Joan Fuster afirma com segurança que o facto de cantar em Catalão num universo onde apenas se ouvia cantar em qualquer outra língua - Castelhano, Inglês, Francês o o Latim eclesiástico - já desperta o interesse de um público com preocupações intelectuais, para lá das lúdicas. Raimon faz uma canção distinta e também, com esta, contribui para criar um público distinto. O público que se interessa por Raimon não tem nada que ver com o consumidor de música que se adjectivava como "moderna", para distingui-la da "clássica". Um género novo altera todo o ecossistema: público, meios e sistemas de comunicação, gostos e, também, a mesma evolução das espécies pré-existentes, para continuar na terminologia da sustentabilidade. Quero dizer que até os cantores mais insossos terão de fazer esforços para que se os valorize como cantautores, que é o nome com o qual os entomólogos, não sem um sem um grande exame de divisões, baptizariam a criatura. Naturalmente, o diccionário normativo de Pompeu Fabra não admitia "cantautor", e os acólitos - Espriu comparava o Fabra ao Alcorão - protectores da sua pureza não podiam sequer pôr-se de acordo em que havia algo de novo não previsto pelo pobre Fabra, que não era nenhum Júlio Verne. Surgem, portanto, cantautores ful [i.e. de merda, não autênticos] sob as pedras, vocalistas de plástico convertem-se, e para fazer ver que a língua catalã tinha passado das catacumbas aos palácios do império, como numa rendição do Édito de Milão, a última geração de rendidos do têxtil faz com que até cantores estrangeiros gravem as suas canções no idioma de Tirant.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
IV - La Cara al Vent (VI)
Joan Fuster afirma com segurança que o facto de cantar em Catalão num universo onde apenas se ouvia cantar em qualquer outra língua - Castelhano, Inglês, Francês o o Latim eclesiástico - já desperta o interesse de um público com preocupações intelectuais, para lá das lúdicas. Raimon faz uma canção distinta e também, com esta, contribui para criar um público distinto. O público que se interessa por Raimon não tem nada que ver com o consumidor de música que se adjectivava como "moderna", para distingui-la da "clássica". Um género novo altera todo o ecossistema: público, meios e sistemas de comunicação, gostos e, também, a mesma evolução das espécies pré-existentes, para continuar na terminologia da sustentabilidade. Quero dizer que até os cantores mais insossos terão de fazer esforços para que se os valorize como cantautores, que é o nome com o qual os entomólogos, não sem um sem um grande exame de divisões, baptizariam a criatura. Naturalmente, o diccionário normativo de Pompeu Fabra não admitia "cantautor", e os acólitos - Espriu comparava o Fabra ao Alcorão - protectores da sua pureza não podiam sequer pôr-se de acordo em que havia algo de novo não previsto pelo pobre Fabra, que não era nenhum Júlio Verne. Surgem, portanto, cantautores ful [i.e. de merda, não autênticos] sob as pedras, vocalistas de plástico convertem-se, e para fazer ver que a língua catalã tinha passado das catacumbas aos palácios do império, como numa rendição do Édito de Milão, a última geração de rendidos do têxtil faz com que até cantores estrangeiros gravem as suas canções no idioma de Tirant.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
IV - La Cara al Vent (V)
Em Espanha não existe uma tradição da canção popular. Podia ter havido com as canções da guerra civil, mas tudo isso, infelizmente, perdeu-se. Houve uma tentativa, a de García Lorca (canções populares espanholas que recolheu, harmonizou para piano e para acompanhar La Argentinita), mas não nos enganemos: isso era muito minoritário e partia de uma mistificação de base. Agora que temos? Canções que nos falam de como vais, como é bonito o campo, que bem que vamos de secas, dá-me a mão, não me dês a mão, que olhos tens e etcetera, etcetera. Aqui não há qualquer motivo de interesse sobre o qual notar uma evolução. A mim, particularmente, interessa-me a canção francesa.
Raimon tinha ouvido Brassens, mas à sua maneira, não mais nenhum Brassens que o da austeridade essencial de voz e guitarra, na altura sem contrabaixo, e na ideia de que as letras tivessem um conteúdo e se aproximassem a ser poemas cantados, se bem que nuns poemas especiais em função, que já eram escritos para uma funcionalidade que não a original de serem lidos ou recitados; Raimon começa, portanto, a cantar mais preocupado com os textos que com as músicas, ao dar saída à sua paixão pela literatura. Havia, portanto, uma poética - num primeiro sentido - maior em Brassens que em Raimon. Mas tampouco havia Brassens no primeiro Raimon, ou, em suma, no conteúdo das letras. Brassens explicava situações e Raimon pensava em voz alta.

É difícil falar de influências de Raimon nos seus começos, mas é inevitável tentar explicar de onde brota "aquilo". Quando Raimon faz "Al Vent", diria que nem sequer tinha em mente a melodia da flauta que tocara; isso viria mais tarde. Raimon canta tal como lhe sai a voz poderosa que tem, isso sim, com o fiato bem entranhado pela escola de "sopradores" das bandas; e se por acaso o seu canto se lembra, remotamente, alguma coisa é o seu canto gritado desde as profundezas do corpo e da alma, é ao blues e ao flamenco, que não obstante responde por cante jondo, por aspiração fonética de hondo, fundo. Retomaremos este assunto, mas quando nos detivermos na música. Por agora enunciamos apenas o mínimo para contextualizar o fundo cultural numa viagem de moto de um jovem estudante que tira partido estético do vento.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
IV - La Cara al Vent (IV)
Quando prepara a edição completa da sua obra até então (1981), intitulada Raimon. Totes les Cançons, deixa para o último disco as primeiras gravações, que quer despojadas de arranjos, apenas com os bordões de um contrabaixo a ritmar a melodia da voz e o acorde da corda da guitarra. É o Raimon fiel às origens e diria que recolhendo uma das suas primeiras influências sérias na maneira de entender a canção, a de George Brassens, que passaria toda a sua carreira apenas acompanhado pelo contrabaixo de Pierre Nicolas.
Brassens, com Jacques Brel e Léo Ferré, eram dos escassos cantores com pretensões literárias que Raimon tinha ouvido até então, e a sua maneira de entender o género da canção popular vai, sem dúvida, chamar-lhe a atenção, mas no singularíssimo caso de Raimon - "inimitável e irrepetível", segundo Espriu - não se pode falar tanto de influências como do background, o qual se tinha ido acumulando no lóbulo temporal do cérebro: as missas gregorianas dos clérigos; Machín e Nat King Cole, Jorge Negrete e Irma Vila, Belafonte e os boleros que tinha mamado da rádio; todo o repertório da banda, miscelânia heterogénea de cordas transposta aos metais do campo sinfónico e as múltiplas charangas próprias; a respeituosa audição dos primeiros clássicos; as work songs e o gospell norte-americanos; o jazz de Louis Armstrong, especialmente os seus premiados espirituais, um disco actualmente quase impossível de encontrar no lifting do CD, The Good Book, gravado em 1938...
