terça-feira, 8 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (V)

Raimon começa a aprender a ler com uma professora, doña Nieves, uma ex-monja que dá em sua casa aquilo a que chamavam "a escola dos cagões", forma coloquial do infantário. É depois que, já a saber ler e as quatro regras, faz a primária nos claretians (que vol dir aixó?) e o bacharelato no instituto que tem o nome do pintor de Xátiva Josep de Ribera.

Fora do colégio-convento, lá onde Jesús Fernández Santos diz liricamente que a lua estaca, "extramuros la luna se detuvo", segundo [Manuel Vásquez] Montalbán uma das melhores frases da literatura espanhola, Raimon procura compulsivamente o saber. Teria que satisfazer o seu desejo de curiosidade fora de aulas e lê tudo o que lhe ia parar às mãos, que não era assim tanto - pouco mais que os romances do Oeste da série Rodeo, e Unamuno, Baroja, Azorín..., na "Colecção Austral" - por culpa da precariedade cultural daqueles "anos de penitência", nas palavras de Carlos Barral. Vai ao cinema sempre que pode e fala muito com os amigos, "parlàvem de tot, i del bé i del mal" ("falávamos de tudo, e do bem e do mal"). Que resta de tudo isso? As vastas referências presentes nas suas canções, as leituras posteriores de Camus, Sartre e Kierkegaard, e amigos que foram resistindo ao passar do tempo, Joan Joan, que os anos fizeram com que se parecesse com o Sean Connery, Josep-Lluís García, "Cote", e Josep-Ramon Torregrossa, "Torre", que vive em Madrid mas que se desloca sempre que pode para ir aos recitais de Raimon.

Sincronicamente ao contacto com os livros, começa a receber influências musicais. O País Valenciano é terra de bandas, de orquestras de metal que tanta divulgação de música têm feito. A maioria dos melhores músicos de instrumentos de sopro que dirigem as orquestras pelo Estado fora são valencianos, e explicam-no com o dito hiperbólico seguinte: um músico valenciano dá voltas à volta do piano. Que faz? Procura o buraco.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (IV)

A mudança de símbolo paisagístico, ao longo do rio Albaida, que deixa no sul todos os ermos enquanto nos arrancamos para norte "tots aquells arbs fruiters / que ja fa tants anys que no veig", mas que continuam a nutrir-se da função clorofílica nos socalcos cerebrais; "Al meu cervell que deconec", tema do ano 1986 que descreve uma vez mais a paisagem que nos ocupa, acentuando o pinheiro num último verso:

Al meu cervell que deconec /
No meu cérebro que desconheço
arrossar de mel obren portes /
arrozais de mel abrem portas
a llunes plenes juganeres, /
a luas cheias brincalhonas
que entre tarongers i llimeres /
que entre laranjeiras e limoeiros
i bresquilleres i ametllers, /
e damasqueiros e amendoeiras,
van perseguint totes les ombres /
perseguem todas as sombras
darrere els pins e els garrofers, /
por trás dos pinheiros e as alfarrobeiras,
els pins e els garrofers /
os pinheiros e as alfarrobeiras

A luz também é essência daqueles quadros. Veremos mais adiante que a luz aparece quinze vezes nas suas canções. Fala da sua luz de Xátiva no diário Les Hores Guanyades: "Neta i suau a l'hivern, esclatant i densa a l'estiu" ("Limpa e macia no Inverno, tórrida e densa no Verão"), "la llum que he estimat" ("a luz que amei"), para concluir numa citação mais geral.
Volta o recrudescer das abcissas e ordenadas espaço (Xátiva) / tempo (infância-adolescência) no tema "Al meu país la pluja", também supracitado. Uns versos a capella introduzem o tema; é como um regresso ao cancioneiro tradicional, mas feito por Raimon: "Al meu país la pluja no sap ploure: / o plou poc o plou massa; si plou poc és la sequera, / si plou massa és un desastre". Na verdade no País Valenciano sentem na pela as ciclotimias da meteorologia, a última foi por causa da barragem de Tous; apenas umas horas evitaram que Raimon a sofresse, porque estava em Xátiva a rodar um programa de televisão.



Nesta canção de pretexto meteorológico, Raimon faz-nos entrar na sua escola, assunto recorrente nos da sua geração e muito bem retratado em El florido pensil e numa boa colecção de filmes; no âmbito da canção, mas em registo humorístico, La Trinca escreveriam "El meu col-legi", muito polarizada numa obsessiva educação religiosa que Raimon também vai sofrer desde que, dos seis aos dez anos, foi à doutrina (pronunciada "dotrina", como ele lembra), e depois, mais intensamente, no colégio Cor de Maria dels claretians, vulgarmente "os padres". Ali havia missa diária e as novenas e rosários pertinentes, preparações à comunhão e confirmação, mês de Maria, primeiras quintas-feiras, e liturgias tutti quanti para fazer com que o céu escutasse as preces que o padre Claret mandava fazer, que talvez o merecesse apenas por ter de ouvir as confissões de Isabel II, de certeza escabrosas.

A escola do franquismo era uma primeira correia de transmissão do nacional-catolicismo, um entrave de pensamento do já citado Primo, puro fascismo, como se viu, e o integrismo preconciliar que punha à altura do espírito o peso do baixo ventre. Coincidiam um e outro, a Igreja e o Estado, digamos, na teoria do medo como principal motor da inactividade dos cidadãos paroquianos: medo do inferno, medo da prisão - a Inquisição, que unificava um e outro com uma solução de continuidade entre a fogueira terrena e o fogo eterno, não foi abolida senão em 1834, mas o índex de livros proibidos que tantas causas tinha levado ao obscuro tribunal duraria até 1962! Em suma, como Raimon conclui, "res no vàrem aprendre a escola" ("não aprendemos nada na escola"). E este "nada" o concretiza nas características da sua paisagem, das quais temos uma referência com um último verso dedicado à língua, outro dos temas recorrentes na temática raimoniana.



Entre la Nota i el So, 1984

[A quarta canção presente na caixa de música, Al meu país la pluja, foi incluída pela primeira vez no disco de 1984, Entre La Nota I El So. E é também essa primeira versão que trazemos aos vossos ouvidos. Haveria melhores, talvez. Mas, se se justificar, ainda por cá traremos outra. Ao vivo, obviamente.]


Al meu país la pluja

Al meu país la pluja no sap ploure: /
No meu país a chuva não sabe chover:
o plou poc o plou massa; /

Ou chove pouco ou chove demasiado;
si plou poc és la sequera, /

Se chove pouco é a seca,
si plou massa és un desastre. /

se chove demasiado é um desastre.

Qui portarà la pluja a escola? /
Quem levará a chuva à escola?
Qui li dirà com s'ha de ploure? /

Quem lhe dirá como se deve chover?
Al meu país la pluja no sap ploure. /

No meu país a chuva não sabe chover.

No anirem mai més a escola. /
Nunca mais iremos à escola.
Fora de parlar amb els de la teua edat
res no vares aprendre a escola. /

Excepto o falares com os da tua idade
nada aprendeste na escola.
Ni el nom dels arbres del teu paisatge,
ni el nom de les flors que veies,
ni el nom dels ocells del teu món,
ni la teua pròpia llengua. /

Nem o nome das árvores da tua paisagem,
nem o nome das flores que vias,
nem o nome dos pássaros do teu mundo,
nem a tua própria língua.

A escola et robaven la memòria,
feien mentida del present. /

Na escola te roubavam a memória,
faziam mentira do presente.
La vida es quedava a la porta
mentre entràvem cadàvers de pocs anys. /

A vida ficava à porta
enquanto entravam cadáveres de poucos anos.
Oblit del llamp, oblit del tro,
de la pluja i del bon temps,
oblit de món del treball i de l'estudi.
"Por el Imperio hacia dios"
des del carrer Blanc de Xàtiva. /

Esquecimento do raio, esquecimento do trovão,
da chuva e do bom tempo,
esquecimento do mundo do trabalho e do estudo.
"Pelo Império para deus"
desde a Rua Branca de Xátiva.

Qui em rescabalarà dels meus anys
de desinformació i desmemòria? /

Quem me ressarcirá dos meus anos
de desinformação e desmemória?

Al meu país la pluja no sap ploure:
o plou poc o plou massa;
si plou poc és la sequera,
si plou massa és un desastre.
Qui portarà la pluja a escola?
Qui li dirà com s'ha de ploure?
Al meu país la pluja no sap ploure.


É esta canção, em suma, a parte recitativa, a reflexão que tinha anunciado em Les Hores Guanyades:

Na escola que tivemos, universidade incluída, não nos ensinaram a ler nem a ouvir. Ensinaram-nos a reconhecer as letras que formam as palavras e pouco mais. Não nos ensinaram a reconhecer os sons e os silêncios que formam a música. E foi de tal maneira assim que tenho a sensação de passar a vida a aprender a ler e a escutar. E não falemos de olhar nem do olfacto: nestes campos o "analfabetismo" é total.

