quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (II)

Raimon ia atrás. Levava a moto um amigo da universidade, das Astúrias, a quem ele ia explicando a sua paisagem muito íntima; Raimon não aprenderia a conduzir até que uma doença padecida por Annalisa, felizmente ultrapassada, o obrigaria a fazê-lo. Apesar disso, não gosta nada e apenas se põe ao volante para ir comprar o pão e os jornais quando passa algum tempo na casa que tem em Xábia, aberta aos quatro ventos. O vento, a propósito, sopra a favor da criatividade de Raimon, pelo menos desde aquela viagem juvenil de Vespa: a palavra "vent" aparece treze vezes na obra que analisámos de Raimon, sem contar as referências nos versos de outros autores que musicou, a começar com "Veles e Vents". Completa a canção indo do particular anatómico para o geral, num salto espectacular. A cara, o coração, as mãos, os olhos... são uma espécie de pára-brisas natural; e, tudo junto, "al vent del món" ("Ao vento do mundo"). Depois, a viagem material vira a iniciática, a procura dos grandes ideais universais, partindo de uma realidade triste que [Raimon] começava já a identificar com o termo "nit" (noite), mais desenvolvido na canção que tem simplesmente esta palavra e o artigo. "La Nit" data de 1964 e durante muito tempo abrirá os recitais de Raimon. A noite é o cenário e graças a esta metáfora, a noite vai ser associada de uma maneira generalizada ao franquismo. Raimon, já desde a sua primeira canção, funde a noite / franquismo como ponto de pertença, mas na ideia dinâmica de a superar. Neste caso, na busca dos ideiais e com a força da energia eólica.


"Al Vent" é uma canção que nasce de um grito. O impacto físico do ar em movimento proporcionado pela velocidade tanto produz uma exclamação como levanta um aeroplano e, pouco a pouco, vai crescendo uma gravidez de letra e música. Raimon definia as suas primeiras canções como "mais fisiológicas, expressões de pura necessidade e sem ter o que quer que seja em atenção"; emprega a mesma palavra "fisiológicas" numa entrevista com Francesc Baiges; e ainda noutra, com Toni Rodríguez, usava uma terminologia similar, "necessidade biológica de me expressar", igual que com Álvaro Feito. Uma boa definição para as canções que se seguem a "Al Vent" e que vão conformar o seu primeiro disco de curta duração, aquilo a se chamava extended play ou, simplesmente, EP, editado no ano de 1963: "Al Vent", "La Pedra", "Som" e "A Colps", com uma bonita foto de Oriol Maspons na frente, que recuperámos para a capa deste livro.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

IV - La Cara al Vent (I)

[Acabava de cumprir dezassete anos (Espanha, 1963), e um dia, à saída de uma reunião na paróquia, um "padre vermelho", daqueles que chamávamos de vocação tardia - o padre Manolo -, ofereceu-me um pequeno disco com quatro canções, que lhe tinham mandado de uma comunidade cristã de Barcelona. "Está cantado em Catalão - disse-me -, mas vais ver, é muito bom e tem muita força".
Cheguei a casa, fechei-me no meu quarto e ouvi, já não me lembro quantas vezes, aquelas quatro canções; quatro canções lograram revolucionar todos os meus sentimentos.

Fernando G. Lucini, in "Crónica Cantada de los Silencios Rotos"
]


O despido percurso de Xátiva a Valência do ano 59, provavelmente num fim-de-semana, vai tornar-se mais decisivo que as suas excursões "para o norte, onde dizem que a gente é mais limpa e nobre, culta e rica, livre, estimulante e feliz", segundo um dos mais conhecidos poemas de Salvador Espriu, que, por acaso, Raimon nunca musicou. O poema dá-nos a medida do fascínio que o estrangeiro suscitava, olhando para cima, por parte dos habitantes de uma terra triste e pobre em recursos e habitada por castigados sobreviventes de uma guerra civil. Mas no voo doméstico de Xátiva a Valência, numa moto de marca Vespa, hoje pérola de antiquários e fetichistas da pré-história do motor, Raimon engendra a sua primeira canção, "Al Vent".

Primeiro disco de Raimon (1963), disco histórico que incluía as míticas "Al Vent", "La Pedra", "Som" e "A Colps". "Al Vent" é a sétima canção que podemos ouvir na caixa de música. Não é versão original, deste disco, com muita pena minha, que ouvimos, mas a que cantou no Palácio dos Desportos de Madrid, em 5 de Fevereiro de 1976, e que está registada no disco El Recital de Madrid.Não vou traduzir esta canção. O "crit" de Raimon basta por si para nos despertar o que ela significa. Continuaremos a falar dela, em próximos artigos.]

Al vent,
la cara al vent,
el cor al vent,
les mans al vent,
els ulls al vent,
al vent del món.

I tots,
tots plens de nit,
buscant la llum,
buscant la pau,
buscant a déu,
al vent del món.

La vida ens dóna penes,
ja el nàixer és un gran plor:
la vida pot ser eixe plor;
però nosaltres

al vent,
la cara al vent,
el cor al vent,
les mans al vent,
els ulls al vent,
al vent del món.

I tots,
tots plens de nit,
buscant la llum,
buscant la pau,
buscant a déu,
al vent del món.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (VI)

Com Paris visto, vai querer ir a Londres, mas a façanha já era demasiado complicada para conseguir com duzentos "duros", tendo em conta que então era impossível atravessar a Mancha de carro. De maneira que gastou o dinheiro na viagem e, uma vez na ilha, foi arranjar trabalho, como tantos e tantos estudantes. Vai trabalhar numa obra, com um martelo-pneumático que, apesar de lhe castigar as mãos, vai permitir-lhe ganhar umas maquias que vai investir em livros e moda... Toda a gente já reparou que Raimon cuida da forma como se veste. Inglaterra mandava durante os anos sessenta, e depois seria a Itália, circunstância que lhe facilitaria a tarefa de combinar cores, se fosse preciso com valentia.

Uma viagem menos estimulante vai ser a que iniciaria em 1962, a Ronda. Ronda é um lugar muito bonito, um monte de história pendurada numa escarpa cobiçada por combatentes, imortalizados, digamo-lo assim, pela famosa série televisiva Curro Jiménez, toreiros e cantaores, mas Raimon não vai poder disfrutar dela porque a sua missão era obrigada: o serviço militar, penoso e longo. Raimon pretendia fazer as milícias universitárias, mas seria suspenso por razões óbvias de expediente não académico. Naturalmente, ele, avant la lettre, não acreditava nas pistolas nem na utilidade do exército, e ter de passar por isso durante alguns verões de jorrante suor na Penibética, para acabar feito em tropa, não lhe agradavam nada, mas as milícias abreviavam o serviço e permitiam estudar. Tampouco vai ser possível: a "catalogação" de contrário ao sistema tinha que se pagar naturalmente naquele exército que o tinha criado. E Raimon terá que somar aos Verões das milícias uma outra na mili normal em Paterna.

A terceira grande viagem é a mais pequena. O trajecto doméstico de Valência a Xátiva, que Raimon fazia praticamente cada fim-de-semana dos seus anos universitários que aqui encerramos. Deixamo-lo licenciado em Filosofia e Letras, no ramo de História, e o contraponto de tristeza por o seu pai não ter podido vê-lo, que morreu em 1961. Para um trabalhador de esquerda, era um grande orgulho poder ter um filho na universidade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (V)

Valência é qualificada como "uma cidade difícil" na canção "Andreu, Amic", dedicada ao escultor Andreu Alfaro, que é conhecedor de todos os seus becos. A "ciutat difícil" na qual Raimon vive os seus anos de universitário está retratada naqueles versos:

"Dels ponts del riu i de les pedres velles, /
"Das pontes do rio e das pedras velhas
des clares matins, de la llum dels baladres. (...) /
das manhãs claras, da luz dos loendros. (...)
Carrers estrets i espais poc metafísics, /
Ruas estreitas e espaços pouco metafísicos,
tot l'entrellat d'una ciutat difícil, /
todo o intrigante de uma cidade difícil,
indiferente i secularment puta." /
indiferente e secularmente puta".


Curioso que a única palavra grosseira do cuidadoso Raimon literário esteja escrita não no sentido estrito, mas no sentido triste que o termo tem, ... em Valência. Fosse como fosse, Valência cidade não aparece com boa imagem nas canções de Raimon; "ainda bem que os duros não se deram conta", dir-lhe-ia um amigo em jeito de piada, segundo conta em Les Hores Guanyades. A outra menção surge em "L'Única Seguretat" e lembra, a lembrança é imelhorável porque foi no dia em que conheceu Annalisa: "El goig d'haver-te trobat / un dia fa ja molts anys / a la ciutat bruta i plana". ("A emoção de te ter encontrado / um dia, já há muitos anos, / na cidade bruta e plana").

Daquela Valência, ao fim e ao cabo, Raimon destaca a zona gótica de casarões com musgo, a catedral e a galeria, a rua de Cavallers e o restaurante Bermell, ponto de encontro dos progressistas intelectuais, que mantém ainda o nome de outrora e alguns pratos de interesse etnogastronómico, como agora o esgarraet, variedade de salada de bacalhau que seria admitida pela Academia Valenciana da Língua, digamos, e o Atum de areia, conservado em água e sal como as anchovas, conhecido desde a Idade Média e sob a influência do qual vai chegar desde Alacant até às costas de Tarragona como ingrediente do xató.

