensação, a polícia podia entrar em casa sem permissão judicial, o período de detenção alargava-se, etc. Segundo Alfaya i Sartorius em La memoria insumisa, apenas três dias após a proclamação do estado de excepção daquele ano que encerrava a década dos teoricamente "felizes" anos sessenta, havia 329 detidos, 96 pessoas em liberdade condicional, 56 à disposição dos tribunais militares e outras 62 à disposição dos tribunais civis. Um mês depois, o número de detidos chegava aos 715. Em "De nit a casa, junts", Raimon descreve um serão tenso de espera pelos temíveis agentes da Brigada Social. É uma canção necessariamente carregada de subentendidos e de cumplicidade com quem a ouve. Fica claro que Raimon e Annalisa aguardavam a polícia e faziam-no na sólida solidariedade do par.

Raimon faz esta ponte amor/luta na Integral. Depois desenvolverá este tema em "Quan creus que ja s'acaba", do mesmo ano de 1969, mas esta foca-se já mais no plano da luta. O assunto é a chegada da polícia. [Raimon alinhou-as: são as faixas 2 e 3 do 3º disco da Integral 2000, as mesmas versões que podemos escutar ali ao lado] Em "De nit a casa, junts"[23ª canção na caixa de música], diz:


I de nit a casa, junts /
E de noite em casa, juntos
Escoltàvem la música, /
Escutávamos a música,
De nit a casa, junts. /
De noite em casa, juntos.

I serenament esperàvem /
e serenamente esperàvamos
que d'un moment a l'altre /
que de um momento para o outro
l'ascensor es parés al nostre pis /
o elevador parasse no nosso piso.


E em "Quan creus que ja s'acaba" [22ª canção para ouvir], diz:


Potser una nit /
Talvez uma noite
l'ascensor que sempre puja /
O elevador que sempre sobe
es pararà al teu pis, /
pare no teu piso,
i tu i jo haurem d'obrir, /
e tu e eu teremos de abrir,
i jo i tu, impotents front a la nit /
e eu e tu, impotentes face à noite
- haurem d'obrir - /
- teremos de abrir -:
aquesta vella, odiada nit /
esta velha, odiada noite.



A noite volta a assumir um duplo sentido, o estrito da situação e o mais amplo da metáfora à ditadura. A reflexão "Quan creus que ja s'acaba, torna, / torna a començar" ("Quando pensavas que tinha acabado, / começa outra vez"), exposta nos versos iniciais, dá a entender que depois do rasgo de esperança de 1968, que Raimon expõe explicitamente em "18 de maig a la Villa" por duas vezes, e das mobilizações populares de 1969, o franquismo retoma a mão mais dura e o regime aguenta, uma vez mais, servindo-se da repressão. (...) Raimon teve sempre a pretensão clara de comunicar tão amplamente quanto o possível. Ele explica-o assim:


Fazer canções de amor é difícil, e para além disso, a mim sempre me deu vergonha publicá-las. O que posso dizer e que, ainda que possa ou não haver uma componente autobiográfica, não são temas pessoais. Posso dizer que mais que um casal me disse se ter apaixonado ouvindo canções de amor minhas, coisa que me parece magnífica; agrada-me.


Aquele ano mais que duro, o país ouvia estas canções, segundo o rânquingue de audiência: "Cenicienta", de Fórmula V; "Mi carro", de Manolo Escobar; "Himno a alegria", de Miguel Ríos (e do pobre Beethoven), e "El baúl de los recuerdos", de Karina. Salomé, depois de "S'en va anar", vencia o Festival da Eurovisão que se tinha celebrado no Teatro Real de Madrid com o tema "Vivo cantando"; mas vencia num estranho ex aequo de quatro insólitos primeiros prémios. Este subproduto, assinado por Aniano Alcalde e M. José de Ceratto, ilustra o que eram as canções de amor em voga:

Cuantas noches vagando
por mil caminos sin fin
Cuantas noches callando
cuanto te quise decir.
Una profunda esperanza
y un eco lejano me hablaba de ti.

Desde que llegaste
ya no vivo llorando,
vivo cantando
vivo soñando,
sólo quiero que me digas
qué está pasando,
que estoy temblando
de estar junto a ti.

Desde que llegaste
ya no vivo llorando,
vivo cantando,
vivo soñando,
pero me pregunto
que tu amor hasta cuándo
podré guardarlo
muy dentro de mí.


Quanto mais não fosse, a secreção incontinente de gerúndios é o retrato daqueles anos de tantos e tantos atestados policiais infestados deste tempo verbal. Salvador Espriu negou-se a assinar uma declaração à esquadra enquanto não lhe convertessem os gerúndios em conjugações menos funcionais.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Uma pausa com... "Raimon al Palau"

A 28 de Janeiro de 1967, ou seja, há mais de 41 anos atrás, Raimon actuava no Palau de la Música Catalana. A internacionalização estava feita. No ano passado fizera o seu primeiro Olympia, inaugurando a visita de cantores da Nova Cançó àquela mítica sala parisiense. Como saberá quem tem acompanhado "A Cantiga...", destes concertos resultaram dois elepês.

Hoje, já dia 28 de Outubro de 2008, ouvi pela primeira vez "Raimon al Palau" (e, no momento em que escrevo, ainda apenas uma). Instalado na solidão de um sofá nocturno, as espiras do vinil (porque não existe em digital...) desvelaram o pó dos anos de esquecimento e ausência, anos de isolamento e de silêncio. Contudo, não foram senão 26, os anos, pois é quanto chega a idade do ouvinte. Porque, defende o mesmo, egocentricamente, de certa maneira as coisas só passam a existir quando delas se toma conhecimento.