A interiorização do medo, em parte alimentado na escola, vivida numa família de republicanos perseguidos, é também uma das temáticas de Raimon, e disso temos sinais nos primeiros movimentos da sua vida. O pai entra e sai da prisão, o menino Raimon passa a rotina de ir vê-lo, a mãe chega a ser ameaçada de que lhe rapariam o cabelo, como penalização e escárnio públicos...

domingo, 6 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (III)

A rua Branca é a entrada da cidade com o monte onde se encontra o castelo. Da Rua Branca para cima vai o pequeno "Pele", mais que para baixo, para o centro e a a sua avenida principal, o choupal, alameda, que às tardes levava com grandes quantidades de folhas secas que faziam as delícias das crianças, que nelas esfregavam os pés. Da Rua Branca ao castelo havia muitas esquinas para encontrar fantasias e pôr em prática a mais divertida das possibilidades de ser puto: atirar pedras.


A Rua Branca é o down town da paisagem sentimental da infância de Raimon, também muito presente na sua obra. A alma da casa é a mãe, uma matriarca obrigada pelas circunstâncias de uma viuvez muito precoce. Depois, os irmãos e amigos que com ela compartem a espera do regresso, como a canção o lembra, "germans i amics / que em volen / i esperen, com ma mare, / que jo torne com abans"... Raimon é o mais novo dos cinco irmãos. O mais velho chamava-se Pepe, mas todos, e até o próprio Raimon, lhe chamava "bigode"; Pepe morreria no fim dos anos noventa. O segundo era Antoni, Toniet, mas Raimon não chegou a conhecer por culpa de uma morte prematura. Seguiam-se-lhes Rafael e Enric.

Duro para Raimon seria, em 1987, mudar a conjugação do presente para o passado a um outro dos temas que fazem de Dolors Sanchis motivo de canção: "Ma mare ho guarda tot", "Ma mare ho guardava tot", verso de "Molt Lluny". Dolors Sanchis morreria muito idosa, com noventa e três anos, depois de um tempo com problemas de ossos e mobilidade, facto que para uma pessoa muito activa era sempre razão de angústia, mas que suportaria com paciência. Raimon fazia tudo o que podia, com o seu bom humor, para a ajudar, ligava-lhe, ia vê-la... "Molt Lluny" é uma canção que faz referência precisamente à data de que estamos a falar. Raimon encontra, nesta canção, "les nits que ens passàven / caminant, amics, / pels carrers de Xàtiva".

Umas pinceladas de Joan Fuster descrevem aquela Xàtiva na plenitude literária da sua prosa. É um belo parágrafo do seu livro Raimon, publicado em 1964, em resultado de uma conversa durante o percurso ferroviário de Xàtiva a Barcelona, que a tracção a vapor fazia durar até sete horas:

A Rua Branca de Xàtiva é, sobretudo, os arredores: limite com o descampado, cosido, num bairro de má urbanização, rente às muralhas do castelo. As casas são de planta baixa e de um só piso, limpas, claras. A vizinhança, uma vizinhança de lavradores e artesãos, não nega ao rito valenciano - talvez árabe - da calçada, e as fachadas esbanquiçadas reverberam rudemente ao sol. Quatro passos mais adiante, estende-se a Xàtiva dos brasões floridos e dos cognomes duradouros: aqui não há senão "povoação [povo]". Hoje é "povo" calado e conformado, trabalhador e irónico. A paisagem dá uma sensação de paz rotinária, de vida vivida sem pressa: crianças que jogam à bola, pequenos trabalhadores trémulos, anciãos na xacota ou a jogar à visca, uma loja ou uma barbearia melancólicas, mulas cansadas que voltam das cargas... A casa da esquina é a dos Pelegero: pequena, vulgar, pouca coisa.

Fala também Raimon deste pequeno universo que cresce, mas na memória, quando refere "el llaurador del meu poble" ("o lavrador do meu povo") como metáfora que tem mais à mão para uma das primeiras canções de amor, "Treballaré el teu Cos", composta quando tinha apenas vinte e quatro anos e ainda não tinha decoberto o suficiente os recursos inegotáveis da retórica. A paisagem de então está também imortalizada noutros versos. "Al mur blanc dibuixada / l'ombra de la llimera. / El llebeig despentina / el pentinat dels arbres" (despenteia o penteado, aqui, vinte anos antes, já sabia muito, de retórica). A árvore mediterrânea por excelência, o pinheiro, está presente em duas canções: "el verd suau dels pins llepats de pluja" ("o verde macio dos pinheiros limpos despidos pela chuva") e "de verd de pins, / de mar lluent" ("de verde de pinheiros, / de mar reluzente"). Uma ampliação da flora em "Octubre dolç": "Bedolls, llorers, oms i faigs, castanyers" ("Bétulas, loureiros, ulmeiros e faias, castanheiros").


E a reivindicação de tudo junto materializada com "no vull oblidar que sóc de poble" ("não quero esquecer que sou do povo", acrescentada à celebérrima asserção "qui perd els orígens / perd identitat" ("que perde as origens / perde a identidade"), que amiúde passa por anónima a partir da extensão por sinédoque. É natural e lícita a extrapolação de povo a país, mas é claro que Raimon se refere a Xàtiva, já que o texto e o contexto da canção da qual forma parte este par de pentassílabos - o decassílabo de Ausiàs [March] partido pela pausa interna em dos hemistíquios! -, não são alusivos a outra realidade. Depois, quando escreve o diário Les Hores Guanyades, Raimon clarifica este sentido de pertença limitada que não é mais que a posta em prática que "nação" vem de "nascer" e "pátria" de "pai":

Passámos por Xátiva à vinda (de Alcoi), por Bixquert, Albaida, Adzaneta, Benigánim, Bellús. Nomes próprios que me trazem uma enorme carga vital. Amendoeiras, ameixoeiras, pessegueiros em flor. Paisagem de secura, e a horta à espera no vale de Xátiva. Cenário das minhas mais íntimas vivências, lembranças de todo o meu viver, da luz que amei, das cores dos meus sonhos, espaço da minha aprendizagem do mundo. Que desejo imenso de ficar parado no tempo, naquele espaço e entre a gente da que nasci e que estimo, agora, desde a grande cidade que é Barcelona! Sensação de despojamento de sentimentos perante a paisagem da minha infância. Regresso nítido do puto brincalhão e feliz que fui, amigo e apaixonado. Poder de evocação da fonética, quão macio alcance da língua! Eu não tenho uma ideia de pátria; tenho, em vez disso, sentimento de pertencer a um grupo humano concreto. E este sentimento renova-se através da linguagem, desde a música do falar quotidiano da gente que ficou onde eu nasci. A língua é o meu possível patriotismo.

"Jo Vinc d'un Silenci" é o máximo expoente da descrição do mundo interior registado no vinil analógico dos anos de infância e juventude. Desta canção saem as "classes subalternes", referência social de entrada, as praças, as ruas, cheias de "xiquets que juguen / i de vells que esperen", a animação habitual que nas vilas e nos bairros se manifesta em plenitude, as pequenas oficinas, o campo, a divisão "on comença l'horta / i acaba el secà", que se visualiza nitidamente desde o cimo do castelo de Xátiva.


El Recital de Madrid, 1976

[Jo Vinc d'un Silenci foi primeiramente registada no disco "El Recital de Madrid", no dia 5 de Fevereiro de 1976, e é essa mesma a terceira canção que disponibilizámos na caixa de música]

Jo Vinc d'un Silenci


Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
antic i molt llarg /
antigo e muito longo
de gent que va alçant-se /
de gente que se vai levantando
des del fons dels segles
desde o fundo dos séculos
de gent que anomenen /
de gente a que chamam
classes subalternes, /
classes inferiores,
jo vinc d'un silenci /
eu venho de um silêncio
antic i molt llarg. /
antigo e muito longo.

Jo vinc de les places /
Eu venho das praças
i dels carrers plens /
e das ruas cheias
de xiquets que juguen /
de crianças que brincam
i de vells que esperen, /
e de velhos que esperam,
mentre homes i dones /
enquanto homens e mulheres
estan treballant /
estão a trabalhar
als petits tallers, /
nas pequenas fábricas,
a casa o al camp. /
em casa ou no campo.

Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
que no és resignat, /
que não é resignado
d'on comença l'horta /
de onde começa a horta
i acaba el secà, /
e acaba a secura
d'esforç i blasfèmia /
de esforço e blasfémia
perquè tot va mal: /
por que tudo vai mal:
qui perd els orígens /
quem perde as origens
perd identitat. /
perde a identidade.

Jo vinc d'un silenci /
Eu venho de um silêncio
antic i molt llarg /
antigo e muito longo
de gent sense místics /
de gente sem místicos
ni grans capitans, /
nem grandes capitães
que viuen i moren /
que vivem e morrem
en l'anonimat, /
no anonimato
que en frases solemnes
no han cregut mai. /
que nunca acreditaram
em frases solenes.

Jo vinc d'una lluita
que és sorda i constant, /
Eu venho de uma luta
que é surda e constante

jo vinc d'un silenci
que romprà la gent
eu venho de um silêncio
que a gente romperá

que ara vol ser lliure
i estima la vida, /
que agora quer ser livre
e ama a vida,

que exigeix les coses
que li han negat. /
que exige as coisas
que lhes foram negadas.

