domingo, 13 de abril de 2008

V - Caminant, amics (VI)

Com os anos, o panorama muda, as caminhadas sedentarizam-se e as noites ruem, mas a ideia informadora da amizade sobrevive e fortalece-se. Na paisagem quotidiana de Raimon em Barcelona há o político Rafael Ribó, o jornalista Enric Sopena e o pintor Joan-Pere Viladecans, entre outros. Este seria um primeiro círculo, já que naturalmente Raimon conhece muita gente e há muitos pontos álgidos de ligação momentânea, mas que pelas circunstâncias não chegam a sedimentar-se. As suas canções ilustram-nos estes episódios. Em "No el coneixia de res" evoca uma estadia intensa com um líder sindical. O anonimato de "A un amic d'Euskadi", datada de 1968, ano em que a ETA perde o seu primeiro militante e executa o polícia torturador mais odiado, indica que poderosas razões de clandestinidade fazem enfraquecer aquela relação. Josep Pla, à distância ideológica mas a partir de um grande respeito mútuo, também acabaria por ser amigo de Raimon se o espaço e o tempo o houvessem permitido. Apesar disso, Raimon guarda boas recordações de Pla e lê-o e relê-o.

Ribó, professor da Faculdade de Ciências Económicas, autor da primeira tese doutoral defendida em Catalão desde 1939, seria secretário-geral do PSUC, deputado e, posteriormente, com a chegada da Esquerda à Generalitat, no ano de 2004, Síndic de Greuges [pessoa nomeada pelo Parlamento da Catalunha para a defesa das liberdades dos cidadãos]. A presença de Ribó na direcção comunista levaria Annalisa a militar durante uns tempos na comissão de cultura, onde se via que Manuel Vázquez Montalbán mandava. Mas foi mais rápida a sua saída que a entrada. Os partidos políticos são intrinsecamente necessários à democracia, mas os seus esquemas de funcionamento são tão obsoletos que, às vezes, não passam de reuniões de vão de escada [espero ter traduzido bem esta passagem...] ; talvez a chama dos movimentos sociais, em torno da altermundialização, os enferruje.

Fosse como fosse, Raimon, que se molhou de política mas soube manter-se seco de políticos, quis evitar que no seu recital comemorativo dos trinta anos de "Al vent" houvesse autoridades nas primeiras filas, que reservou para os amigos. Quando Ribó chegou aos lugares reservados, disseram-lhe não o estavam para políticos, mas para os amigos. Ribó, tranquilo, disse: "Venho como amigo". Passou ele... E depois todos os outros, não haveria discriminações.
Sopena é um dos grandes jornalistas catalães; realizou uma tarefa activa na ajuda à oposição antifranquista e tem a honra, para a história do jornalismo catalão, de ter estado detido para poder dar a exclusiva mais importante da luta antifranquista: a constituição da Assembleia da Catalunha, a 7 de Novembro de 1971. Sopena, depois de ter exercido cargos directivos em diversos meios, na imprensa, na rádio e televisão, pratica com muito bom critério o jornalismo de opinião.

segunda-feira, 17 de março de 2008

V - Caminant, amics (V)

A primeira canção personalizada para um amigo dedica-a a Andreu Alfaro. Alfaro é um dos escultores mais distinguidos que mais escola criaram no panorama espanhol; a sua obra está em espaços e museus de todo o lado e o seu Catalan power tornou-se um símbolo material da esquerda nacional. A amizade com Raimon é também antiga, enraizada e sólida. Alfaro, que vive em Valência, vai a casa de Raimon quando visita Barcelona. Um desenho de sua autoria, feito de um só traço como esboço de uma escultura, de Raimon à guitarra, servirá para ilustrar as suas primeiras convocatórias, legais e clandestinas, de impressão sofisticada e policopiada (...), que respondiam por "Raimon, la veu d´un poble", o título da peça escultórica.
No ano de 1978, Raimon escreve a canção para Alfaro, "Andreu, amic". A paisagem valenciana, imagens muito precisas produto de ter reflectido muito na arte da escultura, e o decassílabo inspirado en Ausiàs:

[A versão de "Andreu, amic" que podemos ouvir, é, não a original, gravada em 79, mas a de 1981. Foi incluída na primeira integral. É a 15ª canção na caixa de música.]

Andreu, amic, torsimany de metalls
d'on ha vingut la força i la vida
que retrobem en la teua escultura. /
Andreu, amigo, intérprete de metais
donde veio a força e a vida
que descobrimos na tua escultura.

Dels ponts del riu i de les pedres velles,
dels clars matins, de la llum dels baladres,
dels teus dos peus de passejades dòcils. /
Das pontes do rio e das pedras velhas,
das manhãs claras, da luz dos loendros,
dos teus dois pés de passadas dóceis.

Carrers estrets i espais poc metafísics,
tot l'entrellat d'una ciutat difícil,
indiferent i secularment puta. /
Ruas estreitas e espaços pouco metafísicos,
todo o emaranhado de uma cidade difícil,
indiferente e secularmente puta.

Del llom del gos la majestat domèstica,
l'angle feroç de vertical segura,
essencials virginitats remotes. /
Do lombo do cão a majestosidade doméstica,
o ângulo feroz de vertical segura,
essenciais virgindades remotas.

Andreu, amic, torsimany de metalls,
eròtic cast de fusta ben antiga,
arribes tu on la paraula es trenca. /
Andreu, amigo, intérprete de metais
erótico casto de tronco bem antigo,
chegas tu aonde a palavra se cala.

De ferro vell i de mesura insigne
-germans de crit- t'he fet aquest poema,
Andreu, amic, torsimany de metalls. /
De ferro velho e de medida insigne
-irmãos de grito- fiz-te este poema,
Andreu, amic, intérprete de metais.



Entre la nota i el so, Lp de 84
Capa com desenho de Andreu Alfaro

domingo, 16 de março de 2008

V - Caminant, amics (IV)

Raimon valoriza muito a amizade e cultiva-a, como o demonstra o facto de que no seu círculo próximo surjam ainda companheiros de brincadeiras da infância e malandrices da juventude, como Joan i Toerregrossa; outra coisa é que quando a vida se desenvolve as mudanças vêm e determinadas proximidades tornam-se longínquas por diversas razões, que podem ir de simples mudanças de residência até às mais vis dissidências. O peso que outorga Raimon à amizade fica patente em temas como a "Cançon de la mare", na qual os amigos figuram entre os bens mais estimados quando Raimon, para levar avante o seu trabalho, se vê obrigado a partir para Barcelona, numa época en que quatrocentos quilómetros eram uma distância substancial. Depois, en "Molt lluny", onde evoca as primeiras conversas importantes com os companheiros de Xátiva. No memorável recital dos trinta anos de "Al vent", depois desta canção leitmotiv, a primeira que Raimon canta é "Molt lluny". São de "Molt lluny" as palavras que encabeçam este capítulo:

[É com esta canção que ficamos hoje. Em escuta, a versão que gravou pela primeira vez. Está no disco "A Víctor Jara", de 74. É a 14ª canção na caixa de música. Traduzi-a apenas no fim do texto original, sem intercalar idiomas para uma mais fácil leitura e audição.]

A Víctor Jara, Lp Movieplay, 1974


Molt lluny,
en les butxaques d'uns pantalons
vells
que ma mare guardava
-ma mare ho guarda tot-,
he trobat
les nits que ens passàvem
caminant, amics,
pels carrers de Xàtiva.
Parlavem de tot
i del bé i del mal.
Amb poques coses clares:
la incertesa del futur,
l'avidesa d'uns infants.
Les caminades nits d'estiu
les tinc avui al davant.
Amunt i avall...
/
Muito longe,
nos bolsos dumas calças velhas
que a minha mãe guardava
- a minha mãe guarda tudo -
encontrei as noites que passávamos
a caminhar, amigos,
pelas ruas de Xátiva.
Falávamos de tudo,
e do bem e do mal.
Com poucas coisas claras:
a incerteza do futuro,
a avidez de crianças.
As caminhadas noites de Verão
tenho-as hoje pela frente.
Acima e abaixo...

quinta-feira, 6 de março de 2008

V - Caminant, amics (III)

Inici de cântic é um poema bem acabado no qual o autor concentra, na plenitude literária formal, dois dos seus eixos temáticos: a salvação de uma língua que se pensava que não sobreviveria à agressão franquista, e a fé no povo, que era, no seu entender, a forma plural da espécie Homem, medida tangível de todas as coisas. O poeta ficou tão contente pela versão musicada de Inici de Cântic, de facto uma canção poderosa e emblemática, que acabou por alterar a dedicatória: "A Raimon, com o meu agradecido aplauso".

Depois do êxito, Espriu tentou Raimon para que musicasse poemas que ele queria, especialmente os do seu último ciclo, Per a la bona gent, coisa que nem sempre Raimon fez, porque casar letra e música apresenta muitas vezes mais limitações que o casamento canónico. A segunda parte de Per a la bona gent, intitulada Intencions, leva este repto: "Para que Raimon cante intencionalmente, talvez um dia, todos estes versos". Até agora, musicou dois dos dez.