E como foi possível um disco assim, de um cantor voz de um povo, voz do Povo, a quem foram erguidas muralhas de dificuldades para se exprimir, para estar vivo entre os seus semelhantes... como foi possível? Já não foram a tempo as autoridades...

Em Paris Raimon apresentava as suas canções com breves palavras na língua gaulesa. E cantava, claro. Em Barcelona Raimon apenas cantou. Em Barcelona, o seu silêncio entre as canções que cantou foi mais forte, mais expressivo, pesado e comunicativo que quaisquer palavras introdutórias que pudesse dizer. Porque o Poder, sente-se no ar, não deixava poder.

Que tem de tão especial um cantor que - ele o admitia! - mal sabia tocar guitarra? Quanta carga histórica pode transmitir, por entre este frio que nos emperra, a sua voz e o seu grito?
Fora até numa língua desconhecida, incompreensível, e, sim, senti-lo-íamos. Se não conseguimos extrair significado das palavras, podemos sempre sentir a força com que são proferidas. A mágoa e o sentimento de injustiça cristalizados no grito de Raimon não pode deixar-nos indiferentes. Há nele a força da luta e da esperança, a esperança "que faz ninho" nas pessoas que o escutam e com ele partilham o tempo e o lugar em que lhes calhou viver.

E é isso o que chamaria desde logo a atenção do iniciado ao ouvir uma canção de amor como "Si un dia vols". Como pode uma canção de amor despertar tão calorosas e audíveis reacções por parte das pessoas? Isso acontece quando as palavras dizem muito mais que aquilo que podem dizer. Em Raimon, amor e luta são indivisíveis.

É preciso vivê-lo. E essa será a melhor - e única, talvez - forma de estar em perfeita comunhão com o comunicador. Quando as palavras nem precisam de ser pronunciadas para se fazerem ouvir, para nos fazerem sentir o seu peso.

Comparando-o agora, em "Recital de Madrid", testemunho sonoro também de capital importância, o clima é denso, sim. Raimon fala. Em Castelhano, é certo. Mas fala. Nota-se que muitas barreiras tinham sido já ultrapassadas, que a experiência e as vezes sempre contavam para fazer caminho.

Em "Recital de Madrid", apesar do silêncio, do respeito e da atenção que Raimon conseguia arrancar ao público quando falava

- e o exemplo mais impressionante disto que expressamos está na introdução a "Qui ja ho sap tot" (a 21ª canção, ali ao lado), que nos faz sentir, a determinada altura, que Raimon está ali mesmo, a meio metro de nós, a falar com o tom de voz normal...
... e o público, ao rebentar em gritos e aplausos, vem para nos lembrar que Raimon está perante cerca de 20 mil pessoas! Seria possível isto, hoje? Seria possível tamanha fusão de emissor e receptor, hoje? -

sente-se uma frescura de liberdade para ler os textos - por vezes integrais - das canções, nomear certas pessoas, dizer certas coisas, dar certa entoação ou amplificar as palavras mais importantes.

Em "Raimon al Palau", o clima é tenso. Emblemática e em toda a máxima força, enriquece-se plenamente de sentido a canção "Diguem no", que repete e com a qual encerra o concerto. Sob o silêncio e o ruído forte dos aplausos e das vozes, as outras, as mesmas, que estão perante ele.
E aqui mesmo, perante nós, no disco que agora falou.
Sem dizer mais nada.


(Agora que estamos juntos
Direi o que tu e eu sabemos
E que amiúde esquecemos.

Temos visto o medo
ser lei para todos.
Temos visto o sangue
- que só faz mais sangue -
ser lei do mundo.

Não,
eu digo não
Digamos não.
Nós não somos desse mundo.


Temos visto
a fome
ser pão para muitos.
Temos visto
fechados na prisão
homens cheios de razão.

Não,
eu digo não
Digamos não.
Nós não somos desse mundo.
)

domingo, 14 de setembro de 2008

VI - En tu estime el món - (IV)

O punho fechado a dar título a um tema de amor e representado no final ilustra a ideia que Raimon tem que a vida, nos seus motivos mais elevados, dificilmente se pode dividir em compartimentos estanques que respondem pela terrível etiqueta que classifica e separa. Para Raimon, poesia lírica e poesia cívica vão juntas, amor e luta são um só; e para revelar a chave da claridade, intitulou Cançons d'amor, cançons de lluita ao segundo disco da Integral e os seus recitais que inauguraram o Teatro Grec em 1999. A propósito deste acontecimento, explicava assim a relação amor-luta:

É um binómio que sempre cantei, mas no sentido mais amplo das duas palavras. Não há amor sem luta e não há luta sem um certo tipo de amor. Há uma história concreta, não apenas contra a ditadura, mas contra esta espécie de cama em que sentes que te estão a pôr para que não penses em nada; há esta tensão, e há este amor não apenas de tipo individual mas de tipo colectivo. Numa das últimas canções que fiz escrevi estes versos: "Sozinho e acompanhado, provei ser útil / com canções de amor, com canções de luta". E para citar os dois autores que mais musiquei, a maioria da poesia de Ausiàs March, por um lado, são poemas de amor, e grande parte da reflexão de [Salvador] Espriu sobre o amor e a luta juntos. De forma que o título pode englobar muito do que tenho vindo a fazer e do que penso continuar a fazer.