Brassens fazia aquele tipo de canção popular que contrastava com o que então chegava até cá, era o que Umberto Eco qualificaria como a "canção distinta". Era uma canção diferente da que se enternizava nas listas de êxitos, que respondiam à terminologia inglesa de hit parade, e se era diferente em forma e conteúdo, era-o também na finalidade e sê-lo-ia nos circuitos. Nada a ver com a música pop convencional da época dos conjuntos importados da cultura anglo-saxónica, e muito menos com os subprodutos mal apelidados de modernos que por aqui grassavam, fossem o Dúo Dinámico, a Lita Torelló ou a daninha tonadilleta - segundo diminutivo de toada: tonadilla, tonadilleta - de Manolo Escobar ou Juanito Valderrama, cujos melismas metiam medo. Joselito já era letal.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
IV - La Cara al Vent (III)
Depois escrevo-a e canto-a de imediato, com os amigos, na universidade. A primeira pergunta que todos fazem é: de quem é a canção? Era impensável que fosse uma canção autóctone e que fosse minha, pensavam que era uma tradução do francês ou do inglês, porque aqui não se faziam coisas assim. E um valenciano e em Catalão...!
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
IV - La Cara al Vent (II)
"Al Vent" é uma canção que nasce de um grito. O impacto físico do ar em movimento proporcionado pela velocidade tanto produz uma exclamação como levanta um aeroplano e, pouco a pouco, vai crescendo uma gravidez de letra e música. Raimon definia as suas primeiras canções como "mais fisiológicas, expressões de pura necessidade e sem ter o que quer que seja em atenção"; emprega a mesma palavra "fisiológicas" numa entrevista com Francesc Baiges; e ainda noutra, com Toni Rodríguez, usava uma terminologia similar, "necessidade biológica de me expressar", igual que com Álvaro Feito. Uma boa definição para as canções que se seguem a "Al Vent" e que vão conformar o seu primeiro disco de curta duração, aquilo a se chamava extended play ou, simplesmente, EP, editado no ano de 1963: "Al Vent", "La Pedra", "Som" e "A Colps", com uma bonita foto de Oriol Maspons na frente, que recuperámos para a capa deste livro.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
IV - La Cara al Vent (I)
Cheguei a casa, fechei-me no meu quarto e ouvi, já não me lembro quantas vezes, aquelas quatro canções; quatro canções lograram revolucionar todos os meus sentimentos.
Fernando G. Lucini, in "Crónica Cantada de los Silencios Rotos"]
Primeiro disco de Raimon (1963), disco histórico que incluía as míticas "Al Vent", "La Pedra", "Som" e "A Colps". "Al Vent" é a sétima canção que podemos ouvir na caixa de música. Não é versão original, deste disco, com muita pena minha, que ouvimos, mas a que cantou no Palácio dos Desportos de Madrid, em 5 de Fevereiro de 1976, e que está registada no disco El Recital de Madrid.Não vou traduzir esta canção. O "crit" de Raimon basta por si para nos despertar o que ela significa. Continuaremos a falar dela, em próximos artigos.]
Al vent,
la cara al vent,
el cor al vent,
les mans al vent,
els ulls al vent,
al vent del món.
I tots,
tots plens de nit,
buscant la llum,
buscant la pau,
buscant a déu,
al vent del món.
La vida ens dóna penes,
ja el nàixer és un gran plor:
la vida pot ser eixe plor;
però nosaltres
al vent,
la cara al vent,
el cor al vent,
les mans al vent,
els ulls al vent,
al vent del món.
I tots,
tots plens de nit,
buscant la llum,
buscant la pau,
buscant a déu,
al vent del món.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
III - Una Ciutat Difícil (VI)
Uma viagem menos estimulante vai ser a que iniciaria em 1962, a Ronda.
Ronda é um lugar muito bonito, um monte de história pendurada numa escarpa cobiçada por combatentes, imortalizados, digamo-lo assim, pela famosa série televisiva Curro Jiménez, toreiros e cantaores, mas Raimon não vai poder disfrutar dela porque a sua missão era obrigada: o serviço militar, penoso e longo. Raimon pretendia fazer as milícias universitárias, mas seria suspenso por razões óbvias de expediente não académico. Naturalmente, ele, avant la lettre, não acreditava nas pistolas nem na utilidade do exército, e ter de passar por isso durante alguns verões de jorrante suor na Penibética, para acabar feito em tropa, não lhe agradavam nada, mas as milícias abreviavam o serviço e permitiam estudar. Tampouco vai ser possível: a "catalogação" de contrário ao sistema tinha que se pagar naturalmente naquele exército que o tinha criado. E Raimon terá que somar aos Verões das milícias uma outra na mili normal em Paterna.segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
III - Una Ciutat Difícil (V)
"Dels ponts del riu i de les pedres velles, /
"Das pontes do rio e das pedras velhas
des clares matins, de la llum dels baladres. (...) /
das manhãs claras, da luz dos loendros. (...)
Carrers estrets i espais poc metafísics, /
Ruas estreitas e espaços pouco metafísicos,
tot l'entrellat d'una ciutat difícil, /
todo o intrigante de uma cidade difícil,
indiferente i secularment puta." /
indiferente e secularmente puta".
Curioso que a única palavra grosseira do cuidadoso Raimon literário esteja escrita não no sentido estrito, mas no sentido triste que o termo tem, ... em Valência. Fosse como fosse, Valência cidade não aparece com boa imagem nas canções de Raimon; "ainda bem que os duros não se deram conta", dir-lhe-ia um amigo em jeito de piada, segundo conta em Les Hores Guanyades. A outra menção surge em "L'Única Seguretat" e lembra, a lembrança é imelhorável porque foi no dia em que conheceu Annalisa: "El goig d'haver-te trobat / un dia fa ja molts anys / a la ciutat bruta i plana". ("A emoção de te ter encontrado / um dia, já há muitos anos, / na cidade bruta e plana").