Jo vinc d'un silenci
antic i molt llarg,
jo vinc d'un silenci
que no és resignat,
jo vinc d'un silenci
que la gent romprà,
jo vinc d'una lluita
que és sorda i constant.

sábado, 5 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (II)

Raimon vai ter de suportar a ideologia e a simbologia falangistas próprias da época. Mas, com o seu característico sentido de humor, achava piada. Quando cantava o hino da Falange Espanhola, “Cara al sol”, com o braço erguido comum do fascismo, Raimon picava o mestre que tinha à frente. Para responder às ejaculatórias políticas como mandavam as ordens, “España: una. España: grande. España: libre”, ele opunha: “España: una. España: dos. España: tres.” Não sabia bem porque é que o fazia, eram piadas habituais entre as crianças, que pouco tinham a ver com o contexto político. No entanto, estas piadas começavam a custar-lhe castigos.

Por causa de Primo, Raimon desencanta este contraste dilacerante: “Por el império hacia Dios, des del carrer Blanc de Xàtiva”, exclamação da canção “Al meu país la pluja”. Uma rua que leva o nome do calcário das fachadas, que Raimon evoca noutras duas canções: a "Cançó de la mare", de onde se extraiu o verso com que se intitula este capítulo: "He deixat ma mare / sola / a Xàtiva al carrer Blanc"; e em "L’única seguretat" diz: "Content tornaria a ser / el xiquet que va jugant, / absent, pel mig del carrer, / daquell meu carrer d’abans. / Carrer on jugàven tots, / els més petits i els més grans, / carrer de terra i de pols / que així era el carrer Blanc".


Raimon a l'Olympia - 1966


[A segunda canção foi primeiramente incluída neste disco ao vivo, gravado em 7 de Junho de 1966 e é essa que está disponível para ouvirmos na caixa de música, com a emoção sentida pelo público.]

Cançó de la Mare (o He Deixat ma Mare)

He deixat ma mare
sola
a Xàtiva al carrer Blanc. /
Deixei a minha mãe
Sozinha
Em Xátiva, na Rua Branca.


Ma mare que sempre
espera
que torne com abans. /
A minha mãe que sempre
espera
que eu volte como antes.


He deixat germans i amics
que em volen
i esperen, com ma mare,
que jo torne com abans. /
Deixei irmãos e amigos
Que me querem
e esperam, como a minha mãe,
que eu volte como antes.


He vingut ací
perquè crec que puc dir-vos,
en la meua maltractada llengua,
paraules i fets
que encara ens agermanen. /
Vim aqui
Porque creio que posso dizer-vos,
Na minha língua mal tratada,
Palavras e feitos
que ainda nos irmanam.


Paraules i fets
que encara ens fan sentir
homes entre els homes. /
Palavras e feitos
que ainda nos fazem sentir
Homens entre os homens.

Paraules i fets
que encara ens agermanen
en la lluita contra la por,
en la lluita contra la sang,
en la lluita contra el dolor,
en la lluita contra la fam. /
Palavras e feitos
que ainda nos irmanam
na luta contra o medo,
na luta contra o sangue,
na luta contra a dor,
na luta contra a fome.


En la sempre necessària lluita
contra el que ens separa
i ens fa sentir-nos
a tots nosaltres estranys. /
Na luta sempre necessária
contra o que nos separa
e nos faz sentir
a todos nós estranhos.

He deixat ma mare
i els meus germans. /
Deixei a minha mãe
e os meus irmãos.


He deixat els amics i la casa
i tots els que esperen
que jo torne com abans. /
Deixei os amigos e a casa
e todos os que esperam
que eu volte como antes.


I crec que he fet bé.
I crec que he fet bé. /
E penso que fiz bem.
E penso que fiz bem.


Jo sé, jo sé, jo sé, jo sé
que tornaré al carrer Blanc. /
Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei
que voltarei à Rua Branca.


Però ara ací,
Però ara ací,
crec que també és ma casa,
i crec que puc dir-vos,
amb el cor obert,
a tots vosaltes: germans. /
Mas agora aqui,
mas agora aqui,
penso que também é a minha casa,
e penso que posso dizer-vos,
de coração aberto,
a todos vós: irmãos.

Germans.
Irmãos.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

II - A Xàtiva, al Carrer Blanc (I)

O dia 2 de Dezembro de 1940 era uma segunda-feira, e segundo a Hoja Oficial de Valência - diário único aquele dia, já que não saíam jornais para que os jornalistas pudessem fazer festa aos domingos -, aconteciam todas as seguintes coisas: Southampton ardia aos bombardeamentos da Luftwaffe; Cárdenas cessava as suas funções de presidente do México; começava a campanha natalícia de doar roupa aos pobres; o Valência empatava com o Múrcia, que estava em último, em Mestalla, e o Barça metia três golos ao Madrid num dia em que uma grade soçobrou pelo excesso de gente; na Igreja Arxiprestal de Sagunt começavam rosários solenes em honra da Puríssima, “en sufragio de los caídos de la población”, e estava repleta, porque o termómetro tinha descido até aos seis graus; a programação apregoava a estreia de Eloisa está debajo de un almendro, de Jardiel Poncela; no Teatro Principal, última representação de Lo Increíble, de Benavente; no cinema Olympia rodavam, naturalmente com muito êxito, Sin novedad en el Alcázar, evocando a gesta do “herói” nacional Moscardó em Toledo; no Gran Teatro, um anúncio que metia medo: um soldado com a cruz gamada num braço e numa bandeira convocava a um longo documentário, desde as três da tarde até às zero horas, intitulada Camisas marrones. El despertar de una nación. Película basada en el Movimiento Nacional-Socialista alemá, fiel reflejo del nuestro.


Raimon vem ao mundo naquele dia, “a Xàtiva, al carrer Blanc”, número 9, como no-lo diz na “Cançó de la mare”, Dolors Sanchis Climent, que então tinha quarenta e sete anos, e que vai ser uma pessoa muito importante na vida de Raimon pela sua tarefa e rigidez e também pelo infortúnio da morte prematura do pai, Josep Pelegero Franco, quando Raimon, o seu quinto filho, tinha acabado de fazer vinte anos. Josep era carpinteiro, como o seu patrão, e Raimon lembra-se da rectidão do pai com as artes que eram ideais para julgar, sobretudo a plaina e a perigosa serra, o valor de uso e o valor de troca - terminologia marxista que lhe vai servir muito bem para perpetuar “Societat de consum” - da madeira de sobreiro, que costumava acabar no fogo, à volta do qual a família se reunia a cada fim de tarde. O hábito do calor, juntamente com a hipocondria de que sofrem todos os que cantam e, portanto, fazem do seu corpo o seu instrumento musical, vão fazer com que Raimon gastasse os primeiros dinheiros a pôr aquecimento no piso que comprou em Barcelona.


Josep Pelegero vai ser importante durante o pouco tempo que Raimon vai poder viver com ele. Era um homem terno que lhe explicava contas, que vivia o anarcossindicalismo sem se sentir escravo do dinheiro e "visitando" a prisão ciclicamente. Josep Pelegero morre quando Raimon tem, portanto vinte anos, "que no són rés, diuen els savis" ("que não são nada, dizem os sábios"), o pouco tempo que vai durar o Ramon de nome de baptismo que lhe puseram e pelo qual apenas vai ser usado pelos familiares mais próximos, já que o apocorístico "Pele" se vai impor. Ninguém, contudo, o pronunciará com a fonética adequada, até Annalisa, sua esposa, o adoptar, abrindo o e à italiana - va bène -, uma vez que Annalisa é de Òstia, o velho porto que começou a estender Roma a todo o mundo conhecido. Disto, os eclesiásticos vão permitir-se, depois, o jogo de palavras urbi et orbi, a cidade e o mundo.

Pelegero deve pronunciar-se não à Castelhana, "com um g como se tratasse de puxar especturação", como dizia Joan Fuster, mas através do Latim de onde derivaram as línguas românticas: Pellecciero - Pellegiero - Pèléchéro; de facto, a fonética do Valenciano preserva o g oralmente como o x do Catalão do Principado (Andorra), o tx do Euskera e o ch do Castelhano. Isto explica-se simplesmente porque Pelegero é gentílico de ADN latino transmutado em Italiano; é gero, o que traz ou transporta, pele, pele; uma origem gremial tipicamente da Idade Média, precisamente a etapa em que Xàtiva tinha muitas relações com Itália. Tal como Sanchis, também frequentes vezes mal pronunciado, leva um acento prosódico na a, o Pelegero vai surgir nos vasos comunicantes entre Xàtiva e Roma, de certeza bem perto da extradordinária invasão dos Bórgia.

Os Bórgia de Xàtiva vão tornar-se nos Bórgia italianos precisamente por motivos de manter a fonética valenciana escrita em Italiano, e vão ser, sem dúvida, a família mais influente do Renascimento. Dois papas, Calixto III, entre 1455 e 1458, Alexandre VI, de 1492 a 1503, a mais famosa das cortesas, Lucrécia, e o político César, inspirador da bíblia de qualquer político que queria fazer carreira, O Príncipe, do grande Maquiavel. Xàtiva, berço daqueles inteligentes canalhas que na intimidade falavam Catalão, vai organizar uma extensa exposição, em 1995, explicando quem eram os Bórgia, que vai servir, entre outras coisas, para que Raimon exumasse o historiador que leva dentro contando-o com muita propriedade aos seus amigos. Manuel Vázquez Montalban ficou tão impressionado que escreveu um romance histórico - apenas há um outro na sua larga obra, Gallíndez - com um título que evocava Baroja: Ou César ou Nada.