O tema a que se refere, onde figura explicitamente o dualismo positivo, que acaba com velhos maniqueísmos, chama-se "Animal d'esperances i memòria", e estreou-o nos recitais do Grec. Esta canção versa sobre o que está por trás do laço covalente que propõe. O amor solidário no próprio par, já antecipada em "En tu estime el mon", que projecta a individualidade - "amb tu sé que sóc més lliure" ("contigo sei que sou mais livre") - e o contexto da luta, produto uma vez mais de uma reflexão intensa. Raimon enuncia qual é o denominador comum dos muitos numeradores concretos nos quais se revela: os limites. E deixa a palavra "limites" sozinha entre pontos, para que na sua nudez contemplemos a sua magnitude. Limites à liberdade, limites que normalmente não se podem transgredir, limites pessoais que não sabemos ultrapassar. A canção, por outro lado, tem dois momentos que, mesmo que não citem, evocam Espriu, nos versos finais; onde Espriu é a referência mais clara que Raimon tem da temática cantada. Evoca-o também pelo acróstico; ao poeta agradavam-lhe estes jogos de letras (e os três últimos versos de "Però en la sequedat arrela el pi", que Raimon canta, as primeiras letras, lidas na vertical, dizem "morte"). Raimon escreve o seu nome e o de Annalisa, para isso se destacam a negrito.


["Animal d'esperances i memòria" é das minhas canções preferidas de Raimon, a qual desfaz por completo, se dúvidas houvesse, a ideia de que Raimon é um cantor panfletário ou tópico nos textos que musicou e cantou. É a 20ª canção na caixa de música, extraída da Integral. Edició 2000, e gravada em 31 de Janeiro desse ano, em Lleida, no Auditori Enric Granados.]


Animal d'esperances i memòria
No he volgut ser humà d'altra manera,
No he volgut ignorar i resignar-me
A ser, poc més poc menys, com una fera.
Límits, conec molt bé tants i tants límits.
I visc pugnant contra aquests límits. Límits.
Sol i acompanyat prove de ser útil
Amb cançons d'amor, amb cançons de lluita.

Inventari incomplet de temps i vida.

Refaré aquells camins que vaig fer sol
Ara que amb tu sé que sóc més lliure.
I amb les últimes ratlles del dibuix
Miraré el mar, escoltaré els meus morts,
Ombres estimades que en mi habiten.
Negaré decepcions, continuaré esperances.

/

Animal de esperanças e memória
Não quis ser humano de outra forma
Não quis ignorar e resignar-me
A ser, pouco mais ou menos, como uma fera.
Limites, conheço muito bem tantos e tantos limites.
E vivo pugnando contra estes limites. Limites.
Só e acompanhado provei ser útil
Com canções de amor, com canções de luta.

Inventário incompleto de tempo e vida.

Refarei os caminhos que fiz sozinho
Agora que contigo sei que sou mais livre.
E com os últimos esboços do desenho
Olharei o mar, ouvirei os meus mortos,
Sombras estimadas que em mim moram.
Negarei decepções, prosseguirei esperanças.


[O jornalista e grande estudioso da Nova Cançó Jordi García Soler chamou uma vez à atenção para o primeiro verso. A escolha das palavras é intencional, frisou. Assim, quando Raimon canta

"Animal d'esperances i memòria" (Animal de esperanças e memória)

a frase é homófona de

"Anem mal d'esperances i memòria" (Estamos / Vamos mal de esperanças e memória)

Pareceu-me bem acrescentar esta interpretação aqui, se bem que Antoni Batista a ela não aluda, porque me parece fazer todo o sentido.]

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

VI - En tu estime el món - (III)

Fica, daqueles dias longos, um testemunho de fora da vida artística, o de Artur Sagués, que então estava em Xábia a gerir um restaurante. Artur tinha cuidado (...) com Annalisa e procurava manter um equilíbrio entre a boa cozinha, a cozinha surpreendente e a cozinha de regime. Artur lembra aqueles dias em Xàbia, em que os Raimons iam jantar ao seu restaurante. Os Raimons também estimam Artur de uma maneira especial, e têm seguido o seu percurso de incansável andarilho da gastronomia.

Nos momentos mais complicados , quando a incerteza se juntava ao próprio mal-estar corporal, Raimon tomou partido em três recitais no Palau de la Música. Naquela convocatória, Raimon cantou "Com un puny", a canção em que Annalisa é retratada mais intimamente. A emoção impediu que o último agudo, no qual a canção pára, chegasse sem se desenhar. Fechou o punho erguido como sempre faz ao acabar esta canção e encaminhou-se ao camarim porque aquela emoção se condensara.

[Eis "Com un puny", a 19 canção de Raimon na caixa de música. É a versão que gravou no disco homónimo dos 40 anos do primeiro concerto no Olympia]


Quan tu te'n vas al teu país d'Itàlia /
Quando te vais para Itália

i jo ben sol em quede a Maragall, /

E eu, sozinho, fico em Maragall,

aquest carrer que mai no ens ha fet gràcia /

Esta rua que nunca nos fez rir

se'm torna el lloc d'un gris inútil ball. /

Torna-se-me num lugar cinzento de uma dança inútil.