Tema definitivamente espinhoso para ser cantado, por causa das barreiras entre Catalão e Caló, a língua mestiça dos ciganos que Espriu tanto estimava, é Venda i passió de la Melera, que leu para Raimon com entusiasmo. Raimon não o musicou, mas fê-lo com a longa salmodia He Mirat Aquesta Terra, poema XXIV do Llibre de la Sinera, que se juntou à lista dos preferidos do escritor, segundo fez constar no texto incluído na primeira versão da obra completa de Raimon, no ano de 1981. Na Nova Integral. Edició 2000, Raimon conta com vinte e uma canções com textos de Salvador Espriu. O poeta dizia assim do cantor em meados dos anos setenta:

Raimon é um homem que estimo profundamente e por quem sinto uma grande admiração. Penso que no complexo mundo da Cançó é um caso absolutamente único e excepcional. Raimon criou uma obra pessoal muito considerável e dedicou muita atenção à minha poesia, porque, como ele disse, a recolha da minha obra completa é o seu livro de cabeceira. Leu-me tão bem, e leu-me sob as diversas matizes da minha poesia, que, no meu entender, as suas melhores canções, diria mesmo o complexo, não a letra ou a música, foram criadas através dos textos de Ausiàs March, que é o poeta número um da literatura catalã, e através das minhas canções, sobretudo o elepê que dedicou às Cançons de la Roda del Temps, que é simplesmente sensacional.

Raimon contactaria com Espriu até ao fim. Ficou-lhes um projecto bonito por fazer. Em Dezembro de 1984, apenas um par de meses antes da morte do poeta, falavam de um espectáculo Espriu-Raimon, que consistiria em interpretar todas as canções conjuntamente, com uma orquestra sólida e os arranjos de Antoni Ros Marbà, se o maestro pudesse, dirigida por ele mesmo, e uns textos introdutórios a cada uma das canções que Espriu escreveria com esta finalidade, coisa com a qual, Raimon, para lá de cantar, faria de actor, recitando os monólogos. Não houve tempo, a temida Dama à qual Espriu tinha dedicado tanta poesia, precipitou a sua partida.

terça-feira, 4 de março de 2008

V - Caminant, amics (II)

Raimon conheceu Salvador Espriu pelos fins do Verão de 1963. Espriu era um poeta muito reconhecido, isso que se dizia, marimbando-se, um figurão e, como a Raimon lhe fazia espécie abordá-lo directamente, pediu a Joan Fuster que lhe fizesse uma carta de apresentação e assim, uma vez lida, Raimon ligar-lhe-ia para se encontrarem. Foi assim e quando Raimon lhe telefonou deparou-se com uma surpresa: "Admiro-o profundamente", respondeu a nasalada voz do poeta. Raimon apenas tinha gravad um pequeno disco e ainda não o tinha lançado na popularidade o Festival de la Cançó del Mediterrani, mas Espriu, homem de pouca vida na rua mas - podemos dizê-lo - com as antenas viradas para todos os lados, já tinha ouvido aquele Ep e intuia que ali havia material de qualidade.

Espriu tratava de temas que eu compartia, mas ele expressava-os muito melhor do que eu alguma vez pudera fazer - explica Raimon -. Ele era mais conhecido pela poesia social, pela La Pell de Brau, mas a mim o que me interessava era a poesia mais íntima, que alguns consideram a mais fechada ou hermética. Era o lirismo contido de El Caminant i el Mur, ao qual pertencem as Cançons de la roda del temps, que são as primeiras que musiquei. Espriu era um grande poeta.

Ficámos em casa de Espriu, que então ficava no magnífico edifício de Domènech i Montaner, hoje Hotel Casa Fuster, onde o Passeig de Gràcia passa a ser Gran de Gràcia. Falámos desde as oito da noite até às 4 da manhã. Espriu, a austeridade monacal em pessoa, não jantava; Raimon tampouco o fez, mas aceitou um bom conhaque. Temas de conversa, sobretudo poesia, gostos partilhados, como agora [T.S.] Eliot, [Ezra] Pound, [Luis] Cernuda, [Nicolás] Guillén.

Quando o clima já estava criado e foi preciso, Raimon cantou-lhe "Cançó del Capvespre", único poema que tinha musicado até àquele momento. Raimon sabia que La Pell de Brau se tinha tornado num best seller, em género minoritário e língua minoritária, um mérito enorme, mas achava que não era o melhor da obra de Espriu. Mas isso seria aprofundado e partiria para as Cançons de la roda del temps, que fazem parte do livro El Caminant i el Mur, que é lírica pura e dura, e que Raimon interpretaria depois, já com o nihil obstat do autor. Espriu ficou muito contente pela opção pelo mais difícil e aparentemente menos comercial... Tão pouco comercial que, apesar de Raimon ter conseguido um desenho de Joan Miró para a capa [do disco], Edigsa adiou a edição de todo o ciclo para o concentrar num Lp, porque pensavam que nunca venderia. Pois, enganaram-se: as pessoas acabam sempre por se surpreender com as previsões que fazem.

Espriu ficou encantado com as Cançons de la roda del temps e agradaram-lhe tanto que pediu a Raimon que lhe escrevesse um preâmbulo na edição francesa de La Pell de Brau, um desafio, e até que pusesse música a um poema que tinha escrito em 1964 em homenagem a Joan Salvat-Papasseit, "Inici de Càntic", na comemoração do quadragésimo aniversário da sua morte. Espriu, que era muito polido, pôs-lhe uma dedicatória: "Para que Raimon o cante". Um ano depois, Raimon cantava-o, com o seu arranque mais jondo: um "Ai" que junta dois compassos, que é uma das configurações harmónicas mais complexas de toda a obra raimoniana, sete bemóis na armadura, a estranha tonalidade de Dó bemol maior..., que convida a ser interpretada com um transporte subtil para fazer desaparecer a desafinação das mudanças... mas esta é uma guerra para criptógrafos à qual o leitor não qualquer obrigação de ir - como a nenhuma, obviamente.

Edição francesa de Cançons de la Roda del Temps (CBS, 1967)

[A canção para hoje é então a magnífica Inici de Càntic, originalmente incluída no disco com a capa de Miró (1966), aqui reproduzida. A versão que podemos ouvir, a 13ª canção na caixa de música, é a regravação que fez para a primeira integral, de 1981. Se bem que esta não tenha a introdução supracitada, escolhi-a porque penso que os arranjos orquestrais transmitem melhor a tensão e a intenção do poema. Uma última nota para referir que me abstenho de o traduzir. Pelo menos por agora].

Ara digueu: "La ginesta floreix,
arreu als camps hi ha vermell de roselles.
Amb nova falç comencem a segar
el blat madur i amb ell, les males herbes."
Ah, joves llavis desclosos després
de la foscor, si sabíeu com l'alba
ens ha trigat, com és llarg d'esperar
un alçament de llum en la tenebra!
Però hem viscut per salvar-vos els mots,
per retornar-vos el nom de cada cosa,
perquè seguíssiu el recte camí
d'accés al ple domini de la terra.
Vàrem mirar ben al lluny del desert,
davallàvem al fons del nostre somni.
Cisternes seques esdevenen cims
pujats per esglaons de lentes hores.
Ara digueu: "Nosaltes escoltem
les veus del vent per l'alta mar d'espigues".
Ara digueu: "
Ens mantindrem fidels
per sempre més al servei d'aquest poble
".

domingo, 2 de março de 2008

V - Caminant, amics (I)

Manuel Vázquez Montalbán morreu em Bangkok, cenário de um dos seus romances, no dia 18 de Outubro de 2003. Vázquez Montalbán era um dos grandes amigos de Raimon. Vázquez e Anna Sallés, a sua esposa, historiadora, e Raimon e Annalisa viam-se com frequência, tinham jantares juntos, celabrações familiares - aniversários, o doutoramento de Anna, os prémios literários de Manolo... -, viajavam. Sobretudo, falavam, ouviam-se, inquietavam-se e compartilhavam muitas coisas; compartir, este verbo faz com que a própria vida se encare em comum. Raimon e Vázquez Montalbán compartilhavam ideias, maneiras de ver a vida, o gosto pela literatura e a gastronomia. E pela música popular, que Vázquez conhecia ao ponto de ter escrito alguns livros sobre o tema. Bem cedo se interessaria pelo fenómeno do aggiornamento da nossa música popular, e dissertá-lo-ia numa Antologia de la Nova Cançó Catalana. Depois tornou-se patente a sua afeição pela copla e outras variantes da sua língua materna ouvidas na infância e, de facto, escreve o romance com o qual o detective Pepe Carvalho salta para a fama a partir de um bolero cantado por Concha Piquer, "Tatuaje". Tudo isto aproxima-o de Serrat, a quem biografa.
Raimon canta na memória que lhe foi feita na Universidade de Barcelona, em 21 de Outubro de 2003. A Raimon, sempre irónico e simpático, muda-se-lhe a face quando lembra os seus amigos já falecidos, ausências irreversíveis, um vazio que nunca será preenchido. Vázquez Montalbán (1939-2003) foi o último; antes, Joan Fuster (1922-1992), Enric Gispert (1925-1990), Salvador Espriu (1913-1985).