O fundador da dinastia foi Calixto III, o clérigo que herdou um bocadinho a cisma do papa Luna, que o vai congregar grande prestígio em Roma, que vai acabar por levá-lo ao papado. Vai ser papa durante muito poucos anos, mas tempo suficiente para pôr lá toda a família. Alexandre VI é o mais famoso, porque tem mais lendas negras em cima, mas, a par disso, porque lhe vai caber a divisão do Novo Mundo e se hoje existe Brasil é graças a ele. Tinha muita má fama, isso de "la Santa Sede in mano dei catalani", mas isso por causa dos italianos pensarem que tudo era deles e que os forasteiros iam apropriar-se do território. Havia um forte jogo de interesses na península Itálica, com o papado como um Estado poderoso, com o fim das cidades-Estado, com a república de Veneza em baixo, a ascensão da Toscánia... Era um mundo em plena efervescência, com guerras e mais guerras.

Raimon sabe outras histórias sobre Xàtiva, sabe-as todas. A do outro italiano, o pintor Ribera, seguidor de Caravaggio; a dos árabes que aí vão instalar uma fábrica de papel pioneira; a das embrulhadas dinásticas que vão acabar com o conde de Urgell, e com ele a casta catalã nobre mais antiga, enterrado vivo nos calabouços do castelo; a dos Germanos protossocialistas; a dos resistentes contra Filipe V, que represaliou a cidade com fogo e, como consequência deste triste episódio, o humor negro popular qualifica os xativencs com a fama de "socarrats", um termo muito valenciano que faz menção também ao prestigiado arroz que se cola à paelha. Paelhas, para Raimon, as melhores eram as da sua mãe; depois as da Casa de la Abuela, uma casa de toda a vida que continua a ser paragem inevitável quando vai a Xàtiva.

Quando Raimon nasce, Xàtiva era uma cidade de 18000 habitantes e uma das quatro monumentais do País Valenciano, juntament com Valência, Morella e Oriola. A rua Branca ["el carrer Blanc"] era, no entanto, uma coisa bem diferente: um lugar modesto, que contrastava com a grandiloquência usada às ordens inspiradas de José Antonio Primo de Rivera, que Raimon sempre cita centrando-se na segunda metade do cognome composto, sobrando-lhe um curioso José Antonio Primo, que em Castelhano quer dizer, para além do grau, "pessoa incauta que se deixa enganar facilmente", segundo o quinto significado do dicionário da Real Academia Española.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

I - A l'Any Quaranta, Quan Jo Vaig Nàixer (II)

Franco vende paz, ao acabar a guerra, e eleva-a à categoria da mais premiada dos ganhos graças à guerra que ele tinha despoletado. Raimon encontra no medo o melhor epíteto daquela paz fictícia: "De vegades la pau, no és més que por" ("Às vezes a paz não é senão medo"). Este verso, primeiro da canção "Sobre la pau", completa a ideia enunciada em "Quan jo Vaig Nàixer", e quando diz "por dels homes que no volem la nit" ("medo dos homens que não queremos a noite") junta o ritornello explanado na canção "La nit", metáfora da ditadura. Desenvolve igualmente a paisagem depois da batalha de "Quan jo Vaig Nàixer", "Sobre la pau", o verso que a descreve [à paz] como "un buit immens on moren els homes" ("um vazio imenso onde os homens morrem")... "Encara no havien mort tots".

Raimon nasce, portanto, num país despedaçado, mas também num universo em estado crítico. A guerra civil espanhola é apenas um ensaio para a deflagração mundial que começa quando aquela acaba. Franco acaba de ocupar Espanha em Abril e Hitler ocupa a Polónia em Setembro.

Raimon detesta a violência, também o deixa bem claro nos seus textos, a começar pelo grito que consigna "no creguem en les pistoles", de "D'un temps, d'un país", frase que responde a um dos ideólogos de todo aquele desastre, José Antonio Primo de Rivera, fundador da Falange Española, partido único do franquismo copiado do fascismo italiano que tanto admirava. Primo de Rivera, filho de ditador, confesso devoto de Mussolini, a quem dedica páginas e páginas de elogios, defendia sem escrúpulos a "dialéctica dos punhos e das pistolas". Raimon incide de novo no tema quando canta "no volen arguments, usen la força", em "T'adones, amic"; e, por fim, com um breve comentário que faz no macroconcerto de homenagem a Miguel Ángel Blanco, assassinado pela ETA no ano de 1997.

Em Xàtiva, como em todo o lado, tocou a todos receber o contencioso civil: quem tem mais ou menos familiares mortos por uns ou por outros, presos, exilados ou desparecidos. O próprio pai de Raimon, membro da CNT durante a República e de família anarcossindicalista, vai passar diversas vezes pelo calabouço durante o pós-guerra. A mãe nasceu em 1894 no seio de uma família socialista. O avô materno de Raimon tinha tomado parte na fundação local da UGT e, segundo a tradição oral, tinha alojado em sua casa o próprio Pablo Iglesias, mas não se comentava nada porque o franquismo podia sancionar com represálias retroactivas. Apesar de todas as cautelas, era inevitável que em casa de Raimon se falasse da guerra, a partir da visão de uma esquerda dividida que repartia as culpas de a ter perdido. "Divided we Stand", divididos nos mantemos, é um título de uma revista norte-americana que Raimon guardou para explicar aquela situação.

Na canção "Quan jo Vaig Nàixer", Raimon evoca, portanto, a sua vinda ao mundo, traçando a situação global, que é, por outro lado, a maneira mais generalizada da sua abordagem poética. Raimon destrinça o contexto de um ano de números redondos para explicar uma época, e não a data pequena e o topónimo que assinalam o seu nascimento.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

I - A l'Any Quaranta, Quan Jo Vaig Nàixer (I)

"O melhor e mais importante cantautor catalã de todos os tempos." Com esta contundência define Raimon Jordi Garcia Soler, máximo estudioso da Canção Catalã, que arranca na segunda metade do século XX e que inicialmente vai ser conhecida como a Nova Cançó, marca que dá título ao livro que contém a citação. Mas Raimon é muito mais que um valor local; o seu nome encontra-se ao lado dos grandes renovadores da música popular, que se faz desde esta época em diante. Mais de quarenta anos no activo, uma obra de diferentes etapas e a cumplicidade de um público de diferentes lugares e diversas idades: desde os maiores aos mais jovens. Uma variedade estimulante.

A Gran Enciclopèdia de la Mùsica diz de Raimon:

Raimon. Xàtiva, 1940. Nome pelo qual é conhecido o cantor valenciano Ramon Pelegero i Sanchis. Descoberto pelos Setze Jutges quando era um jovem estudante de História, apresenta-se em Barcelona em 1962 e obtém um êxito imediato com canções como "Al Vent", que surpreendem pelo uso do grito e pelo existencialismo rebelde que jorra dos textos. Em 1963 ganha o Festival de la Cançó Mediterrània de Barcelona - juntamente com Salomé - com o tema de J.M. Andreu e L. Borrrel "S'en va anar". Muitas das suas canções posteriores ("Diguem no"; "D'un temps, d'un país", "El País Basc") foram assumidas pela sociedade como hinos antifranquistas. De facto, os seus concertos tornaram-se amiúde cerimónias colectivas electrizantes - é preciso lembrar o seu primeiro Olympia (1966), e os recitais no Palau dels Esports de Barcelona (1975) e o Pabellón de Deportes del Real Madrid (1976). Seria injusto, contudo, reduzir Raimon a uma função resistencial: hábil musicador de Espriu ("Indesinenter", "He Mirat Aquesta Terra", "Cançons de la Roda del Temps") e de poetas dos séculos XV e XVI como Ausiàs March, Roís de Corella ou Joan Timoneda, escreveu também canções de um grande lirismo e qualidade poética ("Com un Puny", "Als Matins a la Ciutat", "Al Meu País la Pluja"). Tudo isto faz com que Raimon supere a crise subsequente à Transição e seja considerado no fim do século comum clássico no activo, mantendo o seu poder de convocatória. A sua discografia, com álbuns como Per destruir aquell qui l'a desert (1970), A Víctor Jara (1974), Quan l'aigua es queixa (1979) ou Cançons de mai (1997) encontra-se reunida numa caixa de dez cedês chamada Nova Integral. Edició 2000. Raimon é, também autor de um diário (Les hores guanyades, 1983) e de um livro de poemas (D'aquest viure insistent, 1986).

A canção com que se abre o verso que dá nome a este capítulo, "A L'Any Quaranta", leva como título "Quan Jo Vaix Nàixer". Nela o autor situa o marco político da época na qual vem a um mundo em convulsão. A Guerra Civil tinha terminado há apenas vinte meses; Franco assina a tristemente célebre última parte no dia 1 de Abril de 1939, e Raimon nasce a 2 de Dezembro de 1940. Naquele comunicado, o generalíssimo - superlativo gramaticalmente impossível, ao ser aplicado a um substantivo e não a um adjectivo - assegurava que "as trorpas nacionais alcançaram os seus últimos objectivos", mas era mentira: ainda lhes faltava derramar muito sangue. Precisamente, Raimon começa a canção com o mais cru da ditadura, o preço de vidas. Depois do verso mencionado, canta: "Encara no havien mort tots" ("Ainda não tinham morrido todos").