Ausiàs March em ve a la memòria, /

Ausiàs March vem-me à memória,

el seu vell cant, de cop, se m'aclareix, /

o seu velho canto, de repente, torna-se-me claro,

a casa, sol, immers en la cabòria /

em casa, sozinho, imerso na preocupação

del meu desig de tu que és gran i creix: /

do meu desejo de ti, que é grande e cresce:


"Plagués a déu que mon pensar fos mort

E que passàs ma vida en dorment". /

"Quisesse deus que o meu pensar estivesse morto

E que passasse a minha vida a dormir."


Entenc molt bé, desgraciada sort, /

Percebo muito bem, infeliz sorte,

l'última arrel d'aquest trist pensament, /

a última raíz deste triste pensamento,

el seu perquè atàvic, jove, fort

jo sent en mi, corprès, profundament. /

sinto profundamente em mim

o seu porquê atávico, jovem, forte.


Al llit tan gran d'italiana mida /

Na cama de medida tão italiana
passe les nits sentint la teua absència, /
passo as noites sentindo a tua ausência

no dorm qui vol ni és d'oblit la vida, /

Não dorme quem quer nem a vida é de esquecimento,

amor, amor, és dura la sentència. /

amor, amor, é pesada a pena.


Quan tu te'n vas al teu país d'Itàlia /

Quando te vais para Itália

el dolor ve a fer-me companyia, /

a dor vem fazer-me companhia

i no se'n va, que creix en sa llargària, /

e crescendo não me deixa,

despert de nit somou, somort, de dia. /
acordada de noite e presente de dia.

Em passa això i tantes altres coses /

Acontece-me isso e tantas outras coisas

sentint-me sol que és sentir-te lluny; /

sentindo-me só que é sentir-te longe;

ho veig molt clar quan fa ja cent vint hores /

vejo-o claramente quando já passaram cento e vinte horas

que compte el temps que lentament s'esmuny. /

que conto o tempo que lentamente se desliza.


Vindrà el teu cos que suaument em poses /

Virá o teu corpo que suavemente pousas

en el meu cos quan ens sentim ben junts, /

no meu corpo quando nos sentimos bem juntos,

i floriran millor que mai les roses: /

e florirão melhor que nunca as rosas:

a poc a poc ens clourem com un puny. /

a pouco e pouco nos fecharemos como um punho.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

VI - En tu estime el món - (II)

As primeiras canções de amor e ausência são um acto notarial de namoro e contactam já com Ausiàs March, especialmente com "Veles e vents". Como que, uma vez encetada a relação, Annalisa viajará a Itália muitas vezes, para ver a família, Raimon continuará a alimentar a covalência poética "amor-distância", que atinge a sua máxima expressão em "Com un puny", canção, curiosamente, construída mais em paralelo à versificação de Ausiàs March, mas disso falaremos mais adiante. De qualquer forma, a distância evocada em "Com un puny" - e em "T'ho devia", "Quan te'n vas", "L'unica seguretat" - é diferente da de "Si un dia vols" - e da de "No sé com" e "En el record encara" -; enquanto que em "Com un puny" há a certeza do regresso, em "Si un dia vols" Raimon quase grita na angústia da incerteza.

Raimon esforça-se para tornar a relação possível. Cartas e uma viagem em cima do joelho, o último trunfo, quando se acaba o serviço militar. Vai a Roma expressamente para ver Annalisa, mas regressa sem atingir o resultado esperado. O tempo passa e quando está a dar por mortas as expectativas que lhe restavam, Annalisa responde. Encontram-se num lugar idóneo para estas questões, Paris, em Junho de 1966. E casam-se dois meses depois. Queriam fazê-lo por civil, mas a papelada era complicada e obrigava-os a uma apostasia oficial. Raimon não é crente, mas sempre respeitou e não quer passar por aquilo. Casa-os um capelão amigo de curso de Annalisa, numa cerimónia breve.

Em Les Hores Guanyades, com a sua extraordinária capacidade de síntese, posta à prova canção a canção, Raimon descreve tudo aquilo, um autêntico big bang semtimental, com uma enorme poupança enérgica de palavras:

Em Março ou Abril de 1966, e de Paris, escrevi-lhe, numa última tentativa e com a ideia resignada que tinha conhecido a mulher que me tinha feito homem entre os homens, mas que não tinha sido possível. Com grande e agradável surpresa, responde-me e ficámos a viver juntos em Paris, em Junho. Ela chegou e decidimos viver juntos. Casámo-nos em Agosto de 1966. Desde então ficámos inseparáveis e amámo-nos muito. Amamo-nos muito e compreendemo-nos.

Passaram praticamente quarenta anos e tudo continua como dantes. Uma história pouco vulgar, recolhida nas canções de amor, todas elas pensadas para a mesma mulher. Foram as primeiras que quis gravar ao elaborar a obra completa. Era um projecto insólito e inédito nos anais da cançó, e desbravar caminhos não é fácil e, ainda por cim, é insegura. Raimon não sabia se podia chegar a terminá-la e, não fosse o caso, assegurou-se de que os temas não se tinham composto sem Annalisa ficassem prontos.