Valência foi o porto onde Raimon ancorou o barco que conduzia Ausiàs March gráças ao impulso do vento nas velas. Mas faria várias viagens. Com mil pesetas poupadas durante todo o ano, em 1960 vai a Paris à boleia com dois amigos, Joan Joan e Vicent Àlvarez. Vai dar azo a uma das suas grandes vontades, passear e mirar, e apaixona-se por aquela cidade com uma intensidade que dura até hoje. Raimon precisa de ir a Paris de vez em quando, percorrer o Bairro Latino e comer nos bistrot, aqueles pequenos restaurantes que servem boa comida e nunca para desenrascar, com uma garrafa de um vinho sempre negro.

domingo, 13 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (IV)

À parte Dolç e Fuster, do meio académico valenciano Raimon guarda memórias especiais de Antonio Ubieto, Josep M. Jove, Joan Reglà e Miquel Tarradell. O doutro Reglà, discípulo de Jaume Vivenç Vives, era experto na Coroa de Aragão, mouriscos e bandoleiros, e deixou obra entre 1958 e 1971, ano em que vai ser o núcleo fundador da nova Universidade Autónoma de Barcelona, que vai acolher tantos professores considerados "desafectos" ao regime franquista, exilados ou simplesmente expulsos. Tarradell vai deixar obra em Arqueologia e História Antiga, e durante a sua estadia no País Valenciano dirigiu escavações importantes. Fora da docência, Tarradell fazia política, sobretudo religando as complexos redes dos Países Catalães, parte sul. E acolhia Raimon em reuniões familiares.

Também fez amigos, naturalmente, sobretudo do ambiente catalanista, como Eliseu Climent, que depois fundaria a editora Tres i Quatre e se tornaria num grande impulsionador de múltiplas iniciativas culturais como agora Bloc Jaume I ou os Prémios Octubre, e Alfons Cucó, que o tempo faria historiador e poeta, e o dramaturgo e director Sanchis Sinisterra, e Josep Maria Morera. Vai ser naquele ambiente universitário que começa a amadurecer. A greve dos mineiros nas Astúrias em 1962 fez também despoletar uma greve e manifestações solidárias na Universidade de Valência, que vão levar à prisão diversos líderes estudantis amigos de Raimon. Daquela experiência vivida, filtrada pelo homem que diz não de Camus, nasce "Diguem No", a canção que se tornaria hino de luta contra a ditadura.

sábado, 12 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (III)

A universidade tinha-lhe ido engrandecendo a cultura, tanto pela sua avidez, quase voracidade, enquanto leitor, como por a biblioteca ser um lugar inevitável para se proteger do frio. Começa a ler Ausiàs March na colecção "Els Nostres Clàssics". No ano de 1959 comemorou-se o quarto centenário do autor de "Veles e Vents...", autor no qual se iniciaria Miquel Dolç, catedrático de Latim, que chegaria a decano quando Raimon já tinha abandonado as aulas. Dolç era um grande experto en Virgílio - diria que neste nosso modesto lugar, era "o experto" -, estudando-o e traduzindo-o, resgatando-o para a colecção "Bernat Metge", um dos tesouros mais importantes da cultura catalã, que, graças a Dolç, Raimon vai começar a folhear enquanto, em verdade, começava a ler numa língua que até então apenas era de uso privado. A Eneida inicia-se cantando - o verbo cantar conta!, é o primeiro que se conjuga nesta tão magna obra, terceira palavra do primeiro verso hexassilábico - "as armas e o herói"... mas Virgílio também faz soar o antecedente mais directo do flautim, a "caramella". Aprofundar a métrica latina, de versos que eram verdadeiros compassos, vai dar a Raimon os precisos trinta por cento que lhe faltavam para fazer tão bem o que começava a tentar por aqueles dias: cantar. Raimon vai descobrir na métrica clássica, recuperada por Ausiàs, a música que nascia das palavras.

Falávamos de percentagens: a melodia do flautim; o tempo de Xátiva; a música da fonética, uma fonética que não era senão a de Ausiàs, como anos depois lhe faria notar Martí de Riquer, quando lhe aconselhava que simplesmente o pronunciasse com a sua pronúncia. Vai começar a fazê-lo em público naquela comemoração universitária da morte de March. No salão nobre, Raimon vai recitar "Elogi a Teresa".

Os quatrocentos anos da morte de Ausiàs vão ser vir a Raimon para conhecer uma outra personagem importante na sua vida, Joan Fuster, que vai ser quem o vai induzir a ler Espriu, ao oferecer-lhe "La Pell de Brau". Aqui está um acaso interessante. Fuster é o elo entre os dois poetas mais musicados por Raimon, Ausiàs March e Salvador Espriu. Graças à comemoração de Ausiàs, conhece Fuster, graças a Fuster, conhece Espriu; e fica em jeito de anedota que Espriu, ao ouvir "Veles e Vents" pela primeira vez, com a solenidade de quem se sente herdeiro da tradição poética na língua catalã, vai dizer a Raimon: "Em nome do senhor March, muito agradecido".


A amizade de Raimon com Fuster cresceria. Pouco depois de se conhecerem já compartilhavam uma tertúlia de universitários, que se reunia cada segunda-feira e à qual também assistia o compositor Vicent Garcés, que inculcava em raimon noções de harmonia teórica. Porque a prática já a sabia toda de tocar na banda.

A primeira coisa que li de Fuster - explica Raimon - foi o seu esplêndido livro El Descrèdit de la Realitat. Li-o numa edição castelhana e, depois, quis saber coisas sobre o autor, que me pareceu apropriado. Conheci-o e abriu-se-me um mundo de uma grande força racional, de uma grande ironia, de uma inteligência muito apurar e de uma grande sensibilidade como crítico literário e homem de cultura, como um grande intelectual. Assim começou a grande amizade que para mim foi importante de todos os pontos de vista e que é uma daquelas coisas que levamos sempre connosco para toda a vida.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (II)

Raimon parte para Valência para estudar. O bacharelato correu-lhe bem. É quando pensa que tem possibilidades dramáticas e planeia entrar no Real Conservatório de Música e Declamación: o seu irmão Enric, que trabalhava num bar na capital, e o amigo “Cote”, que estudava filosofia, vão ser as suas primeiras bases. Depois, passou a viver em pensões e colégios.

Cedo, porém, se apercebe que começar a estudar teatro não é começar a fazer de galante, e que é preciso partir muita pedra, coisa que o aborrece de sobremaneira. Isso, de qualquer forma, era a que ele estava habituado, e em idades tão precárias uma pessoa quer ser simplesmente aquilo que mais lhe apetece dentro da pequena mostra de artes e ofícios de que se teve conhecimento. Contudo teria sorte, e iria descobrir, com quem diz, por acaso, uma disciplina que não imaginava qual. Um dia, indo buscar o seu amigo “Cote”, à Facultat de Lletres, entrou numa sala, para ver o que por lá se dizia. E concluiu que era bem mais interessante que a técnica de declamação que lhe ocupava o precioso tempo dedicado a formar-se; precioso em todos os sentidos, já que para Raimon estudar era mesmo um luxo, como o era, em geral, para todas as famílias de trabalhadores: era necessário dinheiro para a matrícula, os livros e as despesas, e se ainda fosse pouco deixavam de ir, que um trabalho já começava a oxigenar as precárias economias domésticas.

Raimon matricula-se em Filosofia e Letras e, graças às boas notas, consegue uma bolsa do Sindicato Español Universitário (SEU) que o ajuda economicamente. Tampouco o gasta, porque o SEU também oferece refeições aos estudantes; a oferta gastronómica, porém, é um triste rancho, muito mau, mas Raimon, com as trocados que junta, consegue um jantar com os amigos ou uma noite de conversas regadas com os combinados que acabavam de chegar do transoceânico: a Cuba livre.

“A les butxaques d’uns pantalons vells” (“Nos bolsos de umas calças velhas”), onde guarda as lembranças sentimantais, tem o leite que cada manhã o seu irmão Enric lhe deixava na travessa, para complementar vitaminicamente uma dieta pouco equilibrada.
A universidade ainda não era massificada. Na Rua da Nau, num curso presidido por Joan-Lluís Vives, cursavam o primeiro ano comum apenas uns setenta estudantes, e a partir do terceiro, quando Raimon se especializa em História, não mais que uns vinte. Isso fez com que os professores conhecessem os alunos pelo seu nome, que a docência fosse boa, e que, em suma, houvesse uma relação familiar que permitia que o catedrático repreendesse discretamente “Pele” quando chegava tarde de manhã porque tinha lido até altas horas da noite ou porque algum professor o tinha convidado para jantar em sua casa e a conversa se tinha estendido.

Raimon tem aquela fluidez de conhecimento de quem tem uma permanente curiosidade intelectual e um raciocíno metódico, sério, exigente, organizado; de quem nunca toma por boa a evidência demasiado fácil, que dá sempre a volta à abordagem que primeiramente assumiu para ver as coisas de uma maneira diferente; ainda que o negue, Raimon teria dado um muito bom político, porque a res publica requer esta sistemática de raciocínio; mas licenciou-se em História. Corria o ano de 1963, quando ainda não tinha completado os vinte e três anos. Conselhos posteriores do doutor Jordi Nadal, muito influente em gerações de economistas, pretenderam orientá-lo, tendo-o enviado a um curso de especialização, com tudo pago, a Aix-de-Provence, que até lhe foi de grande utilidade. Mas não na direcção académica, na qual Nadal lhe augurava bom futuro: decidiria que não se dedicaria à História. Aí também faria um bom amigo, que depois faria uma importantíssima carreira política, alcalde de Barcelona, conselheiro da Generalitat e vice-presidente do Governo Espanhol, Narcís Serra, e iria descobrir Mozart graças a uma representação de “Cosi fan tutte” e musicaria pela primeira vez um poema de [Salvador] Espriu, “Cançó del Capvespre”.

[As duas capas de discos (de 1963 e 1966) que vemos aqui em baixo são as duas primeiras vezes onde apareceu o tema de hoje. Salvador Espriu é um nome maior da poesia catalã e peço desde já desculpa por ter traduzido este seu poema.
Mais uma vez - e para oferecer o melhor aos que me lêem - a canção na caixa de música (a número 6) é a original, de 1963. Porém, como a de ontem, sofre do tal problema. Para a ouvirem em condições basta copiarem a que ficará na pasta dos ficheiros temporários da net, após ela ter sido completamente carregada.
Esta preciosidade que tenho-a há algum tempo no ordenador e não fazia sentido não ser divulgada. Porque os arranjos conseguidos caracterizam excelentemente o tom paisagístico do poema. Simplesmente fantástica!]