Falemos de números, quantifiquemos o "todos". Em 1940, só na Catalunha vão ser literalmente assassinadas - o historiador Antoni Segura usa este termo - 763 pessoas; em 1939 tinham sofrido da mesma sorte 2077 pessoas. Borja de Riquer anota, pera juntar a estes dados mórbidos, 41000 mortes em combate, 5500 por bombardeamentos e 9000 por causa da repressão. As fossas comuns descobertas no ano 2004 evidenciam que muitos "desaparecidos" eram, na verdade, mortos anónimos. Em 15 de Outubro do ano de 1940, em suma, um mês e meio antes que nascesse Raimon, era fuzilado no castelo de Montjuïc Lluís Companys, presidente da Generalitat de Catalunya.

Mas a canção de Raimon não fala só de mortos pelas armas, fala também da fome que vai coadjuvar àquele extermínio: entre 15000 e 20000 vítimas, segundo o mesmo Riquer. E Raimon menciona igualmente o preço do exílio e da prisão. Aqui situamo-nos entre os 60000 e os 70000 exilados catalães, e um total de 440000 espanhóis que vão atravessar a fronteira, fugindo aos vencedores. Fazendo uma estimativa, Segura dá um número de 220000 presos em todo o Estado, naquele ano quarenta. Vai ser necessário transformar praças de touros e equipamentos públicos de pouco estatuto social como agora hospícios para alojar tantos reclusos e reclusas. E os aliados nazis vão construir e gerir para Franco os primeiros campos de concentração, que com a II Guerra Mundial se tornariam macabras fábricas de morte em série.

"A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer", o franquismo vai aprovar uma lei explícita contra a maçonaroa e o comunismo, em 1936 já tinha proibido os partidos políticos e as organizações sindicais, e em 1939 sancionou a lei de responsabilidades políticas retroactivas, coisa insólita em Direito segundo a qual incorriam em ilegalidade os que haviam respeitado a legalidade democrática. Diversas barbaridades legislativas posteriores vão culminar com a Lei da repressão do terrorismo, assinada para comemorar o oitavo "ano da vitória" - já que todas as cartas deveriam levar esta frase no fim - no primeiro de Abril de 1947. Este documento antijurídico considerava terrorismo qualquer oposição ao regime, o qual facilitava muito a criminalização dos acusados e dava-lhes, em suma, as mínimas condições de defesa, a começar pelo tempo e a acabar pelo direito dos detidos, substancialmente o habeas corpus... A tortura era natural e o terror que Hitler defendeu na peça oratória de Nuremberga como principal tarefa da política era precisamente a acusação de que quem o praticava era contra os seus adversários. Terroristas.

É tempo de reproduzir o texto sincero de "Quan Jo Vaig Nàixer".
[Esta primeira canção, já na caixa de música, foi gravada em Paris, no Olympia, a 3 de Março de 1974, e está incluída na décimo disco da Integral 2000]


A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer, /
No ano quarenta, quando eu nasci
encara no havien mort tots.
/
Ainda não tinham morrido todos.
Molts es varen quedar, havien guanyat, diuen.
/
Muitos ficaram, tinham ganho, dizem.
Molts es varen quedar, havien perdut, diuen.
/
Muitos ficaram, tinham perdido, dizem.
d'altres conegueren l'exili i els seus camins.
/
Outros conheceram o exílio e os seus caminhos.
A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer,
/
No ano quarenta, quando eu nasci,
jo crec que tots, tots, havíem perdut...
/
Penso que todos, todos, tinham perdido...

Jo no he vist aquelles morts de ràbia, /
Eu não vi aquelas mortes de raiva,
jo no he vist aquelles morts de fam,
/
Eu não vi aquelas mortes de fome,
jo no he vist aquelles morts al front,
/
Eu não vi aquelas mortes na frente,
jo no he vist aquelles morts a les presons.
/
Eu não vi aquelas mortes nas prisões,
No, jo no ho he vist i tot m'ho han contat,
/
Não, eu não o vi e tudo mo contaram,
i encara avui al meu poble ho conten,
/
E ainda hoje na minha terra o contam,
i encara avui la gent que ho ha vist amb por, ho conta.
/
E ainda hoje a gente que o viu com medo o conta.
No, jo no ho he vist ni vull veure-ho mai,
/
Não, eu não o vi nem quero vê-lo nunca,
ni a l'any setanta, ni a l'any quaranta,
/
nem no ano setenta, nem no ano quarenta,
ni a cap any dels anys.
/
Nem em nenhum ano.


A l'any quaranta, quan jo vaig nàixer, /
No ano quarenta, quando eu nasci,
jo crec que tots, tots havíem perdut, /
Penso que todos, todos, tinham perdido
a l'any quaranta. /
No ano quarenta.


O triste mapa da voracidade da ditadura fica bem desenhado na canção, completada precisamente com uma referência ao medo gerado pelo poderoso aparelho de terror. Raimon glosa o medo que a gente tinha só de falar, e esta descrição psicológica, pouco ou muito, vai manter-se até ao fim de Franco, que ainda vai assinar cinco sentenças de morte três meses antes de morrer. Raimon vai debruçar-se sobre o medo e este medo vai tornar-se num dos motivos que mais vai desenvolver ao longo da sua obra.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

La Construcció d'un Cant


Este é o livro que nos vai ocupar nos próximos meses ou - quem sabe? - anos. Porquê? Porque Raimon, como irão poder perceber, é fundamental para a cultura. Porque o admiro muito. Porque as suas canções fazem tanto sentido que chegam a arrepiar.
Porque... porque sim.

Vamos traduzir o livro de cuja capa vemos aqui em cima, editado em 2005, pela Editora La Magrana. Venha connosco quem quiser.

Não estamos cá para retirar o mérito (essa palavra desvirtuada pelo capitalismo) ao autor da biografia, o grande jornalista, perito em questões de Euskadi, Antoni Batista. Se os direitos de autor são contra o conhecimento, então que se lixem os direitos de autor e de propriedade.

O que tem valor DEVE ser partilhado, não pode ser propriedade de uns quantos. E esse instrumento criado inicialmente para fins militares que nos permite comunicar para grupos massivos (daí o nome, WEB, no original em inglês, que quer dizer literalmente TEIA, que nos enreda) tem é de ser usado para fomentar o contrário da confusão, da desmemória e da manipulação. A poesia e a cultura são armas para lutar contra a opressão e o pensamento único.

Foi sempre contrária aos propósitos deste blogue, que se pretende de participação e de defesa dos valores democráticos, a mais que batida ladainha do "maria vai com as outras". Queremos um espaço que não se some aos que gritam na multidão. Com tranquilidade, como diz que diz o outro.

Claro que a tradução não vai ser integral. Por questões de espaço e da minha incapacidade para compreender perfeitamente o Catalão, língua menosprezada, latina, em que se encontra a edição de que orgulhosamente disponho. À medida que as canções forem sendo mencionadas, ao longo das 214 páginas da obra, aparecerão na caixinha que temos para vos dar música.
Vamos tentar abster-nos de comentários à parte, não incluídos no livro, mas poderão surgir alguns. E erros de tradução também vão ser muitos, com certeza. Chamem-me à atenção para eles., por favor. Que também não gosto de decalcamento do Inglês (e grassa muito por aí, nas nossas expressões quotidianas...).


É como se este blogue agora passasse a chamar Raimon ponto blog.
Com força, sem medo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Jornada

Fernando Lopes-Graça - Canções Heróicas / Canções Regionais Portuguesas


Não fiques pra trás ó companheiro
É de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro
Segue os nossos corações na treva.

Vozes ao alto
Vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao som desta canção.

Aqueles que se percam no caminho,
Que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
E até mortos vão ao nosso lado.


Vozes ao alto
Vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao som desta canção.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Coro dos Caídos

José Afonso - Cantares de José Afonso
Ep Cantares de José Afonso, Columbia - 1964

Voltamos à música só. Sem imagem. Claro, com a letra.
E que regresso melhor que com uma das mais violentas canções jamais escritas em Português?
O seu autor? A referência da música popular portuguesa, José Afonso.
Chama-se Coro dos Caídos e não é preciso dizer mais nada.
Urge a reedição desta canção, com melhor qualidade sonora.
Há 43 anos era assim. E agora?



Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia

Cantai cantai melancolias serenas
Como trigo da moda nas verbenas
Canta cantai guisos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó Parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Piedra y Camino



Tão esquecida anda esta cantora. Quem anda cá há mais tempo não devia levar vantagem na memória colectiva? Sim, claro. Mas não quando a memória colectiva é instituída pela superficialidade e pela fugacidade.

Paremos então. Nos tempos que correm, parar é resistir.

Tema do grande e ainda mais esquecido (porque já nos deixou, fisicamente) Atahualpa Yupanqui, nascido Héctor Roberto Chavero Aramburu, no dia 22 de Janeiro de 1908, em Pergamino, Buenos Aires.

Del cerro vengo bajando
Camino y piedra
Traigo enredada en el alma, viday
Una tristeza.

Me acusas de no quererte
No digas eso
Tal vez no comprendas nunca, viday
Porque me alejo.

Es mi destino
Piedra y camino
De un sueño lejano y bello, viday
Soy peregrino.

Por más que la dicha busco,
Vivo penando
Y cuando debo quedarme, viday
Me voy andando.

A veces soy como el río
Llego cantando
Y sin que nadie lo sepa, viday
Me voy llorando.

