quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XV)

Em "Cançó de les mans", Raimon insiste na crítica da pobreza a que são maioritariamente condenados os assalariados. "Mans tan dures / dels que passen fam". E em defesa do direito à vida num país em que se aplicam ou aplicaram sentenças de morte ou se mata com a rapidez cruel da tortura e com a cruel lentidão da prisão: "Mans dels que maten, brutes; / mans fines que manen matar". Passara menos de um ano do fusilamento do dirigente comunista Julián Grimau; eram cinco e meia da manhã de 20 de Abril de 1963, e ainda com as cicatrizes por todo o corpo, consequência de terem-no lançado por uma janela para simular um suicídio que camuflasse as terríveis sessões de tormento.


[A canção de hoje, Cançó de les mans, a décima segunda na caixa de música, é uma das minhas preferidas. A versão que podemos ouvir é de 1968, incluída no disco simples cuja capa reproduzimos.]

De l'home mire
sempre les mans. /
Do homem olho
sempre as mãos.

Mans de xiquet, ben netes,
mans de xiquet que es faran grans.
Mans que en la nit busquen
allò que no troben mai. /
Mãos de miúdo, bem limpas,
Mãos de miúdo que se tornarão grandes.
Mãos que na noite procuram
o que nunca encontrarão.


Mans dels que maten, brutes;
mans fines que manen matar.
Mans tremoloses, eixutes,
mans tremoloses,
mans dels amants. /
Mãos dos que matam, sujas;
mãos sensíveis dos que mandam matar.
Mãos trémulas, secas,
mãos trémulas,
mãos dos amantes.


De l'home mire
sempre les mans. /
Do homem olho
sempre as mãos.

Mans tan dures
dels que passen fam.
Mans tan pures
de quan érem infants. /
Mãos tão duras
dos que passam fome.
Mãos tão puras
de quando éramos crianças.

De l'home mire
sempre les mans. /
Do homem olho
sempre as mãos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XIV)

À crise da língua, da mesma forma, soma-se-lhe um elemento directamente político, como se notou no caso Serrat, o compromisso da esquerda, que é posterior a 1970. Emerge com certeza pelo que viu e pelas consequências de dar para trás ao regime, que o levam a Paris, onde conhece o dirigente socialista Francesc Vila-Abadal, um dos redactores dos quatro pontos programáticos da Assemblea de Catalunya, que estava exilado. O factor político reside nesta dualidade entre a reivindicação nacional e a social que é própria do catalanismo de esquerda ou da esquerda catalanista, mas não do catalanismo conservador, que era hegemónico na Edigsa, teledirigida por Espar. Assim, Raimon sai da Edigsa.

A correspondência entre Joan Fuster e Joaquim Maluquer descortina com propriedade a face oculta do caso. Numa carta assinada por Fuster a 13 de Setembro de 1967, pouco antes da ruptura de Raimon com a Edigsa, que também foi subscrita por Pi de la Serra, ele diz que o prémio que a editora dava iria, no ano de 1966, para Raimon pelo disco ao vivo no Olympia de Paris. Era mais que evidente, pelo seu valor artístico e pelo enorme impacto que teve na Nova Cançó. Mas não lho dariam porque era um disco "político" e não queriam ter problemas com o Ministério de Información y Turismo. Raimon, diz Fuster, chateou-se e com razão: "As ideias de Raimon sobre a burguesia não são, propriamente, aduladoras". Mais tarde, volta a criticar Edigsa - lemos que Maurici Serrahima também lhe pôs nódoas. Fá-lo a partir de uma divertida referência a Jordi Nadal, que tinha organizado a viagem académica de Raimon a Aix-de-Provence para melhorar os seus conhecimentos:

Jordi Nadal - diz Fuster - o que quer é "convertir" o moço de tenor em erudito. Agrada-me. Por outro lado, os burros da editora do disco estão a deixar passar a oportunidade de vender exemplares. E de que maneira!

A opção de cantar em Catalão é política, mas também de mercado e, portanto, tem consequências económicas. O esforço de compor é igual em qualquer língua, mas o mercado potencial básico do Catalão é exponencialmente menor que o Castelhano. Aqui há um compromisso político sério, portanto, e os que tentam pôr os catalães a cantar em Castelhano sabem que todos se recusarão. Dinheiro e popularidade são iscos saborosos.


Raimon grava, como se disse, o seu segundo Ep no mesmo ano de 63, como resposta à grande procura e às expectativas geradas pela sua entrada de cavalo siciliano no mundo que era então mais espectáculo que cultura. Grava "Se'n va anar" e a meio-inócua, meio-ingénua "Disset Anys", dando cobertura ou subterfúgio à "Cançó del Capvespre", que traz do beco o melhor poeta catalão comprometido com o país e a liberdade, e a "Diguem no". Esta canção terá sérias dificuldades para passar a censura e apenas chegará a disco e aos palcos com uma mudança de título, "Ahir" [Ontem], que não quer dizer absolutamente nada, e um par de substanciais alterações na letra. Reproduzimos a original e as mudanças a negrito:

Ara que som junts
diré el que tu i jo sabem
i que sovint oblidem:

Hem vist la por
ser llei per a tots.
Hem vist la sang
-que sols fa sang-
ser llei del món.

No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.

Hem vist la fam
ser pa
dels treballadors (per a molts).
Hem vist tancats (com han fet)
a la presó (callar a molts)
homes plens de raó.

No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.
No,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món



Em 1964 sai o seu terceiro Ep, com "D'un temps, d'un país", "Cançó de les mans", "Perduts" e "Tot sol", e o primeiro Lp, uma antologia comentada pelo próprio Espriu e por José Luis López Aranguren, professor de Ética na Universidade Complutense de Madrid, da qual, anos depois, seria expulso por se manifestar contra o regime. "D'un temps, d'un país" e "Cançó de les mans" apostam forte. O professor Aranguren, intelectual de peso, escreve um texto belíssimo na contracapa daquele Lp. Onde diz o seguinte:

Eu diria que Raimon contém em si uma força capaz de mobilizar as adormecidas energias de uma grande parte da nossa juventude, precisamente porque pertence por inteiro a ela, e porque, podendo "comunicar" com ela, é exigente, sabe dizer "não" às injustiças, conhecer e rejeitar as mãos que matam e as que mandam matar; e porque procura no escuro e a gritar, moço perdido na noite da cidade moderna, uma nova salvação para todos. Em suma, porque desde o fundo de si próprio se projecta para onde se dirige o Homem.

Na primeira canção, Raimon contesta a doutrina de Primo de Rivera da "dialéctica de los puños y las pistolas", com o inequívoco "no creguem en les pistoles: / per a la vida s'ha fet l'home / i no per a la mort s'ha fet". "Não acreditamos nas armas", verdadeira exclamação em defesa do direito à vida, expressa-se em forma de grito, de ordem pura e dura num verso, só e livre. Na mesma canção desaprova "la misèria necessària, diuen / de tanta gent" e proclama que "no anirem al darrere / d'antics tambors", os mitos da história militar de Espanha que a ditadura propagandeava: Viriato, o Cid Campeador, o Gran Capitán, o general Moscardó e, claro, o generalísimo Franco.

["D'un temps, d'un país" é a canção nº 11 de Raimon na caixa de música. Canção emblemática, verdadeiro hino, que foi gravada em 64, no seu terceiro Ep. Mais tarde, já saído da Edigsa, voltou a gravá-la. Essa versão, de 1968, é a canção de hoje]


D'un temps que serà el nostre,
d'un país que mai no hem fet,
cante les esperances
i plore la poca fe. /
De um tempo que será o nosso
De um país que nunca fizemos
Canto as esperanças
E lamento a pouca fé.

No creguem en les pistoles:
per a la vida s'ha fet l'home
i no per a la mort s'ha fet. /
Não acreditamos nas pistolas:
Para a vida se fez o Homem
não se fez para a morte.


No creguem en la misèria,
la misèria necessària, diuen,
de tanta gent. /
Não acreditamos na miséria,
a miséria necessária, dizem,
de tanta gente.


D'un temps que ja és un poc nostre,
d'un país que ja anem fent,
cante les esperances
i plore la poca fe. /
De um tempo que já é um pouco nosso,
de um país que já estamos a construir
canto as esperanças
e lamento a pouca fé.


Lluny som de records inútils
i de velles passions,
no anirem al darrera
d'antics tambors. /
Longe estamos de memórias inúteis
e de paixões antigas,
Não iremos atrás
de antigos tambores.

D'un temps que ja és un poc nostre,
d'un país que ja anem fent,
cante les esperances
i plore la poca fe.

D'un temps que ja és un poc nostre,
d'un país que ja anem fent.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XIII)

Raimon, com um disco triunfante no bolso e o primeiro prémio do festival de música pop mais importante do Estado até então, está como se costuma dizer lançado na fama. A Televisão Espanhola confida-o a participar no seu programa de maior audiência, Gran Parada, que se emite aos sábados à noite. Nele, canta "Al vent" e "Diguem no"... E não volta ao pequeno ecrã - a maior, contudo, na difusão dos artistas -, até depois da morte de Franco. Seria num programa com guião de Fuster e realização de Mercè Vilaret, emitido em Abril de 77, precisamente dois meses antes das primeiras eleições democráticas.