Falou-se muito de Joan Fuster, porque estávamos nos inícios de Raimon e, naqueles tempos, o escritor de Sueca foi uma personagem-chave na sua passagem da História à Canção. Fuster era um multifacetado da cultura, um intelectual completo, um homem do Renascimento, lúcido e lúdico. Desde os seus artigos até à Cátedra de Literatura que ocupou os últimos anos da sua vida, passando pela sua diversa bibliografia, Fuster foi um dos cérebros mais influentes do nosso século XX. Sobre Raimon escreveu bastante, a começar pelo livro que já mencionámos, uma primeira edição com capa, e também fotos no interior, de Oriol Maspons, o número 16 da colecção "Biografies Populars", da Editora Alcides: Raimon era o quarto músico, antecedido por Josep-Anselm Clavé, Victòria dels Àngels e Raquel Meller.
Esta breve lista dá-nos a ideia da popularidade atingida por Raimon, comparável ao fundador dos coros com maior implantação no país, à soprano catalã de voz mais esquisita, à "cupletista" [de cuplet) de maior renome e caché, que tornou tão famosa "La Violetera" que até Charlie Chaplin a lembrou e tem uma estátua no Paral.lel [estação do metro de Barcelona]. Com uma diferença: Clavé e Meller eram história, Victòria dels Àngels tinha acabado de triunfar na inexpugnável fortaleza wagneriana de Beirute, na maturidade vocal, e Raimon era um moço de vinte e quatro anos, com apenas uma dúzia de canções como repertório.
Fuster também escreveu um dos textos de apresentação de Raimon. Totes les Cançons, incluído na reedição do livro de Fuster feita pelas Edicions de la Magrana, no ano de 1988. No fim desse comentário na primeira recolha da sua obra, em discos de vinil, Raimon escreve no diário Les Hores Guanyades este entranhável parágrafo sobre Fuster, datado de 20 de Abril de 1981, no qual entrevemos qual é o seu maior conceito de amizade:

Jantámos com Fuster, em Sueca. Diz-nos que já leva vinte folhas para a apresentação dos vinte anos de Raimon. Assegura-nos que praticamente deixou de escrever artigos para se concentrar na escrita da apresentação. Que dias maravilhosos! A Annalisa e eu sentimo-nos lisonjeados. Se os amigos te estimam e to demonstram, já podem vir os inimigos, que sejam bem-vindos.

De Gispert também se falou. Esperou-o à sua chegada a Barcelona e foi a sombra criativa em todas as suas gravações; Raimon deixou o seu nome nos agradecimentos em tantos e tantos discos, em alguns dos quais interveio muito nos arranjos, como agora na emblemtática "Veles i Vents". Gispert sabia muito de música, mas de música sabiam poucos, para dizê-lo a jogar com as palavras. Falava baixo e apenas quando se lhe pedia. Além dos estudos musicais e de dirigir a grupo Ars Musicae, tinha cursado Direito, mas vivia de uma loja onde torrava café e vendia frutas secas, no bairro da Ribera, que por fim o tornaria mestre da capela de Santa Maria del Mar. Gispert seria director do coro, investigador de música antiga, produtor discográfico e crítico, um grande crítico, o melhor da sua geração, em que competia com inlustres compositores.
Tinha estudado muito o Raimon músico, facto do qual deixou provas no texto que também acompanhava a caixa Raimon. Totes les Cançons, e um tratado sobre o tema foi a última coisa que deixou por fazer. Eram dias de estudo, um seminário sobre a obra de Raimon, organizadas pelo CIC de Terrassa, no âmbito dos cinquenta anos do cantor, na primeira semana de Dezembro de 1990. Gispert, já muito doente, morreria no dia 27 desse mesmo mês.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XVI)

"Al vent" representa uma peça importante na cultura catalã, e por arrastamento noutras culturas peninsulares que se reclamavam da Nova Canção, em geral, e de Raimon, em particular, para dar seguimento a processos creativos neste âmbito. O trigésimo aniversário do lançamento do disco "Al vent" daria a medida certa do Raimon que começou a construir-se a partir daquele tema.

O dia de San Jordi de 1993, na Barcelona fashion pós-olímpica, Raimon continuava a ser muito mais que actualidade: à sua volta organizava-se um dos acontecimentos culturais de maior magnitude em torno da música. No Palau Sant Jordi, sede símbolo dos Jogos, criado por Arata Isozaki, Raimon juntava 18 mil pessoas na plateia e a mais brilhante pléiade de cantores e músicos de qualidade jamais vista num palco. Daniel Viglietti, Joan Manuel Serrat, Paco Ibañez, Luís Cília, Ovidi Montllor, Pete Seeger, Quico Pi de la Serra, Mikel Laboa, Warabiza, Michel Portal, Josep Pons, Antoni Ros Marbà, o Coro Sant Jordi, dirigido por Oriol Martorell, e a banda La Lira Ampostina, que recuperaria o Raimon flautista.

Como documentos vivos deste mega-recital ficaram um vídeo e duas canções do concerto, que estão incluídos no décimo Cd da caixa intitulada Nova Integral. Edició 2000. Os dois temas são "Oh, desig de cançons", que se estreava, e "Com un puny".

O grito da Vespa tinha conseguido o que nenhum outro cantor havia alcançado no mundo mediático. Transmissão em directo pela TV3 na Catalunha e em diferido pela TVE para toda a Espanha. Notícia em todos os diários de Barcelona e, o que é mais significativo, comentários editoriais; estes espaços estão reservados quase exclusivamente para a política, temas internacionais, economia e sociedade. Um cantor merecedor de editoriais no La Vanguardia e no El País foi, efectivamente, um facto jornalístico insólito.

Mas para sintetizar a trajectória de "Al vent" - e a sua circunstância - que se percorre neste capítulo, a peça idónea é o artigo que escreveu no El País (25 de Abril de 1993) Manuel Vázquez Montalbán, amigo íntimo de Raimon. Com ele encerramos este capítulo e começaremos o próximo:

Por um montento consegui sair de mim, da minha presença no Palau Sant Jordi, e vi-me com Salvador Clotas, Martín Capdevilla e Ferran Fullà, os quatro, na escula da prisão de Lérida em 1963, à volta de um pequeno disco em cuja capa aparecia um moço da nossa idade com uma guitarra debaixo do braço, o anúncio de canções como "Al vent" e uma apresentação a cargo de Joan Fuster. Nós, os valencianos, tínhamos por companhia na cela, ao pé de Sweezy, Baran, A estrutura da lírica moderna, Álgebra moderna; cada louco, cada estudante com o seu tema. A voz de Raimon soou presa naquela escola-prisão, mas começou a elevar-se e alcançou para além dos barrotes o voo das andorinhas e a línha imaginária das terras do Segre. Ao acabar "Al vent" percebemos que tínhamos ouvido algo profundamente novo e as vibrações da poderosa voz do valencianismo prometiam partir os vidros da estação e os caixilhos de uma cultura ameaçada pelos inimigos exteriores e pelos amigos que às vezes a asfixiavam por excesso de protecção.

Contracapa de Al vent (1963),
com texto de apresentação de Joan Fuster

Tantas coisas começaram com "Al vent", e anteontem [dia 23 de Abril, dia do concerto] a canção de Raimon mostrou a sua vocação para a eternidade e fez-se novamente a voz do cantor, mas também se mostrou apta a japonesismos e para ser versionada pela a banda [filarmónica] valenciana. O jacobeo de "Al vent" tinha convocado peregrinos de todas as terras da canção e de todas as terras de Espanha. Houve quem trouxesse os seus filhos para que compreendessem de que precárias fontes se alimentava a esperança naqueles tempos em que estar "ao vento" ou "dizer não" te garantia um carimbo, obviamente secreto, de subversivo; mas o surpreendente do recital de Raimon e dos alegres moços companheiros da sua noite liga-se a uma sensação colectiva de que as palavras haverão de se libertar da insustentável leveza do saber e apostar pela descrição da desordem. A nostalgia que se escondeu levemente nos gaseados tectos do palácio catalão-japonês e a comunicação que se estabeleceu na sala capturava por sua vez a consciência, constatação crítica por todas as tentações que tentaram falsificar tantas origens para esconder o obstáculo das identidades.
Ali estava Raimon, no palco, a oxigenar tudo com a sua voz de furacão e o seu silêncio educado por meio de Espriu e Mompou e Serrat a recuperar canções de madrugada fugitivo de ida e volta do Poble Sec [lugar onde nasceu Serrat], fugitivos de ida e volta como todos os que tivemos pátrias de infâncias pequenas e erosionadas. Ali estava Quico a demonstar que tampouco o tempo passou para o "homem da rua", que continua com o seu traje cinzento à espera da ressurreição das almas e das carnes. E Paco, Paco Ibañez a chamar à ordem os políticos e a deixar os "cavalos a galopar" para que enterrassem no mar insuficiências e cansaços democráticos. E Viglietti, que nos lembrou o seu terceiro mundo, o nosso quarto mundo; ou Seeger, que nos ajudou a recuperar a memória de "Ay Manuela!" ou "Ay Carmela!"..., que eram a mesma derrotada, confiante em que as canções contassem a verdade da Vida e da História. Montllor: porque não canta Montllor se canta tão bem como sempre e melhor que antes desse sempre? E Cília, tão necessária a sua voz? Laboa, o musicador essencial.

Quando voltei da prisão de Lérida ao Palau Sant Jordi, não levava em mim o consolo da nostalgia, senão a impressão de que o acto a que assistimos não tinha nada que ver com uma reunião de ex-combatentes ou de ex-presos. Em muitos momentos foi uma reunião intrinsecamente subversiva, ainda que talvez a palavra "subversão" fosse um caligrama da grande reprodução de Miró, que, na retaguarda [um mural fazia de fundo] e à sua sublimada forma, sempre pontou a favor das coisas necessárias. Exacto. Foi um acto necessário de balanço e de "hasta aquí hemos llegado!".


[Encerramos aqui o IV capítulo com o fim deste concerto. A canção é mais que obviamente "Al vent". E que pena não poder dar-vos também a ouvir a original, a de 1963...]