Es mi destino,
Piedra y camino
De un sueño lejano y bello, viday
Soy peregrino.

domingo, 25 de novembro de 2007

The Iron Lady





Em países que prezam a democracia, como o nosso vai tentando, há coisas assim. Não sei quanto falta para lá chegarmos. Mas se calhar nem é necessária.
A cadeira.



Have you seen the iron lady's charms
Legs of steel, leather on her arms
Taking on a man to die
A life for a life, an eye for an eye
And death's the iron lady in the chair

Stop the murder, deter the crimes away
Only killing shows that killing doesn't pay
Yes that's the kind of law it takes
Even though we make mistakes
And sometimes send the wrong man to the chair

In the death row waiting for their turn
No time to change, not a chance to learn
Waiting for someone to call
Say it's over after all
They won't have to face the justice of the chair

Just before they serve him one last meal
Shave his head, they ask him how he feels
Then the warden comes to say goodbye
Reporters come to watch him die
Watch him as he's strapped into the chair

And the chaplain, he reads the final prayer
Be brave my son, the Lord is waiting there
Oh murder is so wrong you see
Both the Bible and the courts agree
That the state's allowed to murder in the chair

In the courtroom, watch the balance of the scales
If the price is right, there's time for more appeals
The strings are pulled, the switch is stayed
The finest lawyers fees are paid
And a rich man never died upon the chair

Have you seen the iron lady's charms
Legs of steel, leather on her arms
Taking on a man to die
A life for a life, an eye for an eye
That's the iron lady in the chair

sábado, 10 de novembro de 2007

My Country 'Tis of Thy People You're Dying



Como era possível expor tanta violência contra a supremacia branca para tantas pessoas? Sim, era na televisão. Pública. Hoje isso é possível?
Buffy Sainte-Marie foi uma das cantoras de folk mais importantes surgidas na década de sessenta. Contudo, hoje é completamente desconhecida.
Aquela voz, trémula e amargurada, é inconfundível e faz sofrer. Hoje em dia, ouvir uma coisa assim, ar fresco que dói ao inspirar, dá arrepios.
O programa era de Pete Seeger (que um dia aparecerá também por cá) e nele ele falava com amigos que convidava para cantar a América marginalizada, a que não dá lucro e a que impede o lucro.
A letra é duríssima. Por isso tinha de ser longa. Não está traduzida. Mas se houver um amigo que não perceba a língua que nos domina os pensamentos e o quotidiano, penso que não ficará indiferente a esta voz e àquilo que ela comporta consigo.


Now that your big eyes have finally opened
Now that you're wondering how must they feel
Meaning them that you've chased across America's movie screens
Now that you're wondering how can it be real
That the ones you've called colorful, noble and proud
In your school propaganda
They starve in their splendor
You've asked for my comment I simply will render

My country 'tis of thy people you're dying

Now that the longhouses breathe superstition
You force us to send our toddlers away
To your schools where they're taught to despise their traditions
You forbid them their languages, then further say
That American history really began
When Columbus set sail out of Europe, then stress
That the nation of leeches that conquered this land
Are the biggest and bravest and boldest and best
And yet where in your history books is the tale
Of the genocide basic to this country's birth
Of the preachers who lied, how the Bill of Rights failed
How a nation of patriots returned to their earth
And where will it tell of the Liberty Bell
As it rang with a thud Over Kinzua mud
And of brave Uncle Sam in Alaska this year


My country 'tis of thy people you're dying

Hear how the bargain was made for the West
With her shivering children in zero degrees
Blankets for your land, so the treaties attest
Oh well, blankets for land is a bargain indeed
And the blankets were those Uncle Sam had collected
From smallpox-diseased dying soldiers that day
And the tribes were wiped out and the history books censored
A hundred years of your statesmen have felt it's better this way
And yet a few of the conquered have somehow survived
Their blood runs the redder though genes have paled
From the Gran Canyon's caverns to craven sad hills
The wounded, the losers, the robbed sing their tale
From Los Angeles County to upstate New York
The white nation fattens while others grow lean
Oh the tricked and evicted they know what I mean

My country 'tis of thy people you're dying

The past it just crumbled, the future just threatens
Our life blood shut up in your chemical tanks
And now here you come, bill of sale in your hands

And surprise in your eyes that we're lacking in thanks
For the blessings of civilization you've brought us
The lessons you've taught us, the ruin you've wrought us
Oh see what our trust in America's brought us

My country 'tis of thy people you're dying

Now that the pride of the sires receives charity
Now that we're harmless and safe behind laws
Now that my life's to be known as your "heritage"
Now that even the graves have been robbed
Now that our own chosen way is a novelty
Hands on our hearts we salute you your victory
Choke on your blue white and scarlet hypocrisy
Pitying the blindness that you've never seen
That the eagles of war whose wings lent you glory
They were never no more than carrion crows
Pushed the wrens from their nest, stole their eggs, changed their story
The mockingbird sings it, it's all that he knows
"Ah what can I do?" say a powerless few
With a lump in your throat and a tear in your eye
Can't you see that their poverty's profiting you?

My country 'tis of thy people you're dying

domingo, 4 de novembro de 2007

Palabras para Julia



Para hoje, da autoria de José Agustín Goytisolo, um belíssimo e triste poema, de esperança no futuro. E que nos diz que o amor e a luta vão juntos para mudar a sociedade. Canta o grande Paco Ibañez, de uma gravação do seu terceiro álbum, de 1969. Aqui vo-la deixo:


Tú no puedes volver atrás,
porque la vida ya te empuja,
como un aullido interminable, interminable.
Te sentirás acorralada,
te sentirás perdida y sola,
tal vez querrás no haber nacido, no haber nacido.

Pero tú siempre acuerdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti, pensando en ti
como ahora pienso.

La vida es bella ya verás
como a pesar de los pesares
tendrás amigos, tendrás amor, tendrás amigos.

Un hombre solo, una mujer,
así tomados, de uno en uno
son como polvo, no son nada, no son nada.


Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti
como ahora pienso.

Nunca te entregues ni te apartes,
junto al camino, nunca digas:
no puedo más y aquí me quedo, y aquí me quedo.

Otros esperan que resistas,
que les ayude tu alegría,
que les ayude tu canción, entre sus canciones.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti
como ahora pienso.

La vida es bella ya verás
como a pesar de los pesares
tendrás amigos, tendrás amor, tendrás amigos.

No sé decirte nada más
pero tú debes comprender
que yo aún estoy en el camino, en el camino.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

La Mauvaise Réputation

Grande tema, La Mauvaise Réputation, o qual já tive a oportunidade de ouvir em Catalão (foi na rádio, e já não me lembro quem cantava - se alguém souber...), em Castelhano (pelo grande Paco Ibañez), e em Português (pelo Luís Cília). Isto quer dizer que a mensagem se aplica em qualquer lado.

Aqui fica a letra original (pessoalmente, prefiro a versão cantada pelo Paco, porque me parece mais acutilante e agressiva. Um dia, cá estará para a ouvirmos e reflectirmos).



Au village, sans prétention,
J'ai mauvaise réputation.
Qu'je m'démène ou qu'je reste coi
Je pass' pour un je-ne-sais-quoi!
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant mon chemin de petit bonhomme.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,

Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde médit de moi,
Sauf les muets, ça va de soi.

Le jour du Quatorze Juillet
Je reste dans mon lit douillet.
La musique qui marche au pas,
Cela ne me regarde pas.
Je ne fais pourtant de tort à personne,
En n'écoutant pas le clairon qui sonne.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,

Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde me montre du doigt
Sauf les manchots, ça va de soi.

Quand j'croise un voleur malchanceux,
Poursuivi par un cul-terreux;
J'lance la patte et pourquoi le taire,
Le cul-terreux s'retrouv' par terre
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En laissant courir les voleurs de pommes.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux
,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde se rue sur moi,
Sauf les culs-de-jatte, ça va de soi.

Pas besoin d'être Jérémie,
Pour d'viner l'sort qui m'est promis,
S'ils trouv'nt une corde à leur goût,
Ils me la passeront au cou,
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En suivant les ch'mins qui n'mènent pas à Rome,
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout l'mond' viendra me voir pendu,
Sauf les aveugles, bien entendu.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

domingo, 14 de outubro de 2007

Fala do Homem Nascido

José Niza - Fala do Homem Nascido

Fala do Homem Nascido - José Niza (direcção), 1972 - Orfeu?


Bem, o amigo Samuel apareceu por cá, nos comentários, e acho que é uma oportunidade excelente para lhe pedir umas coisitas, tais como a sua discografia completa e alguns dados biográficos (que depois servirão para pôr no RYM).

Em escuta temos o tema homónimo, poema de António Gedeão, (como todos os outros temas do disco), musicado pelo José Niza. Pessoalmente, prefiro a versão do Adriano. Mas... como é que se pode concorrer com uma voz cristalina, terna, poderosa e meiga como aquela?



Fala do Homem Nascido

Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci

Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr

Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham

Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu

Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar.

sábado, 29 de setembro de 2007

No Ens Parleu de Somnis

Rafael Subirachs - 1968

1968 - Compilação, 2006

A letra é do já falecido poeta Miquel Martí i Pol. A canção, de Rafael Subirachs, cantor que enveredou pela música contemporânea. Mas que nos primeiros tempos, fazia canções como a de hoje, datada de 1968. Noutro dia, traremos mais peças, para melhor elucidar o caro ouvinte e leitor melómano.