Cançó del Capvespre



S'enduien veus d'infants
el sol que jo mirava. /

Vozes de crianças levaram
o sol que eu olhava.
Tota la llum d'estiu
se'm feia enyor de somni. /

Toda a luz do Verão
me dava vontade de sonhar.

El rellotge, al blanc mur,
diu com se'n va la tarda. /

O relógio, no muro branco,
diz como vai a tarde.
S'encalma un vent suau
pels camins del capvespre. /

Um vento suave abranda
pelos caminhos do entardecer.

Potser demà vindran
encara lentes hores
de claror per als ulls
d'aquest esguard tan àvid. /

Talvez amanhã ainda
venham horas lentas
de luz para os olhos
deste olhar tão ávido.

Però ara és la nit. /
Mas agora é noite.
I he quedat solitari
a la casa dels morts
que només jo recordo. /

E fiquei sozinho
na casa dos mortos
que só eu lembro.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

III - Una Ciutat Difícil (I)

No ano de 1957, quando Raimon não tinha ainda feito os dezassete anos, deixa Xátiva. Deixa-a traumaticamente porque tinha ficado claro que ali se tinha urbanizado a sua paisagem interior, porque ali havia uma família bem vivida e bons amigos. Quando tudo isso fica para trás, necessariamente se tem vontade de regressar, como está patente na "Cançó de la Mare", quando termina com um reiterativo "jo sé, jo sé, jo sé, jo sé / que tornaré al carrer Blanc". É o mais lógico quando para trás está tudo e à frente não há nada, mas o tempo iria enchê-lo, e esta expectativa é um motor de explosão que faz avançar a máquina humana, apesar de todas as forças centrípetas.

Uma das suas primeiras canções explica demasiado bem o que passava pela cabeça criativa de "Pele". Não podia senão chamar-se "Disset Anys".

"Se'n va anar i tres cançons de Raimon", disco de média duração de 1963 que contém pela primeira vez a canção de hoje, Disset Anys .

[Devido a incompatibilidades técnicas, esta canção, a versão original, do disco cuja capa aqui expomos, está um bocadinho mais lenta que o tempo real. Isso decorre de ter sido gravada em formato wma, e é um problema que não consegui resolver. Resta-nos a alegria de podermos descarregá-la e então ouvi-la como deve ser. Vale ainda mais a pena se tivermos presente que é, nesta altura da história, aceder a esta gravação original através da rede. Felizmente que parece ser apenas esse o problema, pelo que aparecerão algumas mais a padecer desta enfermidade.]

Disset Anys

Tots els somnis trencats. /
Todos os sonhos quebrados.
Tots els castells per terra. /
Todos os castelos desabados
Tot allò que hem viscut
tan endins s'ha enfonsat. /
Tudo aquilo que vivemos
Para tão fundo se afundou.

Què s'ha fet dels 17 anys? /
Que resta dos 17 anos?
Què s'ha fet d'aquells ulls,
d'aquelles mans tan pures?
Que resta daqueles olhos,
daquelas mãos tão puras?

Què s'ha fet,
què s'ha fet...?

Tant de cel se n'ha anat,
tanta mort al darrera
de tot cor. /
Tanto céu partiu,
tanta morte para trás
de todos os corações.

Tant de plor,
tant de plor... /
Tanto choro,
tanto choro...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (VI)

Em Xátiva, durante “les passejades nits d’estiu” (“as passeadas noites de Verão”), Raimon escutava os ensaios das bandas, que se tornam numa música de fundo urbana muito original. Na povoação havia duas bandas, a Velha e a Nova. O pai de Raimon estava ligado à Banda Nova ou Música Nova, tendo sido seu presidente, e inculcou nos seus filhos o amor pela música. Ali Raimon aprendeu solfejo desde os cinco anos com o celebrado método de Hilarión Eslava, que permanecia como bom material didáctico desde 1846, e então começa a tocar oboé. Porém, fazer soprar a dupla palheta requeria um esforço dos músculos faciais que lhe provocava hemorragias nasais, facto pelo que lhe vão destinar um instrumento menos difícil. Passa então para o flautim, que emite a mais delicada das acuidades e que Beethoven incorporou no conjunto sinfónico. Raimon aprende a tocar um repertório muito versátil, desde pasodobles e outros géneros dançáveis até versões de Mozart, Beethoven, Schubert, Bizet e Wagner, que o metal exemplificava até atingir o resultado. Paralelamente cantava num coro e começa a educar a voz.

Destes conhecimentos essencialmente melódicos parte a base do grande construtor de melodias, e [Raimon] destaca ou reivindica este facto quando, no recital de comemoração dos trinta anos da canção “Al Vent”, em 1993, no dia de Sant Jordi no Palau Sant Jordi, volta a tocar flautim na banda La Lira Ampostina.
Para lá da banda, expressão urbana, o jovem Raimon está abertamente exposto ao mundo: ouve música popular e agrada-lhe especialmente o blues, Billie Holiday, Ray Charles, também Lorenzo González e os boleros, os Platters, naturalmente - “Only You” -, e o que já denota uma certa extravagância, as canções francesas e italianas, que descobre respectivamente graças sobretudo a Juliette Gréco e Domenico Modugno. Quando tem catorze anos, começa a pôr discos na Ràdio Xàtiva, o que lhe oferece um espectro mais amplo de possibilidades de audição e isto começa a estimular-lhe o gosto pela vocalização, esforçada quando tem de registar anúncios num Castelhano que não domina, como agora “jabón el oso”, mas que virá a desenvolver melhor em grupos de teatro amadores.

Quando se muda de Xátiva a Valência, a primeira cidade que conhece para estudar, dá-se conta, por contraste, que da povoação levou outra coisa. Não é fácil de discernir porque não cabe nem na pasta nem na memória: é intangível. Mas será um elemento fundamental para uma pessoa que acabará por fazer música. Uma determinada ideia de tempo.

Há muitos tipos de tempo e medem-se com réguas diversas: calendário, agenda, relógio, cronómetro, a campainha dos monges e os anos-luz dos astrónomos… O tempo musical, que não podemos chamar doutra forma que no Italiano que subjaz a este termo, tempo no singular, tempi no plural. O tempo é basilar na música, o tempo do metrónomo, tão essencial como o som, e se o som do metal e do vento o leva Raimon de Xátiva, também leva o tempo. Explica-o claramente em Les Hores Guanyades: “O meu ritmo vital é ainda o mesmo de quando vivia em Xátiva”, destacando a lentidão e muitas outras coisas que não importa agora transcrever. Mais adiante, no mesmo diário, reclama o valor do tempo: "O movimento, na música, isso a que muitos músicos chamam tempo, é importantíssimo".


Sem esta percepção muito clara do tempo, ligada ao metrónomo alto que nos daria o tempo parado de Xátiva do fim do século XX, a música de Raimon não se poderia explicar razoavelmente. O tempo musical de Raimon vai permitir que o tempo verbal não seja nem curto nem longo, que as palavras se entendam e encontrem também na música a plenitude do tempo que também elas levam dentro. Mas disso falaremos mais à frente, como falaremos da constante reflexão que moveu Raimon sobre esta ideia que tanto trabalho deu a filósofos e relojoeiros.
É nesta altura que Raimon está a criar a realidade que mais tarde serão aqueles versos: "He deixat mar maré / sola / a Xàtiva al carrer Blanc", que abrem o capítulo. No seguinte vamos até Valência.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (V)

Raimon começa a aprender a ler com uma professora, doña Nieves, uma ex-monja que dá em sua casa aquilo a que chamavam "a escola dos cagões", forma coloquial do infantário. É depois que, já a saber ler e as quatro regras, faz a primária nos claretians (que vol dir aixó?) e o bacharelato no instituto que tem o nome do pintor de Xátiva Josep de Ribera.

Fora do colégio-convento, lá onde Jesús Fernández Santos diz liricamente que a lua estaca, "extramuros la luna se detuvo", segundo [Manuel Vásquez] Montalbán uma das melhores frases da literatura espanhola, Raimon procura compulsivamente o saber. Teria que satisfazer o seu desejo de curiosidade fora de aulas e lê tudo o que lhe ia parar às mãos, que não era assim tanto - pouco mais que os romances do Oeste da série Rodeo, e Unamuno, Baroja, Azorín..., na "Colecção Austral" - por culpa da precariedade cultural daqueles "anos de penitência", nas palavras de Carlos Barral. Vai ao cinema sempre que pode e fala muito com os amigos, "parlàvem de tot, i del bé i del mal" ("falávamos de tudo, e do bem e do mal"). Que resta de tudo isso? As vastas referências presentes nas suas canções, as leituras posteriores de Camus, Sartre e Kierkegaard, e amigos que foram resistindo ao passar do tempo, Joan Joan, que os anos fizeram com que se parecesse com o Sean Connery, Josep-Lluís García, "Cote", e Josep-Ramon Torregrossa, "Torre", que vive em Madrid mas que se desloca sempre que pode para ir aos recitais de Raimon.