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XV)

Em "Cançó de les mans", Raimon insiste na crítica da pobreza a que são maioritariamente condenados os assalariados. "Mans tan dures / dels que passen fam". E em defesa do direito à vida num país em que se aplicam ou aplicaram sentenças de morte ou se mata com a rapidez cruel da tortura e com a cruel lentidão da prisão: "Mans dels que maten, brutes; / mans fines que manen matar". Passara menos de um ano do fusilamento do dirigente comunista Julián Grimau; eram cinco e meia da manhã de 20 de Abril de 1963, e ainda com as cicatrizes por todo o corpo, consequência de terem-no lançado por uma janela para simular um suicídio que camuflasse as terríveis sessões de tormento.


[A canção de hoje, Cançó de les mans, a décima segunda na caixa de música, é uma das minhas preferidas. A versão que podemos ouvir é de 1968, incluída no disco simples cuja capa reproduzimos.]

De l'home mire
sempre les mans. /
Do homem olho
sempre as mãos.

Mans de xiquet, ben netes,
mans de xiquet que es faran grans.
Mans que en la nit busquen
allò que no troben mai. /
Mãos de miúdo, bem limpas,
Mãos de miúdo que se tornarão grandes.
Mãos que na noite procuram
o que nunca encontrarão.


Mans dels que maten, brutes;
mans fines que manen matar.
Mans tremoloses, eixutes,
mans tremoloses,
mans dels amants. /
Mãos dos que matam, sujas;
mãos sensíveis dos que mandam matar.
Mãos trémulas, secas,
mãos trémulas,
mãos dos amantes.


De l'home mire
sempre les mans. /
Do homem olho
sempre as mãos.

Mans tan dures
dels que passen fam.
Mans tan pures
de quan érem infants. /
Mãos tão duras
dos que passam fome.
Mãos tão puras
de quando éramos crianças.

De l'home mire
sempre les mans. /
Do homem olho
sempre as mãos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XIV)

À crise da língua, da mesma forma, soma-se-lhe um elemento directamente político, como se notou no caso Serrat, o compromisso da esquerda, que é posterior a 1970. Emerge com certeza pelo que viu e pelas consequências de dar para trás ao regime, que o levam a Paris, onde conhece o dirigente socialista Francesc Vila-Abadal, um dos redactores dos quatro pontos programáticos da Assemblea de Catalunya, que estava exilado. O factor político reside nesta dualidade entre a reivindicação nacional e a social que é própria do catalanismo de esquerda ou da esquerda catalanista, mas não do catalanismo conservador, que era hegemónico na Edigsa, teledirigida por Espar. Assim, Raimon sai da Edigsa.

A correspondência entre Joan Fuster e Joaquim Maluquer descortina com propriedade a face oculta do caso. Numa carta assinada por Fuster a 13 de Setembro de 1967, pouco antes da ruptura de Raimon com a Edigsa, que também foi subscrita por Pi de la Serra, ele diz que o prémio que a editora dava iria, no ano de 1966, para Raimon pelo disco ao vivo no Olympia de Paris. Era mais que evidente, pelo seu valor artístico e pelo enorme impacto que teve na Nova Cançó. Mas não lho dariam porque era um disco "político" e não queriam ter problemas com o Ministério de Información y Turismo. Raimon, diz Fuster, chateou-se e com razão: "As ideias de Raimon sobre a burguesia não são, propriamente, aduladoras". Mais tarde, volta a criticar Edigsa - lemos que Maurici Serrahima também lhe pôs nódoas. Fá-lo a partir de uma divertida referência a Jordi Nadal, que tinha organizado a viagem académica de Raimon a Aix-de-Provence para melhorar os seus conhecimentos:

Jordi Nadal - diz Fuster - o que quer é "convertir" o moço de tenor em erudito. Agrada-me. Por outro lado, os burros da editora do disco estão a deixar passar a oportunidade de vender exemplares. E de que maneira!

A opção de cantar em Catalão é política, mas também de mercado e, portanto, tem consequências económicas. O esforço de compor é igual em qualquer língua, mas o mercado potencial básico do Catalão é exponencialmente menor que o Castelhano. Aqui há um compromisso político sério, portanto, e os que tentam pôr os catalães a cantar em Castelhano sabem que todos se recusarão. Dinheiro e popularidade são iscos saborosos.


Raimon grava, como se disse, o seu segundo Ep no mesmo ano de 63, como resposta à grande procura e às expectativas geradas pela sua entrada de cavalo siciliano no mundo que era então mais espectáculo que cultura. Grava "Se'n va anar" e a meio-inócua, meio-ingénua "Disset Anys", dando cobertura ou subterfúgio à "Cançó del Capvespre", que traz do beco o melhor poeta catalão comprometido com o país e a liberdade, e a "Diguem no". Esta canção terá sérias dificuldades para passar a censura e apenas chegará a disco e aos palcos com uma mudança de título, "Ahir" [Ontem], que não quer dizer absolutamente nada, e um par de substanciais alterações na letra. Reproduzimos a original e as mudanças a negrito:

Ara que som junts
diré el que tu i jo sabem
i que sovint oblidem:

Hem vist la por
ser llei per a tots.
Hem vist la sang
-que sols fa sang-
ser llei del món.

No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.

Hem vist la fam
ser pa
dels treballadors (per a molts).
Hem vist tancats (com han fet)
a la presó (callar a molts)
homes plens de raó.

No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.
No,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món



Em 1964 sai o seu terceiro Ep, com "D'un temps, d'un país", "Cançó de les mans", "Perduts" e "Tot sol", e o primeiro Lp, uma antologia comentada pelo próprio Espriu e por José Luis López Aranguren, professor de Ética na Universidade Complutense de Madrid, da qual, anos depois, seria expulso por se manifestar contra o regime. "D'un temps, d'un país" e "Cançó de les mans" apostam forte. O professor Aranguren, intelectual de peso, escreve um texto belíssimo na contracapa daquele Lp. Onde diz o seguinte:

Eu diria que Raimon contém em si uma força capaz de mobilizar as adormecidas energias de uma grande parte da nossa juventude, precisamente porque pertence por inteiro a ela, e porque, podendo "comunicar" com ela, é exigente, sabe dizer "não" às injustiças, conhecer e rejeitar as mãos que matam e as que mandam matar; e porque procura no escuro e a gritar, moço perdido na noite da cidade moderna, uma nova salvação para todos. Em suma, porque desde o fundo de si próprio se projecta para onde se dirige o Homem.

Na primeira canção, Raimon contesta a doutrina de Primo de Rivera da "dialéctica de los puños y las pistolas", com o inequívoco "no creguem en les pistoles: / per a la vida s'ha fet l'home / i no per a la mort s'ha fet". "Não acreditamos nas armas", verdadeira exclamação em defesa do direito à vida, expressa-se em forma de grito, de ordem pura e dura num verso, só e livre. Na mesma canção desaprova "la misèria necessària, diuen / de tanta gent" e proclama que "no anirem al darrere / d'antics tambors", os mitos da história militar de Espanha que a ditadura propagandeava: Viriato, o Cid Campeador, o Gran Capitán, o general Moscardó e, claro, o generalísimo Franco.

["D'un temps, d'un país" é a canção nº 11 de Raimon na caixa de música. Canção emblemática, verdadeiro hino, que foi gravada em 64, no seu terceiro Ep. Mais tarde, já saído da Edigsa, voltou a gravá-la. Essa versão, de 1968, é a canção de hoje]


D'un temps que serà el nostre,
d'un país que mai no hem fet,
cante les esperances
i plore la poca fe. /
De um tempo que será o nosso
De um país que nunca fizemos
Canto as esperanças
E lamento a pouca fé.

No creguem en les pistoles:
per a la vida s'ha fet l'home
i no per a la mort s'ha fet. /
Não acreditamos nas pistolas:
Para a vida se fez o Homem
não se fez para a morte.


No creguem en la misèria,
la misèria necessària, diuen,
de tanta gent. /
Não acreditamos na miséria,
a miséria necessária, dizem,
de tanta gente.


D'un temps que ja és un poc nostre,
d'un país que ja anem fent,
cante les esperances
i plore la poca fe. /
De um tempo que já é um pouco nosso,
de um país que já estamos a construir
canto as esperanças
e lamento a pouca fé.


Lluny som de records inútils
i de velles passions,
no anirem al darrera
d'antics tambors. /
Longe estamos de memórias inúteis
e de paixões antigas,
Não iremos atrás
de antigos tambores.

D'un temps que ja és un poc nostre,
d'un país que ja anem fent,
cante les esperances
i plore la poca fe.

D'un temps que ja és un poc nostre,
d'un país que ja anem fent.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XIII)

Raimon, com um disco triunfante no bolso e o primeiro prémio do festival de música pop mais importante do Estado até então, está como se costuma dizer lançado na fama. A Televisão Espanhola confida-o a participar no seu programa de maior audiência, Gran Parada, que se emite aos sábados à noite. Nele, canta "Al vent" e "Diguem no"... E não volta ao pequeno ecrã - a maior, contudo, na difusão dos artistas -, até depois da morte de Franco. Seria num programa com guião de Fuster e realização de Mercè Vilaret, emitido em Abril de 77, precisamente dois meses antes das primeiras eleições democráticas.