No ens parleu de somnis / Não nos faleis de sonhos
Ni de meravelles, / Nem de fantasias,
Som massa novells / Somos demasiado novos
I no us entendriem. / E não vos entenderíamos
Estalvieu els mots/ Poupai as palavras
Qui sap si més tard / Quem sabe se mais tarde
Es podran vendre. / Poderão ser vendidas.

No ens doneu la má / Não nos deis a mão
Ni oferiu ajuda / Nem ofereçais ajuda,
Som massa novells / Somos demasiado novos
I no us entendriem. / E não vos entenderíamos.

Feu allargar l'esforç / É preciso guardar a força
Qui sap si més tard / Quem sabe se mais tarde
Es podrà vendre. / Poderá ser vendida.


No canteu amb mi / Não canteis comigo
Ni ploreu pels altres / Nem choreis pelos outros,
Som massa novells / Somos demasiado novos
I no us entendriem. / E não vos entenderíamos.
Han canviat els temps, / Os tempos mudaram
Només val allò / Só vale o que
Que es podrà vendre / Se puder vender.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ouvindo Beethoven

Manuel Freire - Pedra Filosofal
Pedra Filosofal - 1993 (reed.)

Acho que à canção de hoje pouco podemos acrescentar. Deixo apenas a crítica à reedição do disco "Pedra Filosofal", disco originalmente editado em 1970. A reedição, cuja capa aqui reproduzimos, de 1993, que foi apenas passado - directamente! - do vinil para cd. Não merecia. Nem o Manuel, nem o Saramago, autor deste poema, nem a cultura portuguesa.


Venham leis e homens de balanças
Mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças
Desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
A luz vermelha brilhe inquisidora
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura

A quantas mãos existam peçam dedos
Para sujar nas fichas dos arquivos
Não respeitem mistérios nem segredos
Que é natural os homens serem esquivos

Ponham livros de ponto em toda a parte
Relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
Que a prosa do registo, verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de ruir em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

The Ballad Of John Henry Faulk

Hoje, são duas as canções. Esta é a primeira fora de línguas latinas. O seu autor, Phil Ochs, grande cantor dos Estados Unidos, foi vítima de assassinato por parte da CIA. Por ter ficado com as cordas vocais danificadas, acabou por enforcar-se. Enfim, coisas da democracia estadunidense...
Fiquemos então com esta poderosa letra sobre a opressão em tempos camaleónicos...

Phil Ochs - The Broadside Tapes 1

The Broadside Tapes 1, disco de 1989 que reúne canções não editadas oficialmente em álbum, para a revista Broadside


I'll tell you the story of John Henry Faulk.
I'll tell you of his trials and the troubled trail he walked,
And I'll tell of the tyrants, the ones you never see:
Murder is the role they play and hatred is their fee.

On the TV and the radio John Henry Faulk was known.
He talked to many thousands with a mind that was his own,
But he could not close his eyes when the lists were passed around,
So he tried to move the Union to tear the blacklist down.

His friends they tried to warn him he was headin' for a fall.
If he spoke against the blacklist he had no chance at all,
But he laughed away their warnings and he laughed away their fears:
For how could lies destroy the work of many honest years?

Then slowly, oh so slowly, his life began to change.
People would avoid his eyes, his friends were actin' strange,
And he finally saw the power of the hidden poison pen
When they told him that his job was through, he'd never work again.


And he could not believe what his sad eyes had found.
He stared in disbelief as his world came tumblin' down,
And as the noose grew tighter, at last the trap was clear:
For every place he turned to go, that list would soon be there
-- Oh, that list.

And is there any bottom to the fears that grow inside?
Is there any bottom to the hate that you must hide?
And is there any end to your long road of despair?
Is there any end to the pain that you must bear?

His wife and children trembled, the time was runnin' short,
When a man of law got on their side and took them into court,
And there upon the stand they could not hide behind their lies,
And the cancer of the fascist was displayed before our eyes.


Hey, blacklist, you blacklist, I've seen what you have done.
I've seen the men you've ruined and the lives you've tried to run,
But the one thing that I've found is, the only ones you spare
Are those that do not have a brain, or those that do not care.

And you men who point your fingers and spread your lies around,
You men who left your souls behind and drag us to the ground,
You can put my name right down there, I will not try to hide --
For if there's one man on the blacklist, I'll be right there by his side.

For I'd rather go hungry to beg upon the streets
Than earn my bread on dead men's souls and crawl beneath your feet.
And I will not play your hater's game and hate you in return,
for it's only through the love of man the blacklist can be burned.

Senhor Marquês

Será que os tempos mudaram? Sim, óbvio que sim. Indesmentivelmente. Mas algo permanece. Vejamos se palavras passadas nos iluminam o entendimento para os tempos presentes. A voz e a letra, simples e eficaz, são do senhor Sérgio Godinho, um dos grandes mestres da comunicação na língua do Zeca Afonso e Chico Buarque.

O disco "Os Sobreviventes", de 1971, é um dos daquele incontornável ano para a música popular portuguesa, ao lado de "Cantigas do Maio", "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", "Gente de Aqui e de Agora", "Movimento Perpétuo" e (quanto a mim...) "Canções de Amor e Esperança". Ouçam-nos quanto antes.

Sérgio Godinho - Os Sobreviventes

Os Sobreviventes, 1971

Olhe pr'áqui uma vez
Senhor Marquês
Do bairro da lata
está'gente farta
Senhor Marquês
e o nosso fim do mês?

Passe pra cá'carteira
da sua algibeira
carteira em couro
relógio d'ouro
não lhe faz falta
e faz-nos jeito à malta

"- Ó da guarda, ladrões
p'los meus brasões
ai meu Deus socorro!
Jesus qu'eu morro!"
grita o Marquês
ninguém vem desta vez

Venha por aqui ver isto
Senhor Ministro
que estes bandidos
uns mal-nascidos
'inda sem dentes
e já delinquentes

Meta aqui o nariz
Senhor Juiz
nós somos bandidos
ou mal-nascidos?
Senhor Ministro
perdoe s'insisto

Se nós somos ladrões
temos razões
que não são as suas
são minhas, tuas
e d'outros mais
de muitos, muitos mais.

Olhe pr'áqui uma vez
Senhor Marquês
Do bairro da lata
está'gente farta
Senhor Marquês
e o nosso fim do mês?

Passe pra cá'carteira
da sua algibeira
carteira em couro
relógio d'ouro
não lhe faz falta
e faz-nos jeito à malta

Passe pra cá'carteira
da sua algibeira
carteira em couro
relógio d'ouro
não lhe faz falta
e faz-nos jeito à malta
pr'ó nosso fim do mês

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Eh Vizinho Porco

José Almada - Homenagem

Homenagem (Lp de 1970)

Poema do grande José Gomes Ferreira musicado pelo vimaranense e muito esquecido (nestas alturas, desconhecido) José Almada. Hoje, dia 6 de Setembro, José de Almada Guedes Machado faz 56 anos. Onde andas, José? É assim que te prestamos homenagem.


Eh vizinho porco
todo o dia de borco
a fuçar na terra
onde nasceu

E assim o aldeão
a sua lição
de pensar menos no céu
e mais no chão.

Na terra, camponês,
também há estrelas,
que tu não vês,
mas hás-de vê-las.

sábado, 25 de agosto de 2007

Sei que me Esperas

Luís Cília - Contra a ideia da violência a violência da ideia

Contra a Ideia da Violência, a Violência da Ideia (1973)


O blogue A Cantiga foi uma Arma não tem o objectivo dos média: fazer tábua rasa do passado, na busca da desmemória completa e da desorientação que nos leva ao alheamento que nos põe a "funcionar mesmo bem".

Por isso, hoje temos por cá o Luís Cília. Se os média já o desprezam, porque haveríamos ter comportamento semelhante?


Sei que me esperas

Sei que me esperas lutas e confias
na minha voz subterrânea de combate
na força dos meus gritos de rebate
na coragem das minhas agonias

Sei que me esperas nas ruas ou vielas,
nas aldeias, no mar ou nas cidades,
em todos os lugares em que haja celas,
olhos petrificados de ansiedades

Anda comigo, vou falar da esperança
da vida que ainda agora principia
Perde essa amarga e vã desconfiança
toma a minha mão de amigo e confia

Anda comigo, eu canto as tuas dores
sou mais poeta sendo teu irmão
nesta densa floresta sem flores
o sangue e a alma são o mesmo pão

Quando as verdades forem as que amamos
no silêncio do nosso pensamento
e a força que nos guia o movimento
ganhar a paz que tanto desejamos

Quando rufarem todos os tambores
Anunciando a grande cavalgada
e os heróis coroados de flores
cantarem a vitória desejada

Vamos colher o trigo semeado
cantar a vida pelos campos fora
A pouco e pouco vai nascer a aurora
e é muito urgente estarmos lado a lado

domingo, 19 de agosto de 2007

Cantiga para Quem Sonha

Luís Goes - Canções de Amor e de Esperança

Lp Canções de Amor e Esperança (1971)
(quem tiver uma capa a cores, escreva uma mensagem)


Para hoje, um grande cantor - talvez o maior cantor de fado de Coimbra vivo: Luís Goes. Esta "Cantiga para Quem Sonha" está incluída no seu álbum "Canções de Amor e Esperança", de 1971. Trata-se de uma bela melodia. Será que já não se conseguem fazer canções assim?