Porém, vetá-lo na televisão não viria imediatamente. Primeiro tentariam comprá-lo para o integrarem no sistema. Era o ano de 63 e um método que falhava poucas vezes, já que fama, dinheiro e polícias a protegê-lo e não a persegui-lo, implicavam um boa soma de exploração. O primeiro isco era cantar em Castelhano em nome de uma evidente ampliação do mercado. Raimon recusa. O monolinguísmo abraça uma parte ideológica importante de todo o grupo, que começa já a ser conhecido como a Nova Cançó. Cinco anos depois, o caso de Serrat e o Festival da Eurovisão assentava nesta linha. Serrat chega aos palco sem a formação intelectual e política de Raimon, e, além disso, é filho de mãe falante de Castelhano, de Belchite; tudo unto faz com que aceite ao princípio representar Espanha no Festival da Canção da Eurovisão do ano de 68 cantando um tema em Castelhano, um tema nem mais nem menos que do Dúo Dinámico, formado por dois consentidos pelo franquismo. O tema, literariamente, chama-se apenas "La, la, la". Não está nem à altura da canção comercial com algumas pretensões estéticas, como hoje a "Ponte de rodillas" que, inspirando-se no gospel, Teddy Bautista e Los Canarios tinham levado ao topo das listas de vendas daquele ano. Por fim, Serrat sente-se mal com a maquinação e diz que em Catalão ou nada.

Nesta espinhosa situação, da mesma forma, com a perspectiva histórica, deve dizer-se que o caso de Serrat tem um fundo que está para lá da questão de língua. Serrat apresenta-se, naqueles começos, mais como um cantor comercial de qualidade que como um cantor comprometido civicamente. O seu representante, Lasso de la Vega, é-o também do Dúo Dinámico - não por acaso autores de "La, la, la" - e a sua ideia principal é vender discos; a promoção que se faz de Serrat com "La, la, la" é impressionante. Enquanto Raimon, em 1968, está a cantar para trabalhadores e estudantes metidos em organizações clandestinas e é proibido, aceitar representar a Espanha franquista num festival internacional, transmitido pela televisão, supera o factor linguístico.

No começo do multicultural século XXI pode ser difícil entender que um compromisso cívico se baseasse na fidelidade a um idioma e que essa fidelidade implicasse ter de prescindir de outras. Mas a ucronia [desenvolvimento imaginário de um facto histórico como se ele tivesse sido real] ou o "pressentismo" estão rendidos à história. Quando a Canção Catalã irrompe, os sectores mais combativos interpretavam que compaginar Catalão e Castelhano era fazer uma concessão ao inimigo, quando não mesmo traição. A luta pela conservação de um idioma que queriam liquidar, a "maltractada llengua" segundo a adjectivação de Raimon, exigia para muitos um compromisso sem meias-tintas. Espriu tinha bem presente que a milenária língua catalã estava em perigo de extinção, que falava de "salvar as palavras" como valiosos tesouros, como seres de uma espécie em vias de extinção. Mas, felizmente, o Catalão sobreviveu e, anos depois, Núria feliu, a primeira cantora a dar um passo pelo bilingúismo, seria uma militante muito especial de um partido tão catalanista como Convergència Democràtica, sem que a história lhe passasse factura. Mas na altura, a Nova Cançó entra em crise e a unidade abre brechas.

Raimon interiorizou muito a questão da língua. Quando pensa em voz alta, gira em torno deste discurso:

A mim propuseram-me, obviamente, cantar em Castelhano, e até em Inglês! Mas eu sei que as possibilidades expressivas maiores tenho-as na minha língua. As minhas imagens penso-as na minha língua. O facto de que seja minoritária não quer dizer que não tenha de existir. Eu sou a favor da biodiversidade, mas também linguística, não só relativa à flora e à fauna, mas também no aspecto humano. No mundo da globalização, há o perigo que desapareça tudo o que é minoritário, tudo aquilo que não é padronizável. A diversidade ainda não está garantida.
Quando alguém canta em Castelhano, em Francês ou em Inglês, ninguém faz preguntas, é normal que cante na sua língua. Porque é que nós temos de dar tantas explicações? Pois bem, eu tenho assumido tudo isso e não só pelo compromisso cívico, mas também pelo estético, porque eu sei que é na minha língua que posso fazer melhor o meu trabalho.

[Já que está disponível, aqui vai a "La, la, la", cantada por Serrat. O vídeo, percebe-se, é da versão em Castelhano, mas o som é da versão em Catalão...]


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XII)

Mas "Paz" não ganharia o Festival de la Cançó del Mediterrani. Ganha um tema em Catalão, "Se'n va anar", que se inscreve, mas com dignidade, nos padrões comerciais, com letra de Josep Maria Andreu e música de Lleó Borrell. "Se'n va anar" pode passar como uma grande canção de amor, mas também como uma saudação a "L'emigrant", de Vives i Verdaguer, ou, pelos mais dotados à hermenêutica, como uma metáfora do exílio; eram os tempos dos cinefóruns, sessões em que em torno de um filme serviam para que toda a gente desse a sua opinião, sempre contra a ditadura. Sem Raimon, toda esta componente teria estado ausente; com Salomé ou outra cantor do domínio da música ligeira, "Se'n va anar" não teria tido o significado reivindicativo que assumiu. Por isso a cantou, porque, de facto, tiveram de o convencer com argumentos deste teor. Raimon acabava de chegar de Aix-de-Provence mais politizado que quando tinha partido e aterrar num certame comercial era a última coisa que lhe passava pela cabeça. Explica-o desta forma:

Eu, ao princípio, não queria cantar num festival com aquelas características, que fugia muito ao que eu entendia ser a canção. Os meus princípios eram outros. Tinha feito "Al vent", "A colps", "Som", "La pedra"..., acabava mesmo de gravar a "Diguem no", tinha musicado um poema de Salvador Espriu... Não estava nos meus planos um festival de música comercial. Mas demoveram-me pela questão linguística. A situação do Catalão durante a ditadura era precária, para dizê-lo favoravelmente. E pensei que podíamos contribuir a dar um passo para a normalização linguística, para que o Catalão saísse do domínio privado e entrasse na cultura de massas. E aceitei o desafio, mas com a ideia do serviço a uma causa justa como o era a normalização da língua Catalã.

Joan Fuster teve a clarividência de perceber que a presença do seu jovem protegido num festival daria muito alento à Nova Cançó, tirá-la-ia das catacumbas. Não se salvou de algumas amarguras porque nem toda a gente via com bons olhos estampar aquela nódoa na pureza. Salvador Espriu escreveu a Fuster para que ele evitasse que Raimon entrasse no mundo das variedades. A carta de Espriu acabava assim, com a sua fina ironia: "Mas todos somos p..., o resto é questão de preço". Toda a maquinaria catalanista, com a engrenagem da Edigsa na linha da frente e um certo pacto de não agressão com as autoridades, propiciado por Fèlix Millet Maristany - empresário e mecenas de artistas e iniciativas políticas democráticas, presidente do Orfeão Catalão e cofundador do Òmnium Cultural -, conseguem levar "Se'n va anar" ao Festival, que era trasmitido pela TVE, e estivesse em condição de o vencer. Eram votos do público e "Se'n va anar" impor-se-ia por 583 votos contra os 481 de "Paz".

Josep Benet lembra a imagem insólita da intelectualidade catalã votando num concurso de canção ligeira e a mobilização imediata quando a vitória de "Se'n va anar" ficou consolidada. O próprio falaria com Manuel Cubeles, que trabalhava na TVE, para garantir a cobertura posterior. Cubeles, muito sensível ao mundo da música, impulsionador do movimento de esbarts [grupo ou associação de defesa e difusão das danças tradicionais], decide ajudá-lo. Benet culmina a acção apresentando-se nessa mesma noite do festival na redacção do El Noticiero Universal, que fechava de madrugada porque era um vespertino, e coloca um anúncio do novo disco de Raimon, que continha "Se'n va anar", mas também "Diguem no"; Raimon pôs a sua canção mais dura ao lado da vencedora de um certame popularíssimo. Quem se atreveria a proibi-lo? O anúncio aparece ao lado da crónica do acontecimento e a conspiração fica selada: ganhou uma canção em Catalão e um dos que a defenderam, Raimon, não é um cantor comercial qualquer, senão o autor da canção mais comprometida escrita até àquela altura.

[Não é preciso dizer muito mais. A décima canção é a que com que - juntamente com Salomé - ganhou o Festival que ajudou a mudar o que faltava. Incluída no seu segundo disco (1963).
"Quem se atreveria a proibi-lo?" ]


Tant de temps que ha passat!
Dintre meu, tanta nit!
Dalt del cel, la ciutat
on potser
ella ha fugit.

Se'n va anar
en un dia molt clar.
Jo no sé
si a una terra llunyana.
Se'n va anar
cap enllà.
No sé pas
si tornarà.

Se'n va anar,
va donar-me la mà,
que a un adéu
no li cal cap paraula.
Se'n va anar
i un mirar
m'ha quedat per recordar.

Digue'm, amor, si és ben cert
que més enllà fa bon dia.
Digue'm, si mai que un es perd
és que ha trobat l'alegria.

Se'n va anar,
va donar-me la mà.
Jo no sé
quina cosa em diria.
Se'n va anar
cel enllà
i mai més
no tornarà.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

IV - La Cara al Vent (XI)

Os passos decisivos que trilha no mundo da canção fazem-no desistir de dedicar-se à História, concretamente a ser professor na cátedra do doutor Reglà, que já lhe tinha oferecido lugar para seu ajudante, no mesmo ano de 1963 em que obtém a licenciatura académica e a Edigsa edita o seu primeiro disco de quatro temas. Raimon vive em Barcelona em casa de Enric Gispert, que além de o orientar musicalmente, procura levá-lo por bom caminho um jovem sozinho numa cidade de alta probabilidade de "dissipação" [gostei da expressão original...]; Anna Nubiola, a esposa de Gispert, de sólidas convicções morais, ajuda-o, e Raimon, que é o contrário de um cabeça no ar, aceita uma ser por ela gerido. Até que, com o tempo, se tornará um grande praticante e defensor, com a salvaguarda de que falemos de ordem e de organização nas suas acepções funcionais e não imperativas.