Daquela Valência, ao fim e ao cabo, Raimon destaca a zona gótica de casarões com musgo, a catedral e a galeria, a rua de Cavallers e o restaurante Bermell, ponto de encontro dos
Valência foi o porto onde Raimon ancorou o barco que conduzia Ausiàs March gráças ao impulso do vento nas velas. Mas faria várias viagens. Com mil pesetas poupadas durante todo o ano, em 1960 vai a Paris à boleia com dois amigos, Joan Joan e Vicent Àlvarez. Vai dar azo a uma das suas grandes vontades, passear e mirar, e apaixona-se por aquela cidade com uma intensidade que dura até hoje. Raimon precisa de ir a Paris de vez em quando, percorrer o Bairro Latino e comer nos bistrot, aqueles pequenos restaurantes que servem boa comida e nunca para desenrascar, com uma garrafa de um vinho sempre negro.
domingo, 13 de janeiro de 2008
III - Una Ciutat Difícil (IV)
sábado, 12 de janeiro de 2008
III - Una Ciutat Difícil (III)
No ano de 1959 comemorou-se o quarto centenário do autor de "Veles e Vents...", autor no qual se iniciaria Miquel Dolç, catedrático de Latim, que chegaria a decano quando Raimon já tinha abandonado as aulas. Dolç era um grande experto en Virgílio - diria que neste nosso modesto lugar, era "o experto" -, estudando-o e traduzindo-o, resgatando-o para a colecção "Bernat Metge", um dos tesouros mais importantes da cultura catalã, que, graças a Dolç, Raimon vai começar a folhear enquanto, em verdade, começava a ler numa língua que até então apenas era de uso privado. A Eneida inicia-se cantando - o verbo cantar conta!, é o primeiro que se conjuga nesta tão magna obra, terceira palavra do primeiro verso hexassilábico - "as armas e o herói"... mas Virgílio também faz soar o antecedente mais directo do flautim, a "caramella". Aprofundar a métrica latina, de versos que eram verdadeiros compassos, vai dar a Raimon os precisos trinta por cento que lhe faltavam para fazer tão bem o que começava a tentar por aqueles dias: cantar. Raimon vai descobrir na métrica clássica, recuperada por Ausiàs, a música que nascia das palavras.Falávamos de percentagens: a melodia do flautim; o tempo de Xátiva; a música da fonética, uma fonética que não era senão a de Ausiàs, como anos depois lhe faria notar Martí de Riquer, quando lhe aconselhava que simplesmente o pronunciasse com a sua pronúncia. Vai começar a fazê-lo em público naquela comemoração universitária da morte de March. No salão nobre, Raimon vai recitar "Elogi a Teresa".
Os quatrocentos anos da morte de Ausiàs vão ser vir a Raimon para conhecer uma outra personagem importante na sua vida, Joan Fuster, que vai ser quem o vai induzir a ler Espriu, ao oferecer-lhe "La Pell de Brau". Aqui está um acaso interessante. Fuster é o elo entre os dois poetas mais musicados por Raimon, Ausiàs March e Salvador Espriu. Graças à comemoração de Ausiàs, conhece Fuster, graças a Fuster, conhece Espriu; e fica em jeito de anedota que Espriu, ao ouvir "Veles e Vents" pela primeira vez, com a solenidade de quem se sente herdeiro da tradição poética na língua catalã, vai dizer a Raimon: "Em nome do senhor March, muito agradecido". A primeira coisa que li de Fuster - explica Raimon - foi o seu esplêndido livro El Descrèdit de la Realitat. Li-o numa edição castelhana e, depois, quis saber coisas sobre o autor, que me pareceu apropriado. Conheci-o e abriu-se-me um mundo de uma grande força racional, de uma grande ironia, de uma inteligência muito apurar e de uma grande sensibilidade como crítico literário e homem de cultura, como um grande intelectual. Assim começou a grande amizade que para mim foi importante de todos os pontos de vista e que é uma daquelas coisas que levamos sempre connosco para toda a vida.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
III - Una Ciutat Difícil (II)
Cedo, porém, se apercebe que começar a estudar teatro não é começar a fazer de galante, e que é preciso partir muita pedra, coisa que o aborrece de sobremaneira. Isso, de qualquer forma, era a que ele estava habituado, e em idades tão precárias uma pessoa quer ser simplesmente aquilo que mais lhe apetece dentro da pequena mostra de artes e ofícios de que se teve conhecimento. Contudo teria sorte, e iria descobrir, com quem diz, por acaso, uma disciplina que não imaginava qual. Um dia, indo buscar o seu amigo “Cote”, à Facultat de Lletres, entrou numa sala, para ver o que por lá se dizia. E concluiu que era bem mais interessante que a técnica de declamação que lhe ocupava o precioso tempo dedicado a formar-se; precioso em todos os sentidos, já que para Raimon estudar era mesmo um luxo, como o era, em geral, para todas as famílias de trabalhadores: era necessário dinheiro para a matrícula, os livros e as despesas, e se ainda fosse pouco deixavam de ir, que um trabalho já começava a oxigenar as precárias economias domésticas.
Raimon matricula-se em Filosofia e Letras e, graças às boas notas, consegue uma bolsa do Sindicato Español Universitário (SEU) que o ajuda economicamente. Tampouco o gasta, porque o SEU também oferece refeições aos estudantes; a oferta gastronómica, porém, é um triste rancho, muito mau, mas Raimon, com as trocados que junta, consegue um jantar com os amigos ou uma noite de conversas regadas com os combinados que acabavam de chegar do transoceânico: a Cuba livre.
“A les butxaques d’uns pantalons vells” (“Nos bolsos de umas calças velhas”), onde guarda as lembranças sentimantais, tem o leite que cada manhã o seu irmão Enric lhe deixava na travessa, para complementar vitaminicamente uma dieta pouco equilibrada.
A universidade ainda não era massificada. Na Rua da Nau, num curso presidido por Joan-Lluís Vives, cursavam o primeiro ano comum apenas uns setenta estudantes, e a partir do terceiro, quando Raimon se especializa em História, não mais que uns vinte. Isso fez com que os professores conhecessem os alunos pelo seu nome, que a docência fosse boa, e que, em suma, houvesse uma relação familiar que permitia que o catedrático repreendesse discretamente “Pele” quando chegava tarde de manhã porque tinha lido até altas horas da noite ou porque algum professor o tinha convidado para jantar em sua casa e a conversa se tinha estendido.