Tu que tens dez reis de esperança e de amor
grita bem alto que queres viver.
Compra pão e vinho, mas rouba uma flor.
Tudo o que é belo não é de vender

Não vendem ondas do mar
nem brisa ou estrelas, só a lua cheia
Não vendem moças de amar
nem certas janelas em dunas de areia.

Canta, canta como uma ave ou um rio
Dá o teu braço aos que querem sonhar
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
nem é preciso que saiba cantar.

Tu que crês num mundo maior e melhor
grita bem alto que o céu está aqui.
Tu que vês irmãos, só irmãos em redor,
Crê que esse mundo começa por ti.

Traz uma viola, um poema,
um passo de dança, um sonho maduro.
Canta glosando este tema,
Em cada criança há um homem puro.

Canta, canta como uma ave ou um rio
Dá o teu braço aos que querem sonhar
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
nem é preciso que saiba cantar.

domingo, 12 de agosto de 2007

Tourada


Simples com a canção que Tordo levou ao Festival da Canção, em 1973.


Grande, heróico e satírico poema de José Carlos Ary dos Santos interpretado pelo seu grande amigo Fernando Tordo.



Tourada


Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.

domingo, 5 de agosto de 2007

Què volen aquesta gent?

Què volen aquesta gent, Epê de 1968 (Ed. Concéntric)


Baseada em factos reais e frequentes, este texto de Lluís Serrahima musicado pela maiorquina María del Mar Bonet, uma das maiores vozes femininas de todos os tempos na música folk, descreve as incursões nocturnas da polícia política, irrompendo casas adentro, num clima de terror que também por cá muitos sentiram. O estudante lança-se da janela para escapar à tortura.
A ditadura e a opressão não conhece fronteiras.


De matinada han trucat, / De madrugada bateram (à porta)
són al replà de l'escala; / Estão no começo das escadas
la mare quan surt a obrir / A mãe quando vai abrir
porta la bata posada. / Está de roupão

Què volen aquesta gent / Que quer esta gente
que truquen de matinada? / Que bate à porta de madrugada?

"El seu fill, que no és aquí?" / "O seu filho, não está aqui?"
"N'és adormit a la cambra. / "Está a dormir na cama.
Què li volen al meu fill?" / Que querem do meu filho?"
El fill mig es desvetllava. / O filho acordava.

Què volen aquesta gent / Que quer esta gente
que truquen de matinada? / Que bate à porta de madrugada?

La mare ben poc en sap, / A mãe sabe muito pouco
de totes les esperances / de todas as aspirações
del seu fill estudiant, / do seu filho estudante
que ben compromès n'estava. / Que tão comprometido estava

Què volen aquesta gent / Que quer esta gente
que truquen de matinada? / Que bate à porta de madrugada?

Dies fa que parla poc / Faz dias que fala pouco
i cada nit s'agitava. / E cada dia estremecia
Li venia un tremolor / Vinha-lhe um tremor
tement un truc a trenc d'alba. / Temendo uma chamada ao romper d'alvorada.

Què volen aquesta gent / Que quer esta gente
que truquen de matinada? / Que bate à porta de madrugada?

Encara no ben despert / Ainda não completamente desperto
ja sent viva la trucada, / Já sente bem forte a batida
i es llença pel finestral, / E lança-se pela janela
a l'asfalt d'una volada. / Ao asfalto de um voo.

Què volen aquesta gent / Que quer esta gente
que truquen de matinada? / Que bate à porta de madrugada?

Els que truquen resten muts, / Os que batem permanecem calados
menys un d'ells, potser el que mana, / Menos um deles, talvez o que manda,
que s'inclina pel finestral. / Que se inclina da janela.
Darrere xiscla la mare. / Atrás a mãe grita.

Què volen aquesta gent / Que quer esta gente
que truquen de matinada? / Que bate à porta de madrugada?

De matinada han trucat, / De madrugada bateram
la llei una hora assenyala. / A hora assinala a lei.
Ara l'estudiant és mort, / Agora o estudante está morto,
n'és mort d'un truc a trenc d'alba. / Morreu de uma batida ao romper d'alvorada.

Què volen aquesta gent / Que quer esta gente
que truquen de matinada? / Que bate à porta de madrugada?

sábado, 28 de julho de 2007

Te recuerdo, Amanda

Single de 1969, com as canções "Plegaria a un labrador" e "Te recuerdo, Amanda"

Para hoje, um dos maiores cantores, Víctor Jara. Não devemos esquecer o que lhe fizeram. Nem os responsáveis, nem seus ajudantes. Em nome da "democracia".
Um tema em que o amor e a luta se unem. Em 1974, Raimon gravou-a em catalão, no seu disco "A Victor Jara".


Te recuerdo, Amanda, / Et recorde Amanda
la calle mojada, / els carrers mullant-se
corriendo a la fábrica / anant a la fàbrica
donde trabajaba Manuel. / allà on treballava Manuel.

La sonrisa ancha, / El somriure ample
la lluvia en el pelo, / la pluja a la cara
no importaba nada, / res no t'importava
ibas a encontarte con él. / perquè et trobaries

Con él, con él, con él, con él. / Amb ell, amb ell, amb ell.
Son cinco minutos. / Només una estona,
La vida es eterna en cinco minutos. / la vida és eterna en aquesta estona.
Suena la sirena. / Sona la sirena.
De vuelta al trabajo / Torna a la faena
y tœ caminando lo iluminas todo, / i tu caminaves tot ho il·luminaves
los cinco minutos te hacen florecer. / i la curta estona et va fer florir.

Te recuerdo, Amanda, / Et recorde Amanda
la calle mojada, / els carrers mullant-se
corriendo a la fábrica / anant a la fàbrica
donde trabajaba Manuel. / allà on treballava Manuel.

La sonrisa ancha, / El somriure ample
la lluvia en el pelo, / la pluja a la cara
no importaba nada, / res no t'importava
ibas a encontarte con él. / perquè et trobaries

Con él, con él, con él, con él. / Amb ell, amb ell, amb ell.
que partió a la sierra, / que marxà a la serra
que nunca hizo daño. / que gens de mal feia.
Que partió a la sierra, / que marxà a la serra,
y en cinco minutos quedó destrozado. / i en ben poca estona ells el destrossaren
Suena la sirena, / Sona la sirena
de vuelta al trabajo / torna a la faena,
muchos no volvieron, / molts no tornaren,
tampoco Manuel. / tampoc el Manuel.

Te recuerdo, Amanda, / Et recorde Amanda
la calle mojada, / els carrers mullant-se
corriendo a la fábrica / anant a la fàbrica
donde trabajaba Manuel. / allà on treballava Manuel.

domingo, 22 de julho de 2007

Canção da Cidade Nova

Lp "Canções da Cidade Nova", 1970


Esta canção, tão triste e tão bonita ao mesmo tempo, é daquelas que dificilmente nos deixam apáticos. Da autoria de Fernando Melro, baseada na Bíblia, vem para nos reafirmar que a esperança será sempre um fiel companheiro na luta pela liberdade e pela justiça. Está incluída no único álbum de Francisco Fanhais, que ainda hoje a canta, com a mesma frescura de voz e actualidade do tema que tinha quando a registou.


Ó navegante do mar do medo
Ouve um instante o meu segredo,
Ó caminhante da noite fria
Ouve um instante minha alegria:

Ao longe longe já aparece
Uma cidade que resplandece
Ao longe longe o sol já vem
Eu já alcanço Jerusalém.

Virá o pobre do mundo inteiro
Há pão que sobre e sem dinheiro
Há pão e vinho em abundância
E o seu caminho é sem distância

Não tem distância esta cidade
Senão o medo que nos invade
Cantai comigo que o sol já vem
Eu já alcanço Jerusalém

Se o mundo cança de tanta guerra
Uma criança nasceu na terra
Um dia novo ela nos traz
Dará ao povo a flor da paz

Surgi depressa que não é cedo
Cantai comigo irmãos do medo
Cantai comigo que o sol já vem
Eu já alcanço Jerusalém

Hoje um menino venceu a morte
Nasceu franzino mas é Deus forte
Será chamado Emanuel
E sustentado de leite e mel

De longe chegam os povos
Vindo à procura de tempos novos
Cantai comigo que o sol já vem
Eu já alcanço Jerusalém

sábado, 14 de julho de 2007

La poesía es un arma cargada de futuro

Paco 2 (1967)

Eis talvez o texto com que poderíamos ter começado este blogue.
Gabriel Celaya verteu-o assim, em 1955, num tempo de acordar. Paco Ibañez, talvez o maior trovador vivo, musicou o poema e gravou-o em 1967, logo a começar o seu segundo álbum.
Penso que não é preciso traduzir, pois a sua grande riqueza poética é visceral - não precisa de traduções.


Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
más se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmando,
como un pulso que golpea las tinieblas,
que golpea las tinieblas.

Cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades;
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades,
amorosas crueldades.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos, dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo, estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo,
cultural por los neutrales, que lavándose las manos
se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido,
partido hasta mancharse.


Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren.
Y canto respirando. Canto y canto y cantando
más allá de mis penas,
de mis penas personales, me ensancho,
me ensancho.

Quiero daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso, con técnica, que puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España,
a España en sus aceros.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo, estamos tocando el fondo.