No ano de 63, em suma, também se apresenta e ganha o V Festival de la Cançó del Mediterrani, que aconteceu nos dias 20, 21 e 22 de Setembro. Era um certame similar a outros que se faziam, como hoje o de San Remo, destinado a tornar comerciais canções comerciais, que as editoras discográficas apresentavam de acordo com os seus objectivos de promoção. Tinham-no ganho até então nomes pouco conhecidos como Claudio Villa, Nana Mouskouri e Robert Jeantal, e os os pré-destinados a levar o galardão daquela vez era um trio com um nome artístico explosivo, mas em realidade inofensivo, TNT (Tim, Nelly, Tom). Não valiam nada, mas defendiam uma canção que iniciaria a campanha propagandística dos XXV Años de Paz, que segundo o calendário franquista se assinalavam em 1964; eram, portanto, os candidatos oficiais. A canção, de Isidre Sola e Carles Laporta, levava como título "Paz", aquela paz fictícia que Raimon destroçaria em tantas canções, especialmente em "Sobre la Pau", composta em 1967 e dedicada a Che Guevara, morto naquele ano vítima de uma embuscada da CIA.

A fictícia paz edulcorada dos TNT juntava demasiada ideologia do nacionalcatolicismo, era como uma prece feita hino de grandes palavras que todos os fascismos têm invocado para violá-las sistematicamente. José María Pemán, um dos escritores oficiais do Movimiento Nacional, ao escrever o hino do Congresso Eucarístico de Barcelona, celebrado em 1951, incluiu nela tanta "paz" que a viam como o principal activo, como a unidade que postulavam, desde os textos de Primo de Rivera até ao pluralismo nacional de Espanha. A letra de "Paz", protótipo da canção fraca e sem vocativos invocando o Senhor, dizia:

You voy sembrando canciones
al mundo por toda la paz
porque el que siembra ilusiones,
recoge frutos de paz.

Paz, Señor, en el cielo y la tierra,
paz, Señor, en las olas del mar,
paz, Señor, en las flores que mueren
sin saberlo la brisa al pasar.

Tú que has hecho las cosas tan bellas
y les has dado una vida fugaz,
pon, Señor, tu mirada sobre ellas
y devuelve a los hombres la paz.

Hoy he visto, Señor, en el cielo
suspendido en un rayo de luz
dos palomas que alzaron el vuelo
con sus alas en forma de cruz.

Haz, Señor, que vuelvan a la tierra
las palomas que huyeron, Señor,
y la mecha que enciende la guerra
se confunda con la paz y el amor.


Era muito bom, até, que os defensores deste subproduto fossem estrangeiros para demonstrar que a autarquia [Catalunha] tinha morrido. "Paz" nascia destinada a ser banda sonora de uma montagem propagandística, como resposta à onda de protestos que desencadearam em 1963, no interior e exterior, a greve dos mineiros das Astúrias e consquente solidariedade sentida por todo o lado, e a execução de Julián Grimau. A saturação da jurisdição militar e a péssima imagem que dava ao estrangeiro levar civis a conselhos de guerra, vão forçá-los a criar o Tribunal de Orden Público, instância especial para a repressão de qualquer exercício de liberdades democráticas, que a ditadura maquilhava com o objectivo de manter a paz. Esta é a paz com a qual Raimon reduz a pó a ficção franquista:


[E aqui fica a canção número 9 na caixa de música, Sobre la Pau. A versão em escuta é a do explosivo e marcante concerto de Madrid, "El Recital de Madrid", editado em 76. Podia ser outra, mas foi esta. A versão, digo...]

De vegades la pau
no és més que por: /
Às vezes a paz
não é senão medo:
por de tu, por de mi,
por dels homes que no volem la nit. /
Medo de ti, medo de mim,
medo dos homens que não queremos a noite.

De vegades la pau
no és més que por.

De vegades la pau
fa gust de mort. /
Às vezes a paz
sabe a morte.

Dels morts per sempre,
dels que són només silenci. /
Dos mortos para sempre,
dos que são apenas siêncio.

De vegades la pau
fa gust de mort.

De vegades la pau
és com un desert
sense veus ni arbres,
com un buit immens on moren els homes. /
Às vezes a paz
é como um deserto,
sem vozes nem árvores,
como um vazio imenso os homens morrem.

De vegades la pau
és un desert. /
Às vezes a paz
é um deserto.

De vegades la pau
tanca les boques
i lliga les mans,
només et deixa les cames per fugir.
De vegades la pau. /
Às vezes a paz
fecha as bocas
e ata as mãos,
só te deixa as pernas para fugir.
Às vezes a paz.

De vegades la pau
no és més que això:
una buida paraula
per a no dir res.
De vegades la pau. /
Às vezes a paz
não é mais que isso:
uma palavra vazia
para não se dizer nada.
Às vezes a paz.


De vegades la pau
fa molt més mal;
de vegades la pau
fa molt més mal.
De vegades la pau. /
Às vezes a paz
faz muito mais mal.

Às vezes a paz
faz muito mais mal.
Às vezes a paz.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Diguem no (1963)

Ep de 1963, onde está a primeira gravação de Diguem No.




Outros discos em que surge Diguem No. Excepto o terceiro (single gravado depois de ter deixado a Edigsa) e o antepenúltimo (regravação de todas as canções até então, na compilação de dez discos Totes les Cançons), todas as outras gravações são ao vivo.
De cima para baixo (estes dez), contêm respectivamente gravações de 1966, 1967, 1968, 1968, 1971, 1972, 1976, 1981, 1993, 1997.

[A canção de hoje, a oitava de Raimon na caixa de música, é a versão de Diguem No que Raimon gravou primeiro, incluída mais uma vez no seu segundo Ep, de 63. Canção importantíssima na sua obra e na vida colectiva de um país. Voltaremos, portanto, a ela. Mais uma que terão de descarregar para ouvir em tempo real...]

Ara que som junts
diré el que tu i jo sabem
i que sovint oblidem: /
Agora que estamos juntos
direi o que tu e eu sabemos
e que amiúde esquecemos:

Hem vist la por
ser llei per a tots.
Hem vist la sang
-que sols fa sang-
ser llei del món. /
Temos visto o medo
ser lei para todos.
Temos visto o sangue
- que só gera sangue -
ser lei do mundo.


No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món. /
Não,
Eu digo não,
Digamos não.
Nós não somos desse mundo.


Hem vist la fam
ser pa
per a molts.
Hem vist qu'han fet
callar a molts
homes plens de raó. /
Temos visto a fome
ser pão
para muitos.
Vimos que fizeram
calar muitos
homens cheios de razão.

No,
jo dic no,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.

No,
diguem no.
Nosaltres no som d'eixe món.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (X)

A irrupção de Raimon em Valência, paralela aos Setze Jutges, chama à atenção destes e dos seus pares. É considerado o recital fundador dos Jutges o que, com o título La Poesia de la Nova Cançó, tem lugar a 19 de Dezembro de 1961 no CICF (Centre d'Influència Catòllica Femenina). A 21 de Outubro de 1962, na Primeira Reunião da Juventude do País Valenciano, celebrado em Castelló, cantam Espinàs, Abella, Remei Margarit e Lluís Serrahima, acompanhados por um jovem guitarrista barbudo que versionava blues no conjunto Els Quatre Gats, Francesc Pi de la Serra. [O disco cuja capa aqui partilhamos é o primeiro do grupo, de 1963]
Raimon canta depois deles e Espinàs e Pi de la Serra ficam muito bem impressionados. Posteriormente, Joan Fuster acha que Raimon merece ser ouvido em Barcelona, uma espécie de consagração laica, e paga-lhe uma viagem de comboio. Espar em pessoa vai esperá-lo à estação do Passeig de Gràcia e mesmo muitos anos depois refere a chegada de Raimon como um acontecimento; na Catalunha estavam a préfabricar um género, mas o género autêntico vinha de Xátiva. Alojam-no em casa de Enric Gispert, músico e musicólogo que se tornará num dos grandes amigos e assessor imprescindível.

Em casa de Gispert, de Espar, de Jordi Nadal, de Manuel Ortínez..., Raimon deu a conhecer "Al Vent". Não sabe precisar em qual delas a cantou primeiro, mas Ortínez, nas suas memórias, diz que foi em sua casa. Deixou isso escrito e aqui fica, pela sua personalidade - homem de confiamça do presidente Tarradellas, conselheiro de Governo da Generalitat provisória -, mas o ano que dá, anterior à estadia que nos ocupa e muito próxima da data da composição, torna-a pouco verosímil. Ortínez escreve:

[A editora] AC criámo-la com Fuster, que eu tinha conhecido em fins dos anos 50, através de Joaquim Maluquer e com quem estabelecemos boa amizade. Numa daquelas primeiras reuniões, em minha casa, em 1960, Raimon canta pela primeira vez em Barcelona as estrofes - tão apaixonadas - de "Al Vent", a canção que o catapultaria.