Raimon tem aquela fluidez de conhecimento de quem tem uma permanente curiosidade intelectual e um raciocíno metódico, sério, exigente, organizado; de quem nunca toma por boa a evidência demasiado fácil, que dá sempre a volta à abordagem que primeiramente assumiu para ver as coisas de uma maneira diferente; ainda que o negue, Raimon teria dado um muito bom político, porque a res publica requer esta sistemática de raciocínio; mas licenciou-se em História. Corria o ano de 1963, quando ainda não tinha completado os vinte e três anos. Conselhos posteriores do doutor Jordi Nadal, muito influente em gerações de economistas, pretenderam orientá-lo, tendo-o enviado a um curso de especialização, com tudo pago, a Aix-de-Provence, que até lhe foi de grande utilidade. Mas não na direcção académica, na qual Nadal lhe augurava bom futuro: decidiria que não se dedicaria à História. Aí também faria um bom amigo, que depois faria uma importantíssima carreira política, alcalde de Barcelona, conselheiro da Generalitat e vice-presidente do Governo Espanhol, Narcís Serra, e iria descobrir Mozart graças a uma representação de “Cosi fan tutte” e musicaria pela primeira vez um poema de [Salvador] Espriu, “Cançó del Capvespre”.
Cançó del Capvespre

S'enduien veus d'infants
el sol que jo mirava. /
Vozes de crianças levaram
o sol que eu olhava.
Tota la llum d'estiu
se'm feia enyor de somni. /
Toda a luz do Verão
me dava vontade de sonhar.
El rellotge, al blanc mur,
diu com se'n va la tarda. /
O relógio, no muro branco,
diz como vai a tarde.
S'encalma un vent suau
pels camins del capvespre. /
Um vento suave abranda
pelos caminhos do entardecer.
Potser demà vindran
encara lentes hores
de claror per als ulls

d'aquest esguard tan àvid. /
Talvez amanhã ainda
venham horas lentas
de luz para os olhos
Però ara és la nit. /
I he quedat solitari
a la casa dels morts
que només jo recordo. /
E fiquei sozinho
na casa dos mortos
que só eu lembro.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
III - Una Ciutat Difícil (I)
Uma das suas primeiras canções explica demasiado bem o que passava pela cabeça criativa de "Pele". Não podia senão chamar-se "Disset Anys".
Disset Anys
Tots els somnis trencats. /
Tots els castells per terra. /
Tot allò que hem viscut
tan endins s'ha enfonsat. /
Què s'ha fet dels 17 anys? /
Què s'ha fet d'aquells ulls,
d'aquelles mans tan pures?
Què s'ha fet,
què s'ha fet...?
Tant de cel se n'ha anat,
tanta mort al darrera
de tot cor. /
Tant de plor,
tant de plor... /
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (VI)
Destes conhecimentos essencialmente melódicos parte a base do grande construtor de melodias, e [Raimon] destaca ou reivindica este facto quando, no recital de comemoração dos trinta anos da canção “Al Vent”, em 1993, no dia de Sant Jordi no Palau Sant Jordi, volta a tocar flautim na banda La Lira Ampostina.
Para lá da banda, expressão urbana, o jovem Raimon está abertamente exposto ao mundo: ouve música popular e agrada-lhe especialmente o blues, Billie Holiday, Ray Charles, também Lorenzo González e os boleros, os Platters, naturalmente - “Only You” -, e o que já denota uma certa extravagância, as canções francesas e italianas, que descobre respectivamente graças sobretudo a Juliette Gréco e Domenico Modugno. Quando tem catorze anos, começa a pôr discos na Ràdio Xàtiva, o que lhe oferece um espectro mais amplo de possibilidades de audição e isto começa a estimular-lhe o gosto pela vocalização, esforçada quando tem de registar anúncios num Castelhano que não domina, como agora “jabón el oso”, mas que virá a desenvolver melhor em grupos de teatro amadores.
Quando se muda de Xátiva a Valência, a primeira cidade que conhece para estudar, dá-se conta, por contraste, que da povoação levou outra coisa. Não é fácil de discernir porque não cabe nem na pasta nem na memória: é intangível. Mas será um elemento fundamental para uma pessoa que acabará por fazer música. Uma determinada ideia de tempo.
Há muitos tipos de tempo e medem-se com réguas diversas: calendário, agenda, relógio, cronómetro, a campainha dos monges e os anos-luz dos astrónomos… O tempo musical, que não podemos chamar doutra forma que no Italiano que subjaz a este termo, tempo no singular, tempi no plural. O tempo é basilar na música, o tempo do metrónomo, tão essencial como o som, e se o som do metal e do vento o leva Raimon de Xátiva, também leva o tempo. Explica-o claramente em Les Hores Guanyades: “O meu ritmo vital é ainda o mesmo de quando vivia em Xátiva”, destacando a lentidão e muitas outras coisas que não importa agora transcrever. Mais adiante, no mesmo diário, reclama o valor do tempo: "O movimento, na música, isso a que muitos músicos chamam tempo, é importantíssimo".
Sem esta percepção muito clara do tempo, ligada ao metrónomo alto que nos daria o tempo parado de Xátiva do fim do século XX, a música de Raimon não se poderia explicar razoavelmente. O tempo musical de Raimon vai permitir que o tempo verbal não seja nem curto nem longo, que as palavras se entendam e encontrem também na música a plenitude do tempo que também elas levam dentro. Mas disso falaremos mais à frente, como falaremos da constante reflexão que moveu Raimon sobre esta ideia que tanto trabalho deu a filósofos e relojoeiros.
É nesta altura que Raimon está a criar a realidade que mais tarde serão aqueles versos: "He deixat mar maré / sola / a Xàtiva al carrer Blanc", que abrem o capítulo. No seguinte vamos até Valência.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (V)
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (IV)
Al meu cervell que deconec /
No meu cérebro que desconheço
arrossar de mel obren portes /
arrozais de mel abrem portas
a llunes plenes juganeres, /
a luas cheias brincalhonas
que entre tarongers i llimeres /
que entre laranjeiras e limoeiros
i bresquilleres i ametllers, /
e damasqueiros e amendoeiras,
van perseguint totes les ombres /
perseguem todas as sombras
darrere els pins e els garrofers, /
por trás dos pinheiros e as alfarrobeiras,
els pins e els garrofers /
os pinheiros e as alfarrobeiras
A luz também é essência daqueles quadros. Veremos mais adiante que a luz aparece quinze vezes nas suas canções. Fala da sua luz de Xátiva no diário Les Hores Guanyades: "Neta i suau a l'hivern, esclatant i densa a l'estiu" ("Limpa e macia no Inverno, tórrida e densa no Verão"), "la llum que he estimat" ("a luz que amei"), para concluir numa citação mais geral.