Porém, vetá-lo na televisão não viria imediatamente. Primeiro tentariam comprá-lo para o integrarem no sistema. Era o ano de 63 e um método que falhava poucas vezes, já que fama, dinheiro e polícias a protegê-lo e não a persegui-lo, implicavam um boa soma de exploração. O primeiro isco era cantar em Castelhano em nome de uma evidente ampliação do mercado. Raimon recusa. O monolinguísmo abraça uma parte ideológica importante de todo o grupo, que começa já a ser conhecido como a Nova Cançó. Cinco anos depois, o caso de Serrat e o Festival da Eurovisão assentava nesta linha. Serrat chega aos palco sem a formação intelectual e política de Raimon, e, além disso, é filho de mãe falante de Castelhano, de Belchite; tudo unto faz com que aceite ao princípio representar Espanha no Festival da Canção da Eurovisão do ano de 68 cantando um tema em Castelhano, um tema nem mais nem menos que do Dúo Dinámico, formado por dois consentidos pelo franquismo. O tema, literariamente, chama-se apenas "La, la, la". Não está nem à altura da canção comercial com algumas pretensões estéticas, como hoje a "Ponte de rodillas" que, inspirando-se no gospel, Teddy Bautista e Los Canarios tinham levado ao topo das listas de vendas daquele ano. Por fim, Serrat sente-se mal com a maquinação e diz que em Catalão ou nada.

Nesta espinhosa situação, da mesma forma, com a perspectiva histórica, deve dizer-se que o caso de Serrat tem um fundo que está para lá da questão de língua. Serrat apresenta-se, naqueles começos, mais como um cantor comercial de qualidade que como um cantor comprometido civicamente. O seu representante, Lasso de la Vega, é-o também do Dúo Dinámico - não por acaso autores de "La, la, la" - e a sua ideia principal é vender discos; a promoção que se faz de Serrat com "La, la, la" é impressionante. Enquanto Raimon, em 1968, está a cantar para trabalhadores e estudantes metidos em organizações clandestinas e é proibido, aceitar representar a Espanha franquista num festival internacional, transmitido pela televisão, supera o factor linguístico.

No começo do multicultural século XXI pode ser difícil entender que um compromisso cívico se baseasse na fidelidade a um idioma e que essa fidelidade implicasse ter de prescindir de outras. Mas a ucronia [desenvolvimento imaginário de um facto histórico como se ele tivesse sido real] ou o "pressentismo" estão rendidos à história. Quando a Canção Catalã irrompe, os sectores mais combativos interpretavam que compaginar Catalão e Castelhano era fazer uma concessão ao inimigo, quando não mesmo traição. A luta pela conservação de um idioma que queriam liquidar, a "maltractada llengua" segundo a adjectivação de Raimon, exigia para muitos um compromisso sem meias-tintas. Espriu tinha bem presente que a milenária língua catalã estava em perigo de extinção, que falava de "salvar as palavras" como valiosos tesouros, como seres de uma espécie em vias de extinção. Mas, felizmente, o Catalão sobreviveu e, anos depois, Núria feliu, a primeira cantora a dar um passo pelo bilingúismo, seria uma militante muito especial de um partido tão catalanista como Convergència Democràtica, sem que a história lhe passasse factura. Mas na altura, a Nova Cançó entra em crise e a unidade abre brechas.

Raimon interiorizou muito a questão da língua. Quando pensa em voz alta, gira em torno deste discurso:

A mim propuseram-me, obviamente, cantar em Castelhano, e até em Inglês! Mas eu sei que as possibilidades expressivas maiores tenho-as na minha língua. As minhas imagens penso-as na minha língua. O facto de que seja minoritária não quer dizer que não tenha de existir. Eu sou a favor da biodiversidade, mas também linguística, não só relativa à flora e à fauna, mas também no aspecto humano. No mundo da globalização, há o perigo que desapareça tudo o que é minoritário, tudo aquilo que não é padronizável. A diversidade ainda não está garantida.
Quando alguém canta em Castelhano, em Francês ou em Inglês, ninguém faz preguntas, é normal que cante na sua língua. Porque é que nós temos de dar tantas explicações? Pois bem, eu tenho assumido tudo isso e não só pelo compromisso cívico, mas também pelo estético, porque eu sei que é na minha língua que posso fazer melhor o meu trabalho.

[Já que está disponível, aqui vai a "La, la, la", cantada por Serrat. O vídeo, percebe-se, é da versão em Castelhano, mas o som é da versão em Catalão...]


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XII)

Mas "Paz" não ganharia o Festival de la Cançó del Mediterrani. Ganha um tema em Catalão, "Se'n va anar", que se inscreve, mas com dignidade, nos padrões comerciais, com letra de Josep Maria Andreu e música de Lleó Borrell. "Se'n va anar" pode passar como uma grande canção de amor, mas também como uma saudação a "L'emigrant", de Vives i Verdaguer, ou, pelos mais dotados à hermenêutica, como uma metáfora do exílio; eram os tempos dos cinefóruns, sessões em que em torno de um filme serviam para que toda a gente desse a sua opinião, sempre contra a ditadura. Sem Raimon, toda esta componente teria estado ausente; com Salomé ou outra cantor do domínio da música ligeira, "Se'n va anar" não teria tido o significado reivindicativo que assumiu. Por isso a cantou, porque, de facto, tiveram de o convencer com argumentos deste teor. Raimon acabava de chegar de Aix-de-Provence mais politizado que quando tinha partido e aterrar num certame comercial era a última coisa que lhe passava pela cabeça. Explica-o desta forma:

Eu, ao princípio, não queria cantar num festival com aquelas características, que fugia muito ao que eu entendia ser a canção. Os meus princípios eram outros. Tinha feito "Al vent", "A colps", "Som", "La pedra"..., acabava mesmo de gravar a "Diguem no", tinha musicado um poema de Salvador Espriu... Não estava nos meus planos um festival de música comercial. Mas demoveram-me pela questão linguística. A situação do Catalão durante a ditadura era precária, para dizê-lo favoravelmente. E pensei que podíamos contribuir a dar um passo para a normalização linguística, para que o Catalão saísse do domínio privado e entrasse na cultura de massas. E aceitei o desafio, mas com a ideia do serviço a uma causa justa como o era a normalização da língua Catalã.

Joan Fuster teve a clarividência de perceber que a presença do seu jovem protegido num festival daria muito alento à Nova Cançó, tirá-la-ia das catacumbas. Não se salvou de algumas amarguras porque nem toda a gente via com bons olhos estampar aquela nódoa na pureza. Salvador Espriu escreveu a Fuster para que ele evitasse que Raimon entrasse no mundo das variedades. A carta de Espriu acabava assim, com a sua fina ironia: "Mas todos somos p..., o resto é questão de preço". Toda a maquinaria catalanista, com a engrenagem da Edigsa na linha da frente e um certo pacto de não agressão com as autoridades, propiciado por Fèlix Millet Maristany - empresário e mecenas de artistas e iniciativas políticas democráticas, presidente do Orfeão Catalão e cofundador do Òmnium Cultural -, conseguem levar "Se'n va anar" ao Festival, que era trasmitido pela TVE, e estivesse em condição de o vencer. Eram votos do público e "Se'n va anar" impor-se-ia por 583 votos contra os 481 de "Paz".

Josep Benet lembra a imagem insólita da intelectualidade catalã votando num concurso de canção ligeira e a mobilização imediata quando a vitória de "Se'n va anar" ficou consolidada. O próprio falaria com Manuel Cubeles, que trabalhava na TVE, para garantir a cobertura posterior. Cubeles, muito sensível ao mundo da música, impulsionador do movimento de esbarts [grupo ou associação de defesa e difusão das danças tradicionais], decide ajudá-lo. Benet culmina a acção apresentando-se nessa mesma noite do festival na redacção do El Noticiero Universal, que fechava de madrugada porque era um vespertino, e coloca um anúncio do novo disco de Raimon, que continha "Se'n va anar", mas também "Diguem no"; Raimon pôs a sua canção mais dura ao lado da vencedora de um certame popularíssimo. Quem se atreveria a proibi-lo? O anúncio aparece ao lado da crónica do acontecimento e a conspiração fica selada: ganhou uma canção em Catalão e um dos que a defenderam, Raimon, não é um cantor comercial qualquer, senão o autor da canção mais comprometida escrita até àquela altura.

[Não é preciso dizer muito mais. A décima canção é a que com que - juntamente com Salomé - ganhou o Festival que ajudou a mudar o que faltava. Incluída no seu segundo disco (1963).
"Quem se atreveria a proibi-lo?" ]


Tant de temps que ha passat!
Dintre meu, tanta nit!
Dalt del cel, la ciutat
on potser
ella ha fugit.

Se'n va anar
en un dia molt clar.
Jo no sé
si a una terra llunyana.
Se'n va anar
cap enllà.
No sé pas
si tornarà.

Se'n va anar,
va donar-me la mà,
que a un adéu
no li cal cap paraula.
Se'n va anar
i un mirar
m'ha quedat per recordar.

Digue'm, amor, si és ben cert
que més enllà fa bon dia.
Digue'm, si mai que un es perd
és que ha trobat l'alegria.