Raimon canta na Festa de Santa Llúcia, organizada pelo Òmnium Cultural para atribuir os prémios mais importantes das letras catalãs, o Sant Jordi (de romance) e o Carles Riba (de poesia. 13 de Dezembro de 1962, Hotel Colom. Foi uma espécie de coitus interruptus, se nos permitem uma piada em jeito valenciano, porque as hostes começariam a queixar-se de uns gritos que não as deixavam dormir; de maneira que o Raimon cantor nascia predestinado ao facto de que a intolerância o mandasse calar. Dois dias depois, debuta oficialmente no Fòrum Vergés, numa sessão colectiva, como eram quase todas, ao lado de Grau Carol, Pere Cervera, Salvador Escamilla, Xavier Elías, Miquel Porter, entre outros, e sempre com a imprescindível colaboração do virtuoso guitarrista Quico Pi de la Serra, que finalmente acabaria por cantar canções fantásticas como "L'home del Carrer".





Raimon era diferente da canção popular feita até então, é preciso lembrar. É momento de dizer que também era diferente dos Jutges. Por muitas razões. Em primero, a proveniência local e social; Raimon não era nem barcelonês nem de família burguesa nem, por consequência, usava gravata. Depois, Raimon não canta para preencher um vazio cultural, como tarefa de serviço à cultura catalã nem como contestação ao regime; canta simplesmente porque lhe brota, como o ser humano que - diz Nietzsche - que "desata a falar" nos primórdios da protohistória, e isso explica-se com as palavras ut supra mencionadas relativas às necessidades biológicas ou fisiológicas. E, além disso, "Diguem no" ultrapassa pela esquerda os conteúdos dos Setzge Jutges. Enquanto estes, até então, seguiam de alguma forma a linha de Amades, passando pela chanson francesa, e o seu compromisso - que não é pequeno, conta! -, de reivindicação linguística, quando Raimon compõe "Diguem no" inclui revindicações sociais de classe e políticas. Raimon fala de repressão, de fome, de trabalhadores - palavra proibida pelo léxico franquista, que pôs em circulação aqueloutro de "produtores" -, de prisão... em plena ditadura, adicionar conteúdos sociais à língua catalã era multiplicar por dois o ataque e, portanto, o perigo.

domingo, 27 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (IX)

Benet, então muito chegado a Fèlix Millet e a Maurici Serrahima, começa a estabelecer contactos e mecenas e patrícios que tinham vindo a pagar livros que com muito trabalho passavam pela clandestinidade - famílias catalanistas como as jámencionadas e os Carulla, os Ballbé, os Carner, ou os Pujol - ajudam-no. O seu principal agitador, Josep Espar Ticó, a quem uma singela metátese de letras permite o bem achado e combativo alter de "Espartaco", lidera a fundação de uma empresa discográfica, EDIGSA, sigla de Editora General Sociedad Anónima, em nada suspeita, porque tudo o que levava SA era sinónimo de capital, e para o franquismo todo o capital era ofício dos seus. Porém, cedo descobririam que esse axioma não existia. Josep Espar tinha antecedentes policiais, fichado pela Brigada Social, temível polícia política da ditadura, que torturava com terrível frequência, e o que será anos depois chamado para dirigir a editora, Claudi Martí Pla, também acabaria por tê-los, antecedentes; seria um dos primeiros detidos da Assembleia da Catalunha (23 de Maio de 1971), principal organização de massas de luta contra o franquismo que juntava a maioria das tendências políticas, sociais, culturais e religiosas do país.

Edigsa reúne um conjunto de accionistas pequeno, de profissionais liberais, com um núcleo duro no que depois seria Convergència Democràtica de Catalunya, liderada pelo próprio Jordi Pujol e o seu cunhado, Francesc Cabana, os irmãos Espar, Josep e Ignasi, Ermengol Passola ou Salvador Casanovas, contrabalançados por pessoas mais à esquerda, como Francesc Vila-Abadal, socialista, o arquitecto Oriol Bohigas, próximo do PSUC, e o próprio Benet.

Coral Sant Jordi - Josep Maria Espinàs

Coral de l'Agrupació Catalana d'Itàlia - Grau Carol i Orquestra

Miquel Porter - Josep Maria Espinàs
Alguns dos primeiros Epês da Edigsa, lançados em 1962.


Edigsa constitui-se com um capital de 300 mil pesetas em finais de 1961, com sede em Vic, e a sua primeira gravação é um Ep do Coral Sant Jordi, dirigido por Orioll Martorell. O seu papel na difusão da canção catalã vai ser notável, visto com a perspectiva distante da história, mas os seus primeiros momentos vão ser uma confusão, porque haveria divisões pelo confronto entre línhas de pensamento diferentes do país e do mercado. Raimon acabaria por sair, e tê-lo-ia feito mais cedo se algumas cabeças mais bem assentes, como Josep Benet e Maurici Serrahima, não tivessem intervindo. Serrahima, que considera Raimon "um poeta, um músico e um cantor de primeiro nível", e lhe reconhece o mérito de "restabelecer também na Catalunha a ideia, por vezes difusa, de que falar Valenciano é falar Catalão", como o conta no quarto volume das suas memórias:

Agora os da Edigsa - a sociedade editora de discos que vingou muito pela actuação e popularidade dos Setze Jutges e, sobretudo, de Raimon, que foi posto no topo, por uma estranha inveja - ofereceram-lhe [a Raimon] a doação de uma acção, de cinco mil pesetas nominais, para que pudesse ter uma intervenção pessoal e, se fosse preciso, algum cargo.

Raimon nunca teria notícia da acção que Serrahima refere. Mais tarde, depois de encaixar que Raimon tinha vendido perto de 40 mil discos de um dos seus primeiros dois discos, cifra astronómica não só para a canção numa língua minoritária e proscrita, Serrahima diz:

Como é que se pode explicar que Raimon não vá a Paris e não tente cantar na televisão francesa ou na italiana, única maneira de superar o boicote da daqui? Sempre o medo, a angústia pelo que possa acontecer... O mal da Edigsa é que não foi concebida como um negócio normal; se não fosse assim, tiraríamos muito mais partido dele, e exploraríamos os elementos que a constituem; em primeiro lugar, Raimon.

sábado, 26 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (VIII)


Um dos primeiros recitais dos Setze Jutges e quando ainda eram só nove (antes de 1965): (da esquerda para a direita) Josep Maria Espinàs, Delfí Abella, Xavier Elies, Enric Barbat (fila de cima), Guillermina Motta, Remei Margarit, Maria del Carme Girau (ao centro), Pi de la Serra e Miquel Porter (em baixo).


Na Catalunha, um artigo de Lluís Serrahima inspirado em Josep Benet, "Ens Calen Cançons d'Ara" [Precisamos de canções de hoje], publicado na revista Germinàbit de Janeiro do ano de 1959, tinha descerrado uma nova etapa para a normalização do uso do Catalão através de um meio de grande audiência entre os jovens como era a canção moderna. Gente com escassas faculdades musicais, mas com muito siso, vontade e desejo de relançar o idioma próprio, como o escritor Josep Maria Espinàs, o crítico de cinema Miquel Porter ou o psiquiatra Delfí Abella, entram em cena e inventam Els Setze Jutges [os Dezasséis Juízes]. Canção distinta e em Catalão.

Josep Benet, advogado, historiador, alma de tantas iniciativas em prol da recuperação dos sinais da identidad do país, democrata-cristão independente favorável a uma luta unitária de fundo, que foi com toda a probabilidade o maior criador de ideias da história da luta contra o franquismo... Josep Benet tinha precisamente acabado de recriar as "sardanes" quando se depara com a necessidade de reencontrar linguagens de futuro que contactem com os jovens. Crê que a canção moderna pode funcionar, mas nem as tímidas tentativas de Josep Guardiola ou das Irmãs Serrano, de colocar caroços em língua vernácula - termo que era popular no Concílio Vaticano II - lhe serviam. Pensou primeiro no mote, "Ens calen cançons d'ara", e deu a Lluís Serrahima todo o guião do artigo que, por último, levaria aquele slogan como título.

A coisa foi crescendo, mas eram poucos, todos cantavam por serviço ao país, sempre como algo a saber a pouco, e o produto resultante, nas palavras do mesmo Benet, não passava de uma tradução do género francês e um pouco de trazer por casa. A irrupção de Raimon, segundo dizia Benet, muda o panorama. Raimon tem força, Raimon é músico, cria um produto bom, de autoria própria, susceptível de se internacionalizar e, em suma, Raimon é um intelectual, um homem com estudos e muito lido, capaz de estar ao lado de Fuster e de Espriu, de Miró e de Tàpies. Benet diz com segurança que se Raimon não tivesse surgido naquele momento, a Nova Cançó teria corrido perigo. "Raimon foi decisivo, foi uma grande sorte que tivesse aparecido naquele momento", concluia.

Concessão da Medalha de Ouro pelo Parlamento da Catalunha, em 13 de Abril de 2007, em reconhecimento pelo papel cultural (e social) iniciado pelos Setze Jutges. Quando dois dos membros fundadores, Miquel Porter e Delfí Abella eram já falecidos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (VII)

O primeiro público de Raimon era nutrido, naqueles inícios, pelos seus amigos e pelos amigos dos amigos: Raimon dá a conhecer "Al Vent" numa taberna de Valência, Casa Pedro, sob um cartaz que proibia cuspir, a blasfémia e "la palabra soez" e, isso sim, era um altar de confissão onde concelebravam Joan Fuster e Vicent Ventura. Depois, este público cresceria e tornar-se-ia massivo, de um milhar de pessoas, de milhares. Isso vai ser possível graças ao produto, cimento sine qua non, mas também porque cedo vão surgir ao novo cantor vias de difusão da sua arte; isso sim, em nenhum caso comparáveis às que se teriam aberto se tivesse feito o mesmo, exactamente o mesmo, em Castelhano.