Volta o recrudescer das abcissas e ordenadas espaço (Xátiva) / tempo (infância-adolescência) no tema "Al meu país la pluja", também supracitado. Uns versos a capella introduzem o tema; é como um regresso ao cancioneiro tradicional, mas feito por Raimon: "Al meu país la pluja no sap ploure: / o plou poc o plou massa; si plou poc és la sequera, / si plou massa és un desastre". Na verdade no País Valenciano sentem na pela as ciclotimias da meteorologia, a última foi por causa da barragem de Tous; apenas umas horas evitaram que Raimon a sofresse, porque estava em Xátiva a rodar um programa de televisão.
[A quarta canção presente na caixa de música, Al meu país la pluja, foi incluída pela primeira vez no disco de 1984, Entre La Nota I El So. E é também essa primeira versão que trazemos aos vossos ouvidos. Haveria melhores, talvez. Mas, se se justificar, ainda por cá traremos outra. Ao vivo, obviamente.]
Al meu país la pluja
Al meu país la pluja no sap ploure: /
No meu país a chuva não sabe chover:
o plou poc o plou massa; /
Ou chove pouco ou chove demasiado;
si plou poc és la sequera, /
Se chove pouco é a seca,
si plou massa és un desastre. /
se chove demasiado é um desastre.
Qui portarà la pluja a escola? /
Quem levará a chuva à escola?
Qui li dirà com s'ha de ploure? /
Quem lhe dirá como se deve chover?
Al meu país la pluja no sap ploure. /
No meu país a chuva não sabe chover.
No anirem mai més a escola. /
Nunca mais iremos à escola.
Fora de parlar amb els de la teua edat
res no vares aprendre a escola. /
Excepto o falares com os da tua idade
nada aprendeste na escola.
Ni el nom dels arbres del teu paisatge,
ni el nom de les flors que veies,
ni el nom dels ocells del teu món,
ni la teua pròpia llengua. /
Nem o nome das árvores da tua paisagem,
nem o nome das flores que vias,
nem o nome dos pássaros do teu mundo,
nem a tua própria língua.
A escola et robaven la memòria,
feien mentida del present. /
Na escola te roubavam a memória,
faziam mentira do presente.
La vida es quedava a la porta
mentre entràvem cadàvers de pocs anys. /
A vida ficava à porta
enquanto entravam cadáveres de poucos anos.
Oblit del llamp, oblit del tro,
de la pluja i del bon temps,
oblit de món del treball i de l'estudi.
"Por el Imperio hacia dios"
des del carrer Blanc de Xàtiva. /
Esquecimento do raio, esquecimento do trovão,
da chuva e do bom tempo,
esquecimento do mundo do trabalho e do estudo.
"Pelo Império para deus"
desde a Rua Branca de Xátiva.
Qui em rescabalarà dels meus anys
de desinformació i desmemòria? /
Quem me ressarcirá dos meus anos
de desinformação e desmemória?
Al meu país la pluja no sap ploure:
o plou poc o plou massa;
si plou poc és la sequera,
si plou massa és un desastre.
Qui portarà la pluja a escola?
Qui li dirà com s'ha de ploure?
Al meu país la pluja no sap ploure.
É esta canção, em suma, a parte recitativa, a reflexão que tinha anunciado em Les Hores Guanyades:
Na escola que tivemos, universidade incluída, não nos ensinaram a ler nem a ouvir. Ensinaram-nos a reconhecer as letras que formam as palavras e pouco mais. Não nos ensinaram a reconhecer os sons e os silêncios que formam a música. E foi de tal maneira assim que tenho a sensação de passar a vida a aprender a ler e a escutar. E não falemos de olhar nem do olfacto: nestes campos o "analfabetismo" é total.
domingo, 6 de janeiro de 2008
II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (III)
A Rua Branca é o down town da paisagem sentimental da infância de Raimon, também muito presente na sua obra. A alma da casa é a mãe, uma matriarca obrigada pelas circunstâncias de uma viuvez muito precoce. Depois, os irmãos e amigos que com ela compartem a espera do regresso, como a canção o lembra, "germans i amics / que em volen / i esperen, com ma mare, / que jo torne com abans"... Raimon é o mais novo dos cinco irmãos. O mais velho chamava-se Pepe, mas todos, e até o próprio Raimon, lhe chamava "bigode"; Pepe morreria no fim dos anos noventa. O segundo era Antoni, Toniet, mas Raimon não chegou a conhecer por culpa de uma morte prematura. Seguiam-se-lhes Rafael e Enric.
Duro para Raimon seria, em 1987, mudar a conjugação do presente para o passado a um outro dos temas que fazem de Dolors Sanchis motivo de canção: "Ma mare ho guarda tot", "Ma mare ho guardava tot", verso de "Molt Lluny". Dolors Sanchis morreria muito idosa, com noventa e três anos, depois de um tempo com problemas de ossos e mobilidade, facto que para uma pessoa muito activa era sempre razão de angústia, mas que suportaria com paciência. Raimon fazia tudo o que podia, com o seu bom humor, para a ajudar, ligava-lhe, ia vê-la... "Molt Lluny" é uma canção que faz referência precisamente à data de que estamos a falar. Raimon encontra, nesta canção, "les nits que ens passàven / caminant, amics, / pels carrers de Xàtiva".
Umas pinceladas de Joan Fuster descrevem aquela Xàtiva na plenitude literária da sua prosa. É um belo parágrafo do seu livro Raimon, publicado em 1964, em resultado de uma conversa durante o percurso ferroviário de Xàtiva a Barcelona, que a tracção a vapor fazia durar até sete horas:
A Rua Branca de Xàtiva é, sobretudo, os arredores: limite com o descampado, cosido, num bairro de má urbanização, rente às muralhas do castelo. As casas são de planta baixa e de um só piso, limpas, claras. A vizinhança, uma vizinhança de lavradores e artesãos, não nega ao rito valenciano - talvez árabe - da calçada, e as fachadas esbanquiçadas reverberam rudemente ao sol. Quatro passos mais adiante, estende-se a Xàtiva dos brasões floridos e dos cognomes duradouros: aqui não há senão "povoação [povo]". Hoje é "povo" calado e conformado, trabalhador e irónico. A paisagem dá uma sensação de paz rotinária, de vida vivida sem pressa: crianças que jogam à bola, pequenos trabalhadores trémulos, anciãos na xacota ou a jogar à visca, uma loja ou uma barbearia melancólicas, mulas cansadas que voltam das cargas... A casa da esquina é a dos Pelegero: pequena, vulgar, pouca coisa.