Se'n va anar,
va donar-me la mà.
Jo no sé
quina cosa em diria.
Se'n va anar
cel enllà
i mai més
no tornarà.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XI)

Os passos decisivos que trilha no mundo da canção fazem-no desistir de dedicar-se à História, concretamente a ser professor na cátedra do doutor Reglà, que já lhe tinha oferecido lugar para seu ajudante, no mesmo ano de 1963 em que obtém a licenciatura académica e a Edigsa edita o seu primeiro disco de quatro temas. Raimon vive em Barcelona em casa de Enric Gispert, que além de o orientar musicalmente, procura levá-lo por bom caminho um jovem sozinho numa cidade de alta probabilidade de "dissipação" [gostei da expressão original...]; Anna Nubiola, a esposa de Gispert, de sólidas convicções morais, ajuda-o, e Raimon, que é o contrário de um cabeça no ar, aceita uma ser por ela gerido. Até que, com o tempo, se tornará um grande praticante e defensor, com a salvaguarda de que falemos de ordem e de organização nas suas acepções funcionais e não imperativas.

No ano de 63, em suma, também se apresenta e ganha o V Festival de la Cançó del Mediterrani, que aconteceu nos dias 20, 21 e 22 de Setembro. Era um certame similar a outros que se faziam, como hoje o de San Remo, destinado a tornar comerciais canções comerciais, que as editoras discográficas apresentavam de acordo com os seus objectivos de promoção. Tinham-no ganho até então nomes pouco conhecidos como Claudio Villa, Nana Mouskouri e Robert Jeantal, e os os pré-destinados a levar o galardão daquela vez era um trio com um nome artístico explosivo, mas em realidade inofensivo, TNT (Tim, Nelly, Tom). Não valiam nada, mas defendiam uma canção que iniciaria a campanha propagandística dos XXV Años de Paz, que segundo o calendário franquista se assinalavam em 1964; eram, portanto, os candidatos oficiais. A canção, de Isidre Sola e Carles Laporta, levava como título "Paz", aquela paz fictícia que Raimon destroçaria em tantas canções, especialmente em "Sobre la Pau", composta em 1967 e dedicada a Che Guevara, morto naquele ano vítima de uma embuscada da CIA.

A fictícia paz edulcorada dos TNT juntava demasiada ideologia do nacionalcatolicismo, era como uma prece feita hino de grandes palavras que todos os fascismos têm invocado para violá-las sistematicamente. José María Pemán, um dos escritores oficiais do Movimiento Nacional, ao escrever o hino do Congresso Eucarístico de Barcelona, celebrado em 1951, incluiu nela tanta "paz" que a viam como o principal activo, como a unidade que postulavam, desde os textos de Primo de Rivera até ao pluralismo nacional de Espanha. A letra de "Paz", protótipo da canção fraca e sem vocativos invocando o Senhor, dizia:

You voy sembrando canciones
al mundo por toda la paz
porque el que siembra ilusiones,
recoge frutos de paz.

Paz, Señor, en el cielo y la tierra,
paz, Señor, en las olas del mar,
paz, Señor, en las flores que mueren
sin saberlo la brisa al pasar.

Tú que has hecho las cosas tan bellas
y les has dado una vida fugaz,
pon, Señor, tu mirada sobre ellas
y devuelve a los hombres la paz.

Hoy he visto, Señor, en el cielo
suspendido en un rayo de luz
dos palomas que alzaron el vuelo
con sus alas en forma de cruz.

Haz, Señor, que vuelvan a la tierra
las palomas que huyeron, Señor,
y la mecha que enciende la guerra
se confunda con la paz y el amor.


Era muito bom, até, que os defensores deste subproduto fossem estrangeiros para demonstrar que a autarquia [Catalunha] tinha morrido. "Paz" nascia destinada a ser banda sonora de uma montagem propagandística, como resposta à onda de protestos que desencadearam em 1963, no interior e exterior, a greve dos mineiros das Astúrias e consquente solidariedade sentida por todo o lado, e a execução de Julián Grimau. A saturação da jurisdição militar e a péssima imagem que dava ao estrangeiro levar civis a conselhos de guerra, vão forçá-los a criar o Tribunal de Orden Público, instância especial para a repressão de qualquer exercício de liberdades democráticas, que a ditadura maquilhava com o objectivo de manter a paz. Esta é a paz com a qual Raimon reduz a pó a ficção franquista:


[E aqui fica a canção número 9 na caixa de música, Sobre la Pau. A versão em escuta é a do explosivo e marcante concerto de Madrid, "El Recital de Madrid", editado em 76. Podia ser outra, mas foi esta. A versão, digo...]

De vegades la pau
no és més que por: /
Às vezes a paz
não é senão medo:
por de tu, por de mi,
por dels homes que no volem la nit. /
Medo de ti, medo de mim,
medo dos homens que não queremos a noite.

De vegades la pau
no és més que por.

De vegades la pau
fa gust de mort. /
Às vezes a paz
sabe a morte.

Dels morts per sempre,
dels que són només silenci. /
Dos mortos para sempre,
dos que são apenas siêncio.

De vegades la pau
fa gust de mort.

De vegades la pau
és com un desert
sense veus ni arbres,
com un buit immens on moren els homes. /
Às vezes a paz
é como um deserto,
sem vozes nem árvores,
como um vazio imenso os homens morrem.

De vegades la pau
és un desert. /
Às vezes a paz
é um deserto.

De vegades la pau
tanca les boques
i lliga les mans,
només et deixa les cames per fugir.
De vegades la pau. /
Às vezes a paz
fecha as bocas
e ata as mãos,
só te deixa as pernas para fugir.
Às vezes a paz.

De vegades la pau
no és més que això:
una buida paraula
per a no dir res.
De vegades la pau. /
Às vezes a paz
não é mais que isso:
uma palavra vazia
para não se dizer nada.
Às vezes a paz.


De vegades la pau
fa molt més mal;
de vegades la pau
fa molt més mal.
De vegades la pau. /
Às vezes a paz
faz muito mais mal.

Às vezes a paz
faz muito mais mal.
Às vezes a paz.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Diguem no (1963)

Ep de 1963, onde está a primeira gravação de Diguem No.




Outros discos em que surge Diguem No. Excepto o terceiro (single gravado depois de ter deixado a Edigsa) e o antepenúltimo (regravação de todas as canções até então, na compilação de dez discos Totes les Cançons), todas as outras gravações são ao vivo.
De cima para baixo (estes dez), contêm respectivamente gravações de 1966, 1967, 1968, 1968, 1971, 1972, 1976, 1981, 1993, 1997.

[A canção de hoje, a oitava de Raimon na caixa de música, é a versão de Diguem No que Raimon gravou primeiro, incluída mais uma vez no seu segundo Ep, de 63. Canção importantíssima na sua obra e na vida colectiva de um país. Voltaremos, portanto, a ela. Mais uma que terão de descarregar para ouvir em tempo real...]

Ara que som junts
diré el que tu i jo sabem
i que sovint oblidem: /
Agora que estamos juntos
direi o que tu e eu sabemos
e que amiúde esquecemos:

Hem vist la por
ser llei per a tots.
Hem vist la sang
-que sols fa sang-
ser llei del món. /
Temos visto o medo
ser lei para todos.
Temos visto o sangue
- que só gera sangue -
ser lei do mundo.


No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món. /
Não,
Eu digo não,
Digamos não.
Nós não somos desse mundo.


Hem vist la fam
ser pa
per a molts.
Hem vist qu'han fet
callar a molts
homes plens de raó. /
Temos visto a fome
ser pão
para muitos.
Vimos que fizeram
calar muitos
homens cheios de razão.

No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.

No,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (X)

A irrupção de Raimon em Valência, paralela aos Setze Jutges, chama à atenção destes e dos seus pares. É considerado o recital fundador dos Jutges o que, com o título La Poesia de la Nova Cançó, tem lugar a 19 de Dezembro de 1961 no CICF (Centre d'Influència Catòllica Femenina). A 21 de Outubro de 1962, na Primeira Reunião da Juventude do País Valenciano, celebrado em Castelló, cantam Espinàs, Abella, Remei Margarit e Lluís Serrahima, acompanhados por um jovem guitarrista barbudo que versionava blues no conjunto Els Quatre Gats, Francesc Pi de la Serra. [O disco cuja capa aqui partilhamos é o primeiro do grupo, de 1963]
Raimon canta depois deles e Espinàs e Pi de la Serra ficam muito bem impressionados. Posteriormente, Joan Fuster acha que Raimon merece ser ouvido em Barcelona, uma espécie de consagração laica, e paga-lhe uma viagem de comboio. Espar em pessoa vai esperá-lo à estação do Passeig de Gràcia e mesmo muitos anos depois refere a chegada de Raimon como um acontecimento; na Catalunha estavam a préfabricar um género, mas o género autêntico vinha de Xátiva. Alojam-no em casa de Enric Gispert, músico e musicólogo que se tornará num dos grandes amigos e assessor imprescindível.

Em casa de Gispert, de Espar, de Jordi Nadal, de Manuel Ortínez..., Raimon deu a conhecer "Al Vent". Não sabe precisar em qual delas a cantou primeiro, mas Ortínez, nas suas memórias, diz que foi em sua casa. Deixou isso escrito e aqui fica, pela sua personalidade - homem de confiamça do presidente Tarradellas, conselheiro de Governo da Generalitat provisória -, mas o ano que dá, anterior à estadia que nos ocupa e muito próxima da data da composição, torna-a pouco verosímil. Ortínez escreve:

[A editora] AC criámo-la com Fuster, que eu tinha conhecido em fins dos anos 50, através de Joaquim Maluquer e com quem estabelecemos boa amizade. Numa daquelas primeiras reuniões, em minha casa, em 1960, Raimon canta pela primeira vez em Barcelona as estrofes - tão apaixonadas - de "Al Vent", a canção que o catapultaria.