Quando as canções de "Pele" começam a voar - metáfora calculada, porque não há voo livre sem vento - e, no fundo, ele se permite cobrar cachés simbólicos de quarenta duros - na moeda actual, um euro e quarenta cêntimos -, um dos seus companheiros universitários, Eliseu Climent, convence-o a reclamar-se de um "Ramon" mais antigo, e baptiza-o desde Llull, Ramon / Raimon, e da profusão do nome Raimon ao mundo dos trovadores. Suporte literário que não trai o nome que os pais lhe tinham dado com tão escassa sorte, mas, que muito pouco usaram para gritarem por ele: os de casa chamavam-no Ramonet e os amigos "Pele"; depois e todos, Raimon. Ramon praticamente nunca existiu.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Uma pausa com... Pi de la Serra

Sabemos que de Pi de la Serra a última coisa que podemos esperar é alívios. A mordacidade e a ironia não não deixam fôlego para respirar.

No seguimento do último texto sobre Raimon (continuamos a traduzir o excelente livro "La Contrucció d'un Cant", de Antoni Batista), pareceu-nos adequada a canção de hoje. Está presente no fabuloso disco Triat i Garbellat, que é um álbum de 1971. Ou seja, muita água tinha já corrido e muita coisa tinha já mudado desde o começo da explosão da Nova Cançó, com Raimon, claro. Talvez a canção viesse um pouco tarde, mas, tendo vindo naquele ano, continuava a ser actual. Aqui está ela. Per tots vostés...

[Uma vez mais peço desculpa, mas não disponho dela em mp3, pelo que a ouvireis mais lenta... coisa que já expliquei para outras duas anteriores, de Raimon. A solução, redigo, é descarregarem-na (ir às ferramentas - opções de internet - definições - ver ficheiros e procurar a dita. Se os ordenarem por peso, encontá-la-ão com menos dificuldade.) e ouvirem-na nos vossos leitores.]


Francesc Pi de la Serra - Triat i Garbellat

Triat i Garbellat (Discophon, 1971)


Sóc el Millor

La pluja rellisca per sobre els taulats,
la mullena xopa els desemparats.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
A chuva resvala sobre os telhados,
a humidade empapa os desamparados.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


La lluna es "reflecta" sobre el mar lluent,
la ciutat és plena, l'aigua va caient.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
A lua reflecte-se sobre o mar luzente,
a cidade está cheia, a água vai caindo.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Les gotes que cauen d'amunt cap a baix
esclaten a terra fent bassals i xaf!
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
As gotas que caem de cima para baixo
estalam na terra, fazem charcos e xaf!
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Jo canto, i la pluja cau desobedient,
i la gent rellisca efectivament.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
Eu canto, e a chuva cai desobediente,
e a gente resvala efectivamente.

Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.

El món és injust, qui ho va dir no ho sé.
Jo, ara que canto, m'ho passo molt bé.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
O mundo é injusto, quem o disse não sei.
Eu, agora que canto, estou a passar muito bem.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.


Domino la rima i toco molt bé.
Si és moda queixar-se jo sóc el primer.
Domino "dos" llengües amb naturalitat,
castellà, català, amb gran dignitat.
Sóc de la nova cançó. Sóc el millor, sóc el millor. /
Domino a rima e toco muito bem.
Se é moda queixar-se eu sou o primeiro.
Domino "dos" línguas com naturalidade,
Castelhano, Catalão, com grande dignidade.
Sou da Nova Cançó, sou o melhor, sou o melhor.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (VI)

É quando termina o segundo curso da carreira que o seu irmão Rafael lhe oferece a guitarra, instrumento de que Raimon sempre tinha tido inveja, o fruto proibido de um músico de banda. Com a guitarra nas mãos, os acordes que tinha ido aprendendo acompanham-no no grito motorizado e sugerem-se outros sons, outras palavras que vão completar a primeira canção. Facto muito especial se nos lembrarmos que não estamos a falar de um país normal: Raimon canta na sua língua e ainda não numa línguaa cultivada para a idade que tem. Canta na língua do povo, aquela que Joan Maragall reclama no seu maravilhoso "Elogi de la Paraula". Mas é uma língua que então apenas se pode falar "na intimidade", que é o meio no qual vão continuar a falar os franquistas até depois da sua legalização como "co-oficial" a partir dos estatutos de autonomia.


Pino Donaggio - Canta en Català (EMI, 1966)
Cortesia do blogue amigo El Rincón del 45

Joan Fuster afirma com segurança que o facto de cantar em Catalão num universo onde apenas se ouvia cantar em qualquer outra língua - Castelhano, Inglês, Francês o o Latim eclesiástico - já desperta o interesse de um público com preocupações intelectuais, para lá das lúdicas. Raimon faz uma canção distinta e também, com esta, contribui para criar um público distinto. O público que se interessa por Raimon não tem nada que ver com o consumidor de música que se adjectivava como "moderna", para distingui-la da "clássica". Um género novo altera todo o ecossistema: público, meios e sistemas de comunicação, gostos e, também, a mesma evolução das espécies pré-existentes, para continuar na terminologia da sustentabilidade. Quero dizer que até os cantores mais insossos terão de fazer esforços para que se os valorize como cantautores, que é o nome com o qual os entomólogos, não sem um sem um grande exame de divisões, baptizariam a criatura. Naturalmente, o diccionário normativo de Pompeu Fabra não admitia "cantautor", e os acólitos - Espriu comparava o Fabra ao Alcorão - protectores da sua pureza não podiam sequer pôr-se de acordo em que havia algo de novo não previsto pelo pobre Fabra, que não era nenhum Júlio Verne. Surgem, portanto, cantautores ful [i.e. de merda, não autênticos] sob as pedras, vocalistas de plástico convertem-se, e para fazer ver que a língua catalã tinha passado das catacumbas aos palácios do império, como numa rendição do Édito de Milão, a última geração de rendidos do têxtil faz com que até cantores estrangeiros gravem as suas canções no idioma de Tirant.

Capa e contracapa de um Epê com canções de quatro cantores italianos a cantarem em Catalão:
Rita Pavone, Gianni Morandi, Jimmy Fontana e Donatella Moretti (RCA, 1966)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (V)

Numas declarações dessa pré-história a Jesús García de Dueñas, Raimon dizia:

Em Espanha não existe uma tradição da canção popular. Podia ter havido com as canções da guerra civil, mas tudo isso, infelizmente, perdeu-se. Houve uma tentativa, a de García Lorca (canções populares espanholas que recolheu, harmonizou para piano e para acompanhar La Argentinita), mas não nos enganemos: isso era muito minoritário e partia de uma mistificação de base. Agora que temos? Canções que nos falam de como vais, como é bonito o campo, que bem que vamos de secas, dá-me a mão, não me dês a mão, que olhos tens e etcetera, etcetera. Aqui não há qualquer motivo de interesse sobre o qual notar uma evolução. A mim, particularmente, interessa-me a canção francesa.

Raimon tinha ouvido Brassens, mas à sua maneira, não mais nenhum Brassens que o da austeridade essencial de voz e guitarra, na altura sem contrabaixo, e na ideia de que as letras tivessem um conteúdo e se aproximassem a ser poemas cantados, se bem que nuns poemas especiais em função, que já eram escritos para uma funcionalidade que não a original de serem lidos ou recitados; Raimon começa, portanto, a cantar mais preocupado com os textos que com as músicas, ao dar saída à sua paixão pela literatura. Havia, portanto, uma poética - num primeiro sentido - maior em Brassens que em Raimon. Mas tampouco havia Brassens no primeiro Raimon, ou, em suma, no conteúdo das letras. Brassens explicava situações e Raimon pensava em voz alta.
Aquela preocupação com as letras, dizer alguma coisa e dizê-lo bem dito, vai ser uma força motriz da Nova Cançó. Josep Pla destaca, naqueles primeiros anos, o valor de Raimon como poeta; agrada-lhe tanto que pensa que os textos das suas canções são de Joan Fuster. Quando descobre que Raimon as faz sozinho, escreve: "Na actualidade [1966] Raimon é uma das chaves da sensibilidade popular do país, sobretudo no mundo que emerge. É o seu grande poeta, um grande poeta". Não será preciso dizer que Pla era - é - o grande escritor. Uma referência incontornável na história da literatura catalã.

É difícil falar de influências de Raimon nos seus começos, mas é inevitável tentar explicar de onde brota "aquilo". Quando Raimon faz "Al Vent", diria que nem sequer tinha em mente a melodia da flauta que tocara; isso viria mais tarde. Raimon canta tal como lhe sai a voz poderosa que tem, isso sim, com o fiato bem entranhado pela escola de "sopradores" das bandas; e se por acaso o seu canto se lembra, remotamente, alguma coisa é o seu canto gritado desde as profundezas do corpo e da alma, é ao blues e ao flamenco, que não obstante responde por cante jondo, por aspiração fonética de hondo, fundo. Retomaremos este assunto, mas quando nos detivermos na música. Por agora enunciamos apenas o mínimo para contextualizar o fundo cultural numa viagem de moto de um jovem estudante que tira partido estético do vento.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (IV)


Capa da Totes les Cançons (10 discos) (Belter)


Quando prepara a edição completa da sua obra até então (1981), intitulada Raimon. Totes les Cançons, deixa para o último disco as primeiras gravações, que quer despojadas de arranjos, apenas com os bordões de um contrabaixo a ritmar a melodia da voz e o acorde da corda da guitarra. É o Raimon fiel às origens e diria que recolhendo uma das suas primeiras influências sérias na maneira de entender a canção, a de George Brassens, que passaria toda a sua carreira apenas acompanhado pelo contrabaixo de Pierre Nicolas.