Sincronicamente ao contacto com os livros, começa a receber influências musicais. O País Valenciano é terra de bandas, de orquestras de metal que tanta divulgação de música têm feito. A maioria dos melhores músicos de instrumentos de sopro que dirigem as orquestras pelo Estado fora são valencianos, e explicam-no com o dito hiperbólico seguinte: um músico valenciano dá voltas à volta do piano. Que faz? Procura o buraco.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (IV)

A mudança de símbolo paisagístico, ao longo do rio Albaida, que deixa no sul todos os ermos enquanto nos arrancamos para norte "tots aquells arbs fruiters / que ja fa tants anys que no veig", mas que continuam a nutrir-se da função clorofílica nos socalcos cerebrais; "Al meu cervell que deconec", tema do ano 1986 que descreve uma vez mais a paisagem que nos ocupa, acentuando o pinheiro num último verso:

Al meu cervell que deconec /
No meu cérebro que desconheço
arrossar de mel obren portes /
arrozais de mel abrem portas
a llunes plenes juganeres, /
a luas cheias brincalhonas
que entre tarongers i llimeres /
que entre laranjeiras e limoeiros
i bresquilleres i ametllers, /
e damasqueiros e amendoeiras,
van perseguint totes les ombres /
perseguem todas as sombras
darrere els pins e els garrofers, /
por trás dos pinheiros e as alfarrobeiras,
els pins e els garrofers /
os pinheiros e as alfarrobeiras

A luz também é essência daqueles quadros. Veremos mais adiante que a luz aparece quinze vezes nas suas canções. Fala da sua luz de Xátiva no diário Les Hores Guanyades: "Neta i suau a l'hivern, esclatant i densa a l'estiu" ("Limpa e macia no Inverno, tórrida e densa no Verão"), "la llum que he estimat" ("a luz que amei"), para concluir numa citação mais geral.
Volta o recrudescer das abcissas e ordenadas espaço (Xátiva) / tempo (infância-adolescência) no tema "Al meu país la pluja", também supracitado. Uns versos a capella introduzem o tema; é como um regresso ao cancioneiro tradicional, mas feito por Raimon: "Al meu país la pluja no sap ploure: / o plou poc o plou massa; si plou poc és la sequera, / si plou massa és un desastre". Na verdade no País Valenciano sentem na pela as ciclotimias da meteorologia, a última foi por causa da barragem de Tous; apenas umas horas evitaram que Raimon a sofresse, porque estava em Xátiva a rodar um programa de televisão.



Nesta canção de pretexto meteorológico, Raimon faz-nos entrar na sua escola, assunto recorrente nos da sua geração e muito bem retratado em El florido pensil e numa boa colecção de filmes; no âmbito da canção, mas em registo humorístico, La Trinca escreveriam "El meu col-legi", muito polarizada numa obsessiva educação religiosa que Raimon também vai sofrer desde que, dos seis aos dez anos, foi à doutrina (pronunciada "dotrina", como ele lembra), e depois, mais intensamente, no colégio Cor de Maria dels claretians, vulgarmente "os padres". Ali havia missa diária e as novenas e rosários pertinentes, preparações à comunhão e confirmação, mês de Maria, primeiras quintas-feiras, e liturgias tutti quanti para fazer com que o céu escutasse as preces que o padre Claret mandava fazer, que talvez o merecesse apenas por ter de ouvir as confissões de Isabel II, de certeza escabrosas.

A escola do franquismo era uma primeira correia de transmissão do nacional-catolicismo, um entrave de pensamento do já citado Primo, puro fascismo, como se viu, e o integrismo preconciliar que punha à altura do espírito o peso do baixo ventre. Coincidiam um e outro, a Igreja e o Estado, digamos, na teoria do medo como principal motor da inactividade dos cidadãos paroquianos: medo do inferno, medo da prisão - a Inquisição, que unificava um e outro com uma solução de continuidade entre a fogueira terrena e o fogo eterno, não foi abolida senão em 1834, mas o índex de livros proibidos que tantas causas tinha levado ao obscuro tribunal duraria até 1962! Em suma, como Raimon conclui, "res no vàrem aprendre a escola" ("não aprendemos nada na escola"). E este "nada" o concretiza nas características da sua paisagem, das quais temos uma referência com um último verso dedicado à língua, outro dos temas recorrentes na temática raimoniana.



Entre la Nota i el So, 1984

[A quarta canção presente na caixa de música, Al meu país la pluja, foi incluída pela primeira vez no disco de 1984, Entre La Nota I El So. E é também essa primeira versão que trazemos aos vossos ouvidos. Haveria melhores, talvez. Mas, se se justificar, ainda por cá traremos outra. Ao vivo, obviamente.]


Al meu país la pluja

Al meu país la pluja no sap ploure: /
No meu país a chuva não sabe chover:
o plou poc o plou massa; /

Ou chove pouco ou chove demasiado;
si plou poc és la sequera, /

Se chove pouco é a seca,
si plou massa és un desastre. /

se chove demasiado é um desastre.

Qui portarà la pluja a escola? /
Quem levará a chuva à escola?
Qui li dirà com s'ha de ploure? /

Quem lhe dirá como se deve chover?
Al meu país la pluja no sap ploure. /

No meu país a chuva não sabe chover.

No anirem mai més a escola. /
Nunca mais iremos à escola.
Fora de parlar amb els de la teua edat
res no vares aprendre a escola. /

Excepto o falares com os da tua idade
nada aprendeste na escola.
Ni el nom dels arbres del teu paisatge,
ni el nom de les flors que veies,
ni el nom dels ocells del teu món,
ni la teua pròpia llengua. /

Nem o nome das árvores da tua paisagem,
nem o nome das flores que vias,
nem o nome dos pássaros do teu mundo,
nem a tua própria língua.

A escola et robaven la memòria,
feien mentida del present. /

Na escola te roubavam a memória,
faziam mentira do presente.
La vida es quedava a la porta
mentre entràvem cadàvers de pocs anys. /

A vida ficava à porta
enquanto entravam cadáveres de poucos anos.
Oblit del llamp, oblit del tro,
de la pluja i del bon temps,
oblit de món del treball i de l'estudi.
"Por el Imperio hacia dios"
des del carrer Blanc de Xàtiva. /

Esquecimento do raio, esquecimento do trovão,
da chuva e do bom tempo,
esquecimento do mundo do trabalho e do estudo.
"Pelo Império para deus"
desde a Rua Branca de Xátiva.

Qui em rescabalarà dels meus anys
de desinformació i desmemòria? /

Quem me ressarcirá dos meus anos
de desinformação e desmemória?

Al meu país la pluja no sap ploure:
o plou poc o plou massa;
si plou poc és la sequera,
si plou massa és un desastre.
Qui portarà la pluja a escola?
Qui li dirà com s'ha de ploure?
Al meu país la pluja no sap ploure.


É esta canção, em suma, a parte recitativa, a reflexão que tinha anunciado em Les Hores Guanyades:

Na escola que tivemos, universidade incluída, não nos ensinaram a ler nem a ouvir. Ensinaram-nos a reconhecer as letras que formam as palavras e pouco mais. Não nos ensinaram a reconhecer os sons e os silêncios que formam a música. E foi de tal maneira assim que tenho a sensação de passar a vida a aprender a ler e a escutar. E não falemos de olhar nem do olfacto: nestes campos o "analfabetismo" é total.

A interiorização do medo, em parte alimentado na escola, vivida numa família de republicanos perseguidos, é também uma das temáticas de Raimon, e disso temos sinais nos primeiros movimentos da sua vida. O pai entra e sai da prisão, o menino Raimon passa a rotina de ir vê-lo, a mãe chega a ser ameaçada de que lhe rapariam o cabelo, como penalização e escárnio públicos...

domingo, 6 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (III)

A rua Branca é a entrada da cidade com o monte onde se encontra o castelo. Da Rua Branca para cima vai o pequeno "Pele", mais que para baixo, para o centro e a a sua avenida principal, o choupal, alameda, que às tardes levava com grandes quantidades de folhas secas que faziam as delícias das crianças, que nelas esfregavam os pés. Da Rua Branca ao castelo havia muitas esquinas para encontrar fantasias e pôr em prática a mais divertida das possibilidades de ser puto: atirar pedras.


A Rua Branca é o down town da paisagem sentimental da infância de Raimon, também muito presente na sua obra. A alma da casa é a mãe, uma matriarca obrigada pelas circunstâncias de uma viuvez muito precoce. Depois, os irmãos e amigos que com ela compartem a espera do regresso, como a canção o lembra, "germans i amics / que em volen / i esperen, com ma mare, / que jo torne com abans"... Raimon é o mais novo dos cinco irmãos. O mais velho chamava-se Pepe, mas todos, e até o próprio Raimon, lhe chamava "bigode"; Pepe morreria no fim dos anos noventa. O segundo era Antoni, Toniet, mas Raimon não chegou a conhecer por culpa de uma morte prematura. Seguiam-se-lhes Rafael e Enric.

Duro para Raimon seria, em 1987, mudar a conjugação do presente para o passado a um outro dos temas que fazem de Dolors Sanchis motivo de canção: "Ma mare ho guarda tot", "Ma mare ho guardava tot", verso de "Molt Lluny". Dolors Sanchis morreria muito idosa, com noventa e três anos, depois de um tempo com problemas de ossos e mobilidade, facto que para uma pessoa muito activa era sempre razão de angústia, mas que suportaria com paciência. Raimon fazia tudo o que podia, com o seu bom humor, para a ajudar, ligava-lhe, ia vê-la... "Molt Lluny" é uma canção que faz referência precisamente à data de que estamos a falar. Raimon encontra, nesta canção, "les nits que ens passàven / caminant, amics, / pels carrers de Xàtiva".

Umas pinceladas de Joan Fuster descrevem aquela Xàtiva na plenitude literária da sua prosa. É um belo parágrafo do seu livro Raimon, publicado em 1964, em resultado de uma conversa durante o percurso ferroviário de Xàtiva a Barcelona, que a tracção a vapor fazia durar até sete horas:

A Rua Branca de Xàtiva é, sobretudo, os arredores: limite com o descampado, cosido, num bairro de má urbanização, rente às muralhas do castelo. As casas são de planta baixa e de um só piso, limpas, claras. A vizinhança, uma vizinhança de lavradores e artesãos, não nega ao rito valenciano - talvez árabe - da calçada, e as fachadas esbanquiçadas reverberam rudemente ao sol. Quatro passos mais adiante, estende-se a Xàtiva dos brasões floridos e dos cognomes duradouros: aqui não há senão "povoação [povo]". Hoje é "povo" calado e conformado, trabalhador e irónico. A paisagem dá uma sensação de paz rotinária, de vida vivida sem pressa: crianças que jogam à bola, pequenos trabalhadores trémulos, anciãos na xacota ou a jogar à visca, uma loja ou uma barbearia melancólicas, mulas cansadas que voltam das cargas... A casa da esquina é a dos Pelegero: pequena, vulgar, pouca coisa.