Fala também Raimon deste pequeno universo que cresce, mas na memória, quando refere "el llaurador del meu poble" ("o lavrador do meu povo") como metáfora que tem mais à mão para uma das primeiras canções de amor, "Treballaré el teu Cos", composta quando tinha apenas vinte e quatro anos e ainda não tinha decoberto o suficiente os recursos inegotáveis da retórica. A paisagem de então está também imortalizada noutros versos. "Al mur blanc dibuixada / l'ombra de la llimera. / El llebeig despentina / el pentinat dels arbres" (despenteia o penteado, aqui, vinte anos antes, já sabia muito, de retórica). A árvore mediterrânea por excelência, o pinheiro, está presente em duas canções: "el verd suau dels pins llepats de pluja" ("o verde macio dos pinheiros limpos despidos pela chuva") e "de verd de pins, / de mar lluent" ("de verde de pinheiros, / de mar reluzente"). Uma ampliação da flora em "Octubre dolç": "Bedolls, llorers, oms i faigs, castanyers" ("Bétulas, loureiros, ulmeiros e faias, castanheiros").
E a reivindicação de tudo junto materializada com "no vull oblidar que sóc de poble" ("não quero esquecer que sou do povo", acrescentada à celebérrima asserção "qui perd els orígens / perd identitat" ("que perde as origens / perde a identidade"), que amiúde passa por anónima a partir da extensão por sinédoque. É natural e lícita a extrapolação de povo a país, mas é claro que Raimon se refere a Xàtiva, já que o texto e o contexto da canção da qual forma parte este par de pentassílabos - o decassílabo de Ausiàs [March] partido pela pausa interna em dos hemistíquios! -, não são alusivos a outra realidade. Depois, quando escreve o diário Les Hores Guanyades, Raimon clarifica este sentido de pertença limitada que não é mais que a posta em prática que "nação" vem de "nascer" e "pátria" de "pai":
Passámos por Xátiva à vinda (de Alcoi), por Bixquert, Albaida, Adzaneta, Benigánim, Bellús. Nomes próprios que me trazem uma enorme carga vital. Amendoeiras, ameixoeiras, pessegueiros em flor. Paisagem de secura, e a horta à espera no vale de Xátiva. Cenário das minhas mais íntimas vivências, lembranças de todo o meu viver, da luz que amei, das cores dos meus sonhos, espaço da minha aprendizagem do mundo. Que desejo imenso de ficar parado no tempo, naquele espaço e entre a gente da que nasci e que estimo, agora, desde a grande cidade que é Barcelona! Sensação de despojamento de sentimentos perante a paisagem da minha infância. Regresso nítido do puto brincalhão e feliz que fui, amigo e apaixonado. Poder de evocação da fonética, quão macio alcance da língua! Eu não tenho uma ideia de pátria; tenho, em vez disso, sentimento de pertencer a um grupo humano concreto. E este sentimento renova-se através da linguagem, desde a música do falar quotidiano da gente que ficou onde eu nasci. A língua é o meu possível patriotismo.
"Jo Vinc d'un Silenci" é o máximo expoente da descrição do mundo interior registado no vinil analógico dos anos de infância e juventude. Desta canção saem as "classes subalternes", referência social de entrada, as praças, as ruas, cheias de "xiquets que juguen / i de vells que esperen", a animação habitual que nas vilas e nos bairros se manifesta em plenitude, as pequenas oficinas, o campo, a divisão "on comença l'horta / i acaba el secà", que se visualiza nitidamente desde o cimo do castelo de Xátiva.
[Jo Vinc d'un Silenci foi primeiramente registada no disco "El Recital de Madrid", no dia 5 de Fevereiro de 1976, e é essa mesma a terceira canção que disponibilizámos na caixa de música]
Jo Vinc d'un SilenciJo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
antic i molt llarg /
antigo e muito longo
de gent que va alçant-se /
de gente que se vai levantando
des del fons dels segles
desde o fundo dos séculos
de gent que anomenen /
de gente a que chamam
classes subalternes, /
classes inferiores,
jo vinc d'un silenci /
eu venho de um silêncio
antic i molt llarg. /
antigo e muito longo.
Jo vinc de les places /
Eu venho das praças
i dels carrers plens /
e das ruas cheias
de xiquets que juguen /
de crianças que brincam
i de vells que esperen, /
e de velhos que esperam,
mentre homes i dones /
enquanto homens e mulheres
estan treballant /
estão a trabalhar
als petits tallers, /
nas pequenas fábricas,
a casa o al camp. /
em casa ou no campo.
Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
que no és resignat, /
que não é resignado
d'on comença l'horta /
de onde começa a horta
i acaba el secà, /
e acaba a secura
d'esforç i blasfèmia /
de esforço e blasfémia
perquè tot va mal: /
por que tudo vai mal:
qui perd els orígens /
quem perde as origens
perd identitat. /
perde a identidade.
Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
antic i molt llarg /
antigo e muito longo
de gent sense místics /
de gente sem místicos
ni grans capitans, /
nem grandes capitães
que viuen i moren /
que vivem e morrem
en l'anonimat, /
no anonimato
que en frases solemnes
no han cregut mai. /
que nunca acreditaram
em frases solenes.
Jo vinc d'una lluita
que és sorda i constant, /
Eu venho de uma luta
que é surda e constante
jo vinc d'un silenci
que romprà la gent
eu venho de um silêncio
que a gente romperá
que ara vol ser lliure
i estima la vida, /
que agora quer ser livre
e ama a vida,
que exigeix les coses
que li han negat. /
que exige as coisas
que lhes foram negadas.
Jo vinc d'un silenci
antic i molt llarg,
jo vinc d'un silenci
que no és resignat,
jo vinc d'un silenci
que la gent romprà,
jo vinc d'una lluita
que és sorda i constant.
sábado, 5 de janeiro de 2008
II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (II)
Por causa de Primo, Raimon desencanta este contraste dilacerante: “Por el império hacia Dios, des del carrer Blanc de Xàtiva”, exclamação da canção “Al meu país la pluja”. Uma rua que leva o nome do calcário das fachadas, que Raimon evoca noutras duas canções: a "Cançó de la mare", de onde se extraiu o verso com que se intitula este capítulo: "He deixat ma mare / sola / a Xàtiva al carrer Blanc"; e em "L’única seguretat" diz: "Content tornaria a ser / el xiquet que va jugant, / absent, pel mig del carrer, / daquell meu carrer d’abans. / Carrer on jugàven tots, / els més petits i els més grans, / carrer de terra i de pols / que així era el carrer Blanc".