Annalisa é fundamental na vida de Raimon, e na sua obra, não só na inspirada directamente nela. Annalisa deixa o seu país e o seu meio e empenha a sua criatividade profissional para que o artista cresça. É muito mais que o que, neste campo, se conhece como mánager; supera este termo por cima, porque tem capacidade de decisão estratégica sobre a abordagem da carreira do cantor, e passa por baixo, porque tem a responsabilidade das coisas mais simples que alguns mánagers não têm de fazer, desde o acompanhamento nas actuações menos espectaculares até à aprovação final das equipas de som. Annalisa, uma todo-o-terreno, faz tudo. A defesa dos interesses de Raimon também lhe requereu não fazer sempre boa cara nem assentir por sistema, e, como Annalisa é culta e educada, e tem formação em Direito, mas é irredutível como os gauleses de Asterix quando os seus interlocutores interpretam os papeis dos romanos!, e é encarada pelos que apenas a conhecem superficialmente como uma pessoa de dureza.

Mas nos momentos mais difíceis desta relação não foram os profissionais, que os houve, porque são ambos obstinados na hora de defender aquilo em que acreditam. Sem qualquer espécie de dúvida, o pior momento foi a doença de Annalisa, longa e com momentos complicados, que felizmente superou. Raimon mudou os seus hábitos, até aprendeu a conduzir ,apesar de detestar o volante, e procurou sempre que Annalisa tivesse companhia, as mínimas preocupações para lá das inevitáveis da saúde, e as máximas distracções e as pequenas satisfações quotidianas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

VI - En tu estime el món - (I)

As primeiras canções de amor que Raimon comporia datam de 1965. E enumera-as: "Cançó d'amor núm. 1: En tu estime el món", C"ançó d'amor núm. 2: Treballaré el teu cos", "Cançó d'amor núm. 3: Si un dia vols", e "Cançó d'amor núm. 4: No sé com". Com a primeira e "En el record encara" edita um disco simples e canta-as frequentemente nos concertos, porque a ditadura não está para brincadeiras e censura as temáticas mais sociais.

O Epê "Cançons d'Amor" (1965, Edigsa)

[A canção que dá título a este capítulo,
"En tu estime el món",
é a 18 canção de Raimon na caixinha de música.
A versão que podemos ouvir foi extraída da Integral. Edició 2000.]


En tu estime el món,
la terra i la gent d'on véns,
en tu estime.

I sé que en tu és més fort el dolor
i més intensa l'alegria de viure,
i és en tu on creix la vida
i és en tu on em sent lliure.

En tu estimaria fins i tot
l'absurda vinguda de la mort,
i és en tu que estime
les dolces dimensions del teu cos.

En tu estime el món,
la terra i la gent d'on véns,
en tu estime, en tu,
perquè a tu t'estime,
en tu, en tu, en tu...

/

Em ti amo o mundo,
a terra e a gente de onde vens,
em ti amo.

E sei que em ti é mais forte a dor
e mais intensa a alegria de viver,
e é em ti onde cresce a vida
e é em ti onde me sinto livre.

Em ti amaria até
a absurda chegada da morte,
e é em ti que amo
as doces dimensões do teu corpo.

Em ti amo o mundo,
a terra e a gente de onde vens,
em ti amo, em ti,
porque te amo a ti,
em ti, em ti, em ti...


Um ano antes tinha conhecido Annalisa Corti. Há aqui uma relação de causa-efeito e uma relação pessoal que dura até hoje e que até hoje se materializou em dezassete temas, recolhidos no disco Les Cançons d'amor (1999).
Raimon e Annalisa conheceram-se em Outubro de 1964. Era amiga de amigos e achou-se a recepcioná-la no aeroporto de Manises uma tarde livre do serviço militar. Passaram alguns dias a encontrar-se. Ambos estavam, nas palavras de Raimon, "meio embrulhados", mas mais ela que ele, porque Raimon mudaria rapidamente de rumo e poria o leme em direcção ao porto de Óstia. Annalisa nasceu em Óstia em plena II Guerra Mundial. Tinha então vinte e dois anos, tinha mesmo acabado concluir o curso de Direito e era militante do Partido Comunista Italiano.

Amor e ausência combinam poeticamente muito bem, e Raimon espremeria o binómio nos textos mencionados, enquanto reabilitava um género que era castigado e maltratado pela canção mais comercial. Amores e amizades tinham sido o leitmotiv da música popular e quando parecia mesmo que aquilo era um processo de degradação irreversível, entra Raimon no espaço da mais difícil intimidade lírica e devolve realmente o nome a cada coisa, para dizê-lo espriuanamente.

domingo, 7 de setembro de 2008

V - Caminant, amics (X)

Pi de la Serra, com intencionalidade compartilhada com o autor, quando a cantava mudava uma rima:

"una cançó tan pura
que pugui passar censura" /
"uma canção tão pura
que possa passar a censura".

E o público rebentava em aplausos. "Bon temps per a fer cançons" pertence ao disco "Triat i Garbellat", de 1971, com comentário de Joan Oliver e um trio bluesístico brilhante formado pelo próprio Quico, Manolo Elías e Toti Soler.