Fala também Raimon deste pequeno universo que cresce, mas na memória, quando refere "el llaurador del meu poble" ("o lavrador do meu povo") como metáfora que tem mais à mão para uma das primeiras canções de amor, "Treballaré el teu Cos", composta quando tinha apenas vinte e quatro anos e ainda não tinha decoberto o suficiente os recursos inegotáveis da retórica. A paisagem de então está também imortalizada noutros versos. "Al mur blanc dibuixada / l'ombra de la llimera. / El llebeig despentina / el pentinat dels arbres" (despenteia o penteado, aqui, vinte anos antes, já sabia muito, de retórica). A árvore mediterrânea por excelência, o pinheiro, está presente em duas canções: "el verd suau dels pins llepats de pluja" ("o verde macio dos pinheiros limpos despidos pela chuva") e "de verd de pins, / de mar lluent" ("de verde de pinheiros, / de mar reluzente"). Uma ampliação da flora em "Octubre dolç": "Bedolls, llorers, oms i faigs, castanyers" ("Bétulas, loureiros, ulmeiros e faias, castanheiros").


E a reivindicação de tudo junto materializada com "no vull oblidar que sóc de poble" ("não quero esquecer que sou do povo", acrescentada à celebérrima asserção "qui perd els orígens / perd identitat" ("que perde as origens / perde a identidade"), que amiúde passa por anónima a partir da extensão por sinédoque. É natural e lícita a extrapolação de povo a país, mas é claro que Raimon se refere a Xàtiva, já que o texto e o contexto da canção da qual forma parte este par de pentassílabos - o decassílabo de Ausiàs [March] partido pela pausa interna em dos hemistíquios! -, não são alusivos a outra realidade. Depois, quando escreve o diário Les Hores Guanyades, Raimon clarifica este sentido de pertença limitada que não é mais que a posta em prática que "nação" vem de "nascer" e "pátria" de "pai":

Passámos por Xátiva à vinda (de Alcoi), por Bixquert, Albaida, Adzaneta, Benigánim, Bellús. Nomes próprios que me trazem uma enorme carga vital. Amendoeiras, ameixoeiras, pessegueiros em flor. Paisagem de secura, e a horta à espera no vale de Xátiva. Cenário das minhas mais íntimas vivências, lembranças de todo o meu viver, da luz que amei, das cores dos meus sonhos, espaço da minha aprendizagem do mundo. Que desejo imenso de ficar parado no tempo, naquele espaço e entre a gente da que nasci e que estimo, agora, desde a grande cidade que é Barcelona! Sensação de despojamento de sentimentos perante a paisagem da minha infância. Regresso nítido do puto brincalhão e feliz que fui, amigo e apaixonado. Poder de evocação da fonética, quão macio alcance da língua! Eu não tenho uma ideia de pátria; tenho, em vez disso, sentimento de pertencer a um grupo humano concreto. E este sentimento renova-se através da linguagem, desde a música do falar quotidiano da gente que ficou onde eu nasci. A língua é o meu possível patriotismo.

"Jo Vinc d'un Silenci" é o máximo expoente da descrição do mundo interior registado no vinil analógico dos anos de infância e juventude. Desta canção saem as "classes subalternes", referência social de entrada, as praças, as ruas, cheias de "xiquets que juguen / i de vells que esperen", a animação habitual que nas vilas e nos bairros se manifesta em plenitude, as pequenas oficinas, o campo, a divisão "on comença l'horta / i acaba el secà", que se visualiza nitidamente desde o cimo do castelo de Xátiva.


El Recital de Madrid, 1976

[Jo Vinc d'un Silenci foi primeiramente registada no disco "El Recital de Madrid", no dia 5 de Fevereiro de 1976, e é essa mesma a terceira canção que disponibilizámos na caixa de música]

Jo Vinc d'un Silenci


Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
antic i molt llarg /
antigo e muito longo
de gent que va alçant-se /
de gente que se vai levantando
des del fons dels segles
desde o fundo dos séculos
de gent que anomenen /
de gente a que chamam
classes subalternes, /
classes inferiores,
jo vinc d'un silenci /
eu venho de um silêncio
antic i molt llarg. /
antigo e muito longo.

Jo vinc de les places /
Eu venho das praças
i dels carrers plens /
e das ruas cheias
de xiquets que juguen /
de crianças que brincam
i de vells que esperen, /
e de velhos que esperam,
mentre homes i dones /
enquanto homens e mulheres
estan treballant /
estão a trabalhar
als petits tallers, /
nas pequenas fábricas,
a casa o al camp. /
em casa ou no campo.

Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
que no és resignat, /
que não é resignado
d'on comença l'horta /
de onde começa a horta
i acaba el secà, /
e acaba a secura
d'esforç i blasfèmia /
de esforço e blasfémia
perquè tot va mal: /
por que tudo vai mal:
qui perd els orígens /
quem perde as origens
perd identitat. /
perde a identidade.

Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
antic i molt llarg /
antigo e muito longo
de gent sense místics /
de gente sem místicos
ni grans capitans, /
nem grandes capitães
que viuen i moren /
que vivem e morrem
en l'anonimat, /
no anonimato
que en frases solemnes
no han cregut mai. /
que nunca acreditaram
em frases solenes.

Jo vinc d'una lluita
que és sorda i constant, /
Eu venho de uma luta
que é surda e constante

jo vinc d'un silenci
que romprà la gent
eu venho de um silêncio
que a gente romperá

que ara vol ser lliure
i estima la vida, /
que agora quer ser livre
e ama a vida,

que exigeix les coses
que li han negat. /
que exige as coisas
que lhes foram negadas.

Jo vinc d'un silenci
antic i molt llarg,
jo vinc d'un silenci
que no és resignat,
jo vinc d'un silenci
que la gent romprà,
jo vinc d'una lluita
que és sorda i constant.

sábado, 5 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (II)

Raimon vai ter de suportar a ideologia e a simbologia falangistas próprias da época. Mas, com o seu característico sentido de humor, achava piada. Quando cantava o hino da Falange Espanhola, “Cara al sol”, com o braço erguido comum do fascismo, Raimon picava o mestre que tinha à frente. Para responder às ejaculatórias políticas como mandavam as ordens, “España: una. España: grande. España: libre”, ele opunha: “España: una. España: dos. España: tres.” Não sabia bem porque é que o fazia, eram piadas habituais entre as crianças, que pouco tinham a ver com o contexto político. No entanto, estas piadas começavam a custar-lhe castigos.

Por causa de Primo, Raimon desencanta este contraste dilacerante: “Por el império hacia Dios, des del carrer Blanc de Xàtiva”, exclamação da canção “Al meu país la pluja”. Uma rua que leva o nome do calcário das fachadas, que Raimon evoca noutras duas canções: a "Cançó de la mare", de onde se extraiu o verso com que se intitula este capítulo: "He deixat ma mare / sola / a Xàtiva al carrer Blanc"; e em "L’única seguretat" diz: "Content tornaria a ser / el xiquet que va jugant, / absent, pel mig del carrer, / daquell meu carrer d’abans. / Carrer on jugàven tots, / els més petits i els més grans, / carrer de terra i de pols / que així era el carrer Blanc".


Raimon a l'Olympia - 1966


[A segunda canção foi primeiramente incluída neste disco ao vivo, gravado em 7 de Junho de 1966 e é essa que está disponível para ouvirmos na caixa de música, com a emoção sentida pelo público.]

Cançó de la Mare (o He Deixat ma Mare)

He deixat ma mare
sola
a Xàtiva al carrer Blanc. /
Deixei a minha mãe
Sozinha
Em Xátiva, na Rua Branca.


Ma mare que sempre
espera
que torne com abans. /
A minha mãe que sempre
espera
que eu volte como antes.


He deixat germans i amics
que em volen
i esperen, com ma mare,
que jo torne com abans. /
Deixei irmãos e amigos
Que me querem
e esperam, como a minha mãe,
que eu volte como antes.


He vingut ací
perquè crec que puc dir-vos,
en la meua maltractada llengua,
paraules i fets
que encara ens agermanen. /
Vim aqui
Porque creio que posso dizer-vos,
Na minha língua mal tratada,
Palavras e feitos
que ainda nos irmanam.


Paraules i fets
que encara ens fan sentir
homes entre els homes. /
Palavras e feitos
que ainda nos fazem sentir
Homens entre os homens.

Paraules i fets
que encara ens agermanen
en la lluita contra la por,
en la lluita contra la sang,
en la lluita contra el dolor,
en la lluita contra la fam. /
Palavras e feitos
que ainda nos irmanam
na luta contra o medo,
na luta contra o sangue,
na luta contra a dor,
na luta contra a fome.


En la sempre necessària lluita
contra el que ens separa
i ens fa sentir-nos
a tots nosaltres estranys. /
Na luta sempre necessária
contra o que nos separa
e nos faz sentir
a todos nós estranhos.

He deixat ma mare
i els meus germans. /
Deixei a minha mãe
e os meus irmãos.


He deixat els amics i la casa
i tots els que esperen
que jo torne com abans. /
Deixei os amigos e a casa
e todos os que esperam
que eu volte como antes.


I crec que he fet bé.
I crec que he fet bé. /
E penso que fiz bem.
E penso que fiz bem.