Brassens, com Jacques Brel e Léo Ferré, eram dos escassos cantores com pretensões literárias que Raimon tinha ouvido até então, e a sua maneira de entender o género da canção popular vai, sem dúvida, chamar-lhe a atenção, mas no singularíssimo caso de Raimon - "inimitável e irrepetível", segundo Espriu - não se pode falar tanto de influências como do background, o qual se tinha ido acumulando no lóbulo temporal do cérebro: as missas gregorianas dos clérigos; Machín e Nat King Cole, Jorge Negrete e Irma Vila, Belafonte e os boleros que tinha mamado da rádio; todo o repertório da banda, miscelânia heterogénea de cordas transposta aos metais do campo sinfónico e as múltiplas charangas próprias; a respeituosa audição dos primeiros clássicos; as work songs e o gospell norte-americanos; o jazz de Louis Armstrong, especialmente os seus premiados espirituais, um disco actualmente quase impossível de encontrar no lifting do CD, The Good Book, gravado em 1938...

Brassens fazia aquele tipo de canção popular que contrastava com o que então chegava até cá, era o que Umberto Eco qualificaria como a "canção distinta". Era uma canção diferente da que se enternizava nas listas de êxitos, que respondiam à terminologia inglesa de hit parade, e se era diferente em forma e conteúdo, era-o também na finalidade e sê-lo-ia nos circuitos. Nada a ver com a música pop convencional da época dos conjuntos importados da cultura anglo-saxónica, e muito menos com os subprodutos mal apelidados de modernos que por aqui grassavam, fossem o Dúo Dinámico, a Lita Torelló ou a daninha tonadilleta - segundo diminutivo de toada: tonadilla, tonadilleta - de Manolo Escobar ou Juanito Valderrama, cujos melismas metiam medo. Joselito já era letal.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (III)

Quando saímos de Xátiva - conta Raimon -, "Al Vent" não existia, e quando cheguei a Valência, a canção já estava feita. Eu ia atrás, não sei conduzir grande coisa, e ia atrás, com a guitarra que o meu irmão me tinha oferecido. E com os três acordes que sabia naquele momento, saiu-me "Al Vent", como um grito sobretudo fisiológico... O vento baita-me na cara, e, sem saber como, comecei a pensar, a procurar uma ordem diferente, aquela vontade de adolescente de encontrar um lugar no mundo.
Depois escrevo-a e canto-a de imediato, com os amigos, na universidade. A primeira pergunta que todos fazem é: de quem é a canção? Era impensável que fosse uma canção autóctone e que fosse minha, pensavam que era uma tradução do francês ou do inglês, porque aqui não se faziam coisas assim. E um valenciano e em Catalão...!

Manuel Sacristán, no seu prólogo ao livro Raimon. Poemes i Cançons, faz uma bela descrição de "Al Vent". Parágrafo único para uma multiplicidade de conceitos que se encontram, se relacionam e se reencontram, na mais pura e bem conseguida praxis do materialismo dialéctico. O tradutor de Lukácks presta honra à sua Estètica, o mais belo canto à beleza entoado a partir da filosofia marxista:

"Al Vent" é uma canção de estrutura simples e bastante tradicional. O refrão - o grito que dá nome à canção - é uma expressão subtilmente directa de vitalidade juvenil, de entrega ao mundo e da tentativa de penetrar nele por quem não está preso pelas algemas classificadoras da divisão do trabalho. Como sempre, a impressão do que é muito directo, da espontaneidade, é fruto do trabalho do poeta consigo mesmo e com o meio expressivo; no primeiro é melhor ainda não nos determos; o segundo manifesta-se no uso de uma sintaxe de justaposição para tapar algo muito mais difícil: uma "análise" selectiva - bem sugestiva pela sua concreção subjectiva, causa provável do êxito magnetizante desta canção - que enumera as partes do corpo que estão (segundo o poema) expostas ao vento: a cara, o coração, as mãos, os olhos. O jovem que correu ao vento - de moto ou a pé, não se sabe se para libertar a energia, se para encontrar alguma coisa - fica convencido pela tangível descrição como a expressão da sua experiência, e interessa-se pelo menos, no caso em que não o compartilha, pelo sentido que Raimon lhe dá: procura. Estas duas estrofes, formal e musicalmente idênticas, abrem caminho a três versos contrastantes pelo que dizem e pela música. Enquanto o primeiro elemento significativo da canção é a afirmação simples de uma experiência de vida e de um dos seus sentidos - aquilo que Fuster apelidaria de "aspiração metafísica" - , esta breve terceira estrofe é um registo meditativo da experiência oposta, do mal e da tristeza, a qual põe em dúvida a primeira afirmação vital: porque " a vida pode ser esse choro". O final da canção volta a afirmar a experiência vital positiva, a primeira estrofe, e faz assim uma síntese dos dois momentos anteriores. O que é peculiar desta fase do canto de Raimon é que não há qualquer discurso - nem discursividade musical - que dê lugar à reafirmação da vida; há uma adversativa abrupta: "la vida pot ser eixe plor, / pero nosaltres / al vent". E a melodia inicial reaparece sem qualquer cambiante. A razão de viver do adolescente é a sua vitalidade.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (II)

Raimon ia atrás. Levava a moto um amigo da universidade, das Astúrias, a quem ele ia explicando a sua paisagem muito íntima; Raimon não aprenderia a conduzir até que uma doença padecida por Annalisa, felizmente ultrapassada, o obrigaria a fazê-lo. Apesar disso, não gosta nada e apenas se põe ao volante para ir comprar o pão e os jornais quando passa algum tempo na casa que tem em Xábia, aberta aos quatro ventos. O vento, a propósito, sopra a favor da criatividade de Raimon, pelo menos desde aquela viagem juvenil de Vespa: a palavra "vent" aparece treze vezes na obra que analisámos de Raimon, sem contar as referências nos versos de outros autores que musicou, a começar com "Veles e Vents". Completa a canção indo do particular anatómico para o geral, num salto espectacular. A cara, o coração, as mãos, os olhos... são uma espécie de pára-brisas natural; e, tudo junto, "al vent del món" ("Ao vento do mundo"). Depois, a viagem material vira a iniciática, a procura dos grandes ideais universais, partindo de uma realidade triste que [Raimon] começava já a identificar com o termo "nit" (noite), mais desenvolvido na canção que tem simplesmente esta palavra e o artigo. "La Nit" data de 1964 e durante muito tempo abrirá os recitais de Raimon. A noite é o cenário e graças a esta metáfora, a noite vai ser associada de uma maneira generalizada ao franquismo. Raimon, já desde a sua primeira canção, funde a noite / franquismo como ponto de pertença, mas na ideia dinâmica de a superar. Neste caso, na busca dos ideiais e com a força da energia eólica.


"Al Vent" é uma canção que nasce de um grito. O impacto físico do ar em movimento proporcionado pela velocidade tanto produz uma exclamação como levanta um aeroplano e, pouco a pouco, vai crescendo uma gravidez de letra e música. Raimon definia as suas primeiras canções como "mais fisiológicas, expressões de pura necessidade e sem ter o que quer que seja em atenção"; emprega a mesma palavra "fisiológicas" numa entrevista com Francesc Baiges; e ainda noutra, com Toni Rodríguez, usava uma terminologia similar, "necessidade biológica de me expressar", igual que com Álvaro Feito. Uma boa definição para as canções que se seguem a "Al Vent" e que vão conformar o seu primeiro disco de curta duração, aquilo a se chamava extended play ou, simplesmente, EP, editado no ano de 1963: "Al Vent", "La Pedra", "Som" e "A Colps", com uma bonita foto de Oriol Maspons na frente, que recuperámos para a capa deste livro.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (I)

[Acabava de cumprir dezassete anos (Espanha, 1963), e um dia, à saída de uma reunião na paróquia, um "padre vermelho", daqueles que chamávamos de vocação tardia - o padre Manolo -, ofereceu-me um pequeno disco com quatro canções, que lhe tinham mandado de uma comunidade cristã de Barcelona. "Está cantado em Catalão - disse-me -, mas vais ver, é muito bom e tem muita força".
Cheguei a casa, fechei-me no meu quarto e ouvi, já não me lembro quantas vezes, aquelas quatro canções; quatro canções lograram revolucionar todos os meus sentimentos.

Fernando G. Lucini, in "Crónica Cantada de los Silencios Rotos"
]


O despido percurso de Xátiva a Valência do ano 59, provavelmente num fim-de-semana, vai tornar-se mais decisivo que as suas excursões "para o norte, onde dizem que a gente é mais limpa e nobre, culta e rica, livre, estimulante e feliz", segundo um dos mais conhecidos poemas de Salvador Espriu, que, por acaso, Raimon nunca musicou. O poema dá-nos a medida do fascínio que o estrangeiro suscitava, olhando para cima, por parte dos habitantes de uma terra triste e pobre em recursos e habitada por castigados sobreviventes de uma guerra civil. Mas no voo doméstico de Xátiva a Valência, numa moto de marca Vespa, hoje pérola de antiquários e fetichistas da pré-história do motor, Raimon engendra a sua primeira canção, "Al Vent".