Raimon fez de facto bons amigos entre os músicos que tocaram com ele ou que fizeram arranjos das suas canções. Michel Portal, Manel Camp, Joan Figueres, Josep Pons e Antoni Ros Marbà são os melhores exemplos.
Que fique para a história deste género da canção, que dois dos melhores directores de orquestra, os maestros Antoni Ros Marbà e [Josep] Pons, figuras maiores quando se fala nas orquestras sinfónicas Real Filharmonia de Galícia e Nacional de Espanha, que deixaram de tocar piano há muitos anos (quando o substituíram por um instrumento mais leve como a batuta, que, na verdade, traz mais sonoridade...) tocaram piano nos trinta anos de "Al Vent" para acompanhar Raimon e fizeram-no em disco. Naquele acontecimento que requer várias menções, Pons toca "Veles e vents" e Ros Marbà "Cançó del pas de la tarda", com poema de [Salvador] Espriu.

sábado, 6 de setembro de 2008

V - Caminant, amics (IX)

Pi de la Serra e Ovidi Montllor partilharam com Raimon muitos recitais e com o primeiro, sobretudo, travou uma grande amizade, que se materializou noutros aspectos para lá de partilhar muitos cartazes: Raimon escreveu o prólogo do livro de canções de Quico e a letra de um tema, "Bon temps per a fer cançons", assinada com o pseudónimo "Ramon Xiquet". É um facto invulgar que Raimon escreva para outro, o que acrescenta valor ao texto. Fê-la assim, sob a epígrafe "Letra escrita, à maneira de Pi de la Serra, no dia 25 de Janeiro de 1969".


[A canção é de uma simplicidade de génio! Uma nota em relação ao idioma catalão, pautado por muitos monossílabos e - como já tiveram oportunidade de ouvir - uma sonoridade muito portuguesa. Menciono isto - em jeito de regresso às lides, para não entrar logo a quente - porque a tradução pode ser necessária aqui ou ali. Virá após a letra original, então, para tirar uma ou outra dúvida com que fiquem. Como não podia deixar de ser, o refrão (ou espécie de...) é a melhor demonstração das possibilidades da língua, dos monossílabos e - neste caso - da comunicação da mensagem escondida. ]


Francesc Pi de la Serra - Triat i Garbellat


[A 17ª canção de Raimon na caixa de música, cantada e interpretada portanto por Pi de la Serra, "Bon temps per a fer cançons", é a original, extraída do excelente álbum Triat i Garbellat, de 1971]


Sembla que és ara bon temps
per escriure una cançó
que parlarà dels dos,
que parlarà de molts.
Una cançó que ens diga
que avui la pluja és antiga,
una cançó d'amor
- és de mal gust el dolor.
Una cançó tan pura
que pugui passar per dura.

La cançó us la vaig a dir
sense disparar cap tir.
Avui el cel és molt gris,
bon dia per a fer-se el trist.

Plou poc, però pel poc que plou, plou prou.

La ràdio diu: demà sol,
i quan ella ho diu, fa sol.
La gent va al seu treball,
sols arribar els ve un badall.
Qui pot fa la viu-viu
com a mínim fins a l'estiu.

Bon temps per a fer cançons
que ens parlin de les passions,
de les passions que desvetlla
un lluent cul de botell.
I perquè no m'avorriu
callaré sens dir ni piu,
com a mínim fins a l'estiu.

Plou poc, però pel poc que plou, plou prou...


/


Parece que este é um tempo bom
para escrever uma canção

que falará dos dois,

que falará de muitos.

Uma canção que nos diga
que hoje a chuva é antiga,

uma canção de amor

- a dor
é de mau gosto.
Uma canção tão pura

que possa passar por dura.

A canção vou dizer
sem disparar qualquer tiro.

Hoje o céu está muito cinzento,

bom dia para ficar triste.

Chove pouco, mas para o pouco que chove, chove demais.


A rádio diz: amanhã sol,

e se ela o diz, há sol.
A gente vai para o seu trabalho,

só o chegar já enche.

O que pode vai vivendo

pelo menos até ao Verão.


Bom tempo para escrever canções
que nos falem de paixões,

das paixões que desperta

o cu brilhante da garrafa.

E para que não vos aborreça

vou me calar sem dar um pio,

pelo menos até ao Verão.

Chove pouco, mas para o pouco que chove, chove demais...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Recital de Madrid - Reedição

Olá, amigos.

Marcamos o regresso às lides com a notícia de que o disco do mítico "Recital de Madrid" (editado originalmente em 1976, pela Movieplay) foi recentemente reeditado (ou seja, neste ano de 2008). A reedição anterior datava de 2005, realizada, tal como a presente, pela Fonomusic, actual detentora do catálogo daquele importante selo.

A única diferença parece ser o formato da embalagem, que é um digipak, bem mais engraçado e apelativo. Segue a tendência de reedições que a Fonomusic tem vindo a realizar. Entre outros títulos já disponíveis contam-se a edição do também mítico concerto de Lluís Llach, "Gener 1976", o segundo álbum de Amancio Prada, "Rosalia de Castro", o primeiro e único álbum de Daniel Vega, "La noche que precede la batalla", "Ahí ven o Maio", do galego Luís Emílio Batallán, o Lp mais vendido em Espanha no ano de 1970, "Silencio", de Adolfo Celdrán, ou as reedições de Labordeta incluídas na caixa da obra quase completa "Cantar y No Callar".

Tal como a nossa equipa "Do Tempo do Vinil" vai fazendo, a Fonomusic não pára de nos dar motivos de interesse. Para manter a memória bem viva!

E com esta pequena informação antecipamos o regresso à biografia de um dos cantores mais importantes de todos os tempos: Raimon.
A seguir.

domingo, 4 de maio de 2008

V - Caminant, amics (VIII)

Raimon tem também um tema dedicado a Joan Miró, com uma reiteração da expressão muito intencionada d"um vermelho inflamado" sobre um ostinato de guitarra. Apresentou-os, no ano de 1964, o jornalista Alberto Oliveras no restaurante Barcelonne de Paris, que além de oferecer um comer tipicamente espanhol, oferecia também flamenco para os turistas. Depois de jantar, Raimon agarrou na guitarra e cantou-lhe um par de canções. Um mês depois, Miró enviou-lhe uma litografia dedicada e propunha fazerem algo juntos; Raimon pensou na capa das Cançons de la roda del temps.