Cançó de la Mare (o He Deixat ma Mare)
He deixat ma mare
sola
a Xàtiva al carrer Blanc. /
Deixei a minha mãe
Sozinha
Em Xátiva, na Rua Branca.
Ma mare que sempre
espera
que torne com abans. /
A minha mãe que sempre
espera
que eu volte como antes.
He deixat germans i amics
que em volen
i esperen, com ma mare,
que jo torne com abans. /
Deixei irmãos e amigos
Que me querem
e esperam, como a minha mãe,
que eu volte como antes.
He vingut ací
perquè crec que puc dir-vos,
en la meua maltractada llengua,
paraules i fets
que encara ens agermanen. /
Vim aqui
Porque creio que posso dizer-vos,
Na minha língua mal tratada,
Palavras e feitos
que ainda nos irmanam.
Paraules i fets
que encara ens fan sentir
homes entre els homes. /
Palavras e feitos
que ainda nos fazem sentir
Homens entre os homens.
Paraules i fets
que encara ens agermanen
en la lluita contra la por,
en la lluita contra la sang,
en la lluita contra el dolor,
en la lluita contra la fam. /
Palavras e feitos
que ainda nos irmanam
na luta contra o medo,
na luta contra o sangue,
na luta contra a dor,
na luta contra a fome.
En la sempre necessària lluita
contra el que ens separa
i ens fa sentir-nos
a tots nosaltres estranys. /
Na luta sempre necessária
contra o que nos separa
e nos faz sentir
a todos nós estranhos.
He deixat ma mare
i els meus germans. /
Deixei a minha mãe
e os meus irmãos.
He deixat els amics i la casa
i tots els que esperen
que jo torne com abans. /
Deixei os amigos e a casa
e todos os que esperam
que eu volte como antes.
I crec que he fet bé.
I crec que he fet bé. /
E penso que fiz bem.
E penso que fiz bem.
Jo sé, jo sé, jo sé, jo sé
que tornaré al carrer Blanc. /
Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei
que voltarei à Rua Branca.
Però ara ací,
Però ara ací,
crec que també és ma casa,
i crec que puc dir-vos,
amb el cor obert,
a tots vosaltes: germans. /
Mas agora aqui,
mas agora aqui,
penso que também é a minha casa,
e penso que posso dizer-vos,
de coração aberto,
a todos vós: irmãos.
Germans.
Irmãos.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (I)
Pelegero deve pronunciar-se não à Castelhana, "com um g como se tratasse de puxar especturação", como dizia Joan Fuster, mas através do Latim de onde derivaram as línguas românticas: Pellecciero - Pellegiero - Pèléchéro; de facto, a fonética do Valenciano preserva o g oralmente como o x do Catalão do Principado (Andorra), o tx do Euskera e o ch do Castelhano. Isto explica-se simplesmente porque Pelegero é gentílico de ADN latino transmutado em Italiano; é gero, o que traz ou transporta, pele, pele; uma origem gremial tipicamente da Idade Média, precisamente a etapa em que Xàtiva tinha muitas relações com Itália. Tal como Sanchis, também frequentes vezes mal pronunciado, leva um acento prosódico na a, o Pelegero vai surgir nos vasos comunicantes entre Xàtiva e Roma, de certeza bem perto da extradordinária invasão dos Bórgia.
Os Bórgia de Xàtiva vão tornar-se nos Bórgia italianos precisamente por motivos de manter a fonética valenciana escrita em Italiano, e vão ser, sem dúvida, a família mais influente do Renascimento. Dois papas, Calixto III, entre 1455 e 1458, Alexandre VI, de 1492 a 1503, a mais famosa das cortesas, Lucrécia, e o político César, inspirador da bíblia de qualquer político que queria fazer carreira, O Príncipe, do grande Maquiavel. Xàtiva, berço daqueles inteligentes canalhas que na intimidade falavam Catalão, vai organizar uma extensa exposição, em 1995, explicando quem eram os Bórgia, que vai servir, entre outras coisas, para que Raimon exumasse o historiador que leva dentro contando-o com muita propriedade aos seus amigos. Manuel Vázquez Montalban ficou tão impressionado que escreveu um romance histórico - apenas há um outro na sua larga obra, Gallíndez - com um título que evocava Baroja: Ou César ou Nada.
O fundador da dinastia foi Calixto III, o clérigo que herdou um bocadinho a cisma do papa Luna, que o vai congregar grande prestígio em Roma, que vai acabar por levá-lo ao papado. Vai ser papa durante muito poucos anos, mas tempo suficiente para pôr lá toda a família. Alexandre VI é o mais famoso, porque tem mais lendas negras em cima, mas, a par disso, porque lhe vai caber a divisão do Novo Mundo e se hoje existe Brasil é graças a ele. Tinha muita má fama, isso de "la Santa Sede in mano dei catalani", mas isso por causa dos italianos pensarem que tudo era deles e que os forasteiros iam apropriar-se do território. Havia um forte jogo de interesses na península Itálica, com o papado como um Estado poderoso, com o fim das cidades-Estado, com a república de Veneza em baixo, a ascensão da Toscánia... Era um mundo em plena efervescência, com guerras e mais guerras.
Raimon sabe outras histórias sobre Xàtiva, sabe-as todas. A do outro italiano, o pintor Ribera, seguidor de Caravaggio; a dos árabes que aí vão instalar uma fábrica de papel pioneira; a das embrulhadas dinásticas que vão acabar com o conde de Urgell, e com ele a casta catalã nobre mais antiga, enterrado vivo nos calabouços do castelo; a dos Germanos protossocialistas; a dos resistentes contra Filipe V, que represaliou a cidade com fogo e, como consequência deste triste episódio, o humor negro popular qualifica os xativencs com a fama de "socarrats", um termo muito valenciano que faz menção também ao prestigiado arroz que se cola à paelha. Paelhas, para Raimon, as melhores eram as da sua mãe; depois as da Casa de la Abuela, uma casa de toda a vida que continua a ser paragem inevitável quando vai a Xàtiva.