Primeiro disco de Raimon (1963), disco histórico que incluía as míticas "Al Vent", "La Pedra", "Som" e "A Colps". "Al Vent" é a sétima canção que podemos ouvir na caixa de música. Não é versão original, deste disco, com muita pena minha, que ouvimos, mas a que cantou no Palácio dos Desportos de Madrid, em 5 de Fevereiro de 1976, e que está registada no disco El Recital de Madrid.Não vou traduzir esta canção. O "crit" de Raimon basta por si para nos despertar o que ela significa. Continuaremos a falar dela, em próximos artigos.]

Al vent,
la cara al vent,
el cor al vent,
les mans al vent,
els ulls al vent,
al vent del món.

I tots,
tots plens de nit,
buscant la llum,
buscant la pau,
buscant a déu,
al vent del món.

La vida ens dóna penes,
ja el nàixer és un gran plor:
la vida pot ser eixe plor;
però nosaltres

al vent,
la cara al vent,
el cor al vent,
les mans al vent,
els ulls al vent,
al vent del món.

I tots,
tots plens de nit,
buscant la llum,
buscant la pau,
buscant a déu,
al vent del món.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (VI)

Com Paris visto, vai querer ir a Londres, mas a façanha já era demasiado complicada para conseguir com duzentos "duros", tendo em conta que então era impossível atravessar a Mancha de carro. De maneira que gastou o dinheiro na viagem e, uma vez na ilha, foi arranjar trabalho, como tantos e tantos estudantes. Vai trabalhar numa obra, com um martelo-pneumático que, apesar de lhe castigar as mãos, vai permitir-lhe ganhar umas maquias que vai investir em livros e moda... Toda a gente já reparou que Raimon cuida da forma como se veste. Inglaterra mandava durante os anos sessenta, e depois seria a Itália, circunstância que lhe facilitaria a tarefa de combinar cores, se fosse preciso com valentia.

Uma viagem menos estimulante vai ser a que iniciaria em 1962, a Ronda. Ronda é um lugar muito bonito, um monte de história pendurada numa escarpa cobiçada por combatentes, imortalizados, digamo-lo assim, pela famosa série televisiva Curro Jiménez, toreiros e cantaores, mas Raimon não vai poder disfrutar dela porque a sua missão era obrigada: o serviço militar, penoso e longo. Raimon pretendia fazer as milícias universitárias, mas seria suspenso por razões óbvias de expediente não académico. Naturalmente, ele, avant la lettre, não acreditava nas pistolas nem na utilidade do exército, e ter de passar por isso durante alguns verões de jorrante suor na Penibética, para acabar feito em tropa, não lhe agradavam nada, mas as milícias abreviavam o serviço e permitiam estudar. Tampouco vai ser possível: a "catalogação" de contrário ao sistema tinha que se pagar naturalmente naquele exército que o tinha criado. E Raimon terá que somar aos Verões das milícias uma outra na mili normal em Paterna.

A terceira grande viagem é a mais pequena. O trajecto doméstico de Valência a Xátiva, que Raimon fazia praticamente cada fim-de-semana dos seus anos universitários que aqui encerramos. Deixamo-lo licenciado em Filosofia e Letras, no ramo de História, e o contraponto de tristeza por o seu pai não ter podido vê-lo, que morreu em 1961. Para um trabalhador de esquerda, era um grande orgulho poder ter um filho na universidade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (V)

Valência é qualificada como "uma cidade difícil" na canção "Andreu, Amic", dedicada ao escultor Andreu Alfaro, que é conhecedor de todos os seus becos. A "ciutat difícil" na qual Raimon vive os seus anos de universitário está retratada naqueles versos:

"Dels ponts del riu i de les pedres velles, /
"Das pontes do rio e das pedras velhas
des clares matins, de la llum dels baladres. (...) /
das manhãs claras, da luz dos loendros. (...)
Carrers estrets i espais poc metafísics, /
Ruas estreitas e espaços pouco metafísicos,
tot l'entrellat d'una ciutat difícil, /
todo o intrigante de uma cidade difícil,
indiferente i secularment puta." /
indiferente e secularmente puta".


Curioso que a única palavra grosseira do cuidadoso Raimon literário esteja escrita não no sentido estrito, mas no sentido triste que o termo tem, ... em Valência. Fosse como fosse, Valência cidade não aparece com boa imagem nas canções de Raimon; "ainda bem que os duros não se deram conta", dir-lhe-ia um amigo em jeito de piada, segundo conta em Les Hores Guanyades. A outra menção surge em "L'Única Seguretat" e lembra, a lembrança é imelhorável porque foi no dia em que conheceu Annalisa: "El goig d'haver-te trobat / un dia fa ja molts anys / a la ciutat bruta i plana". ("A emoção de te ter encontrado / um dia, já há muitos anos, / na cidade bruta e plana").

Daquela Valência, ao fim e ao cabo, Raimon destaca a zona gótica de casarões com musgo, a catedral e a galeria, a rua de Cavallers e o restaurante Bermell, ponto de encontro dos progressistas intelectuais, que mantém ainda o nome de outrora e alguns pratos de interesse etnogastronómico, como agora o esgarraet, variedade de salada de bacalhau que seria admitida pela Academia Valenciana da Língua, digamos, e o Atum de areia, conservado em água e sal como as anchovas, conhecido desde a Idade Média e sob a influência do qual vai chegar desde Alacant até às costas de Tarragona como ingrediente do xató.

Valência foi o porto onde Raimon ancorou o barco que conduzia Ausiàs March gráças ao impulso do vento nas velas. Mas faria várias viagens. Com mil pesetas poupadas durante todo o ano, em 1960 vai a Paris à boleia com dois amigos, Joan Joan e Vicent Àlvarez. Vai dar azo a uma das suas grandes vontades, passear e mirar, e apaixona-se por aquela cidade com uma intensidade que dura até hoje. Raimon precisa de ir a Paris de vez em quando, percorrer o Bairro Latino e comer nos bistrot, aqueles pequenos restaurantes que servem boa comida e nunca para desenrascar, com uma garrafa de um vinho sempre negro.

domingo, 13 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (IV)

À parte Dolç e Fuster, do meio académico valenciano Raimon guarda memórias especiais de Antonio Ubieto, Josep M. Jove, Joan Reglà e Miquel Tarradell. O doutro Reglà, discípulo de Jaume Vivenç Vives, era experto na Coroa de Aragão, mouriscos e bandoleiros, e deixou obra entre 1958 e 1971, ano em que vai ser o núcleo fundador da nova Universidade Autónoma de Barcelona, que vai acolher tantos professores considerados "desafectos" ao regime franquista, exilados ou simplesmente expulsos. Tarradell vai deixar obra em Arqueologia e História Antiga, e durante a sua estadia no País Valenciano dirigiu escavações importantes. Fora da docência, Tarradell fazia política, sobretudo religando as complexos redes dos Países Catalães, parte sul. E acolhia Raimon em reuniões familiares.

Também fez amigos, naturalmente, sobretudo do ambiente catalanista, como Eliseu Climent, que depois fundaria a editora Tres i Quatre e se tornaria num grande impulsionador de múltiplas iniciativas culturais como agora Bloc Jaume I ou os Prémios Octubre, e Alfons Cucó, que o tempo faria historiador e poeta, e o dramaturgo e director Sanchis Sinisterra, e Josep Maria Morera. Vai ser naquele ambiente universitário que começa a amadurecer. A greve dos mineiros nas Astúrias em 1962 fez também despoletar uma greve e manifestações solidárias na Universidade de Valência, que vão levar à prisão diversos líderes estudantis amigos de Raimon. Daquela experiência vivida, filtrada pelo homem que diz não de Camus, nasce "Diguem No", a canção que se tornaria hino de luta contra a ditadura.

sábado, 12 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (III)

A universidade tinha-lhe ido engrandecendo a cultura, tanto pela sua avidez, quase voracidade, enquanto leitor, como por a biblioteca ser um lugar inevitável para se proteger do frio. Começa a ler Ausiàs March na colecção "Els Nostres Clàssics". No ano de 1959 comemorou-se o quarto centenário do autor de "Veles e Vents...", autor no qual se iniciaria Miquel Dolç, catedrático de Latim, que chegaria a decano quando Raimon já tinha abandonado as aulas. Dolç era um grande experto en Virgílio - diria que neste nosso modesto lugar, era "o experto" -, estudando-o e traduzindo-o, resgatando-o para a colecção "Bernat Metge", um dos tesouros mais importantes da cultura catalã, que, graças a Dolç, Raimon vai começar a folhear enquanto, em verdade, começava a ler numa língua que até então apenas era de uso privado. A Eneida inicia-se cantando - o verbo cantar conta!, é o primeiro que se conjuga nesta tão magna obra, terceira palavra do primeiro verso hexassilábico - "as armas e o herói"... mas Virgílio também faz soar o antecedente mais directo do flautim, a "caramella". Aprofundar a métrica latina, de versos que eram verdadeiros compassos, vai dar a Raimon os precisos trinta por cento que lhe faltavam para fazer tão bem o que começava a tentar por aqueles dias: cantar. Raimon vai descobrir na métrica clássica, recuperada por Ausiàs, a música que nascia das palavras.

Falávamos de percentagens: a melodia do flautim; o tempo de Xátiva; a música da fonética, uma fonética que não era senão a de Ausiàs, como anos depois lhe faria notar Martí de Riquer, quando lhe aconselhava que simplesmente o pronunciasse com a sua pronúncia. Vai começar a fazê-lo em público naquela comemoração universitária da morte de March. No salão nobre, Raimon vai recitar "Elogi a Teresa".