Raimon canta na Festa de Santa Llúcia, organizada pelo Òmnium Cultural para atribuir os prémios mais importantes das letras catalãs, o Sant Jordi (de romance) e o Carles Riba (de poesia. 13 de Dezembro de 1962, Hotel Colom. Foi uma espécie de coitus interruptus, se nos permitem uma piada em jeito valenciano, porque as hostes começariam a queixar-se de uns gritos que não as deixavam dormir; de maneira que o Raimon cantor nascia predestinado ao facto de que a intolerância o mandasse calar. Dois dias depois, debuta oficialmente no Fòrum Vergés, numa sessão colectiva, como eram quase todas, ao lado de Grau Carol, Pere Cervera, Salvador Escamilla, Xavier Elías, Miquel Porter, entre outros, e sempre com a imprescindível colaboração do virtuoso guitarrista Quico Pi de la Serra, que finalmente acabaria por cantar canções fantásticas como "L'home del Carrer".





Raimon era diferente da canção popular feita até então, é preciso lembrar. É momento de dizer que também era diferente dos Jutges. Por muitas razões. Em primero, a proveniência local e social; Raimon não era nem barcelonês nem de família burguesa nem, por consequência, usava gravata. Depois, Raimon não canta para preencher um vazio cultural, como tarefa de serviço à cultura catalã nem como contestação ao regime; canta simplesmente porque lhe brota, como o ser humano que - diz Nietzsche - que "desata a falar" nos primórdios da protohistória, e isso explica-se com as palavras ut supra mencionadas relativas às necessidades biológicas ou fisiológicas. E, além disso, "Diguem no" ultrapassa pela esquerda os conteúdos dos Setzge Jutges. Enquanto estes, até então, seguiam de alguma forma a linha de Amades, passando pela chanson francesa, e o seu compromisso - que não é pequeno, conta! -, de reivindicação linguística, quando Raimon compõe "Diguem no" inclui revindicações sociais de classe e políticas. Raimon fala de repressão, de fome, de trabalhadores - palavra proibida pelo léxico franquista, que pôs em circulação aqueloutro de "produtores" -, de prisão... em plena ditadura, adicionar conteúdos sociais à língua catalã era multiplicar por dois o ataque e, portanto, o perigo.

domingo, 27 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (IX)

Benet, então muito chegado a Fèlix Millet e a Maurici Serrahima, começa a estabelecer contactos e mecenas e patrícios que tinham vindo a pagar livros que com muito trabalho passavam pela clandestinidade - famílias catalanistas como as jámencionadas e os Carulla, os Ballbé, os Carner, ou os Pujol - ajudam-no. O seu principal agitador, Josep Espar Ticó, a quem uma singela metátese de letras permite o bem achado e combativo alter de "Espartaco", lidera a fundação de uma empresa discográfica, EDIGSA, sigla de Editora General Sociedad Anónima, em nada suspeita, porque tudo o que levava SA era sinónimo de capital, e para o franquismo todo o capital era ofício dos seus. Porém, cedo descobririam que esse axioma não existia. Josep Espar tinha antecedentes policiais, fichado pela Brigada Social, temível polícia política da ditadura, que torturava com terrível frequência, e o que será anos depois chamado para dirigir a editora, Claudi Martí Pla, também acabaria por tê-los, antecedentes; seria um dos primeiros detidos da Assembleia da Catalunha (23 de Maio de 1971), principal organização de massas de luta contra o franquismo que juntava a maioria das tendências políticas, sociais, culturais e religiosas do país.

Edigsa reúne um conjunto de accionistas pequeno, de profissionais liberais, com um núcleo duro no que depois seria Convergència Democràtica de Catalunya, liderada pelo próprio Jordi Pujol e o seu cunhado, Francesc Cabana, os irmãos Espar, Josep e Ignasi, Ermengol Passola ou Salvador Casanovas, contrabalançados por pessoas mais à esquerda, como Francesc Vila-Abadal, socialista, o arquitecto Oriol Bohigas, próximo do PSUC, e o próprio Benet.

Coral Sant Jordi - Josep Maria Espinàs

Coral de l'Agrupació Catalana d'Itàlia - Grau Carol i Orquestra

Miquel Porter - Josep Maria Espinàs
Alguns dos primeiros Epês da Edigsa, lançados em 1962.


Edigsa constitui-se com um capital de 300 mil pesetas em finais de 1961, com sede em Vic, e a sua primeira gravação é um Ep do Coral Sant Jordi, dirigido por Orioll Martorell. O seu papel na difusão da canção catalã vai ser notável, visto com a perspectiva distante da história, mas os seus primeiros momentos vão ser uma confusão, porque haveria divisões pelo confronto entre línhas de pensamento diferentes do país e do mercado. Raimon acabaria por sair, e tê-lo-ia feito mais cedo se algumas cabeças mais bem assentes, como Josep Benet e Maurici Serrahima, não tivessem intervindo. Serrahima, que considera Raimon "um poeta, um músico e um cantor de primeiro nível", e lhe reconhece o mérito de "restabelecer também na Catalunha a ideia, por vezes difusa, de que falar Valenciano é falar Catalão", como o conta no quarto volume das suas memórias:

Agora os da Edigsa - a sociedade editora de discos que vingou muito pela actuação e popularidade dos Setze Jutges e, sobretudo, de Raimon, que foi posto no topo, por uma estranha inveja - ofereceram-lhe [a Raimon] a doação de uma acção, de cinco mil pesetas nominais, para que pudesse ter uma intervenção pessoal e, se fosse preciso, algum cargo.

Raimon nunca teria notícia da acção que Serrahima refere. Mais tarde, depois de encaixar que Raimon tinha vendido perto de 40 mil discos de um dos seus primeiros dois discos, cifra astronómica não só para a canção numa língua minoritária e proscrita, Serrahima diz:

Como é que se pode explicar que Raimon não vá a Paris e não tente cantar na televisão francesa ou na italiana, única maneira de superar o boicote da daqui? Sempre o medo, a angústia pelo que possa acontecer... O mal da Edigsa é que não foi concebida como um negócio normal; se não fosse assim, tiraríamos muito mais partido dele, e exploraríamos os elementos que a constituem; em primeiro lugar, Raimon.

sábado, 26 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (VIII)


Um dos primeiros recitais dos Setze Jutges e quando ainda eram só nove (antes de 1965): (da esquerda para a direita) Josep Maria Espinàs, Delfí Abella, Xavier Elies, Enric Barbat (fila de cima), Guillermina Motta, Remei Margarit, Maria del Carme Girau (ao centro), Pi de la Serra e Miquel Porter (em baixo).


Na Catalunha, um artigo de Lluís Serrahima inspirado em Josep Benet, "Ens Calen Cançons d'Ara" [Precisamos de canções de hoje], publicado na revista Germinàbit de Janeiro do ano de 1959, tinha descerrado uma nova etapa para a normalização do uso do Catalão através de um meio de grande audiência entre os jovens como era a canção moderna. Gente com escassas faculdades musicais, mas com muito siso, vontade e desejo de relançar o idioma próprio, como o escritor Josep Maria Espinàs, o crítico de cinema Miquel Porter ou o psiquiatra Delfí Abella, entram em cena e inventam Els Setze Jutges [os Dezasséis Juízes]. Canção distinta e em Catalão.

Josep Benet, advogado, historiador, alma de tantas iniciativas em prol da recuperação dos sinais da identidad do país, democrata-cristão independente favorável a uma luta unitária de fundo, que foi com toda a probabilidade o maior criador de ideias da história da luta contra o franquismo... Josep Benet tinha precisamente acabado de recriar as "sardanes" quando se depara com a necessidade de reencontrar linguagens de futuro que contactem com os jovens. Crê que a canção moderna pode funcionar, mas nem as tímidas tentativas de Josep Guardiola ou das Irmãs Serrano, de colocar caroços em língua vernácula - termo que era popular no Concílio Vaticano II - lhe serviam. Pensou primeiro no mote, "Ens calen cançons d'ara", e deu a Lluís Serrahima todo o guião do artigo que, por último, levaria aquele slogan como título.

A coisa foi crescendo, mas eram poucos, todos cantavam por serviço ao país, sempre como algo a saber a pouco, e o produto resultante, nas palavras do mesmo Benet, não passava de uma tradução do género francês e um pouco de trazer por casa. A irrupção de Raimon, segundo dizia Benet, muda o panorama. Raimon tem força, Raimon é músico, cria um produto bom, de autoria própria, susceptível de se internacionalizar e, em suma, Raimon é um intelectual, um homem com estudos e muito lido, capaz de estar ao lado de Fuster e de Espriu, de Miró e de Tàpies. Benet diz com segurança que se Raimon não tivesse surgido naquele momento, a Nova Cançó teria corrido perigo. "Raimon foi decisivo, foi uma grande sorte que tivesse aparecido naquele momento", concluia.

Concessão da Medalha de Ouro pelo Parlamento da Catalunha, em 13 de Abril de 2007, em reconhecimento pelo papel cultural (e social) iniciado pelos Setze Jutges. Quando dois dos membros fundadores, Miquel Porter e Delfí Abella eram já falecidos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (VII)

O primeiro público de Raimon era nutrido, naqueles inícios, pelos seus amigos e pelos amigos dos amigos: Raimon dá a conhecer "Al Vent" numa taberna de Valência, Casa Pedro, sob um cartaz que proibia cuspir, a blasfémia e "la palabra soez" e, isso sim, era um altar de confissão onde concelebravam Joan Fuster e Vicent Ventura. Depois, este público cresceria e tornar-se-ia massivo, de um milhar de pessoas, de milhares. Isso vai ser possível graças ao produto, cimento sine qua non, mas também porque cedo vão surgir ao novo cantor vias de difusão da sua arte; isso sim, em nenhum caso comparáveis às que se teriam aberto se tivesse feito o mesmo, exactamente o mesmo, em Castelhano.