Apesar da diferença de idades - comenta o cantor -, o contacto com Miró seria permanente, não sei se chamar-lhe de amizade. Fez-me uma capa para outro disco, publicado no Japão, enviou-me uma litografia belíssima a Xátiva, falávamos muito, nem sempre, mas sempre que nos víamos. Tenho por ele uma grande admiração.

No mundo real, no que parece mais fácil fazer amigos, é muitas vezes o mais difícil. De qualquer forma, Raimon congregou energias positivas em toda a parte na comemoração dos trinta anos de "Al vent"; o uruguaio Daniel Viglietti, autor de "A desalambrar", um dos hinos universais das ideias progressistas, disse-o: "Isto é uma família". Deste lugar conservou Raimon muito próxima, na lonjura transoceânica, a amizade de Pete Seeger, um dos pais da canção folk mais comprometidos e que popularizou as canções de luta dos republicanos na Guerra Civil espanhola - tinha-as recuperado García Lorca, mas com letras revolucionárias -, que ele conheceu através da Brigada Lincoln de voluntários norte-americanos contra o fascismo.

Conheci o Pete - lembra Raimon - no ano 1970, nos Estados Unidos, mas já tinha ouvido discos dele, claro. Interessava-me muitíssimo a folk-song que se tinha desenvolvido a partir de Woody Guthrie, muito amigo de Pete. Tive a sorte de cantar a seu lado e quando pude trouxe-o a cantar a Espanha. Veio a minha casa. Proibiram-no de cantar em Barcelona, com um enorme destacamento de polícias, mas pôde cantar em Terrassa, em Sevilha e Donostia.
A amizade com Pete está viva hoje em dia, telefonamos um ao outro, e quando um ou outro viaja estamos juntos e falamos muito. Para mim, Pete Seeger é um exemplo, não do ponto de vista estético, porque ele é, digamos, muito norte-americano, e as suas coordenadas artísticas são muito diferentes das minhas. Mas tenho-o como exemplo de como usar a canção e de estar nela com uma dignidade enorme.

Menos longe que Seeger, encontramos o basco Mikel Laboa, com o qual mantém uma relação enriquecida também pela admiração mútua. Raimon não esquece a anedota simples de um restaurante no Monte Igeldo, sobre Donostia, ao qual Mikel tinha levado Raimon para comer umas fantásticas amêijoas, que muito o entusiasmam... Mas naquele dia tinham acabado! Mikel saiu da mesa, "ya vengo", foi à peixaria e regressou com as amêijoas.

domingo, 13 de abril de 2008

V - Caminant, amics (VII)

Um outro artista amigo, além de Alfaro, para quem Raimon compôs uma canção, é o pintor Joan-Pere Viladecans. Joan-Pere Viladecans e Raimon conheceram-se no ano de 1969, com Salvador Espriu a ligá-los. Viladecans fez a sua primeira exposição, na antiga Sala Gaspar, como desenhos sobre textos das "Cançons de la roda del temps". Depois, Viladecans acabaria por fazer capas de livros de Espriu e unia-os uma muito forte amizade. Espriu considerava Raimon e Viladecans de alguma forma como os seus "filhos espirituais". Raimon cantou assim Viladecans:


[A 16ª canção de Raimon na caixa de música, "Com una mà",
é a versão que podemos encontrar no terceiro disco da Integral de 2000]


Com una mà,
la vida estesa
al teu davant.
A tu es lliurava
sense malícia. /
Como uma mão,
a vida estendida
à tua frente.
A ti se rendia
sem maldade.

Tot aquell temps
t'havia fet
com una mà
la vida estesa. /
Todo aquele tempo
te tinha feito
como uma mão
a vida estendida.

Et capbussaves
de ple, turgent
enmig dels altres,
i xop de món
et veies viu. /
Mergulhavas
fundo, inchado
no meio dos outros
e empapado do mundo
te vias vivo.


Vint anys de temps,
que són no res
-diuen els savis-,
i aquella mà
anà tancant-se
molt lentament
però obstinada. /
Vinte anos de tempo,
que não são nada
-dizem os sábios-,
e aquela mão
irá fechando-se
muito lentamente
mas obstinada.

Retruny ben fort
allò que abans
en deien ànima,
creure no vol
el que el teu cos
avui constata,
exasperada
i aïrada
no es resigna;
espera encara
l'esclat potent
d'aquesta vida.
Segura està. /
Retumba forte
o que antes
chamavam alma,
crer não quer
o que o teu corpo
hoje constata,
exasperada
e desgarrada
não se resigna;
aguarda ainda
a luz potente
desta vida.
Firme está.



"No és Possible el Que Visc" (Lp 1974, BASF), de Pi de la Serra
Capa da autoria de Viladecans.