Jo sé, jo sé, jo sé, jo sé
que tornaré al carrer Blanc. /
Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei
que voltarei à Rua Branca.


Però ara ací,
Però ara ací,
crec que també és ma casa,
i crec que puc dir-vos,
amb el cor obert,
a tots vosaltes: germans. /
Mas agora aqui,
mas agora aqui,
penso que também é a minha casa,
e penso que posso dizer-vos,
de coração aberto,
a todos vós: irmãos.

Germans.
Irmãos.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (I)

O dia 2 de Dezembro de 1940 era uma segunda-feira, e segundo a Hoja Oficial de Valência - diário único aquele dia, já que não saíam jornais para que os jornalistas pudessem fazer festa aos domingos -, aconteciam todas as seguintes coisas: Southampton ardia aos bombardeamentos da Luftwaffe; Cárdenas cessava as suas funções de presidente do México; começava a campanha natalícia de doar roupa aos pobres; o Valência empatava com o Múrcia, que estava em último, em Mestalla, e o Barça metia três golos ao Madrid num dia em que uma grade soçobrou pelo excesso de gente; na Igreja Arxiprestal de Sagunt começavam rosários solenes em honra da Puríssima, “en sufragio de los caídos de la población”, e estava repleta, porque o termómetro tinha descido até aos seis graus; a programação apregoava a estreia de Eloisa está debajo de un almendro, de Jardiel Poncela; no Teatro Principal, última representação de Lo Increíble, de Benavente; no cinema Olympia rodavam, naturalmente com muito êxito, Sin novedad en el Alcázar, evocando a gesta do “herói” nacional Moscardó em Toledo; no Gran Teatro, um anúncio que metia medo: um soldado com a cruz gamada num braço e numa bandeira convocava a um longo documentário, desde as três da tarde até às zero horas, intitulada Camisas marrones. El despertar de una nación. Película basada en el Movimiento Nacional-Socialista alemá, fiel reflejo del nuestro.


Raimon vem ao mundo naquele dia, “a Xàtiva, al carrer Blanc”, número 9, como no-lo diz na “Cançó de la mare”, Dolors Sanchis Climent, que então tinha quarenta e sete anos, e que vai ser uma pessoa muito importante na vida de Raimon pela sua tarefa e rigidez e também pelo infortúnio da morte prematura do pai, Josep Pelegero Franco, quando Raimon, o seu quinto filho, tinha acabado de fazer vinte anos. Josep era carpinteiro, como o seu patrão, e Raimon lembra-se da rectidão do pai com as artes que eram ideais para julgar, sobretudo a plaina e a perigosa serra, o valor de uso e o valor de troca - terminologia marxista que lhe vai servir muito bem para perpetuar “Societat de consum” - da madeira de sobreiro, que costumava acabar no fogo, à volta do qual a família se reunia a cada fim de tarde. O hábito do calor, juntamente com a hipocondria de que sofrem todos os que cantam e, portanto, fazem do seu corpo o seu instrumento musical, vão fazer com que Raimon gastasse os primeiros dinheiros a pôr aquecimento no piso que comprou em Barcelona.


Josep Pelegero vai ser importante durante o pouco tempo que Raimon vai poder viver com ele. Era um homem terno que lhe explicava contas, que vivia o anarcossindicalismo sem se sentir escravo do dinheiro e "visitando" a prisão ciclicamente. Josep Pelegero morre quando Raimon tem, portanto vinte anos, "que no són rés, diuen els savis" ("que não são nada, dizem os sábios"), o pouco tempo que vai durar o Ramon de nome de baptismo que lhe puseram e pelo qual apenas vai ser usado pelos familiares mais próximos, já que o apocorístico "Pele" se vai impor. Ninguém, contudo, o pronunciará com a fonética adequada, até Annalisa, sua esposa, o adoptar, abrindo o e à italiana - va bène -, uma vez que Annalisa é de Òstia, o velho porto que começou a estender Roma a todo o mundo conhecido. Disto, os eclesiásticos vão permitir-se, depois, o jogo de palavras urbi et orbi, a cidade e o mundo.

Pelegero deve pronunciar-se não à Castelhana, "com um g como se tratasse de puxar especturação", como dizia Joan Fuster, mas através do Latim de onde derivaram as línguas românticas: Pellecciero - Pellegiero - Pèléchéro; de facto, a fonética do Valenciano preserva o g oralmente como o x do Catalão do Principado (Andorra), o tx do Euskera e o ch do Castelhano. Isto explica-se simplesmente porque Pelegero é gentílico de ADN latino transmutado em Italiano; é gero, o que traz ou transporta, pele, pele; uma origem gremial tipicamente da Idade Média, precisamente a etapa em que Xàtiva tinha muitas relações com Itália. Tal como Sanchis, também frequentes vezes mal pronunciado, leva um acento prosódico na a, o Pelegero vai surgir nos vasos comunicantes entre Xàtiva e Roma, de certeza bem perto da extradordinária invasão dos Bórgia.

Os Bórgia de Xàtiva vão tornar-se nos Bórgia italianos precisamente por motivos de manter a fonética valenciana escrita em Italiano, e vão ser, sem dúvida, a família mais influente do Renascimento. Dois papas, Calixto III, entre 1455 e 1458, Alexandre VI, de 1492 a 1503, a mais famosa das cortesas, Lucrécia, e o político César, inspirador da bíblia de qualquer político que queria fazer carreira, O Príncipe, do grande Maquiavel. Xàtiva, berço daqueles inteligentes canalhas que na intimidade falavam Catalão, vai organizar uma extensa exposição, em 1995, explicando quem eram os Bórgia, que vai servir, entre outras coisas, para que Raimon exumasse o historiador que leva dentro contando-o com muita propriedade aos seus amigos. Manuel Vázquez Montalban ficou tão impressionado que escreveu um romance histórico - apenas há um outro na sua larga obra, Gallíndez - com um título que evocava Baroja: Ou César ou Nada.

O fundador da dinastia foi Calixto III, o clérigo que herdou um bocadinho a cisma do papa Luna, que o vai congregar grande prestígio em Roma, que vai acabar por levá-lo ao papado. Vai ser papa durante muito poucos anos, mas tempo suficiente para pôr lá toda a família. Alexandre VI é o mais famoso, porque tem mais lendas negras em cima, mas, a par disso, porque lhe vai caber a divisão do Novo Mundo e se hoje existe Brasil é graças a ele. Tinha muita má fama, isso de "la Santa Sede in mano dei catalani", mas isso por causa dos italianos pensarem que tudo era deles e que os forasteiros iam apropriar-se do território. Havia um forte jogo de interesses na península Itálica, com o papado como um Estado poderoso, com o fim das cidades-Estado, com a república de Veneza em baixo, a ascensão da Toscánia... Era um mundo em plena efervescência, com guerras e mais guerras.

Raimon sabe outras histórias sobre Xàtiva, sabe-as todas. A do outro italiano, o pintor Ribera, seguidor de Caravaggio; a dos árabes que aí vão instalar uma fábrica de papel pioneira; a das embrulhadas dinásticas que vão acabar com o conde de Urgell, e com ele a casta catalã nobre mais antiga, enterrado vivo nos calabouços do castelo; a dos Germanos protossocialistas; a dos resistentes contra Filipe V, que represaliou a cidade com fogo e, como consequência deste triste episódio, o humor negro popular qualifica os xativencs com a fama de "socarrats", um termo muito valenciano que faz menção também ao prestigiado arroz que se cola à paelha. Paelhas, para Raimon, as melhores eram as da sua mãe; depois as da Casa de la Abuela, uma casa de toda a vida que continua a ser paragem inevitável quando vai a Xàtiva.

Quando Raimon nasce, Xàtiva era uma cidade de 18000 habitantes e uma das quatro monumentais do País Valenciano, juntament com Valência, Morella e Oriola. A rua Branca ["el carrer Blanc"] era, no entanto, uma coisa bem diferente: um lugar modesto, que contrastava com a grandiloquência usada às ordens inspiradas de José Antonio Primo de Rivera, que Raimon sempre cita centrando-se na segunda metade do cognome composto, sobrando-lhe um curioso José Antonio Primo, que em Castelhano quer dizer, para além do grau, "pessoa incauta que se deixa enganar facilmente", segundo o quinto significado do dicionário da Real Academia Española.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

I - A l'Any Quaranta, Quan Jo Vaig Nàixer (II)

Franco vende paz, ao acabar a guerra, e eleva-a à categoria da mais premiada dos ganhos graças à guerra que ele tinha despoletado. Raimon encontra no medo o melhor epíteto daquela paz fictícia: "De vegades la pau, no és més que por" ("Às vezes a paz não é senão medo"). Este verso, primeiro da canção "Sobre la pau", completa a ideia enunciada em "Quan jo Vaig Nàixer", e quando diz "por dels homes que no volem la nit" ("medo dos homens que não queremos a noite") junta o ritornello explanado na canção "La nit", metáfora da ditadura. Desenvolve igualmente a paisagem depois da batalha de "Quan jo Vaig Nàixer", "Sobre la pau", o verso que a descreve [à paz] como "un buit immens on moren els homes" ("um vazio imenso onde os homens morrem")... "Encara no havien mort tots".

Raimon nasce, portanto, num país despedaçado, mas também num universo em estado crítico. A guerra civil espanhola é apenas um ensaio para a deflagração mundial que começa quando aquela acaba. Franco acaba de ocupar Espanha em Abril e Hitler ocupa a Polónia em Setembro.