Quando as canções de "Pele" começam a voar - metáfora calculada, porque não há voo livre sem vento - e, no fundo, ele se permite cobrar cachés simbólicos de quarenta duros - na moeda actual, um euro e quarenta cêntimos -, um dos seus companheiros universitários, Eliseu Climent, convence-o a reclamar-se de um "Ramon" mais antigo, e baptiza-o desde Llull, Ramon / Raimon, e da profusão do nome Raimon ao mundo dos trovadores. Suporte literário que não trai o nome que os pais lhe tinham dado com tão escassa sorte, mas, que muito pouco usaram para gritarem por ele: os de casa chamavam-no Ramonet e os amigos "Pele"; depois e todos, Raimon. Ramon praticamente nunca existiu.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Uma pausa com... Pi de la Serra

Sabemos que de Pi de la Serra a última coisa que podemos esperar é alívios. A mordacidade e a ironia não não deixam fôlego para respirar.

No seguimento do último texto sobre Raimon (continuamos a traduzir o excelente livro "La Contrucció d'un Cant", de Antoni Batista), pareceu-nos adequada a canção de hoje. Está presente no fabuloso disco Triat i Garbellat, que é um álbum de 1971. Ou seja, muita água tinha já corrido e muita coisa tinha já mudado desde o começo da explosão da Nova Cançó, com Raimon, claro. Talvez a canção viesse um pouco tarde, mas, tendo vindo naquele ano, continuava a ser actual. Aqui está ela. Per tots vostés...

[Uma vez mais peço desculpa, mas não disponho dela em mp3, pelo que a ouvireis mais lenta... coisa que já expliquei para outras duas anteriores, de Raimon. A solução, redigo, é descarregarem-na (ir às ferramentas - opções de internet - definições - ver ficheiros e procurar a dita. Se os ordenarem por peso, encontá-la-ão com menos dificuldade.) e ouvirem-na nos vossos leitores.]


Francesc Pi de la Serra - Triat i Garbellat

Triat i Garbellat (Discophon, 1971)


Sóc el Millor

La pluja rellisca per sobre els taulats,
la mullena xopa els desemparats.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
A chuva resvala sobre os telhados,
a humidade empapa os desamparados.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


La lluna es "reflecta" sobre el mar lluent,
la ciutat és plena, l'aigua va caient.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
A lua reflecte-se sobre o mar luzente,
a cidade está cheia, a água vai caindo.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Les gotes que cauen d'amunt cap a baix
esclaten a terra fent bassals i xaf!
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
As gotas que caem de cima para baixo
estalam na terra, fazem charcos e xaf!
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Jo canto, i la pluja cau desobedient,
i la gent rellisca efectivament.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
Eu canto, e a chuva cai desobediente,
e a gente resvala efectivamente.

Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.

El món és injust, qui ho va dir no ho sé.
Jo, ara que canto, m'ho passo molt bé.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
O mundo é injusto, quem o disse não sei.
Eu, agora que canto, estou a passar muito bem.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Domino la rima i toco molt bé.
Si és moda queixar-se jo sóc el primer.
Domino "dos" llengües amb naturalitat,
castellà, català, amb gran dignitat.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
Domino a rima e toco muito bem.
Se é moda queixar-se eu sou o primeiro.
Domino "dos" línguas com naturalidade,
Castelhano, Catalão, com grande dignidade.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (VI)

É quando termina o segundo curso da carreira que o seu irmão Rafael lhe oferece a guitarra, instrumento de que Raimon sempre tinha tido inveja, o fruto proibido de um músico de banda. Com a guitarra nas mãos, os acordes que tinha ido aprendendo acompanham-no no grito motorizado e sugerem-se outros sons, outras palavras que vão completar a primeira canção. Facto muito especial se nos lembrarmos que não estamos a falar de um país normal: Raimon canta na sua língua e ainda não numa línguaa cultivada para a idade que tem. Canta na língua do povo, aquela que Joan Maragall reclama no seu maravilhoso "Elogi de la Paraula". Mas é uma língua que então apenas se pode falar "na intimidade", que é o meio no qual vão continuar a falar os franquistas até depois da sua legalização como "co-oficial" a partir dos estatutos de autonomia.


Pino Donaggio - Canta en Català (EMI, 1966)
Cortesia do blogue amigo El Rincón del 45

Joan Fuster afirma com segurança que o facto de cantar em Catalão num universo onde apenas se ouvia cantar em qualquer outra língua - Castelhano, Inglês, Francês o o Latim eclesiástico - já desperta o interesse de um público com preocupações intelectuais, para lá das lúdicas. Raimon faz uma canção distinta e também, com esta, contribui para criar um público distinto. O público que se interessa por Raimon não tem nada que ver com o consumidor de música que se adjectivava como "moderna", para distingui-la da "clássica". Um género novo altera todo o ecossistema: público, meios e sistemas de comunicação, gostos e, também, a mesma evolução das espécies pré-existentes, para continuar na terminologia da sustentabilidade. Quero dizer que até os cantores mais insossos terão de fazer esforços para que se os valorize como cantautores, que é o nome com o qual os entomólogos, não sem um sem um grande exame de divisões, baptizariam a criatura. Naturalmente, o diccionário normativo de Pompeu Fabra não admitia "cantautor", e os acólitos - Espriu comparava o Fabra ao Alcorão - protectores da sua pureza não podiam sequer pôr-se de acordo em que havia algo de novo não previsto pelo pobre Fabra, que não era nenhum Júlio Verne. Surgem, portanto, cantautores ful [i.e. de merda, não autênticos] sob as pedras, vocalistas de plástico convertem-se, e para fazer ver que a língua catalã tinha passado das catacumbas aos palácios do império, como numa rendição do Édito de Milão, a última geração de rendidos do têxtil faz com que até cantores estrangeiros gravem as suas canções no idioma de Tirant.

Capa e contracapa de um Epê com canções de quatro cantores italianos a cantarem em Catalão:
Rita Pavone, Gianni Morandi, Jimmy Fontana e Donatella Moretti (RCA, 1966)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (V)

Numas declarações dessa pré-história a Jesús García de Dueñas, Raimon dizia:

Em Espanha não existe uma tradição da canção popular. Podia ter havido com as canções da guerra civil, mas tudo isso, infelizmente, perdeu-se. Houve uma tentativa, a de García Lorca (canções populares espanholas que recolheu, harmonizou para piano e para acompanhar La Argentinita), mas não nos enganemos: isso era muito minoritário e partia de uma mistificação de base. Agora que temos? Canções que nos falam de como vais, como é bonito o campo, que bem que vamos de secas, dá-me a mão, não me dês a mão, que olhos tens e etcetera, etcetera. Aqui não há qualquer motivo de interesse sobre o qual notar uma evolução. A mim, particularmente, interessa-me a canção francesa.

Raimon tinha ouvido Brassens, mas à sua maneira, não mais nenhum Brassens que o da austeridade essencial de voz e guitarra, na altura sem contrabaixo, e na ideia de que as letras tivessem um conteúdo e se aproximassem a ser poemas cantados, se bem que nuns poemas especiais em função, que já eram escritos para uma funcionalidade que não a original de serem lidos ou recitados; Raimon começa, portanto, a cantar mais preocupado com os textos que com as músicas, ao dar saída à sua paixão pela literatura. Havia, portanto, uma poética - num primeiro sentido - maior em Brassens que em Raimon. Mas tampouco havia Brassens no primeiro Raimon, ou, em suma, no conteúdo das letras. Brassens explicava situações e Raimon pensava em voz alta.
Aquela preocupação com as letras, dizer alguma coisa e dizê-lo bem dito, vai ser uma força motriz da Nova Cançó. Josep Pla destaca, naqueles primeiros anos, o valor de Raimon como poeta; agrada-lhe tanto que pensa que os textos das suas canções são de Joan Fuster. Quando descobre que Raimon as faz sozinho, escreve: "Na actualidade [1966] Raimon é uma das chaves da sensibilidade popular do país, sobretudo no mundo que emerge. É o seu grande poeta, um grande poeta". Não será preciso dizer que Pla era - é - o grande escritor. Uma referência incontornável na história da literatura catalã.

É difícil falar de influências de Raimon nos seus começos, mas é inevitável tentar explicar de onde brota "aquilo". Quando Raimon faz "Al Vent", diria que nem sequer tinha em mente a melodia da flauta que tocara; isso viria mais tarde. Raimon canta tal como lhe sai a voz poderosa que tem, isso sim, com o fiato bem entranhado pela escola de "sopradores" das bandas; e se por acaso o seu canto se lembra, remotamente, alguma coisa é o seu canto gritado desde as profundezas do corpo e da alma, é ao blues e ao flamenco, que não obstante responde por cante jondo, por aspiração fonética de hondo, fundo. Retomaremos este assunto, mas quando nos detivermos na música. Por agora enunciamos apenas o mínimo para contextualizar o fundo cultural numa viagem de moto de um jovem estudante que tira partido estético do vento.