V - Caminant, amics (VI)

Com os anos, o panorama muda, as caminhadas sedentarizam-se e as noites ruem, mas a ideia informadora da amizade sobrevive e fortalece-se. Na paisagem quotidiana de Raimon em Barcelona há o político Rafael Ribó, o jornalista Enric Sopena e o pintor Joan-Pere Viladecans, entre outros. Este seria um primeiro círculo, já que naturalmente Raimon conhece muita gente e há muitos pontos álgidos de ligação momentânea, mas que pelas circunstâncias não chegam a sedimentar-se. As suas canções ilustram-nos estes episódios. Em "No el coneixia de res" evoca uma estadia intensa com um líder sindical. O anonimato de "A un amic d'Euskadi", datada de 1968, ano em que a ETA perde o seu primeiro militante e executa o polícia torturador mais odiado, indica que poderosas razões de clandestinidade fazem enfraquecer aquela relação. Josep Pla, à distância ideológica mas a partir de um grande respeito mútuo, também acabaria por ser amigo de Raimon se o espaço e o tempo o houvessem permitido. Apesar disso, Raimon guarda boas recordações de Pla e lê-o e relê-o.

Ribó, professor da Faculdade de Ciências Económicas, autor da primeira tese doutoral defendida em Catalão desde 1939, seria secretário-geral do PSUC, deputado e, posteriormente, com a chegada da Esquerda à Generalitat, no ano de 2004, Síndic de Greuges [pessoa nomeada pelo Parlamento da Catalunha para a defesa das liberdades dos cidadãos]. A presença de Ribó na direcção comunista levaria Annalisa a militar durante uns tempos na comissão de cultura, onde se via que Manuel Vázquez Montalbán mandava. Mas foi mais rápida a sua saída que a entrada. Os partidos políticos são intrinsecamente necessários à democracia, mas os seus esquemas de funcionamento são tão obsoletos que, às vezes, não passam de reuniões de vão de escada [espero ter traduzido bem esta passagem...] ; talvez a chama dos movimentos sociais, em torno da altermundialização, os enferruje.

Fosse como fosse, Raimon, que se molhou de política mas soube manter-se seco de políticos, quis evitar que no seu recital comemorativo dos trinta anos de "Al vent" houvesse autoridades nas primeiras filas, que reservou para os amigos. Quando Ribó chegou aos lugares reservados, disseram-lhe não o estavam para políticos, mas para os amigos. Ribó, tranquilo, disse: "Venho como amigo". Passou ele... E depois todos os outros, não haveria discriminações.
Sopena é um dos grandes jornalistas catalães; realizou uma tarefa activa na ajuda à oposição antifranquista e tem a honra, para a história do jornalismo catalão, de ter estado detido para poder dar a exclusiva mais importante da luta antifranquista: a constituição da Assembleia da Catalunha, a 7 de Novembro de 1971. Sopena, depois de ter exercido cargos directivos em diversos meios, na imprensa, na rádio e televisão, pratica com muito bom critério o jornalismo de opinião.

segunda-feira, 17 de março de 2008

V - Caminant, amics (V)

A primeira canção personalizada para um amigo dedica-a a Andreu Alfaro. Alfaro é um dos escultores mais distinguidos que mais escola criaram no panorama espanhol; a sua obra está em espaços e museus de todo o lado e o seu Catalan power tornou-se um símbolo material da esquerda nacional. A amizade com Raimon é também antiga, enraizada e sólida. Alfaro, que vive em Valência, vai a casa de Raimon quando visita Barcelona. Um desenho de sua autoria, feito de um só traço como esboço de uma escultura, de Raimon à guitarra, servirá para ilustrar as suas primeiras convocatórias, legais e clandestinas, de impressão sofisticada e policopiada (...), que respondiam por "Raimon, la veu d´un poble", o título da peça escultórica.
No ano de 1978, Raimon escreve a canção para Alfaro, "Andreu, amic". A paisagem valenciana, imagens muito precisas produto de ter reflectido muito na arte da escultura, e o decassílabo inspirado en Ausiàs:

[A versão de "Andreu, amic" que podemos ouvir, é, não a original, gravada em 79, mas a de 1981. Foi incluída na primeira integral. É a 15ª canção na caixa de música.]

Andreu, amic, torsimany de metalls
d'on ha vingut la força i la vida
que retrobem en la teua escultura. /
Andreu, amigo, intérprete de metais
donde veio a força e a vida
que descobrimos na tua escultura.

Dels ponts del riu i de les pedres velles,
dels clars matins, de la llum dels baladres,
dels teus dos peus de passejades dòcils. /
Das pontes do rio e das pedras velhas,
das manhãs claras, da luz dos loendros,
dos teus dois pés de passadas dóceis.

Carrers estrets i espais poc metafísics,
tot l'entrellat d'una ciutat difícil,
indiferent i secularment puta. /
Ruas estreitas e espaços pouco metafísicos,
todo o emaranhado de uma cidade difícil,
indiferente e secularmente puta.

Del llom del gos la majestat domèstica,
l'angle feroç de vertical segura,
essencials virginitats remotes. /
Do lombo do cão a majestosidade doméstica,
o ângulo feroz de vertical segura,
essenciais virgindades remotas.

Andreu, amic, torsimany de metalls,
eròtic cast de fusta ben antiga,
arribes tu on la paraula es trenca. /
Andreu, amigo, intérprete de metais
erótico casto de tronco bem antigo,
chegas tu aonde a palavra se cala.

De ferro vell i de mesura insigne
-germans de crit- t'he fet aquest poema,
Andreu, amic, torsimany de metalls. /
De ferro velho e de medida insigne
-irmãos de grito- fiz-te este poema,
Andreu, amic, intérprete de metais.



Entre la nota i el so, Lp de 84
Capa com desenho de Andreu Alfaro