Raimon detesta a violência, também o deixa bem claro nos seus textos, a começar pelo grito que consigna "no creguem en les pistoles", de "D'un temps, d'un país", frase que responde a um dos ideólogos de todo aquele desastre, José Antonio Primo de Rivera, fundador da Falange Española, partido único do franquismo copiado do fascismo italiano que tanto admirava. Primo de Rivera, filho de ditador, confesso devoto de Mussolini, a quem dedica páginas e páginas de elogios, defendia sem escrúpulos a "dialéctica dos punhos e das pistolas". Raimon incide de novo no tema quando canta "no volen arguments, usen la força", em "T'adones, amic"; e, por fim, com um breve comentário que faz no macroconcerto de homenagem a Miguel Ángel Blanco, assassinado pela ETA no ano de 1997.

Em Xàtiva, como em todo o lado, tocou a todos receber o contencioso civil: quem tem mais ou menos familiares mortos por uns ou por outros, presos, exilados ou desparecidos. O próprio pai de Raimon, membro da CNT durante a República e de família anarcossindicalista, vai passar diversas vezes pelo calabouço durante o pós-guerra. A mãe nasceu em 1894 no seio de uma família socialista. O avô materno de Raimon tinha tomado parte na fundação local da UGT e, segundo a tradição oral, tinha alojado em sua casa o próprio Pablo Iglesias, mas não se comentava nada porque o franquismo podia sancionar com represálias retroactivas. Apesar de todas as cautelas, era inevitável que em casa de Raimon se falasse da guerra, a partir da visão de uma esquerda dividida que repartia as culpas de a ter perdido. "Divided we Stand", divididos nos mantemos, é um título de uma revista norte-americana que Raimon guardou para explicar aquela situação.

Na canção "Quan jo Vaig Nàixer", Raimon evoca, portanto, a sua vinda ao mundo, traçando a situação global, que é, por outro lado, a maneira mais generalizada da sua abordagem poética. Raimon destrinça o contexto de um ano de números redondos para explicar uma época, e não a data pequena e o topónimo que assinalam o seu nascimento.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

I - A l'Any Quaranta, Quan Jo Vaig Nàixer (I)

"O melhor e mais importante cantautor catalã de todos os tempos." Com esta contundência define Raimon Jordi Garcia Soler, máximo estudioso da Canção Catalã, que arranca na segunda metade do século XX e que inicialmente vai ser conhecida como a Nova Cançó, marca que dá título ao livro que contém a citação. Mas Raimon é muito mais que um valor local; o seu nome encontra-se ao lado dos grandes renovadores da música popular, que se faz desde esta época em diante. Mais de quarenta anos no activo, uma obra de diferentes etapas e a cumplicidade de um público de diferentes lugares e diversas idades: desde os maiores aos mais jovens. Uma variedade estimulante.

A Gran Enciclopèdia de la Mùsica diz de Raimon:

Raimon. Xàtiva, 1940. Nome pelo qual é conhecido o cantor valenciano Ramon Pelegero i Sanchis. Descoberto pelos Setze Jutges quando era um jovem estudante de História, apresenta-se em Barcelona em 1962 e obtém um êxito imediato com canções como "Al Vent", que surpreendem pelo uso do grito e pelo existencialismo rebelde que jorra dos textos. Em 1963 ganha o Festival de la Cançó Mediterrània de Barcelona - juntamente com Salomé - com o tema de J.M. Andreu e L. Borrrel "S'en va anar". Muitas das suas canções posteriores ("Diguem no"; "D'un temps, d'un país", "El País Basc") foram assumidas pela sociedade como hinos antifranquistas. De facto, os seus concertos tornaram-se amiúde cerimónias colectivas electrizantes - é preciso lembrar o seu primeiro Olympia (1966), e os recitais no Palau dels Esports de Barcelona (1975) e o Pabellón de Deportes del Real Madrid (1976). Seria injusto, contudo, reduzir Raimon a uma função resistencial: hábil musicador de Espriu ("Indesinenter", "He Mirat Aquesta Terra", "Cançons de la Roda del Temps") e de poetas dos séculos XV e XVI como Ausiàs March, Roís de Corella ou Joan Timoneda, escreveu também canções de um grande lirismo e qualidade poética ("Com un Puny", "Als Matins a la Ciutat", "Al Meu País la Pluja"). Tudo isto faz com que Raimon supere a crise subsequente à Transição e seja considerado no fim do século comum clássico no activo, mantendo o seu poder de convocatória. A sua discografia, com álbuns como Per destruir aquell qui l'a desert (1970), A Víctor Jara (1974), Quan l'aigua es queixa (1979) ou Cançons de mai (1997) encontra-se reunida numa caixa de dez cedês chamada Nova Integral. Edició 2000. Raimon é, também autor de um diário (Les hores guanyades, 1983) e de um livro de poemas (D'aquest viure insistent, 1986).

A canção com que se abre o verso que dá nome a este capítulo, "A L'Any Quaranta", leva como título "Quan Jo Vaix Nàixer". Nela o autor situa o marco político da época na qual vem a um mundo em convulsão. A Guerra Civil tinha terminado há apenas vinte meses; Franco assina a tristemente célebre última parte no dia 1 de Abril de 1939, e Raimon nasce a 2 de Dezembro de 1940. Naquele comunicado, o generalíssimo - superlativo gramaticalmente impossível, ao ser aplicado a um substantivo e não a um adjectivo - assegurava que "as trorpas nacionais alcançaram os seus últimos objectivos", mas era mentira: ainda lhes faltava derramar muito sangue. Precisamente, Raimon começa a canção com o mais cru da ditadura, o preço de vidas. Depois do verso mencionado, canta: "Encara no havien mort tots" ("Ainda não tinham morrido todos").

Falemos de números, quantifiquemos o "todos". Em 1940, só na Catalunha vão ser literalmente assassinadas - o historiador Antoni Segura usa este termo - 763 pessoas; em 1939 tinham sofrido da mesma sorte 2077 pessoas. Borja de Riquer anota, pera juntar a estes dados mórbidos, 41000 mortes em combate, 5500 por bombardeamentos e 9000 por causa da repressão. As fossas comuns descobertas no ano 2004 evidenciam que muitos "desaparecidos" eram, na verdade, mortos anónimos. Em 15 de Outubro do ano de 1940, em suma, um mês e meio antes que nascesse Raimon, era fuzilado no castelo de Montjuïc Lluís Companys, presidente da Generalitat de Catalunya.

Mas a canção de Raimon não fala só de mortos pelas armas, fala também da fome que vai coadjuvar àquele extermínio: entre 15000 e 20000 vítimas, segundo o mesmo Riquer. E Raimon menciona igualmente o preço do exílio e da prisão. Aqui situamo-nos entre os 60000 e os 70000 exilados catalães, e um total de 440000 espanhóis que vão atravessar a fronteira, fugindo aos vencedores. Fazendo uma estimativa, Segura dá um número de 220000 presos em todo o Estado, naquele ano quarenta. Vai ser necessário transformar praças de touros e equipamentos públicos de pouco estatuto social como agora hospícios para alojar tantos reclusos e reclusas. E os aliados nazis vão construir e gerir para Franco os primeiros campos de concentração, que com a II Guerra Mundial se tornariam macabras fábricas de morte em série.

"A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer", o franquismo vai aprovar uma lei explícita contra a maçonaroa e o comunismo, em 1936 já tinha proibido os partidos políticos e as organizações sindicais, e em 1939 sancionou a lei de responsabilidades políticas retroactivas, coisa insólita em Direito segundo a qual incorriam em ilegalidade os que haviam respeitado a legalidade democrática. Diversas barbaridades legislativas posteriores vão culminar com a Lei da repressão do terrorismo, assinada para comemorar o oitavo "ano da vitória" - já que todas as cartas deveriam levar esta frase no fim - no primeiro de Abril de 1947. Este documento antijurídico considerava terrorismo qualquer oposição ao regime, o qual facilitava muito a criminalização dos acusados e dava-lhes, em suma, as mínimas condições de defesa, a começar pelo tempo e a acabar pelo direito dos detidos, substancialmente o habeas corpus... A tortura era natural e o terror que Hitler defendeu na peça oratória de Nuremberga como principal tarefa da política era precisamente a acusação de que quem o praticava era contra os seus adversários. Terroristas.

É tempo de reproduzir o texto sincero de "Quan Jo Vaig Nàixer".
[Esta primeira canção, já na caixa de música, foi gravada em Paris, no Olympia, a 3 de Março de 1974, e está incluída na décimo disco da Integral 2000]


A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer, /
No ano quarenta, quando eu nasci
encara no havien mort tots.
/
Ainda não tinham morrido todos.
Molts es varen quedar, havien guanyat, diuen.
/
Muitos ficaram, tinham ganho, dizem.
Molts es varen quedar, havien perdut, diuen.
/
Muitos ficaram, tinham perdido, dizem.
d'altres conegueren l'exili i els seus camins.
/
Outros conheceram o exílio e os seus caminhos.
A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer,
/
No ano quarenta, quando eu nasci,
jo crec que tots, tots, havíem perdut...
/
Penso que todos, todos, tinham perdido...

Jo no he vist aquelles morts de ràbia, /
Eu não vi aquelas mortes de raiva,
jo no he vist aquelles morts de fam,
/
Eu não vi aquelas mortes de fome,
jo no he vist aquelles morts al front,
/
Eu não vi aquelas mortes na frente,
jo no he vist aquelles morts a les presons.
/
Eu não vi aquelas mortes nas prisões,
No, jo no ho he vist i tot m'ho han contat,
/
Não, eu não o vi e tudo mo contaram,
i encara avui al meu poble ho conten,
/
E ainda hoje na minha terra o contam,
i encara avui la gent que ho ha vist amb por, ho conta.
/
E ainda hoje a gente que o viu com medo o conta.
No, jo no ho he vist ni vull veure-ho mai,
/
Não, eu não o vi nem quero vê-lo nunca,
ni a l'any setanta, ni a l'any quaranta,
/
nem no ano setenta, nem no ano quarenta,
ni a cap any dels anys.
/
Nem em nenhum ano.


A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer, /
No ano quarenta, quando eu nasci,
jo crec que tots, tots havíem perdut, /
Penso que todos, todos, tinham perdido
a l'any quaranta. /
No ano quarenta.