Quando Raimon nasce, Xàtiva era uma cidade de 18000 habitantes e uma das quatro monumentais do País Valenciano, juntament com Valência, Morella e Oriola. A rua Branca ["el carrer Blanc"] era, no entanto, uma coisa bem diferente: um lugar modesto, que contrastava com a grandiloquência usada às ordens inspiradas de José Antonio Primo de Rivera, que Raimon sempre cita centrando-se na segunda metade do cognome composto, sobrando-lhe um curioso José Antonio Primo, que em Castelhano quer dizer, para além do grau, "pessoa incauta que se deixa enganar facilmente", segundo o quinto significado do dicionário da Real Academia Española.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
I - A l'Any Quaranta, Quan Jo Vaig Nàixer (II)
Raimon nasce, portanto, num país despedaçado, mas também num universo em estado crítico. A guerra civil espanhola é apenas um ensaio para a deflagração mundial que começa quando aquela acaba. Franco acaba de ocupar Espanha em Abril e Hitler ocupa a Polónia em Setembro.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
I - A l'Any Quaranta, Quan Jo Vaig Nàixer (I)
A Gran Enciclopèdia de la Mùsica diz de Raimon:
Raimon. Xàtiva, 1940. Nome pelo qual é conhecido o cantor valenciano Ramon Pelegero i Sanchis. Descoberto pelos Setze Jutges quando era um jovem estudante de História, apresenta-se em Barcelona em 1962 e obtém um êxito imediato com canções como "Al Vent", que surpreendem pelo uso do grito e pelo existencialismo rebelde que jorra dos textos. Em 1963 ganha o Festival de la Cançó Mediterrània de Barcelona - juntamente com Salomé - com o tema de J.M. Andreu e L. Borrrel "S'en va anar". Muitas das suas canções posteriores ("Diguem no"; "D'un temps, d'un país", "El País Basc") foram assumidas pela sociedade como hinos antifranquistas. De facto, os seus concertos tornaram-se amiúde cerimónias colectivas electrizantes - é preciso lembrar o seu primeiro Olympia (1966), e os recitais no Palau dels Esports de Barcelona (1975) e o Pabellón de Deportes del Real Madrid (1976). Seria injusto, contudo, reduzir Raimon a uma função resistencial: hábil musicador de Espriu ("Indesinenter", "He Mirat Aquesta Terra", "Cançons de la Roda del Temps") e de poetas dos séculos XV e XVI como Ausiàs March, Roís de Corella ou Joan Timoneda, escreveu também canções de um grande lirismo e qualidade poética ("Com un Puny", "Als Matins a la Ciutat", "Al Meu País la Pluja"). Tudo isto faz com que Raimon supere a crise subsequente à Transição e seja considerado no fim do século comum clássico no activo, mantendo o seu poder de convocatória. A sua discografia, com álbuns como Per destruir aquell qui l'a desert (1970), A Víctor Jara (1974), Quan l'aigua es queixa (1979) ou Cançons de mai (1997) encontra-se reunida numa caixa de dez cedês chamada Nova Integral. Edició 2000. Raimon é, também autor de um diário (Les hores guanyades, 1983) e de um livro de poemas (D'aquest viure insistent, 1986).
Mas a canção de Raimon não fala só de mortos pelas armas, fala também da fome que vai coadjuvar àquele extermínio: entre 15000 e 20000 vítimas, segundo o mesmo Riquer. E Raimon menciona igualmente o preço do exílio e da prisão. Aqui situamo-nos entre os 60000 e os 70000 exilados catalães, e um total de 440000 espanhóis que vão atravessar a fronteira, fugindo aos vencedores. Fazendo uma estimativa, Segura dá um número de 220000 presos em todo o Estado, naquele ano quarenta. Vai ser necessário transformar praças de touros e equipamentos públicos de pouco estatuto social como agora hospícios para alojar tantos reclusos e reclusas. E os aliados nazis vão construir e gerir para Franco os primeiros campos de concentração, que com a II Guerra Mundial se tornariam macabras fábricas de morte em série.
"A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer", o franquismo vai aprovar uma lei explícita contra a maçonaroa e o comunismo, em 1936 já tinha proibido os partidos políticos e as organizações sindicais, e em 1939 sancionou a lei de responsabilidades políticas retroactivas, coisa insólita em Direito segundo a qual incorriam em ilegalidade os que haviam respeitado a legalidade democrática. Diversas barbaridades legislativas posteriores vão culminar com a Lei da repressão do terrorismo, assinada para comemorar o oitavo "ano da vitória" - já que todas as cartas deveriam levar esta frase no fim - no primeiro de Abril de 1947. Este documento antijurídico considerava terrorismo qualquer oposição ao regime, o qual facilitava muito a criminalização dos acusados e dava-lhes, em suma, as mínimas condições de defesa, a começar pelo tempo e a acabar pelo direito dos detidos, substancialmente o habeas corpus... A tortura era natural e o terror que Hitler defendeu na peça oratória de Nuremberga como principal tarefa da política era precisamente a acusação de que quem o praticava era contra os seus adversários. Terroristas.
A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer, /
encara no havien mort tots. /
Molts es varen quedar, havien guanyat, diuen. /
Molts es varen quedar, havien perdut, diuen. /
d'altres conegueren l'exili i els seus camins. /
A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer, /
jo crec que tots, tots, havíem perdut... /
Jo no he vist aquelles morts de ràbia, /
Eu não vi aquelas mortes de raiva,
jo no he vist aquelles morts de fam, /
Eu não vi aquelas mortes de fome,
jo no he vist aquelles morts al front, /
Eu não vi aquelas mortes na frente,
jo no he vist aquelles morts a les presons. /
Eu não vi aquelas mortes nas prisões,
No, jo no ho he vist i tot m'ho han contat, /
Não, eu não o vi e tudo mo contaram,
i encara avui al meu poble ho conten, /
E ainda hoje na minha terra o contam,
i encara avui la gent que ho ha vist amb por, ho conta. /
E ainda hoje a gente que o viu com medo o conta.
No, jo no ho he vist ni vull veure-ho mai, /
Não, eu não o vi nem quero vê-lo nunca,
ni a l'any setanta, ni a l'any quaranta, /
nem no ano setenta, nem no ano quarenta,
ni a cap any dels anys. /
Nem em nenhum ano.
A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer, /
No ano quarenta, quando eu nasci,
jo crec que tots, tots havíem perdut, /
Penso que todos, todos, tinham perdido
a l'any quaranta. /
No ano quarenta.
O triste mapa da voracidade da ditadura fica bem desenhado na canção, completada precisamente com uma referência ao medo gerado pelo poderoso aparelho de terror. Raimon glosa o medo que a gente tinha só de falar, e esta descrição psicológica, pouco ou muito, vai manter-se até ao fim de Franco, que ainda vai assinar cinco sentenças de morte três meses antes de morrer. Raimon vai debruçar-se sobre o medo e este medo vai tornar-se num dos motivos que mais vai desenvolver ao longo da sua obra.