Os quatrocentos anos da morte de Ausiàs vão ser vir a Raimon para conhecer uma outra personagem importante na sua vida, Joan Fuster, que vai ser quem o vai induzir a ler Espriu, ao oferecer-lhe "La Pell de Brau". Aqui está um acaso interessante. Fuster é o elo entre os dois poetas mais musicados por Raimon, Ausiàs March e Salvador Espriu. Graças à comemoração de Ausiàs, conhece Fuster, graças a Fuster, conhece Espriu; e fica em jeito de anedota que Espriu, ao ouvir "Veles e Vents" pela primeira vez, com a solenidade de quem se sente herdeiro da tradição poética na língua catalã, vai dizer a Raimon: "Em nome do senhor March, muito agradecido".


A amizade de Raimon com Fuster cresceria. Pouco depois de se conhecerem já compartilhavam uma tertúlia de universitários, que se reunia cada segunda-feira e à qual também assistia o compositor Vicent Garcés, que inculcava em raimon noções de harmonia teórica. Porque a prática já a sabia toda de tocar na banda.

A primeira coisa que li de Fuster - explica Raimon - foi o seu esplêndido livro El Descrèdit de la Realitat. Li-o numa edição castelhana e, depois, quis saber coisas sobre o autor, que me pareceu apropriado. Conheci-o e abriu-se-me um mundo de uma grande força racional, de uma grande ironia, de uma inteligência muito apurar e de uma grande sensibilidade como crítico literário e homem de cultura, como um grande intelectual. Assim começou a grande amizade que para mim foi importante de todos os pontos de vista e que é uma daquelas coisas que levamos sempre connosco para toda a vida.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (II)

Raimon parte para Valência para estudar. O bacharelato correu-lhe bem. É quando pensa que tem possibilidades dramáticas e planeia entrar no Real Conservatório de Música e Declamación: o seu irmão Enric, que trabalhava num bar na capital, e o amigo “Cote”, que estudava filosofia, vão ser as suas primeiras bases. Depois, passou a viver em pensões e colégios.

Cedo, porém, se apercebe que começar a estudar teatro não é começar a fazer de galante, e que é preciso partir muita pedra, coisa que o aborrece de sobremaneira. Isso, de qualquer forma, era a que ele estava habituado, e em idades tão precárias uma pessoa quer ser simplesmente aquilo que mais lhe apetece dentro da pequena mostra de artes e ofícios de que se teve conhecimento. Contudo teria sorte, e iria descobrir, com quem diz, por acaso, uma disciplina que não imaginava qual. Um dia, indo buscar o seu amigo “Cote”, à Facultat de Lletres, entrou numa sala, para ver o que por lá se dizia. E concluiu que era bem mais interessante que a técnica de declamação que lhe ocupava o precioso tempo dedicado a formar-se; precioso em todos os sentidos, já que para Raimon estudar era mesmo um luxo, como o era, em geral, para todas as famílias de trabalhadores: era necessário dinheiro para a matrícula, os livros e as despesas, e se ainda fosse pouco deixavam de ir, que um trabalho já começava a oxigenar as precárias economias domésticas.

Raimon matricula-se em Filosofia e Letras e, graças às boas notas, consegue uma bolsa do Sindicato Español Universitário (SEU) que o ajuda economicamente. Tampouco o gasta, porque o SEU também oferece refeições aos estudantes; a oferta gastronómica, porém, é um triste rancho, muito mau, mas Raimon, com as trocados que junta, consegue um jantar com os amigos ou uma noite de conversas regadas com os combinados que acabavam de chegar do transoceânico: a Cuba livre.

“A les butxaques d’uns pantalons vells” (“Nos bolsos de umas calças velhas”), onde guarda as lembranças sentimantais, tem o leite que cada manhã o seu irmão Enric lhe deixava na travessa, para complementar vitaminicamente uma dieta pouco equilibrada.
A universidade ainda não era massificada. Na Rua da Nau, num curso presidido por Joan-Lluís Vives, cursavam o primeiro ano comum apenas uns setenta estudantes, e a partir do terceiro, quando Raimon se especializa em História, não mais que uns vinte. Isso fez com que os professores conhecessem os alunos pelo seu nome, que a docência fosse boa, e que, em suma, houvesse uma relação familiar que permitia que o catedrático repreendesse discretamente “Pele” quando chegava tarde de manhã porque tinha lido até altas horas da noite ou porque algum professor o tinha convidado para jantar em sua casa e a conversa se tinha estendido.

Raimon tem aquela fluidez de conhecimento de quem tem uma permanente curiosidade intelectual e um raciocíno metódico, sério, exigente, organizado; de quem nunca toma por boa a evidência demasiado fácil, que dá sempre a volta à abordagem que primeiramente assumiu para ver as coisas de uma maneira diferente; ainda que o negue, Raimon teria dado um muito bom político, porque a res publica requer esta sistemática de raciocínio; mas licenciou-se em História. Corria o ano de 1963, quando ainda não tinha completado os vinte e três anos. Conselhos posteriores do doutor Jordi Nadal, muito influente em gerações de economistas, pretenderam orientá-lo, tendo-o enviado a um curso de especialização, com tudo pago, a Aix-de-Provence, que até lhe foi de grande utilidade. Mas não na direcção académica, na qual Nadal lhe augurava bom futuro: decidiria que não se dedicaria à História. Aí também faria um bom amigo, que depois faria uma importantíssima carreira política, alcalde de Barcelona, conselheiro da Generalitat e vice-presidente do Governo Espanhol, Narcís Serra, e iria descobrir Mozart graças a uma representação de “Cosi fan tutte” e musicaria pela primeira vez um poema de [Salvador] Espriu, “Cançó del Capvespre”.

[As duas capas de discos (de 1963 e 1966) que vemos aqui em baixo são as duas primeiras vezes onde apareceu o tema de hoje. Salvador Espriu é um nome maior da poesia catalã e peço desde já desculpa por ter traduzido este seu poema.
Mais uma vez - e para oferecer o melhor aos que me lêem - a canção na caixa de música (a número 6) é a original, de 1963. Porém, como a de ontem, sofre do tal problema. Para a ouvirem em condições basta copiarem a que ficará na pasta dos ficheiros temporários da net, após ela ter sido completamente carregada.
Esta preciosidade que tenho-a há algum tempo no ordenador e não fazia sentido não ser divulgada. Porque os arranjos conseguidos caracterizam excelentemente o tom paisagístico do poema. Simplesmente fantástica!]



Cançó del Capvespre



S'enduien veus d'infants
el sol que jo mirava. /

Vozes de crianças levaram
o sol que eu olhava.
Tota la llum d'estiu
se'm feia enyor de somni. /

Toda a luz do Verão
me dava vontade de sonhar.

El rellotge, al blanc mur,
diu com se'n va la tarda. /

O relógio, no muro branco,
diz como vai a tarde.
S'encalma un vent suau
pels camins del capvespre. /

Um vento suave abranda
pelos caminhos do entardecer.

Potser demà vindran
encara lentes hores
de claror per als ulls
d'aquest esguard tan àvid. /

Talvez amanhã ainda
venham horas lentas
de luz para os olhos
deste olhar tão ávido.

Però ara és la nit. /
Mas agora é noite.
I he quedat solitari
a la casa dels morts
que només jo recordo. /

E fiquei sozinho
na casa dos mortos
que só eu lembro.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (I)

No ano de 1957, quando Raimon não tinha ainda feito os dezassete anos, deixa Xátiva. Deixa-a traumaticamente porque tinha ficado claro que ali se tinha urbanizado a sua paisagem interior, porque ali havia uma família bem vivida e bons amigos. Quando tudo isso fica para trás, necessariamente se tem vontade de regressar, como está patente na "Cançó de la Mare", quando termina com um reiterativo "jo sé, jo sé, jo sé, jo sé / que tornaré al carrer Blanc". É o mais lógico quando para trás está tudo e à frente não há nada, mas o tempo iria enchê-lo, e esta expectativa é um motor de explosão que faz avançar a máquina humana, apesar de todas as forças centrípetas.

Uma das suas primeiras canções explica demasiado bem o que passava pela cabeça criativa de "Pele". Não podia senão chamar-se "Disset Anys".

"Se'n va anar i tres cançons de Raimon", disco de média duração de 1963 que contém pela primeira vez a canção de hoje, Disset Anys .

[Devido a incompatibilidades técnicas, esta canção, a versão original, do disco cuja capa aqui expomos, está um bocadinho mais lenta que o tempo real. Isso decorre de ter sido gravada em formato wma, e é um problema que não consegui resolver. Resta-nos a alegria de podermos descarregá-la e então ouvi-la como deve ser. Vale ainda mais a pena se tivermos presente que é, nesta altura da história, aceder a esta gravação original através da rede. Felizmente que parece ser apenas esse o problema, pelo que aparecerão algumas mais a padecer desta enfermidade.]

Disset Anys

Tots els somnis trencats. /
Todos os sonhos quebrados.
Tots els castells per terra. /
Todos os castelos desabados
Tot allò que hem viscut
tan endins s'ha enfonsat. /
Tudo aquilo que vivemos
Para tão fundo se afundou.

Què s'ha fet dels 17 anys? /
Que resta dos 17 anos?
Què s'ha fet d'aquells ulls,
d'aquelles mans tan pures?
Que resta daqueles olhos,
daquelas mãos tão puras?

Què s'ha fet,
què s'ha fet...?

Tant de cel se n'ha anat,
tanta mort al darrera
de tot cor. /
Tanto céu partiu,
tanta morte para trás
de todos os corações.

Tant de plor,
tant de plor... /
Tanto choro,
tanto choro...