O triste mapa da voracidade da ditadura fica bem desenhado na canção, completada precisamente com uma referência ao medo gerado pelo poderoso aparelho de terror. Raimon glosa o medo que a gente tinha só de falar, e esta descrição psicológica, pouco ou muito, vai manter-se até ao fim de Franco, que ainda vai assinar cinco sentenças de morte três meses antes de morrer. Raimon vai debruçar-se sobre o medo e este medo vai tornar-se num dos motivos que mais vai desenvolver ao longo da sua obra.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

La Construcció d'un Cant


Este é o livro que nos vai ocupar nos próximos meses ou - quem sabe? - anos. Porquê? Porque Raimon, como irão poder perceber, é fundamental para a cultura. Porque o admiro muito. Porque as suas canções fazem tanto sentido que chegam a arrepiar.
Porque... porque sim.

Vamos traduzir o livro de cuja capa vemos aqui em cima, editado em 2005, pela Editora La Magrana. Venha connosco quem quiser.

Não estamos cá para retirar o mérito (essa palavra desvirtuada pelo capitalismo) ao autor da biografia, o grande jornalista, perito em questões de Euskadi, Antoni Batista. Se os direitos de autor são contra o conhecimento, então que se lixem os direitos de autor e de propriedade.

O que tem valor DEVE ser partilhado, não pode ser propriedade de uns quantos. E esse instrumento criado inicialmente para fins militares que nos permite comunicar para grupos massivos (daí o nome, WEB, no original em inglês, que quer dizer literalmente TEIA, que nos enreda) tem é de ser usado para fomentar o contrário da confusão, da desmemória e da manipulação. A poesia e a cultura são armas para lutar contra a opressão e o pensamento único.

Foi sempre contrária aos propósitos deste blogue, que se pretende de participação e de defesa dos valores democráticos, a mais que batida ladainha do "maria vai com as outras". Queremos um espaço que não se some aos que gritam na multidão. Com tranquilidade, como diz que diz o outro.

Claro que a tradução não vai ser integral. Por questões de espaço e da minha incapacidade para compreender perfeitamente o Catalão, língua menosprezada, latina, em que se encontra a edição de que orgulhosamente disponho. À medida que as canções forem sendo mencionadas, ao longo das 214 páginas da obra, aparecerão na caixinha que temos para vos dar música.
Vamos tentar abster-nos de comentários à parte, não incluídos no livro, mas poderão surgir alguns. E erros de tradução também vão ser muitos, com certeza. Chamem-me à atenção para eles., por favor. Que também não gosto de decalcamento do Inglês (e grassa muito por aí, nas nossas expressões quotidianas...).


É como se este blogue agora passasse a chamar Raimon ponto blog.
Com força, sem medo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Jornada

Fernando Lopes-Graça - Canções Heróicas / Canções Regionais Portuguesas


Não fiques pra trás ó companheiro
É de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro
Segue os nossos corações na treva.

Vozes ao alto
Vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao som desta canção.

Aqueles que se percam no caminho,
Que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
E até mortos vão ao nosso lado.


Vozes ao alto
Vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao som desta canção.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Coro dos Caídos

José Afonso - Cantares de José Afonso
Ep Cantares de José Afonso, Columbia - 1964

Voltamos à música só. Sem imagem. Claro, com a letra.
E que regresso melhor que com uma das mais violentas canções jamais escritas em Português?
O seu autor? A referência da música popular portuguesa, José Afonso.
Chama-se Coro dos Caídos e não é preciso dizer mais nada.
Urge a reedição desta canção, com melhor qualidade sonora.
Há 43 anos era assim. E agora?



Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia

Cantai cantai melancolias serenas
Como trigo da moda nas verbenas
Canta cantai guisos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó Parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Piedra y Camino



Tão esquecida anda esta cantora. Quem anda cá há mais tempo não devia levar vantagem na memória colectiva? Sim, claro. Mas não quando a memória colectiva é instituída pela superficialidade e pela fugacidade.

Paremos então. Nos tempos que correm, parar é resistir.

Tema do grande e ainda mais esquecido (porque já nos deixou, fisicamente) Atahualpa Yupanqui, nascido Héctor Roberto Chavero Aramburu, no dia 22 de Janeiro de 1908, em Pergamino, Buenos Aires.

Del cerro vengo bajando
Camino y piedra
Traigo enredada en el alma, viday
Una tristeza.

Me acusas de no quererte
No digas eso
Tal vez no comprendas nunca, viday
Porque me alejo.

Es mi destino
Piedra y camino
De un sueño lejano y bello, viday
Soy peregrino.

Por más que la dicha busco,
Vivo penando
Y cuando debo quedarme, viday
Me voy andando.

A veces soy como el río
Llego cantando
Y sin que nadie lo sepa, viday
Me voy llorando.

Es mi destino,
Piedra y camino
De un sueño lejano y bello, viday
Soy peregrino.

domingo, 25 de novembro de 2007

The Iron Lady





Em países que prezam a democracia, como o nosso vai tentando, há coisas assim. Não sei quanto falta para lá chegarmos. Mas se calhar nem é necessária.
A cadeira.



Have you seen the iron lady's charms
Legs of steel, leather on her arms
Taking on a man to die
A life for a life, an eye for an eye
And death's the iron lady in the chair

Stop the murder, deter the crimes away
Only killing shows that killing doesn't pay
Yes that's the kind of law it takes
Even though we make mistakes
And sometimes send the wrong man to the chair

In the death row waiting for their turn
No time to change, not a chance to learn
Waiting for someone to call
Say it's over after all
They won't have to face the justice of the chair

Just before they serve him one last meal
Shave his head, they ask him how he feels
Then the warden comes to say goodbye
Reporters come to watch him die
Watch him as he's strapped into the chair

And the chaplain, he reads the final prayer
Be brave my son, the Lord is waiting there
Oh murder is so wrong you see
Both the Bible and the courts agree
That the state's allowed to murder in the chair

In the courtroom, watch the balance of the scales
If the price is right, there's time for more appeals
The strings are pulled, the switch is stayed
The finest lawyers fees are paid
And a rich man never died upon the chair

Have you seen the iron lady's charms
Legs of steel, leather on her arms
Taking on a man to die
A life for a life, an eye for an eye
That's the iron lady in the chair

sábado, 10 de novembro de 2007

My Country 'Tis of Thy People You're Dying



Como era possível expor tanta violência contra a supremacia branca para tantas pessoas? Sim, era na televisão. Pública. Hoje isso é possível?
Buffy Sainte-Marie foi uma das cantoras de folk mais importantes surgidas na década de sessenta. Contudo, hoje é completamente desconhecida.
Aquela voz, trémula e amargurada, é inconfundível e faz sofrer. Hoje em dia, ouvir uma coisa assim, ar fresco que dói ao inspirar, dá arrepios.
O programa era de Pete Seeger (que um dia aparecerá também por cá) e nele ele falava com amigos que convidava para cantar a América marginalizada, a que não dá lucro e a que impede o lucro.
A letra é duríssima. Por isso tinha de ser longa. Não está traduzida. Mas se houver um amigo que não perceba a língua que nos domina os pensamentos e o quotidiano, penso que não ficará indiferente a esta voz e àquilo que ela comporta consigo.


Now that your big eyes have finally opened
Now that you're wondering how must they feel
Meaning them that you've chased across America's movie screens
Now that you're wondering how can it be real
That the ones you've called colorful, noble and proud
In your school propaganda
They starve in their splendor
You've asked for my comment I simply will render

My country 'tis of thy people you're dying

Now that the longhouses breathe superstition
You force us to send our toddlers away
To your schools where they're taught to despise their traditions
You forbid them their languages, then further say
That American history really began
When Columbus set sail out of Europe, then stress
That the nation of leeches that conquered this land
Are the biggest and bravest and boldest and best
And yet where in your history books is the tale
Of the genocide basic to this country's birth
Of the preachers who lied, how the Bill of Rights failed
How a nation of patriots returned to their earth
And where will it tell of the Liberty Bell
As it rang with a thud Over Kinzua mud
And of brave Uncle Sam in Alaska this year


My country 'tis of thy people you're dying

Hear how the bargain was made for the West
With her shivering children in zero degrees
Blankets for your land, so the treaties attest
Oh well, blankets for land is a bargain indeed
And the blankets were those Uncle Sam had collected
From smallpox-diseased dying soldiers that day
And the tribes were wiped out and the history books censored
A hundred years of your statesmen have felt it's better this way
And yet a few of the conquered have somehow survived
Their blood runs the redder though genes have paled
From the Gran Canyon's caverns to craven sad hills
The wounded, the losers, the robbed sing their tale
From Los Angeles County to upstate New York
The white nation fattens while others grow lean
Oh the tricked and evicted they know what I mean

My country 'tis of thy people you're dying

The past it just crumbled, the future just threatens
Our life blood shut up in your chemical tanks
And now here you come, bill of sale in your hands

And surprise in your eyes that we're lacking in thanks
For the blessings of civilization you've brought us
The lessons you've taught us, the ruin you've wrought us
Oh see what our trust in America's brought us

My country 'tis of thy people you're dying

Now that the pride of the sires receives charity
Now that we're harmless and safe behind laws
Now that my life's to be known as your "heritage"
Now that even the graves have been robbed
Now that our own chosen way is a novelty
Hands on our hearts we salute you your victory
Choke on your blue white and scarlet hypocrisy
Pitying the blindness that you've never seen
That the eagles of war whose wings lent you glory
They were never no more than carrion crows
Pushed the wrens from their nest, stole their eggs, changed their story
The mockingbird sings it, it's all that he knows
"Ah what can I do?" say a powerless few
With a lump in your throat and a tear in your eye
Can't you see that their poverty's profiting you?

My country 'tis of thy people you're dying